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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

ARCHIVO HISTORICO DE PORTUGAL III

melgaçodomonteàribeira, 14.03.20

armada manel.jpg

azulejo de manuel igrejas

 

Durante a guerra da invasão napoleónica, não menos digna foi a attitude de Melgaço.

Esta foi a primeira praça de armas que saccudiu o jugo do odioso Attila moderno. Foi d’ali que partiu o primeiro grito da libertação, e de lá também se levantou a famosa plêiade de valentes, que pondo à sua frente o general Sepúlveda, tão nobremente contribuíram para o resultado da lucta.

Cabe a esta villa também a honra de ter sahido da família dos Castros de Melgaço o laureado ministro da nossa marinha, Martinho de Mello e Castro, nome altamente sympático e bemquisto da nação.

Nasceu o illustre varão a 11 de novembro de 1716.

Seguiu a carreira eclesiástica e em 1739 foi nomeado cónego da sé patriachal. Seguiu depois a carreira diplomática, e estava ministro em Londres, quando rebentou a guerra entre a nação dos piratas, a Hespanha e a França.

O patriótico ministro prestou então valorosos serviços ao paiz, já enviando armas e munições de guerra, já envidando todos os meios para dar lustre ao nome portuguez. Coube-lhe a elle assignar a paz em Paris, o que realisou, salvaguardando a honra e os interesses nacionais como um verdadeiro portuguez.

José I nomeou-o ministro e secretário de estado dos negócios da marinha, em 1777.

Martinho de Mello tomou o mais vivo interesse no desenvolvimento da marinha de guerra portugueza, e esteve sempre ao lado do grande marquez de Pombal, em todos os commettimentos de utilidade pátria. Comquanto não fosse affeiçoado ao severo ministro, que tanta influência teve no reinado de D. José, coadjuvou-o sempre que se tratava do engrandecimento e prosperidade nacional. Depois da queda de Sebastião José de Carvalho e Mello, continuou a dirigir a pasta da marinha com a mais evidente intelligência e sollicitude.

A este hábil ministro se deveu a magnífica esquadra que então houvemos. Ainda quando D. João VI fugiu covarde e criminozamente para o Brazil, deixando a pátria nas garras do inimigo bonapartista e do pirateiro aliado, se compunha a esquadra de guerra portugueza de doze fragatas, e doze naus de linha, afora muitas outras embarcações de menor importância.

Isto em 29 de novembro de 1807…

Hoje temos o Pimpão e meia dúzia de chavecos, incapazes de aguentarem os embates do oceano em revoltas de borrasca.

Ah! Mas é que já não existem homens como o marquez de Pombal e Martinho de Mello, à frente da administração pública!

O digno estadista conservou a pasta da marinha até à data do seu falecimento, em 24 de março de 1795. Possuía inalteravelmente a mais clara inteligência, e foi activo no desempenho da sua nobre missão até que a morte o prostou, velho nos annos, sempre novo na pujança do espírito, e no discernimento da acção.

Em Loanda conhecemos ainda um transporte de guerra com o nome do illustre ministro. Há annos desarmou esse vaso da nossa marinha, e ainda não houve quem se lembrasse de dar o nome de Martinho de Mello a outra qualquer embarcação de guerra.

Em troca há-os que teem nomes que nada significam, a não ser a máxima insignificância.

Tem Melgaço um templo digno de menção, edificado sobre uma elevação sobranceira ao rio Minho, o qual, como se sabe, separa esta villa do reino vizinho. O átrio d’este santuário é atravessado por uma estrada, que vindo da povoação parte para a Galliza.

Perde-se nos dédalos do tempo a história d’este templo, sabendo-se, porém, que já estava construído na época dos godos.

Em 1170 estava quasi totalmente arruinado, e D. Affonso Henriques mandou-o reconstruir, conforme consta de uma escriptura de doação feita por D. Sancho I, em Santarém, em setembro de 1207, e assignado pelo rei, todos os seus filhos e prelados do reino. Até 1834 conservou-se esta escriptura no Livro das Datas, depois foi inglesada com tudo mais quanto serviu de repasto à voracidade anonyma.

O templo, da invocação da Nossa Senhora da Orada, é construído de boa cantaria e foi até 1834 da jurisdicção dos monges do convento de Santa Maria de Fiães, por doação de D. Sancho, que o havia herdado de seu pae.

Desde a egreja à povoação é a estrada ladeada de formosas hortas, pomares, fontes abundantes de magníficas águas, vistosos campos e casas, o que dá o mais alegre e grato aspecto ao sítio.

Do dia da Ascenção até ao domingo do Espírito Santo era outr’ora muito concorrida a estrada pelos romeiros do concelho de Melgaço, Valladares e Monção, os quaes iam offerecer à Virgem da Orada o resíduo paschal, levando cada freguezia os seus parochos, e ao menos uma pessoa de cada família.

Tinham estas romagens por motivo um voto que os povos das mencionadas freguesias fizeram durante uma terrível epidemia de peste, que, tendo assolado e deixando desertas innumeras povoações, àquellas não havia causado o mínimo damno.

