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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

A NECRÓPOLE MEGALÍTICA DE CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 28.04.20

 

MONTES LABOREIRO

PALMILHANDO UMA RAIA CARREGADA DE SÉCULOS

 

AMÉRICO RODRIGUES

               e

JOSÉ DOMINGUES

No traçado da linha imaginária aproveitam-se indícios salientes na paisagem. Um dos indícios que nos chamou a atenção (mas que ainda não conseguimos observar pormenorizadamente no terreno, apesar de sabermos a sua localização) foi a pedra “que bole quando bolem com ella” – no tombo de 1565. Tudo leva a crer que se trata de uma pedra bolideira.

As pedras oscilantes já são referidas pelos escritores da Antiguidade, Plínio e Ptlomeu. Eduardo Amarante, citando Henry Martin, chama a atenção para a sua função como prova judiciária: “os acusados que não conseguissem pôr em movimento a pedra eram considerados culpados; há não muito tempo ainda que os maridos que suspeitavam da fidelidade das suas mulheres obrigavam-nas a passar esta prova”. Trata-se da prova medieval de ordálio ou juízo de Deus, mediante os quais se remetia a decisão para Deus, na crença de que Este não iria favorecer o culpado contra o inocente.

A ligação destas pedras ao megalitismo estaria aqui plenamente certificada. Este planalto, de ambos os lados da raia, está semeado de monumentos megalíticos. No actual processo de classificação dos monumentos Megalíticos e Arte Rupestre do Planalto de Castro Laboreiro, iniciado em 2008, do lado português estão referenciados sessenta e três monumentos megalíticos, duas estruturas líticas e um núcleo de arte rupestre, faltando no entanto nesse inventário alguns monumentos.

Num périplo por este fragmento da raia aos entusiastas do megalitismo revela-se um conjunto de estruturas, muito próxima da meia centena: 13 nas proximidades do marco nº 6 ao nº 9, desde Arrazis até ao Alto de Gontim; nas Roçadas, junto ao marco nº 14, mais 2 monumentos e outro no Alto de Paicota; no Alto da Besteira, perto do marco nº 18, um monumento; passando ao marco seguinte, na Lama do Rego, 6 monumentos; desde o marco 20 a 24, na Portela do Pau e Outeiro do Ferro, cerca de 8 monumentos; seguindo até ao marco nº 28, na Lama do Brincadoiro, 2 monumentos; em Pedra Mourisca, junto ao marco nº 29, 4 monumentos e estruturas líticas; em Cabeça de Meda, marco nº 31, mais 3 monumentos; nas proximidades dos marcos 33 e 34, em Cabreira e Barreiras Brancas, 4 monumentos; esta vasta necrópole termina com um monumento megalítico junto ao marco nº 40.

Esta disseminação acabou por colocar alguns destes monumentos no caminho preciso da raia, fazendo com que apareçam referidos na documentação compulsada. A Mota de Cidadela ou Cidadelha é referida nos dois tombos mais antigos (1538 e 1551). Trata-se, certamente, da mamoa junto ao marco nº 28, na Lama do Brincadoiro, vulgo identificada por Mota Furada. No tombo de 1754 aparece uma referência à “caza de Antella”, que ficaria nas proximidades do marco nº 36.

Mesmo por cima da linha da raia fica um dos maiores e mais emblemáticos monumentos do Laboreiro – a Mota Grande. Por motivos que nos escapam, este monumento, na segunda metade do século XX, passou na íntegra para território galego. Um dos mais conceituados investigadores do megalitismo do Laboreiro, António Martinho Baptista, já chamou a atenção para esta recente mudança do marco nº 23, precisamente, no “monte de terra chamado Motta-Grande”.

Mas, bem mais importante do que a estéril discussão sobre o lado de fronteira em que está implementado este monumento, seria promover uma investigação científica conjunta, que unisse especialistas dos dois países no aprofundar do conhecimento deste monumento em particular e de toda a necrópole em geral. Para além de ser o maior em tamanho, os seus esteios estão profusamente decorados com gravuras: com especial destaque para o motivo “idoliforme”, que, segundo Martinho Baptista, poderá ser a representação de uma “divindade megalítica”(?). Outro motivo válido e impulsor é o da existência de um menir nas suas proximidades.

Para a localização precisa e entendimento das funções deste menir podem ser proveitosos os conhecimentos radiestésicos de Alexandre Cotta. Este investigador já teve oportunidade de aplicar os seus estudos em menires e antas do Alentejo. Como amigo pessoal e a convite do NEPML visitou a Mota Grande e levantou interessantes questões, relacionando o menir com o motivo idoliforme, acabando por concluir: “seja como for, esta pedra actualmente tombada (com orientação Este-Oeste) indica ou marca um lugar particularmente importante”. Para Alexandre Cotta, o menir da Mota Grande pode ser uma pedra de cura:

“Quer em Castro Laboreiro como no Cromeleque dos Almendres confirmámos a experiência feita pelo nosso amigo Jean-Marc Riper. Ao colocarmo-nos sobre a pedra tombada (perto da Mota Grande) e no menir caído e amputado (dentro do Cromeleque), a polaridade indicada pelo movimento do pêndulo inverte-se. Tal indica que são pedras de cura. Em algumas doenças graves verifica-se que o movimento das células, correspondentes aos órgãos ou sistemas afectados, muda de sentido: de horário para anti-horário. Pelas suas características, as pedras de cura ajudam a inverter a situação das células doentes repondo a polaridade das células saudáveis”.

 

CADERNO ARRAIANO