Sábado, 27 de Abril de 2019

A HABITAÇÃO CASTREJA DO ANTIGAMENTE

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castro laboreiro

 

A ESTRUTURA DA HABITAÇÃO TRADICIONAL

 

 Como em todas as sociedades de tecnologia primitiva e onde o meio natural se apresentava muito pouco diversificado quanto a materiais utilizáveis, também na antiga sociedade castreja qualquer das realizações materiais, levadas a cabo pelo homem, trazia impressa a marca do ambiente. Por outro lado, o sentido de equilíbrio que o artesão sempre realiza em toda a sua obra, permitiu também que aqui existisse uma adequação formal da casa à natureza que a cercava. Portanto, nas antigas construções de Castro Laboreiro, estiveram presentes estas duas marcas naturais, que ao fim e ao cabo se resumem numa só: a marca do equilíbrio entre o homem e a natureza.

Efectivamente, os únicos materiais empregues na construção foram o granito arrancado ao chão e às rochas; a madeira que crescia nas matas; a palha de centeio que o homem produzia e a urze que espontaneamente se criava em profusão. Quanto à própria estrutura, não ia além de um modelo simples de linha direita, de área estritamente necessária ao abrigo da família, dos animais e da alfaia agrícola e ao armazenamento da produção.

A casa era pois uma peça de tal maneira integrada na paisagem, pela cor e pela forma, que cada um dos lugares, composto de muitas dessas casas, quando visto de longe, configurava uma das variadíssimas formações rochosas em que se capricha a natureza de Castro Laboreiro. Ainda hoje este quadro é-nos sugerido pelos pequenos conjuntos de habitações de tal tipo existentes em lugares outros que não a «vila», embora já destacados do meio natural por força do contraste que a este oferecem as novas construções, que surgiram no seu interior ou à sua volta.

Curiosamente, e reportando-nos ainda a esse tempo, a única marca imediatamente visível da acção do homem sobre a natureza devia ser a que era formada pelas manchas coloridas dos barbeitos cultivados sempre em zonas distantes da zona habitada. Esses, sim, contrastavam pela macieza dos seus verdes e pela geometria dos seus contornos, com a cor parda cinzenta dos grandes e irregulares rochedos, erguidos à volta de Castro Laboreiro.

Mas se a estrutura da casa se harmonizava com a natureza e satisfazia por outro lado necessidades de abrigo, não satisfazia de maneira eficaz as exigências de comodidade das pessoas que a habitavam, embora tais exigências se reduzissem àquele mínimo determinado pelas próprias condições em que decorria a sua existência.

Na verdade, ninguém em Castro Laboreiro que tivesse experimentado o desconforto destas habitações, a elas se refere sem ser em manifesto repúdio pelas condições de vida que a tal obrigavam. Contudo, não aceitamos o quadro desumanizado que nos foi deixado por José Augusto Vieira, na sua obra «Minho Pitoresco»: «Anexo a este interior, o que há de mais sórdido, de mais negro pelo fumo, e de mais anti-higiénico, ficam as cortes para os gados». Vista assim, a casa mais nos parece um «covil» para animais selvagens que propriamente um abrigo para os homens. Com outros olhos a viu José Leite de Vasconcelos no seu artigo «Viagem a Castro Laboreiro», publicado na Revista Lusitana, vol. XIX. A descrição que a seguir vamos tentar esboçar deste tipo de casa, resulta das visitas que fizemos a algumas das que a despeito das transformações que lhes foram introduzidos, ainda conservam o essencial da estrutura primitiva, e resulta igualmente das informações que fomos colhendo junto das pessoas que habitaram ou conheceram a casa tradicional antiga.

Era uma casa pouco alta, de linha direita e forma rectangular, composta de dois pisos: o piso de cima destinado ao abrigo da família e o piso de baixo a corte dos animais. Esta corte tinha geralmente uma divisória ao meio, para apartar os animais que luitavam.

O andar superior, ou piso de cima, constava de dois compartimentos separados por um tabique de madeira cuja altura não ultrapassava a das paredes, ficando portanto descoberto o espaço que ia destas ao cumio.

Do primeiro compartimento, a cozinha, quase sempre ampla, passava-se por uma porta aberta a meio do tabique para o resto da casa, constituído de uma só peça e que funcionava como quarto de dormir comum a toda a família, fosse esta grande ou pequena.

O acesso ao interior da casa fazia-se por uma tosca escada sem resguardos laterais, quase sempre perpendicular à parede fronteira, no cimo da qual se abria a única porta com ligação para dentro da casa e que era também a única abertura por onde entrava a luz do dia na cozinha. A outra abertura, de dimensões muito reduzidas, com a mesma função, era uma janela existente numa das paredes do quarto de dormir.

O piso era feito de toscas tábuas de carvalho, não aplainadas, a que o povo dava o nome de ratchons.

A designação – rachões – resulta da técnica que era empregada para se obterem as tábuas. Como não havia serra, serviam-se de cunhas espetadas em linha direita ao tronco de carvalho, e que, marteladas, provocam o rachamento do tronco dando origem aos ratchons.

As paredes eram formadas de pedras nuas encaixadas umas nas outras, depois de se lhes ter picado o leito, para um mais perfeito acerto, e o parelamento ou face, com o ponteiro ou pico.

O telhado de duas águas, bastante inclinadas para evitar acumulações de neve, oferecia ao interior a primeira camada da sua cobertura, constituída pela latiça, isto é, urzes finas acamadas sobre ratchons de carvalho. O emprego da urze devia-se ao facto de esta oferecer uma grande resistência ao tempo, chegando a haver latiças com uma duração de séculos. No entanto, também havia quem utilizasse a giesta para o mesmo efeito.

Piso, paredes, tecto e tapume, tinha tudo uma cor uniforme e levemente envernizada, que o fumo de muitos anos dá aos ambientes fechados e não renovados. Contudo, esta habitação apresentava algumas vantagens relativamente às temperaturas agrestes de longa duração e ao calor do verão.

No inverno, constituía um abrigo aconchegado e quente: a sua pouca altura e o colmaço da cobertura, que devido às sucessivas camadas de palha ali colocadas ao longo dos anos, chegava a atingir no exterior a espessura de 60 cm e mais, possibilitava a conservação do calor das duas fontes que no interior o produziam: a lareira e os animais abrigados logo abaixo na corte. Por outro lado, oferecia também frescura no verão, que lhe advinha do próprio colmo da cobertura do tecto, a funcionar então como superfície isoladora.

Ao lado da casa era construído o palheiro, também de dois pisos, destinado exclusivamente à arrecadação dos fenos, lenha, alfaias e colheita do ano.

A parte que dava para a rua levava um fetcho de lado. Invariavelmente, as últimas palavras pronunciadas antes da família recolher ao leito seriam estas: Corrête-lho fetcho? – Corrim.

 

Castro Laboreiro e Soajo – Habitação, vestuário e trabalho da mulher

Alice Geraldes

1979

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:50
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