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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 22

melgaçodomonteàribeira, 05.12.20

 

O Manel e a Deolinda viveram perto de seis meses na raia, o que, graças à ajuda de fronteiriços com os quais tinham tecido vínculos de cordialidade, lhes deu tempo para coordenarem a mudança de margem com fiabilidade. Em outubro, mês da festa da Virgem do Rosário na Notária, uma aldeia a meio caminho entre Puente Barjas e a Frieira, e que, em parte, se enxergava de S. Gregório, deram o salto.

Como era natural, foi dos lugares arraianos que saíram ilegalmente os primeiros emigrantes. Em S. Gregório, a família que não tivesse um familiar expatriado era insólita. Por esta razão, o emblemático sofrimento – tanto físico como moral – dos inumeráveis desgraçados que, com regularidade, viam desfilar no lugar, recordava-lhes o suplício afrontado por parentes ou amigos e exortava-os à benignidade. Precavidos por preceito, o olhar dos raianos era intenso, perfurante, mas lotado da mais casta complacência.

As singelas particularidades apelativas dos raianos faziam-lhes refulgir a  imediação,  a proximidade, diferenciando-os dos outros; faziam deles uma população delirante que descurava as portas e não fazia distinção entre o dentro e o fora. Para este povo inconformista, a fronteira era uma mera barreira diáfana, um garante das identidades, um espaço onde se esbarrava com a alteridade; era uma aldraba que encorajava à partilha, à hospitalidade, ao cosmopolitismo; era um traço de união espaçando pessoas que coabitavam em terras unidas pelo mesmo ar, pelos mesmos cursos de água, e que se singularizavam instintivamente entre si.

As fronteiras, inobstante preconceitos fanados, não desirmanavam; acicatavam as pessoas à coexistência, a descortinar-se. A raia constituía um território arrebatador onde o estrangeiro era sempre o vizinho.

O Manel e a Deolinda tinham dois filhos: uma rapariga com pouco mais de dezanove anos e um rapaz mais novo doze meses. Do rapaz, o Manel procurara fazer um padre. Afirmava que estes auferiam de um emprego decente, cómodo e bem retribuído; que usufruíam de um alojamento honorável e que mulheres não lhes faltavam. Isto, sem referir a categórica preeminência da qual não se privavam para tirar partido da sociedade. Mencionava, ainda, que, no fim da vida, eram amimalhados em estruturas com os convenientes serviços canónicos que lhes favorizavam uma cessação adequada, etérea, estritamente divina.

Não obstante a virulenta hostilidade do rapaz, o Manel, consciente de lhe lavrar o futuro, ficando ao mesmo tempo com menos um estômago a providenciar, deliberou interná-lo no Seminario Mayor Divino Maestro, em Orense. Tinha doze anos e não findara os estudos primários! A estadia durou perto de quatro longos anos – para o rapaz – ao cabo dos quais, para grande consternação dos pais, foi expulso. Os motivos eram lacónicos: incompatibilidade com a instrução religiosa, ou seja, falta de vocação, diversos percalços, pugnacidade, encadeamento de escapadas e, o mais grave, amedrontara seriamente os seus preceptores avivando um incêndio no enorme dormitório do seminário.

Era tido por pacóvio, faccioso e, coisa que nunca ofuscura, revelava uma índole infusa pelos estupefacientes. Chamava-se António, mas a alcunha de Padre colou-se-lhe logicamente à pele.

As grandes orelhas – proeminente herança do genitor – retinham-lhe diante dos olhos uns óculos cujas lentes esverdeadas e espessas, incrustadas numa grosseira armação preta de plástico, lhe imprimiam um equívoco ar de pateta. Inalteravelmente vestido de negro, a única repercussão que a instituição religiosa operara sobre o adolescente, vagueava por ali, sozinho, ou na companhia do único amigo, um moço da sua idade sobrenomeado Chino. Recalcitrante declarado contra os regimes instituídos, a coercividade, o arbitrário e a ascendência, era, segundo toda aparência, um absoluto iconoclasta. No seu imo, enraizara uma insubmissão surda.

Desde que, para seu grande refolgo, fora compelido a abdicar da carreira espiritual, despendia grande parte dos dias deambulando como um eremita pelas bordas do rio e do regato. Era o seu domínio, a sua religiosidade, o seu paraíso. Tudo lhe estimulava o congénito desvelo juvenil: as desconcertantes configurações dos rochedos, autênticas obras de arte; os troncos e os montes de detritos caseiros que se sucediam sem interrupção nos dias de chuvadas, vindos sabe-se lá de onde e que ali encalhavam caoticamente; e os sorvedouros do rio e o tumulto do regato que o alienavam misticamente. Estas enternecedoras bagatelas agregava-as com a amorável errância, indiferença e a beatitude que a ganza lhe facultava. Ao inverso da maioria dos habitantes – que a sofriam –, a solidão, sua companheira, fazia-o devanear.

Como outros rapazes que abominavam a escolaridade, boicotara, pontualmente e com a conivente acatalepsia dos desmazelados pais, as aulas. Este desdém – uma revelação precoce – incentivara-lhe a descoberta de lugares esconsos e ideais para fantasiar e planar; deslindara-lhe as importantes exuberâncias prolíficas que povoavam essas paragens semi-selvagens.

Trabalho, como a gente o concebia, era uma palavra que desestimava, que execrava. «Andar a efectuar tarefas desagradáveis às ordens de outros e a sacrificar-me a uma vida desastrosa como a que toda a gente aqui levou e leva ? Não, não quero passar ao lado da vida.» Tinha o desígnio resoluto de ser o protagonista do seu porvir longe daquela gente, ainda que fosse como um pedinte repelente.  

Enquanto o não pudesse arrostar, contrafazia-o, o que desatava o motejo da gente, dominantemente insciente.

Apesar do seu embrião contestatário, aquiescia episodicamente em trabalhar como servente nas obras ou em dar uma mão a um vendedor de mobílias da Notária quando este tinha de proceder a entregas. Estes miúdos serviços contribuíam para  a sua independência, para participar moderadamente nas despesas da casa – o que lhe preservava a paz social – e financiar a sua amatividade pelo haxixe.

Aguardava, fleumaticamente, pela mili – serviço militar –, o que ocorreria quando completasse os vinte anos. Depois, a pé e à boleia, peregrinaria pela terra onde viera ao mundo, pelo seu país, pelo seu Reino. Aplicar-se-ia para se embeber prontamente e com ardor dos fantásticos contrastes que faziam da Espanha – que tanto o cativava – um mosaico flavescente de etnias, culturas, línguas, tradições, crenças e panoramas matizados. Sem deslembrar, todavia, o que verdadeiramente o trabalhava: as entranhadas posições anticonformistas.

Continua.

 

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CASTRO LABOREIRO - 4/12/20 - 1º nevão  foto JN

 

 

 

 

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