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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

A CAPELA DEMOLIDA

melgaçodomonteàribeira, 05.04.14

 

 

A CAPELA DE SANTO ANTÓNIO

 

SITA NO CAMPO DA FEIRA DE DENTRO

 

FUNDAÇÃO

 

 

   A capela de Santo António, sita no Campo da Feira de Dentro, é obra da Confraria da Misericórdia e foi o seu provedor Pêro de Castro, o alcaide-mor de Melgaço, para sempre caído na infausta batalha de Alcácer Kibir, quem ali fez abrir os caboucos, como se infere do seguinte assento por outros deixado no Livro dos Provedores:

   «O Licenciado Gil Gonçalves Leitão juiz de fora que foi nesta vila e provedor que foi nesta casa fez acabar a ermida de Santo António de paredes que havia muitos anos que estava começada por ordem de Pêro de Castro, alcaide-mor desta vila».

   Como se alcança também desta memória escrita no ano de 1597, este juiz de fora, inacabada deixou a ermida quando da terra foi transferido por nela ter cessado as suas funções oficiais.

   Foi a mesa presidida pelo Licenciado António de Távora, outro provedor e outro juiz de fora, quem acabou as obras da ermida e nela fez cantar a primeira missa em 27 de Março de 1600, como desenvolvidamente se escreveu em Melgaço e as Invasões Francesas.

 

OS ALMOCREVES E A CONFRARIA DO SANTO

 

   Os mercadores de Melgaço eram então abastecidos de fazendas e de outras várias mercadorias pelas praças de Braga e de Guimarães dum modo mais saliente e neste negócio de traz e leva empregavam-se algumas dezenas de almocreves.

   Profissão como qualquer outra, esta marcava na terra pela rópia de uns tantos e pelo número elevado de servidores.

   Ora por obrigações hoje desconhecidas, mas contraídas anteriormente a esta data, os almocreves, como corpo moral, tinham-se comprometido com a Câmara não só a tomar parte nas festas religiosas em que os vereadores intervinham, como a do Corpo de Deus, a do Anjo e outras, mas também a representar nas respectivas procissões um jogo ou pantomina, conhecida então por fazer os diabretes ou fazer o diabo.

   Até hoje nenhum documento apareceu a desvendar a sua organização na terra; mas como em Vila Real de Trás os Montes sobre a mesma classe dos almocreves pesava igual obrigação de fazerem os diabretes, a pantomina devia aqui cifrar-se no mesmo: - umas tantas figuras, vestidas exoticamente, mas com simbolismo religioso a exaltar qualquer passo da religião; no fundo, uma fábrica de perenes gargalhadas e de constantes dichotes escarninhos do povo.

   Seja, porém, como foi; esta exibição pelas ruas da vila devia ser molesta à laboriosa classe dos burriqueiros de São Martinho, porquanto eles preferiram muitas vezes pagar multas mais ou menos pesadas a comparecer nas procissões, onde de contínuo eram alvo de gracejos e de chufas do povo.

   Ora o licenciado António de Távora, juiz de fora, e como tal presidente da Câmara, sendo provedor da Santa Casa aproveitou a animosidade dos almocreves em fazer os diabretes e conseguir comutar-lhes esse jogo numa confraria do glorioso Santo, instituída na referida capela, com a obrigação de duas missas rezadas cada mês.

 

DEMOLIÇÃO DA CAPELA

 

   O arrefecimento da devoção a este santo taumaturgo veio com o rodar dos tempos e a consequência do facto foi o desinteresse de todos pela capela. Em 1773 ameaçava ruína e por isso «dentro dela se anda rectificando e se lhe faz um grande acrescentamento» disse o P.e Manuel da Ribeira, abade da vila.

   No ano confrarístico de 1842-1843 gastou a Misericórdia mais de duas dezenas de escudos na compre de barrotes para o telhado desta capelinha e conserto do mesmo.

   Nos princípios de 1854 estava «em partes completamente arruinada e até próxima a ir a terra».

   No ano de 1867 foi assinada pela Câmara a sua demolição.

   Ora com o demolimento da capelinha de Santo António nasceram a regularidade, as proporções e a tal ou qual harmonia da nossa sala de visitas, antigo Largo do Comércio e actual Praça da República.

 

Obras Completas

Augusto César Esteves

Volume I  tomo 2

Edição Câmara Municipal de Melgaço

2002

pp. 454, 455, 463, 466