Hoje, comquanto ainda tenha devotos, não é a egreja procurada como d’antes. A civilização fazendo pouco a pouco luz no espírito humano tem-lhe ensinado que o verdadeiro templo é a consciência própria, que todos devem honrar e respeitar como um santuário que Deus nos collocou dentro do peito.

Finalmente: não é a villa de Melgaço rica de pergaminhos artísticos, de que tantas outras povoações se envaidecem, porém, a sua carreira histórica dá-lhe foros de illustre.

E o castelhano que com ella defrontar hade comprehender que ali naquelle pedaço de terreno frigidíssimo, rude, mal agradecido aos labores do proletário; que ali, sob aquelle céu ora de um azul espelhado e frio como uma lâmina de aço polido, ora nevoento e opaco como uma desgraça latente, há corações que abrigam o fogo sagrado dos mais nobilitantes sentimentos.

E poderá pensar que nas veias dos filhos de Melgaço corre um sangue tão puramente portuguez como aquelle que gravou na lusitana história, n’aquelle dia solemne de Aljubarrota, o verbo sagrado – Independência!

Quando uma povoação tem tão heroicos antecedentes, pode com altivez medir-se em glórias com a mais opulentada cidade.

 

FREGUEZIAS D’ESTE CONCELHO DIGNAS DE MENÇÃO

 

CASTRO LABOREIRO – Esta povoação foi conquistada aos mouros, em 1136, por D. Affonso Henriques, que mandou circumdar de muralhas o castello que já ali existia desde remotos tempos. D. Affonso III concedeu-lhe foral em Lisboa, a 15 de janeiro de 1372, e a elevou à cathegoria de villa com o nome de Laboreiro. Foi reedificada por D. Dinis, pelos annos de 1290, assim como o castello, que havia sido completamente arrazado no princípio do século XIV, em consequência de um raio lhe ter incendiado o paiol da pólvora.

Este venerando baluarte, hoje completamente arruinado, fica ao sul da villa, sobre um elevadíssimo pico que terá de altura uns 400 e tantos metros, e ergue-se sobre uma base de modesta circumferência, o que o torna espantosamente aprumado. Teve quartéis em recuadas eras e um poço de água nativa, o que se torna admirável n’aquella espantosa altura.

Gosou esta povoação o privilégio, concedido por vários monarcas e confirmado por D. João V, de não dar mancebos para o exército.

D. Manuel concedeu-lhe foral em Lisboa, a 20 de novembro de 1513, e n’elle é citada villa pelo nome de Castro Laboreiro.

Há anos, e não sabemos se ainda hoje, emigravam de Castro Laboreiro para o Douro, Tráz-os-Montes, Beira Alta e outras terras, desde que entrava o mez de setembro, bastantes indivíduos do sexo masculino de oito annos para cima até à idade mais provecta, não recolhendo senão na Paschoa.

Dava isto em resultado ficar a villa tão despovoada de homens que os defuntos eram conduzidos para a egreja por mulheres, havendo antes d’esse acto, em casa dos doridos um banquete para todas as pessoas que quizessem assistir a elle, o que grande número d’ellas aproveitava.

Adiante do féretro ia uma comitiva de mulheres, conduzindo à cabeça broas de milho, açafates com bacalhau e outros comestíveis, que na egreja entregavam ao paracho.

Ao enterramento assistiam com uma vela na mão, arrancando gemidos, e soluços e manifestando hypocritamente com os trejeitos ridículos que faziam, dor e mágoa profundas!

 

LAMAS DE MOURO – No anno 812, no sítio chamado Valle do Mouro, d’esta freguezia, teve logar uma grande batalha, dada pelo bravo Bernardo del Carpio, parente e vassalo de D. Affonso, o Casto, de Leão, contra Ali-Aton, rei de Córdova, que ficou derrotado e perdeu grande número de soldados. Ali-Aton havia tomado muitas terras aos luzitanos, que, em consequência d’este desastre, tornou a perder.

Dizem alguns chronistas que por esta povoação entrou, em 1129, D. Affonso VII de Castella, que foi derrotado na Veiga da Matança, junto aos Arcos de Val-de-Vez, por seu filho D. Affonso Henriques, primeiro rei de Portugal. Também por ali entrou para ir atacar Valença, em 1657, o general castelhano D. Vicente Gonzaga.

 

PADERNE – Na doação que D. Affonso Henriques, em 1141, fez do couto de Paderne a D. Elvira, prioreza do convento das cónegas de Santo Agostinho, fundado n’esta povoação em 1130, pela condessa D. Paterna, viúva de D. Hermenegildo, conde de Tuy, diz o monarca que lh’a fizera pelos bons serviços que as freiras lhe haviam prestado quando elle estava sitiando Castro Laboreiro, mandando-lhe mantimentos e alguns cavallos, sendo um d’elles magnífico e ricamente ajaezado, para el-rei montar.

Durante a guerra da restauração, o Prior de Paderne, D. Simão da Paixão, commetteu actos de bravura como guerreiro e como capitão-mor do seu couto.

 

ARCHIVO HISTORICO DE PORTUGAL

Narrativa da Fundação das Cidades e Villas do Reino, seus Brazões D’Armas, etc.

2ª Série

Numº 43

Anno de 1890

 

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