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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO E MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 11.01.20

P1090625 Américo Rodrigues e unha testemuña da v

    américo rodrigues e uma testemunha da vida arraiana em melgaço na época das ditaduras

 

REFUGIADOS E GUERRILHEIROS ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO (1936 – 1943)

 

 Américo Rodrigues (1)

Castro Laboreiro, 25.05.2017

 

A freguesia montanhosa é rodeada a norte, nascente e sudeste pela Galiza – várias comarcas – perfazendo a raia seca entre Minho e Lima, traçada desde o marco 2 ao 53. No sul da freguesia, a fronteira é riscada pelo rio Laboreiro, desde Mareco ao sul do Ribeiro de Baixo. Pela sua situação geográfica, nos anos trinta, o contrabando era a principal indústria local. Em 1936 existiam três postos de Guarda Fiscal (GF): Portelinha (saída da freguesia em direcção a Melgaço), Vila (central) e Ameijoeira, junto ao marco 52 e 53. Fora da freguesia, bem perto, o posto de Alcobaça.

Nos anos 70, nas inverneiras, os caminhos eram empedrados e a luz era de candeia. À época, minha avó materna tinha teto de colmo. Era normal os vizinhos juntarem-se à troula (2) para matar o tempo invernal nas noites mais longas. Depois da ceia castreja (3), os contos nos escanos, junto ao lume, eram para todos os gostos. Ocupavam o palco brilhantes narradoras, nascidas nos primórdios do século XX. O guião histórico e cultural era sempre riquíssimo. É verdade, nestas terras altas, discorrendo sobre assuntos do terrunho, as mulheres sempre foram mais sábias que os homens, condenados desde tenra idade às agruras da emigração. A guerra civil de Espanha (1936-1939) por vezes vinha à baila. Os “roxos” (4), sem saber na verdade quem eram, os falangistas ou Francisco Franco, que tinha o nome do meu avô paterno – Francisco Rodrigues falecido numa pedreira de Paris em 1933 -, começaram a fazer parte do meu léxico.

Os dois esconderijos de refugiados mais próximos do lugar do Barreiro, a Gruta dos Refugiados do Piorneiro (na verdade dois sítios), e a Lapa da Ponte Cimeira, em frente ao monte da Fraga, eram referências obrigatórias. Alguns vizinhos, principalmente rapazes novos, tinham levado comida aos galegos que estiveram nesses locais. No Piorneiro estiveram homens fortemente armados. Chegaram a fazer um carro de vacas para particular. Quem não faltava também, nesses passos nostálgicos, eram os escapados que acolheu a vizinha da minha criação, Isabel Domingues, a tia Carvalha, também Valenciana, no Barreiro e em Queimadelo, lugar onde a tia Monteira também os recebia. Estes desesperados muitas vezes ajudavam na economia do lar, com víveres ou dinheiro. Contribuir com trabalho braçal era raro pela excessiva mão de obra (5) existente naquele período e pela pobreza dos sítios.

Eu imaginava a gabada beleza da professora Eudosia Lorenzo Diz, “a Maestra”, denunciada de forma covarde e aprisionada a 17 de maio de 1938, juntamente com os seus progenitores, pelo chefe da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, de 1933 a 1945) do Peso, acompanhado de guardas do Posto de Portelinha, no lugar do Rodeiro, onde  ensinara as primeiras letras às crianças que a procuraram, na casa de António Domingos Rendeiro.

Salvou-se milagrosamente e rumou a Marrocos, via Lisboa, em 10 de agosto de 1938. Tinha chegado a Castro Laboreiro em 20 de julho de 1936.

Rosaura Rodriguez Rodriguez, refugiada, apesar da jovialidade, já tinha quase 80 anos, morava numa casinha feita pelos vizinhos no lugar de Açureira, a 200 metros da minha escola primária de inverno. Era de Bouzadrago, aldeia galega que dista poucos quilómetros. Optara por ficar para sempre no lado português. Desaparecida a loja permanente do tio Bernardo no lugar, quando os vizinhos subiam às Brandas esta mulher, aparentemente singela, ficava sozinha, rodeada de carvalheiras durante muitos meses. Sem medo algum, dava que cismar aos mais novos, era uma vida de mistério e coragem.

