Sábado, 23 de Junho de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XIII

 

 

Continuação do post do 9 de junho de 2018.

 

 

Em geral, os problemas eram esparsos. A maioria dos próximos integrara a sua tendência inesperada, a sua cegueira e sabia diferenciar os bons dos maus auspícios. 

Depois de casado, e com quatro filhos, manteve-se com os pais numa casa de aspecto andrajoso, a quatrocentos metros, em linha recta, da Frieira da orla esquerda do Minho, até estes falecerem. A taberna que os pais tinham explorado no rés-do-chão – a única que havia entre a Notária e o rio – foi o que deu à família as precípuas perras – dinheiro – para adquirir o que não arrancavam dos campos. Com o que nestes recoltavam, a agnação subsistiu com entraves, mas suplantou o pauperismo generalizado, e a descendência amadureceu jovialmente.

Uns meses antes do falecimento da sogra – o sogro e os pais já os tinham deixado –, a vida sorriu-lhe. Os anos sessenta tinham dado os primeiros passos. A construção da barragem materializava-se.

As gigantescas degradações materiais e as inumeráveis perdas humanas da Segunda Grande Guerra tinham desencadeado grandes vagas de emigração dos países circunvizinhos mais carecidos, entre os quais Portugal. Esta emigração era vista com permissividade pelo governo salazarista pois enviava umas divisas indispensáveis que remediavam a inópia florescente da camada mais carecida. A eclosão da guerra no ultramar em 1961 – daí em diante, e até aos quarenta e cinco anos, todo homem necessitava de uma autorização militar para sair do país legalmente – deu um impulso ciclópico à emigração portuguesa. Neste fluxo foi muito adolescente.

O Manco tinha pouco mais de quarenta anos. Esta conjunção acalorou-o a associar-se com o cunhado, tenente da guarda civil e marido da sua única irmã, que prestava serviço no posto fronteiriço de Irun, País Basco.

Milhares de portugueses, dos quais uns ambicionavam suplementar a carência incurável, outros, desertar a ininteligível guerra do ultramar, e outros, ainda, escapar às duas cominações, acederam aos países que lhes alimentavam a cenestesia da existência de uma vida melhor, livre, trespassando o rio Bidassoa. O seu ténue percurso internacional – uma dezena de quilómetros –, que delimita a Espanha da França, constituía uma balaustrada acessível, confrontado às veredas intrincadas dos respeitáveis e temerários Pirenéus.

Nesses tempos, um número confortável de espanhóis residentes na zona fronteiriça de Irun passavam todos os dias a fronteira para ir trabalhar em território francês. De madrugada, uma enxurrada de operários, de pessoal hoteleiro, de empregadas domésticas e de trabalhadores de sectores diversos desfilavam pela ponte internacional; imperturbáveis, palravam e brandiam, sem parar, o passaporte bem alto diante dos funcionários.

Alguns oficiais subalternos, como o cunhado do Manco, e um sem-fim de inferiores organizaram um sistema mafioso do qual todos beneficiavam chorudamente. Parasitavam a corrida matinal dos trabalhadores, intercalando entre eles os carneiros – nome da gíria contrabandista que designava os candidatos à emigração – transportados pelos intermediários. Era a estes que os passadores da zona do rio Trancoso entregavam os pretendentes à emigração recrutados pelos angariadores. No caso do cunhado do Manco, eram veiculados pela Vicenta, a esposa, mulher desapiedada questão negócios, e dois ajudantes, visto a configuração ser aleatória.

Arvorando a capa de um passaporte espanhol – em seguida recuperada – com meia dúzia de folhas em branco no interior, muitos portugueses atingiram deste modo o solo francês nos dias em que os funcionários hispánicos peitados estavam de serviço.

Mas, como toda comodidade tem o seu custo, os que quisessem gozar desta passagem de primeira classe deviam desembolsar uma soma consequente.                     

Outros, economicamente mais abstémios, afrontavam, de noite, as autoridades e o Bidassoa num barquito que o passador trazia dobrado sob o braço. O calibre do brinquedo, insuflado à beira do rio, quando não havia qualquer percalço, apenas possibilitava o enbarque de cinco pessoas, incluindo o passador. Duas pequenas espátulas de madeira serviam de remos.   

Os emigrantes portugueses apanhados no território espanhol sem carimbo de entrada – os clandestinos – sofriam repercussões tremendas. Escoltados até à fronteira lusa mais perto da sua terra, eram entregues aos agentes da PIDE, a polícia cujos funcionários se encarregavam das fronteiras, da emigração, dos passaportes e de todos os que se opunham ao regime. Infligiam-lhes, automaticamente, uma onerosa punição carceral por saída ilegítima do país e tiranizavam-nos para os fazer escarrar o nome do ou dos passadores e remontar a fileira. Intento árduo pois os membros das redes usavam pseudónimos.

Os postulantes à imigração não desprezavam os perigos imponderáveis a que se expunham, mas os desideratos eram tão pesados que não os esmoreciam. Uma vez na outra margem do Bidassoa, em Hendaye, com ou sem passaporte, eram recebidos com toda a atenção, visto o país estar em plena expansão económica. Os portugueses, homens de braços viris, aclimatados à rudeza, de modo geral ignaros, prestadios e católicos, eram uma bênção.

E, para melhor os proteger da ditadura franquista, não lhes outorgavam permisso de residência nos quatro departamentos que faziam fronteira com Espanha.

A casa do Manco estava num estado de deterioração adiantado. O andar superior, integralmente de madeira – material secular predominante no primeiro andar nas casas galegas por ser mais quente e barato do que a pedra –, putrefazia-se e dissociava-se aos poucos. Só os fundos, justamente edificados com robusto granito, permaneciam direitos e reutilizáveis. Mas a antiguidade não era apenas sua, pois as partilhas ainda não tinham sido feitas com a irmã. Esta, desde que casara, nunca mais voltara à Frieira. Era tempo de construir uma moradia aceitável. Não eram os meios que lhe escasseavam.

Comprou as metades da irmã, ficando com as ruínas da casa e com os dois vastos campos em declive, do outro lado da estrada.

Alugou uma casa no lugar, mandou derrubar a velha habitação, conservando todavia a pedra das paredes do rés-do-chão e construiu outra de grande envergadura. No andar térreo, equipou um salão grandioso para a organização de bailes, jantares de casamentos e de batizados; montou um bar galego típico, um restaurante, a cozinha respectiva e os sanitários adequados a cada uma das funções, fasto supremo naquela época para a localidade. No primeiro andar, alojamentos espaçosos para toda a família.

 

Continua.

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:28
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