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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

CAPELA DA SENHORA DA ORADA – I

melgaçodomonteàribeira, 08.03.14

 

Capela de Nossa Senhora da Orada

 

 

A PRIMITIVA IGREJA

 

 

   A meio da encosta dum monte sobranceiro ao Rio Minho, nos subúrbios da vila de Melgaço; ali onde a velha estrada romana tomava fôlego para trepar às alturas de São Gregório e, no cabo de Portugal, perdido o alento, descer para beijar as águas do Várzeas; ali onde a natureza, trajando quase sempre galas, convida o viandante ao descanso a fim de na retina de seus olhos levar a saudade do sítio; ali onde o homem gostosamente se deixa embevecer pelos mil encantos criados pelo vistoso tapete a seus pés dia a dia estendido por Deus, grande quadro pictural onde um fio de água ou uma corrente caudalosa passa, no fundo, com reflexos de prata e deixa as margens vestidas de terras de cultivo e de montes escalvados a mostrarem a sua nudez vegetativa ou a farta cabeleira demonstrativa da pujança da terra mãe, ali erguia-se, já nos tempos anteriores à nacionalidade talvez, um templo em honra de Nossa Senhora da Orada.

   Pelo menos recolhida foi nas crónicas monásticas esta tradição, que também dá a igrejola em ruínas no tempo de D. Afonso Henriques e por ele reconstruída.

   Não se pode negar uma certa probabilidade a esta na parte referente ao primeiro rei português, tanto mais quanto é certo Orada ser reguengo e portanto propriedade de el-rei.

   Que o sítio pertencia à série de reguengos di-lo abertamente a Inquirição de 1258 e até conta como ele foi usurpado ao património real e dado a um Convento, sem ao menos o Vigarius da terra ter escrito no Rol o consagrado – « Perdit Dominus Rex illud » – , E assim o Senhor Rei perdeu o prédio:

   « … Item, disseram que Dom Suerio Ayras tinha a Terra da mão de el-rei Dom Afonso 1º, e filou um homem no mosteiro de Fiães e enforcou-o, e por isso filou esse sobredito Suerio Ayras Santa Maria da Orada, que era reguenga de el-rei, e deu-a ao Mosteiro de Fiães.

   Item, veio o rei Dom Sancho I a Melgaço e filou Santa Maria da Orada para si, e deu a Fiães por ela Figueiredo e cem maravedis; e ora têm, os frades de Fiães, essa Santa Maria e Figueiredo, e não sabem por que os têm. »

   O rei não teria conhecimento da espoliação nem tão pouco, em dias da sua vida, haveria dado aos frades de Fiães a Orada, julgar-se-á lendo este velhíssimo documento de 1173, confirmado por D. Afonso Henriques, o seguinte: « … pro remedio anime mea atque remissione omnium peccatorum meorum. vobis domno iohanni abbati de fenalis, atque universis successoribus vestris dono atque concedo totum quod in presentiarum habeo ab illa vite de melgazo usque ad terminum de chavianes quomodo claudit per cotarum, et inde usque ad minium.»

   E julgar-se-á assim porquanto o objecto da doação pode considerar-se um largo trato de terreno, com sesmarias e devesas, decerto, onde não faltaria a caça, nem as árvores, os matos e até os casais.

   O Cótaro e o Rio Minho, em pontos opostos, o afirmam; mas nos limites traçados por el-rei não é lícito incluir a Orada, a igreja ou o reguengo, já que neles se não fala e são hoje indeterminados por desconhecidos os primeiros pontos da referência indicados.

   … ab illa vite de melgazo…        … desde aquela vinha de Melgaço…

   Mas qual vinha? Onde estava situada a tal vinha de Melgaço? - … usque ao terminum de Chavianes…

   Mas onde começava e terminava o termo de Chaviães em 1173?

   Um documento deste género deve ser considerado irrelevante por quantos o queiram incluir entre os referentes à Orada, pensar-se-á. Mas, não é assim; porque o documento de Figueiredo, outorgado por Sancho I ao D. Abade de Fiães em 1189 contradiz tal conclusão, pois nele se lê: « Ego Santius dei gratia portugalie Rex una cum filio meo domno alfonso, et ceteris filiis. et filiabus meis. vobis domno iohanni abbati de fenalis, et fratribus vestris tam presentibus quam futuris de illis quatuor casalibus et demidio que habuimus in villa que vocant figueiredo Damus igitur vobis hoc quatuor casalis el demidium per remissione pecattorum nostrorum et per hereditate sancte marie da erada quam pater meus Rex domnus Alfonsus vobis dedit et nos dedimus eam poplatoribus de melgazo… »

   Ora se D. Sancho I deu aos frades de Fiães os quatro casais e meio de Figueiredo pela remissão dos seus pecados e pela herdade de Santa Maria da Orada que o meu pai, o Senhor Rei D. Afonso, vos deu, aquele velho documento refere-se ao reguengo da Orada e daí esta convicção: D. Afonso Henriques teve conhecimento da espoliação feita pelo seu Rico Homem e confirmou-a quando o julgou oportuno.

   Não fala, na verdade, nenhum destes documentos na igrejola da Orada, mas tal exclusão nada representa, porque o rei dando o todo, deu a parte e se tal redacção permitiu é porque nenhuma circunstância de momento impunha ao velho rei de Portugal qualquer referência expressa e forçosa à igreja.

   Mas seja como for a realidade, a existência da igreja nos dois primeiros reinados pode ser posta em dúvida. Não assim no imediato, porque é inegável a sua existência no tempo de D. Afonso II. Afirma-o um documento de 1218: « Ego frater Didacus didaci dei inspiratione dictus Abbos de fenalibus una cum Conventu ejusdem tibi Fernando martini facimus concambiam de media de una orta de vinea in loco qui vocatur sancto facundo in radice fontis et nos recepimus de te aliam circa ecclesiam Sancte Marie de herada… »

   Reafirma-o este de 1220: « judicibus delegatis causa inter monasterium de feanes ex una parte. et burgenses de melgatio ex altera super hemitagio sancte marie de Erade et suis terminis… »

   Confirma a informação de ambos um de Maio de 1240: « quod ego Johannes petri quod nomine bosco, et uxor mea Marina johannis pro remedio animarum nostrarum facimus cartam donationis et firmitudinis tibi abbati Martino et conventui eiusdem loci sancte Marie de fenalibus de nostra hereditate quam habemus videlicet unam vineam circa ecclesiam sancte Marie de erada sub carreira... »

   E corrobora os dizeres de todos três este do mesmo ano: « … quod ego petrus fernandi quod nomine nigro et uxor mea maior silvestri. pro remedium animarum nostrarum facimus cartam donationis et firmitudinis de duabus ortis qui sunt iuxta ecclesiam sancte marie de herada… »

   E, assim, se não fica de pé a tradição recolhida pelas velhas crónicas monásticas, comprovado está e fica ter existido na Orada antes de 1245 uma capela levantada em honra de Santa Maria da Orada, erecta, para nós os pecadores de hoje, sob a invocação de Nossa Senhora da Orada – palavra assim ortografada já no processo da Inquirição de 1258.

 

Obras Completas

Augusto César Esteves

Volume I  tomo 2

Edição Câmara Municipal de Melgaço

2002

pp. 425-427

 

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