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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 21

melgaçodomonteàribeira, 21.11.20

 

Esta, precavida por natureza, inconformada e suspicaz, não mexia; mas, por meio do silêncio que observava, dava mostras de ter inevitável propensão para ceder. A lata de cola-cao, a mãe e tudo mais, tinham saído da sua mente.  

O Manolo arrumou a última lata que tinha nas mãos, voltou-se e, antes de pegar noutras, preveniu pateticamente:

— A ver se nos pomos de acordo, Otília. Acredita se quiseres. Eu não ganho nada com isso, mas sabes muito bem que água mole em pedra dura tanto dá até que fura. Sou amigo do Fernando, não é nenhum segredo para ti, mas, antes, já o era teu. Andaste comigo no colo, ou crês que me esqueci?

Na cara da Otília desenhou-se um sorriso maternal.

O negociante serviu-se da afectividade da mulher, a sua falha.

—Agora, faz o que te der na gana, o que te agradar, mas não venhas dizer-me dentro de uns anos que não te avisei. Isto fica entre nós, já sabes.

E retomou o seu trabalho. Dissera tudo e era desnecessário expandir-se mais.

A mulher não fez o menor movimento. A sua cabeça encontrava-se repleta de turbilhões, cujas espirais eram, decerto, tão grandes e fortes como as que sublevavam os rochedos do rio.

— Bem, vou-me – disse subitamente.

Deu meia-volta e orientou-se para a porta.

— Otília! E o Cola Cao para a tua mãe?

O braço meio levantado, mostrava-lhe uma lata amarela com tampa vermelha.

— Visto o tempo que aqui perdeste, agora é que vais ter de suportá-la! – e riu com infinda alegria, aquela alegria melosa e expansiva que lhe esguichava com constância pelos poros desde que retornara à sublime aldeia natal.

Por detrás da cortina da cozinha saiu a Rosa que o informou:

   — Veio um rapaz de Cevide dizer que o Nelo e o Zeca só vêm amanhã à tarde, às seis e meia.

Foi como se uma foice lhe abscindisse o peito. O riso esvaneceu-se e as feições endureceram. Constatava o que pressentira: a obrigação de procrastinar a transferência da banana para a noite seguinte. Era inelutável, apesar dos riscos demenciais a que se sujeitava. No caso de uma rusga inesperada – embora pouco provável –, o Manolo nunca poderia justificar a presença do amontoamento astronómico de bananas na sua garagem. Ia passar mais vinte e quatro horas horríveis, angustiantes.

 

O Manel era da Boalhosa, Ponte de Lima. Os pais, caseiros de nascença, cultivavam as terras de um fidalgo despótico. O Manel, os três irmãos e as duas irmãs começaram, pois, a trabalhar na agricultura mal deram os primeiros passos. Acantoados numa casa imunda, sem água nem electricidade, sobreviviam em condições animalescas, mourejando do nascer ao pôr do sol.

A Deolinda era de Porto Bom, Ponte da Barca. Também se iniciou na lavoura com os pais, jornaleiros, quando ainda era uma criança. Mas, no parecer do Manel, eram ricos porque viviam na própria casa, apesar de mísera.

Conheceram-se quando ela passou a fazer parte do rancho folclórico de Santo Estevão da Boalhosa, onde ele fascinava pela fluência de bailador. Foi o coup de foudre entre o atlético moçoilo e a raparigota. A ciumeira infernal que este apego engendrou em algumas dançarinas, assim como a inópia que os alagava, acabaram por ser ominosas. Decidiram enjeitar aquela vida e ir aventurar-se para Espanha. Uns dias mais tarde, os pertences como bagagem, aterraram em S. Gregório. Corria o ano 1956 e tinham dezoito anos.

Nessa altura, o lugar gozava de uma animação espantosa; era uma pequena vila campestre turbulenta e possivelmente um dos poucos lugares portugueses com médico e farmácia. Tinha dois cafés e um sem número de tascas, três comércios preponderantes e o dobro de pequenas lojas. Quase todos vendiam de tudo: mercearias, ferragens, tecidos, roupas, louças, talheres, utensílios para a lavoura... e, pouco depois do 25 de abril, tabaco americano e revistas pornográficas. Claro que as lojinhas não dispunham do mesmo sortimento que as três imperantes e célebres. Tudo isto destinado, predominantemente, a uma clientela espanhola. O tempo e as ocorrências sucessivas dizimaram as pequenas lojas, deixando a exclusividade às outras.

A actividade entusiástica do lugar era imputável à alfândega flamejante que trouxera consigo uma multitude de funcionários: aduaneiros, polícias da PIDE e guardas-fiscais. Apenas o doutor da alfândega, o chefe dos polícas da PIDE e o seu impedido tinham direito a um alojamente no recinto da aduana. Os agentes da PIDE e os guardas-fiscais solteiros, vindos de lugares longínquos para guarnecer o défice de funcionários da terra, hospedavam-se nas casas dos autóctones; os que tinham formado família alugavam moradias vetustas, pois os ordenados eram modestos. Os gastos correntes desta gente faziam viver uma parte notável da população.

Induzidos por pessoas da aldeia, que viam neles a incandescência rompante da juventude, o Manel e a Deolinda passaram uns tempos de aclimatação na aldeia fronteiriça, esperando pelo momento propício para mudar de  lado com segurança. Este procedimento era muito empregado pelos do corno de baixo – de fora – para ganharem a confiança das autoridades, omnipresentes e sempre atentas aos rostos ignotos. As chances de os alóctones passarem despercebidos na raia eram muito poucas. Durante uns meses, trabalharam à jorna na lavoura e moraram numa lapa, uma mina dessecada que acondicionaram para dormir e cozinhar.

Nos dias das festividades das aldeias galegas mais próximas de S. Gregório – A Frieira, A Notária, Puente Barjas e Padrenda –, havia uma nítida tolerância por parte das autoridades de ambos países. Qualquer podia passar pelo regato sem o menor constrangimento. Os mais jovens, cujo alvo eram as formosas chavalas – moças –, valiam-se, ao mesmo tempo, da facilidade para adquirir jeans, ténis e beber umas Coca-Colas, artigos americanos muito cobiçados inexistentes em Portugal. Os mais comilões aproveitavam-se dessa condescendência para se arroubarem com algumas das insignes tapas espanholas: pulpo, callos – polvo, tripas –, carne ó caldeiro ou calamares a la romana.

 

Continua.

 

 

 

 

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