Fascinou-me sempre o episódio da morte violenta do guarda fiscal na taberna da Macheta, Vila de Castro Laboreiro. É verdade que fui educado a desconfiar de guardas mas, seria correcto os contadores da tragédia não condenarem o crime de forma inequívoca? O atirador teve poiso em Várzea Travessa, Barreiro (casa da tia Carvalha) e Ribeiro de Cima, suspeitava-se que era um oficial importante da aviação, apresentava-se de forma impecável, fato e gabardina, muito educado, tinha escola, diziam os castrejos que com ele privaram. Era conhecido por Manolo, o Dente de Ouro. Depois do trágico acidente foi confrontado pelas autoridades no Ribeiro de Cima. O perfil, desaparecer sem deixar rasto, e o acontecimento brutal e decisivo que colocou as autoridades definitivamente no encalço dos refugiados, ficou para sempre na memória da freguesia.

Os galegos que prenderam no Bago de Baixo foram fuzilados. A guarda cercou o lugar e foram encontrados na côrte das vacas na casa dos Negritos. Estavam na moreia do estrume (6), roçado no monte e destinado à cama dos animais. Usaram estacas de ferro para os procurar e fazê-los sair.

Júlio Medela, refugiado da Lobeira casou no lugar de Formarigo, os filhos frequentaram a escola e os bailes casadoiros com os nossos pais.

Contavam-se fatias de assaltos violentos a lojas galegas nos anos 40, realizados por alguns escapados. Os atracadores usavam armas de guerra. O Rizo e Enrique, o Médico, eram nomes famosos.

Na minha criação, estas e outras referências a nomes, profissões, locais e episódios, ainda abundavam por toda a freguesia.

A Guerra Civil de Espanha de alguma maneira fez parte da minha meninice. Há muito que o tema me fascina, anda na minha cabeça, algumas vezes pensei em escrever sobre o assunto, mas tinha algum receio, porque me faltavam dados e, principalmente não valorava convenientemente a temática.

 

(1) Docente de informática. Administrador de Sistemas Informáticos.

Áreas de formação (Universidade do Minho): Informática, Matemática e Educação.

Co-Fundador do Núcleo de Estudos e Pesquisa Montes Laboreiro.

(2) Serão nocturno de convívio.

(3) Jantar.

(4) Alguém politicamente das esquerdas.

(5) Centenas de homens que emigravam normalmente para Espanha e França estavam junto à família.

(6) Em Castro, mato constituído de tojos, carqueijas, etc.

 

BOLETIM CULTURAL DE MELGAÇO

Nº 10

2018

pp. 168-172

 

HOMENAGEM A PEPE VELO EM MELGAÇO

 

P1090611 Presentación do acto.JPG

 apresentação do evento

 

P1090618 Momento do descubrimento do  monolito.JPG

 descerrar do monolito

 

P1090632 Representante Deputación de Pontevedra.J

 representante deputación de pontevedra

 

P1090634 Representante Cámara de Melgaço.JPG

 representante câmara municipal de melgaço

 

P1090621 Xosé González Martínez (Asociación Lo

 xosé gonzález martínez - asociación lois peña novo

 

P1090627 Antonio Piñeiro,  estudoso de Pepe Velo

 antonio piñeiro estudoso de pepe velo e traballa na casa do concello de celanova

 

P1090649 Público en xeral o día da inauguración

fotos cedidas pelo senhor xosé garcia 

 

A PÁGINA ON-LINE DA CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO, PORTAL MUNICIPAL DE MELGAÇO, NÃO DEDICOU UMA ÚNICA LETRA A ESTE EVENTO QUE FOI PATROCINADO PELA PRÓPRIA CÂMARA.

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