Sábado, 20 de Janeiro de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - II

 

 

Continuação do post do 06 de janeiro de 2018.

 

 

Media mais de um metro e oitenta – era conhecido pelo Manel Grande –, tinha uns ossos ricamente cobertos e uma grande e oblonga cabeça, cujo cabelo, sempre bem rapadinho, deixava sobressair umas orelhas colossais e descoladas. Durante o ano, fosse qual fosse o tempo, uma camisola interior de alças e uma camisa branca de nylon eram a única vestimenta que lhe cobria o tronco; as mangas, sempre arregaçadas, desvelavam umas veias bem irrigadas; os dois primeiros botões desapertados auspiciavam um peito firme e imberbe. Barrigudo, conformemente à maioria dos campónios da sua idade, caminhava de maneira ronceira e inabalável, com aparente pena, o que não deixava dúvidas sobre a massa bruta que era.

Imbróglios, aborrecimentos eram as coisas que ele menos procurava. Era um luxo que não se podia permitir. Primeiro, por serem termos que não faziam parte do seu temperamento deferente e pacato; segundo, e antes de tudo, por não estar documentado.

No dia já longínquo que, com a mulher, passara o regato e se estabelecera em terra alheia, fizera a promessa de nunca indispor ou prejudicar os seus anfitriões, facto que, fortuitamente, podia colocá-lo em situação embaraçosa. Viera para Espanha trabalhar e não aventurar-se, fosse no que fosse. Sempre respeitara a liberdade dos próximos e acreditava que cada qual era o julgador absoluto e imparcial dos seus actos e, consequentemente, o único imputável. Nunca se incomodara com a vida dos outros, detestava que se imiscuissem na dele e jamais tentara ilibar-se das suas responsabilidades, ainda que fossem meras futilidades. Até aquela data, felizmente, não tivera quaisquer desarmonias ou mal-entendidos notáveis com os seus semelhantes.

Honesto e trabalhador como poucos, os maiores lavradores da região rivalizavam para lograr os seus serviços durante as temporadas de azáfama. Nunca estivera um dia inactivo sem que fosse por vontade sua.

Havia muitíssimos anos que vivia na Frieira:  vinte, vinte e três, vinte e cinco. Talvez mais, talvez menos... Já não sabia, nem queria saber. Cada vez que retrocedia no tempo, o seu espírito era invadido de imediato por remembranças excruciantes.

Menosprezava a servidão, a vileza a que tivera de se sujeitar na terra natal. Tinha sido o preço a pagar para comer umas batatas insossas que nem com um fio de azeite podia condimentar, falta de meios.

A lembrança – ainda que momentânea – destes tempos obrigava-o a cerrar os punhos com força e a ranger os dentes. Era uma reacção convulsiva, de incomensurável asco. O senhorio para o qual trabalhara, pessoa despicienda que vira poucas vezes, nem a mão se dignava apertar-lhe, como se fosse uma besta, um ser sarnento. Fora um capítulo horrível da aurora da sua vida, uma submissão cobarde, abjecta que, hoje, o enojava e indignava visceralmente por ter sido tão adinâmico.

Apesar da miséria, da repugnância de que era alvo, renunciar ao único, mas mais belo pedaço de terra onde viera ao mundo, aos colegas de infância e de adolescência, tão miseráveis como ele, fora um rasgo ardente. Chegou a outra terra, mais pobre do que a sua, com outra gente, visivelmente inospitaleira; mas, como a sociabilidade e a sensibilidade são os fusíveis do nosso destino, a sua visão foi-se agudizando e o rasgo, passo a passo, colmatou-se.

O Manel, depois de dar o salto, fora contemplado com a lógica suspicácia habitual das pessoas que se desconhecem; fora, nem mais nem menos, acolhido como qualquer forasteiro que chega a uma aldeia. Graças ao seu carácter expansivo e à sua exemplaridade, não precisara de temporizar muito para que o aceitassem, para que o considerassem, para se integrar. Era como se tivesse vindo ao mundo ali.

Desde o dia que, apreensivo e desconsiderando os imprevisivos percalços, resolvera  saltar o regato, não podia dizer que a sua vida fosse tão ingrata. Não era por aí além, nem pensar, mas era certamente bem mais luminosa e copiosa do que a que até ali suportara. Continuava a ser o homem cândido que vendia a sua pujante força braçal aos agricultores, aos proprietários das melhores terras, mas ganhava para apaziguar a fome e ainda lhe sobrava. Só por olharem para ele com decência e humanismo, já se sentia realizado, embora soubesse que também era apreciado por ser uma pessoa laboriosa e prestadia.

Não deplorava, de modo nenhum, a decisão dilacerante que tivera de tomar. E, hoje, se por ventura a conjuntura o forçasse, não teria a menor hesitação em voltar a fazê-lo noutras direcções. Ficara a saber que todo ser, onde quer que tenha nascido, corre atrás das mesmas imprescindibilidades fulcrais. Para ele, o essencial era ter um pouco a fim de viver em harmonia com os demais. Não tinha inveja de ninguém, não, nem dos ricos para os quais trabalhava. «O que já tem muito e mais quer nunca será rico nem feliz. Rico e feliz é aquele a quem basta o que têm. Como eu.», alegava.

O sol, cansado, do qual dois terços já se tinham ofuscado a oeste, por detrás dos montes da margem direita, arrojava os últimos clarões. Ainda que langorosos, galvanizavam poeticamente os primeiros cem metros do percurso internacional das águas do Minho que dali se descortinavam.

Nas janelas das casas esboroadas pelas duas margens do rio, já se apercebiam algumas luzes. Frouxas e pálidas, anunciavam o fim do dia de trabalho e, para quase todos, o começo da vida caseira. Para esta gente, como para toda a desta condição, onde quer que se estivesse, o tempo livre era tão escasso como algumas iguarias em cima da mesa.

O Manel era dos últimos a chegar à casa.

Deixou-se ficar inerte uns segundos e coçou energicamente a traseira do crânio com a boina sebosa; depois, ajustou-a de novo na cabeça e olhou para um e outro lado do tabuleiro da ponte, como quem quer persuadir-se de alguma coisa. Com as costas da mão polposa, limpou umas gotas de suor que lhe atapetavam a testa. «Raio de calor!», queixou-se de modo falacioso. A transpiração obstinada que, àquela hora e naquele momento, ressumbrava da parte superior do seu rosto não era originada pela temperatura ambiental, mas pela forte sensação de estresse que o assolava.

Como hoje, cada vez que se avizinhava o momento fatídico de traspassar a ponte, reproduzia, incondicionalmente, as mesmas invectivas, as mesmas gesticulações, as mesmas pantomimas. Esta iniciativa transtornava-o psiquicamente, engendrando-lhe distúrbios físicos. Homem de uma robustez extraordinária, temia, no entanto, mais este instante do que a própria morte: as mãos tremiam-lhe, o coração latejava-lhe e um pânico potente submergia-o, intrincando-lhe a respiração. Uma autêntica paranóia. Cuspiu para o chão, nauseado, e grunhiu a meia voz: «Rio do caralho!» O Manel sofria de acrofobia severa.

 

Continua.

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:30
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