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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

AUTO DA LADINA I

03.01.15, melgaçodomonteàribeira

Cena medieval

 

AUTO DA LADINA

 

TODA ESTA HISTÓRIA FOI IMAGINADA PELO AUTOR. QUAISQUER SEMELHANÇAS COM A REALIDADE É PURA COINCIDÊNCIA.

 

 

Este auto tem por base uma história real. Sabe-se, contudo, que um auto é sempre uma composição de índole ficcional, dramática, pelo que, assim sendo, não será de estranhar que os quadros aqui apresentados não correspondam, ponto por ponto, aos factos históricos e registados no processo jurídico que eu, humildemente o confesso, nunca li.

A Ladina existiu. Foi presa por homicídio voluntário. Mas, já antes do homicídio, em Agosto de 1948, tinha comprado «pela módica quantia de 200$00», uma criança em Fiães a uma tal Antónia Maria Freixo (esta mulher, dias antes, tivera duas gémeas, além de uma dúzia de filhos que já lhe enxameavam a humilde casa) e com ela engendrado uma das suas famosas tramóias!

Quando foi presa a primeira vez conseguiu fugir aos soldados da G.N.R.!

A sua segunda fuga foi da própria prisão! Emagreceu, emagreceu, até conseguir passar pelas grades (com a ajuda, claro, de uma milagrosa serrinha que alguém lhe ofertou)! Uma autêntica obra-prima. Um prodígio de audácia e, simultaneamente, de desprezo pela vida.

Capturada, após peripécias várias, foi julgada e condenada a vinte e um anos e oito meses de prisão maior. Enviaram-na para a penitenciária de Lisboa logo a seguir ao veredicto. Depois disso, perdeu-se-lhe completamente o rasto, dando, assim, origem ao mito, à lenda.

É bem possível que não tenha cumprido toda a pena: algumas amnistias, bom comportamento, talvez tenham contribuído para que ao fim de uns anos ela tenha regressado definitivamente às suas montanhas.

 

 

O narrador aparece no palco. Um sorriso nos lábios. Diz, em voz alta:

– Apresento-vos as personagens:

 

LADINA – Uma raposa. Mulher de 25 anos de idade, magra, morena, cabelos negros, olhos castanhos e enigmáticos. A sua estatura é a habitual nas mulheres do tipo galego. Pouco instruída escolarmente. De uma voluntariedade extrema, ambiciosa, arguta – capaz de tudo para conseguir os seus fins. Fins esses, convenhamos, pouco ortodoxos.

 

VIZINHO – Homem de idade. Olhar inteligente. Aldeão sem características especiais.

 

VELHO – Homem tipicamente provinciano. Com algum dinheiro (produto da venda de uns terrenos e também daquilo que amealhou durante os anos de França). Ronda, nesta altura, os sessenta anos de idade, mas aparenta um pouco mais, como estão a ver…

 

CRIANÇA – Bebé do sexo feminino. Magro e com bastante cabelo.

 

MOLEIRO – Homem baixo e forte. Aparenta ter quarenta e cinco anos de idade. Analfabeto. O seu olhar é de uma pessoa tosca e tímida, não acham?...

 

ENTEADO – Rapaz de vinte e dois anos de idade. Quase 1,70 de altura. Magro, mas de porte atlético. Instrução primária. Trabalha a terra, como seu pai. Tendo ficado órfão de mãe aos dezoito anos, pensou sempre que o seu progenitor não voltaria a casar, pertencendo-lhe, assim, todas as terras e a casa onde habitam.

 

1º GUARDA – Baixo, gorducho, cabeça grande. Um pouco velhaco e muito orgulhoso. Teimoso como um burro, persegue as suas presas até as ver bem fechadas na cela da prisão.

 

2º GUARDA – Muito parecido com o seu colega: 1,65 de altura, trinta e cinco a quarenta anos de idade, setenta a oitenta quilos de peso. Pernas arqueadas, andar extremamente cómico.

 

GUARDA FLORESTAL – Figura simpática, respeitador da lei e da ordem. A sociedade, para ele, não devia ter gente má. Por isso, colaborava com os agentes dessa ordem em prol, diz, do extermínio dos malandros.

 

JUÍZ – Como todos os juízes de Portugal: uma barba austera, num rosto grave; um olhar frio, num rosto inexpressivo; distante dos outros como convém a quem julga e não é julgado.

 

ADVOGADO DE ACUSAÇÃO – Um verdadeiro dândi: barba à Antero de Quental, sorriso abundante. Bom orador, conjugando os verbos em todos os tempos e modos.

 

ESCRIVÃO – Pessoa de meia idade. Habituado a obedecer, fica surpreendido com a atitude afrontosa de Ladina. Protótipo do funcionário público manga d’alpaca.

 

AGENTE DA JUDICIÁRIA – Grande como um touro. Meia idade, olhar penetrante e com uma personalidade forte.

 

E finalmente eu, o NARRADOR – Posso ser homem ou mulher, ou travesti; tenho de saber utilizar uma voz zombeteira quando necessário. Neste auto (farsa) vai ser preciso usá-la algumas vezes.

 

Mas finda a apresentação…

 

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