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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

ANTÓNIO IGREJAS, AS DAMAS E OS AZULEJOS

19.01.19, melgaçodomonteàribeira

558 - Antonio Eduardo Igrejas_1998.jpg

antónio eduardo igrejas - 1998

 

ESPAÇO DAMISTA – 1994

(separata da Enciclopédia Damista do Dr. Sena Carneiro)

 

RETRATO DE FAMÍLIA

 

Nome: António Eduardo Igrejas

Nascimento: Melgaço

Data de Nascimento: 7-8-1920

Profissão: Artista Plástico

Estado Civil: Casado

Filhos: Um, do sexo feminino

Sigla: As três primeiras vogais - AEI

 

CURRÍCULO DAMISTA

 

Director Técnico: O Carola

Seccionista: Jornal Século Ilustrado

Seccionista: Revista Vamos Decifrar

Colaborador: Enciclopédia Damista

Colaborador: Jornal Estado de S. Paulo

 

Conseguimos, por acaso do destino, adquirir um quadro raro que permanece no Brasil. Estávamos nós à conversa quando saltou a notícia de que António Eduardo Igrejas viria brevemente a Portugal. Não podíamos perder a oportunidade de entrevistar esse senhor das Damas Clássicas que, com os seus quase oitenta anos, passou no seu país natal apenas a primeira metade da sua vida, já que a outra metade a tem vivido no Brasil. Quando menos esperávamos, Mário Diniz Vaz telefonou-nos a informar de que ele já havia chegado e havia seguido para Melgaço. Conseguimos descobrir o número de telefone e ligámos. Do outro lado do fio Eduardo Igrejas acedeu a encontrar-se connosco mal regressasse a Lisboa. E assim foi. Combinou-se um almoço em que também esteve presente, Carlos Ferrinho, igualmente a viver no país irmão.

 

Desde há muito que desejávamos conhecê-lo. Há quanto tempo não vinha a Portugal?

Antes do mais quero-lhe dizer que o fazia pessoa para a minha idade… Quanto à sua pergunta devo dizer-lhe que nos últimos seis anos vim até cá três vezes. Mas anteriormente estive práticamente quarenta anos sem pisar terras portuguesas.

 

E em que sítio específico vive?

Vivo no Estado de S. Paulo e moro num bairro que embora localizado numa área suburbana, se torna muito agradável por ser habitado por imensos portugueses. Uns foram chamando os outros e tornou-se numa grande comunidade.

 

Pode-se saber o que o levou a abandonar Portugal e em que data o fez?

Havia abandonado Melgaço, aos vinte e sete anos de idade, com rumo a Lisboa onde permaneci sete anos. Mas também não era fácil viver na capital e as dificuldades económicas eram grandes. O meu irmão, um artista de pintura sobre azulejo, já vivia no Brasil e convidou-me a ir trabalhar com ele. Decidi mudar de vida e aceitei o desafio. Parti em Novembro de 1954. Sempre adorei o desenho e a pintura e facilmente aprendi a arte.

 

O que sente ao visitar o País onde nasceu e a cidade onde residiu?

Estar em Portugal é sempre agradável e Lisboa recorda-me tempos em que frequentava o Nacional e o Martinho. Nessa altura jogava todos os dias as Damas Clássicas e entrei em vários torneios. Devo confessar que me perdia com o jogo que para mim constituía um verdadeiro vício. A família era prejudicada com isso e quando fui para o Brasil prometi a mim mesmo nunca mais entrar em competição, pensando mesmo em abandonar a modalidade. Mas o micróbio das Damas é inexorável e continuei a jogar por correspondência e a enviar trabalhos para a Enciclopédia Damista. Colaboro nesta revista desde 1971.

 

A propósito da sua colaboração com a Enciclopédia Damista recordo alguns comentários que refletem uma crítica muito dura. Talvez mesmo destrutiva…

Reconheço que sou um pouco temperamental. Mas sempre que critiquei alguém foi visando o damista e não o indivíduo. Certas pessoas pensam saber tudo sobre Damas. E sai disparate.

 

Quando e como se iniciou a sua paixão pelas Damas?

Comecei a jogar com apenas seis anos de idade. Tal como outros entrevistados também eu fui estimulado pelo meu pai a jogar as Damas. Mas comigo aconteceu pela negativa. No dia em que ganhei fui reprimido… Mas o prazer de exercitar o raciocínio foi mais forte.

 

E actualmente o que faz no Brasil, damisticamente falando?

É uma história que começou há quase trinta anos. Desde 1955 que me havia dedicado ao problemismo quando, em 1970, fui contactado por Carlos Ferrinho, um português natural de Monção. Ele tinha sido convidado como responsável da secção de Damas Brasileiras do jornal O Estado de S. Paulo, para substituir Bakumenko, um exilado russo que acabara de falecer. Ferrinho percorreu uma imensidão de quilómetros propositadamente para me conhecer e… convencer a ajudá-lo na área do problemismo. Acabei por aceitar o convite e cá ando! Tenho colaborado o mais que posso e orgulho-me de ter contribuído para a enorme evolução que o problema teve em todo o Brasil. Adaptei imensos temas às Damas Brasileiras e, juntamente com Ferrinho, fui fundador da Associação de Problemistas de Damas. Fizemos mesmo uma Revista artesanal que se denominava APD.

 

Dada a sua idade, depreendo que se encontra reformado.

Reformado, só do jogo prático. Continuo a trabalhar normalmente na pintura sobre azulejo. Gosto de pintura colorida que é mais alegre do que a clássica, a azul e branco. Sabe, o povo brasileiro é um povo alegre e aprecia mais as cores multifacetadas. Olhe, pode observar através desta fotografia um recente quadro meu, intitulado A Sagrada Família.

 

Embora afastado, acompanha a nossa actividade. Quem é para si o melhor jogador?

Para mim, o melhor jogador é aquele que utiliza mais o raciocínio. A memória, só, não chega. Não basta dizer que determinada posição é conhecida como empatada. É necessário saber empatá-la. E os títulos nem sempre são boa bitola. Não é o resultado de dois ou três Torneios que definem um campeão.

 

Que projectos damísticos tem para o futuro?

A secção do Estado de S. Paulo tem sido um êxito e colaborou decisivamente na divulgação do Problema, no que respeita às características, concepção e nomenclatura. Há muita gente interessada pois a grande parte dos estados brasileiros é maior do que Portugal. Continuarei sempre às ordens do amigo Ferrinho, enquanto desejar a minha colaboração. Sei que Espaço Damísta o vai entrevistar, o que acho muito acertado, pois ele é uma autoridade, em Damas Brasileiras e Internacionais, principalmente no campo das Regras e da Arbitragem.

 

Espera, como a maioria dos emigrantes, voltar um dia a Portugal?

Não me considero um verdadeiro emigrante. Este, normalmente, parte para o estrangeiro com o objectivo de juntar algum dinheiro e regressar para fazer uma moradia, montar um negócio, reformar-se. Eu fui viver para o Brasil e não penso regressar. Bem vê, tudo o que tenho está lá; a casa, o trabalho, a família. O meu mundo está onde estão estas coisas.

 

Para saber mais sobre Damas http://tresedama.blogspot.fr

 

556 - Casa de Macau - Tijuca (1) a.jpg

casa de macau - tijuca - br

 

557 - Vila Isabel (5).JPG

vila isabel - br