Sábado, 28 de Abril de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - IX

 

 

Continuação do post do 14 de abril de 2018.

 

 

Com pouco mais de dezoito anos, a desditosa rapariga, oriunda de um lugar da freguesia de Roussas, furtara-se à bestialidade do pai alcoólico, à miséria da casa e ao défice de vicissitudes ao labor desumano do campo.        

O abandono da terra, do país, o medo do incerto, que desmoronava qualquer um, fez com que fosse pouco além da fronteira. Ficou na Notária, onde conseguiu o primeiro emprego num café. Aguentou um par de meses, apesar do ambiente autoritário e famélico que o casal proprietário lhe impunha. Por ser um trabalho menos cáustico que o do campo, conciliara-se com a perversidade.

Um jovem que acusava uma dilecção indecorosa por ela direccionou-a para o estabelecimento do Manolo.

Criada, cozinheira e empregada de bar podia dizer-se que fazia de tudo, inclusive o que o patrão de mais profundo lhe pedisse, segundo as más-línguas.

Os taxistas da zona, quando livres, eram os primeiros clientes do bar. Todas as manhãs, uma hora antes da entrada na estação dos dois ferrobuses – automotoras – procedentes de Vigo e de Monforte de Lemos, que, normalmente, ali se cruzavam – a linha era de via única – já estavam acotovelados ao balcão, tomando o café e a copa matinais. Conversavam e parafraseavam desordenadamente as últimas informações ouvidas no auto-rádio.

Muitos trabalhadores rurais e da construção civil, de um e outro lado do rio, sustavam-se ali uns minutos para matar o bicho. Os mais descuidados tinham a possibilidade de se procurar algumas ninharias de primeira necessidade, tanto para o campo como para as obras.

Havia também aquelas pessoas, entre as quais portugueses, que, por volta das nove, se acercavam da estação de caminho-de-ferro. Algumas, as que iam comerciar, apenas bebiam um café, mas outras, que iam de visita, lembravam-se do presente que tinham em vista ou obliterado à última hora.

O movimento matutino fazia parte dos momentos favoritos do Manolo. O ar da alvorada, frio ou morno, fortalecia-o. Porém, tinha um apego particular pelas manhãs dos dias 10 e 25 de cada mês, dias da feira de Ribadavia, a mais popular da região. A avidez dos campónios à ida – para os quais a feira era como um dia de festa – e a satisfação da volta, carregados de utensílios, mantimentos e produtos eclécticos para o campo, regalava-o. 

Conhecia grande parte das pessoas que por ali transitavam e com as quais adorava ter um diálogo caloroso, apesar de sucinto. Eram ocasiões propícias, preponderantes. Para ele, que desabrochara numa casa mesquinha das proximidades e tivera de sujeitar-se mais do que alguma vez pensara tão longe dela, estas ocasiões eram-lhe angelicais.

A privação daquela aldeia e dos seus odores peculiares, daquele rio imponente e do regato insignificante; a falta daquele sol abrasador, mas inerente; a falta daquelas glebas verdes em escaleira; a falta do cheiro da terra tórrida quando era refrescada pela chuva; a falta daquela gente simplória vestida de preto, que desafiava as agruras do meio com um sorriso clemente; a indigência daqueles montes e da sua vegetação ubiquista, fizeram-no tergiversar, desalentar, chorar, padecer...

Ainda o moço trabalhava como aprendiz de carpinteiro numa oficina da Notária, trazendo ao fim do mês uns escassos duros para a casa, quando o pai pereceu. A partir daí, esses irrelevantes vinténs eram imprescindíveis. Pouco a pouco, tentou preencher o lugar insubstituível que ficara desguarnecido. A mãe, a Lucinda, via-se obrigada a lutar em duas frentes: os afazeres das magras terras e o desvelo ao irmão primogénito do rapaz, o Chíchio, que sofria de desequilíbrio psíquico.

Foi na Notária que conheceu e namorou com a que seria mais tarde a sua esposa. Mas o seu destino e o da rapariga, como o de um elevado número de outros jovens, fora previamente decretado pela letargia, pela míngua e pelo ostracismo a que a política totalitária do Caudillo submetera o país.

Casaram e renunciaram ao berço, à terra por onde tinham repartido os seus marcos e emigraram para França em busca de perspectivas mais entusiasmantes.

A destreza que o Manolo tinha para a carpintaria facilitou-lhe uma presta progressão no ramo. Ao cabo de um ano, tinha um salário equivalente a vários meses de actividade na sua terra. A Maribel, sem qualquer contrariedade, logrou um lugar de preparadora de sandes e de saladas numa célebre cervejaria da praça da Ópera. Empregada cuidadosa, ali se manteve até resolverem retornar. Deram vida a um filho e passaram perto de quatorze anos contritos num país cujos fundamentos lhes eram absolutamente impenetráveis.

Com enorme penibilidade, assimilaram o vocabulário elementar que o trabalho e a vida de todos os dias lhes reclamava. O clima e o modo de vida adverso foram outras barreiras às quais tiveram de obtemperar, visto não poderem rectificá-los.

A mãe e o Manolo tinham uma vocação ingénita para o humor e o chiste. À mãe, estes traços linimentavam parcialmente os fortes desassossegos quotidianos da escarpada vida; ao filho e à esposa, travestia-lhes e esquivava-lhes, na medida do possível, a tristeza e a angústia com que a ausência forçada da terra os gangrenava.

Durante quatorze anos pungentes, poucas vezes vieram à terra, mas, quando se dava o caso, ficavam mais de um mês. Em dois dias restauravam o alento moral e anímico. Contudo, à medida que os anos se sucediam, a amargura do retorno à capital francesa crescia. Por esta razão, quando pressupuseram que o contexto era oportuno para uma vinda definitiva, não balbucionaram. Tinham medo de se deixar inflectir por considerandos e, mais tarde, arrependerem-se. As economias e uma modesta reparação (10 000F per capita) com que o governo gaulês – depois do choque petrolífero de 1973 – encorajava os trabalhadores estrangeiros a partir, ajudaram-nos a converter-se nos donos daquela tienda. Esta formalidade vedare-lhes, para sempre, a probabilidade de trabalhar de novo em França.

Havia cerca de dois anos que, despreocupados e felizes, ali se tinham instalado. Portanto, ainda hoje faziam tudo para compensar o desprovimento e desafogar a intensa gula soterrada que o desterro ateara neles.

O Manolo idealizava e confeccionava quadros benígnos para se divertir mofando. De uma coisa banal, e aparentemente inconsistente, extraía assunto ou móbil capaz de espairecer toda a gente durante dias. Despistava, com um tacto maravilhoso, as disparidades, os tiques, as fraquezas, as manias... tudo o que o inspirasse e fosse passível. As suas travessuras compraziam a todos e era a maneira mais cordial de lutar contra a perdurável acinesia mental dos conterrâneos. Nos lugares escabrosos e ingratos como aquele, as casualidades de entretenimento eram fictícias, para não dizer nulas.

 

Continua.

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:30
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