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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 27

melgaçodomonteàribeira, 13.02.21

                                                                                                                           

Muitos naturais da raia, e que nela estanciavam, eram naturalmente atraídos por este tipo de vida, como os habitantes da costa eram geralmente arrastados pela vida do mar. Tivera e tinha o tráfico tão vivaz, tangível que finara por se arraigar nele e no seu dia-a-dia, da cabeça aos pés; foi-o incorporando até ficar submisso. Do nascer ao pôr-do-sol, tudo nele era contrabando. Transformara-se numa compulsão que o fazia subsistir mental, fisica e socialmente.

Na época em que o café Sical ainda primava na integralidade da raia lusa, o Nelo enfrentou sérias dificuldades financeiras depois de lhe assaltarem a garagem apinhada de café. O João-João, a quem o petate pertencia, exigiu-lhe o seu valor. Agravado, fez uma estadia em França a fim de reembolsar a dívida. Foram uns tempos atormentadores, pois estava afeito à atracção exercida pela peripécia e à predilecção descomedida pela euforia que o risco lhe desencadeava.

Cevide ficara sem alma. Sem ele não era nada. O Nelo simbolizava Cevide, era Cevide, era o fragmento imprescindível ao lugar.

Logo que amealhou o mandatório, regressou à terra. Foi com indescritível satisfacção que os habitantes das duas margens o viram de novo cavaloar jovialmente pelos campos que flanqueavam o rio Trancoso com matute  às costas, um olho aruspicino em cada um dos lados do regato.

Proporcionalmente, dizia que o contrabando já não era mais que um lazer, que uma brincadeira. As transacções organizadas e por atacado, como presentemente as da banana – embora fosse uma ocupação que não depreciava –, não era o petate que mais o satisfazia. O que mais afeiçoava, o que lhe enchia a espinha de dopamina e lhe proporcionava um gozo paroxísmico era o pessoal, aquele que lhe possibilitava brincar ao gato e ao rato com os guardas fiscais e os guardas civis. Prezava infringir e ludibriar as autoridades. Comummente, nesta categoria de contrabando, trazia a veniaga para a sua casa. Uma factura sumária, caso fosse fiscalizado pelo trajecto, comprovava a sua conformidade. Depois, era só espreitar o momento mais oportuno para ir ao outro lado.

Quando os guardas fiscais se achavam no largo de Cevide e o viam com mais um artigo qualquer às costas, diziam-lhe gracejando:

— A tua casa, Nelo, deve ser um museu!

E todos gargalhadeavam.                         

O cinzento da farda dos guardas portugueses e o verde escuro da dos espanhóis – as cores preeminentes do seu diário – faziam-no flipar: detestava os que as portavam, mas não duvidava que, sem eles, não haveria emoção nem felicidade. No dia mais do que verosímil em que este contrabando desvanecesse, o Nelo encarquilharia, murcharia e acabaria por exalar. Não teve tempo de ver o abandono que, pacatamente, se hospedava.

Viúvo, partilhava a vida com um filho deficiente motor, consequência de um acidente de moto quando tinha apenas vinte anos. O rapaz mitigava constantemente nele a angústia e a acrimónia que a sua condição lhe instilava, ocasionando-lhe imensas e reiteradas amarguras.

O contrabando, com as suas translações coercivas, compromissos e eventos, era concomitantemente aproveitado por ele como a exclusiva e cordial diversão que lhe afuguentava as pulsões e as mais  nefastas elucubrações. E, evidentemente, o café do Manolo era o local pertinente para se espairecer e, por vezes, entre amigos, desvencilhar o riso coibido, coisa que, com os anos, se desabituara de fazer.

Havia muito que o axiomático ofício social desempenhado pelos pequenos cafés – considerados populares – era manifesto e perpetuado. O do Manolo era uma ilustração palpável: tanto funcionava como fórum, confessionário, ringue, banco e, quando emergia uma alma caritativa com vocação e eupatia para escutar, servia de consultório de psicanálise ou psicoterapia.

As caixas de bananas eram encaminhadas da casa do Manolo para a garagem que abrangia a totalidade do rés-do-chão da casa do Nelo, em Cevide. Em geral, eram transportadas prudentemente o mais rápido possível naquela noite ou na seguinte para as variadas e remotas afectações a sul do país. Se por acaso surgisse um óbice, e o petate tivesse de continuar armazenado até que se apresentasse uma ocasião congruente, o resultado incorrido podia ser catastrófico.

O Nelo era o mandatário do promotor e coordenador das redes que actuavam no Trancoso, o Mário da Corga, de cujas encomendas estava pendente o resto da organização da Frieira. Conferia as caixas que levavam para a sua adega, registava quem as trasladava e encarregava-se da remuneração dos guardas fiscais, o reconhecimento pelos bons serviços prestados. O comandante dos agentes de fiscalização do concelho de Melgaço, um tenente da região, apodado Tampa de Mala, e tido como o maior papador com o qual os contrabandistas alguma vez negociaram, discutia pessoalmente o seu estipêndio com o capo. O que não o impediu de um dia vir com a esposa fornecer-se à loja do Manolo e arriscar um acréscimo, emitindo quando pagava: «Isto até devia ser uma dádiva, pois somos praticamente da mesma família, não é verdade ?» O Manolo, que já o vira em Cevide fazer o figurante, respondeu-lhe cruamente: «Que eu saiba, caballero, não tenho família em Portugal». Não reviu.

O Nelo tinha como cúmplice o Zeca, dos Casais. Mais ou menos da mesma idade, um pouco mais pequeno que ele, bigode à tasqueiro, tinha uma forte fama de mulherengo.

Como todos os jovens fronteiriços, a terra e o petate eram os seus singulares afazeres. Ambicioso, vendo que aquilo não era futuro para ele, logo que pôde deu o salto para França. Ao cabo de uma vintena de anos, serviu-se de um insignificante acidente do trabalho para voltar definitivamente à terra. As confortáveis economias que se constituíra e a ridícula pensão faziam dele um homem livre.  

Hoje em dia, o contrabando, além dos benefícios mais do que profícuos que lhe garantiam uma existência correctíssima, propiciava-lhe uma vida alegre, aventureira e enlevada, apesar da periculosidade; o antípode do que aguentara do outro lado dos Pirenéus. A despeito de experiente, não totalizava, todavia, o quarto das horas de serviço contabilizadas pelo Nelo.

Contava as caixas de bananas que saíam da garagem do Manolo – a quantidade arrolada ali tinha de coincidir com a das recepcionadas pelo Nelo –, incumbia-se de angariar os carregadores e do embolso correspondente, uma vez ultimada a transição.

 

Continua.

 

 

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