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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

A CRUZ DE PENAGACHE - VERSÃO 2

melgaçodomonteàribeira, 02.11.19

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monte de penagache por teresalaloba

 

(continuação)

 

2

 

Outra versão que corre lá pelo mesmo pueblo raiano e que já devia ter história bem antes da existência da cruz, por isso será do domínio da fantasia, acha o narrador, tem a ver com a existência de uma gruta debaixo dos cotos de Penagache. Todos os avós contavam que ali, como noutros lugares semelhantes, se encontrava escondido um grande tesouro. As moedas de ouro e prata, as pedras preciosas e as joias eram tantas que uma pessoa sozinha não seria capaz de os tirar de lá, por isso a procura do tesouro seria uma tarefa de equipa. Uma noite, saíram três amigos que se davam como irmãos para tentarem a sua sorte na gruta. Não lhes faltava ousadia, mas a noite sempre arrefece o ânimo, tanta coisa pode sair das sombras, tantas almas penadas escolhem os lugares mais recônditos para cobrarem pelos seus pecados, o melhor era manterem-se bem juntos, até porque a lanterna alumiava pouco e a fraca luz faz fraca a forte gente.

Ter-se-ão introduzido na gruta de que conheciam a entrada e os perigos associados ao seu interior, o que terão encontrado ninguém o sabe ao certo, mas o que foi do domínio público foi a desavença ocorrida lá mesmo, nas entranhas da terra, debaixo dos cotos de Penagache. Dois dos pesquisadores do tesouro agarraram-se ao mesmo cordão, cada um puxando para seu lado no fito de levar a melhor sobre o outro. Uma rajada de vento, surgida sem se perceber como, apagou a lanterna e deixou-os na maior escuridão. Enquanto os dois que se gladiavam pela corrente de ouro continuavam a sua peleja, o terceiro, borrado de medo, conseguiu alcançar a entrada da gruta e saiu à procura do céu estrelado e do luar. Respirando a plenos pulmões, aproveitou para exortar os outros a pararem, mas não deu conta de mais nada, não via, não ouvia, ninguém dava qualquer sinal. A solidão era tão pesada como o medo do escuro que o fizera abandonar a cova, pelo que meteu os pés ao caminho e correu para casa, tropeçando aqui, caindo, levantando-se, retomando o regresso ao convívio dos seus. No dia seguinte foi à procura dos amigos, mas não estavam em casa. E no outro também não. Só quando a ausência se tornou intrigante é que teve coragem de contar a façanha em que se tinham metido. Meia dúzia de homens empreenderam a caminhada até aos cotos de Penagache, o rapaz com eles para os orientar na entrada da lapa. Deram com os dois caídos no chão, um com uma navalha espetada na garganta, o outro com a cabeça empapada em sangue, parecia ter batido numa pedra e ali ficara. O primeiro estava morto, o segundo moribundo, quase inaudíveis as palavras que conseguia balbuciar.

Do tesouro não havia sinal e não fora a dor verdadeira que emanava do sobrevivente daquela aventura ninguém acreditaria nele. Ainda houve quem quisesse culpá-lo da morte dos dois amigos, mas o estado de catatonia em que ficou, incapaz de dizer coisa com coisa, autoflagelando-se e sem sentido de orientação livraram-no da justiça. A família dos finados para dignificar o lugar de partida de almas arrancadas ao corpo contrariando a lei natural da vida.

 

(continua)

 

A CRUZ DE PENAGACHE - VERSÃO 1

melgaçodomonteàribeira, 26.10.19

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davidexordos - pt.wikiloc.com

 

A CRUZ DE PENAGACHE

(uma história, três versões)

 

1

 

Os mais antigos falam dela como de algo quase imaterial, inacessível, mas com uma presença na memória que a passagem do tempo não diminui. Poucos a viram, mas o que testemunharam e sobretudo ouviram não dá para esquecer os arrepios que o desconhecido provoca quando algo inexplicável se nos impõe e lembra a fragilidade de que somos feitos, como a vida é um presente que nos dão mas também nos podem tirar, sem respeito nenhum pela condição de filhos de Deus, que a todos cria da mesma maneira, iguais. Os mais novos, desafiando a distância e os maus caminhos, singram, planalto fora, nas motas que o dinheiro e a vaidade de parecer, de ter o que os outros têm, e se possível ainda melhor (a inveja é um mal geral), chegam lá e detêm-se a espiolhar tudo, com um vagar que os anciãos não tinham. Não têm fardos à espera para fazer chegar a um qualquer destino, do lado de lá ou de cá da raia, os negócios que por ali ainda se fazem estão facilitados e têm subtilezas que afastam os que têm alguns escrúpulos. Também não têm afazeres no eido, o ócio é nos dias que correm a ocupação principal de uma juventude mais ou menos letrada que vive a expensas da família até terem cabelos brancos.

Pelo registo na pedra que a encima, 1911 ou 1912, o escriba fala de ouvido, não há ninguém para dar testemunho nem da sua construção nem do porquê da mesma. Os mais antigos do lugar mais próximo do lado espanhol contam, esvaziada a chávena do café e a copa da aguardente, que ali mataram um português, um ajuste de contas para lavar a honra de uma irmã iludida e enganada. Não era muito comum, mas acontecia portugueses e galegos conviverem nos montes quando guardavam o gado e os rapazes frequentarem os bailes e festarolas de um e outro lado da fronteira. Um rapaz do Souto e uma rapariga de Santo Amaro conheceram-se numa romaria e os encontros passaram de ocasionais a procurados. A moça tomou-se de amores, pensou que era correspondida e o que tinha de acontecer aconteceu. Algum tempo decorrido tornou-se o namoro evidente, a rapariga não conseguia esconder a proeminência progressiva do ventre. Instada pelos irmãos a denunciar o oportunista, quis ela remediar, avisando o namorado que urgia assumir a sua responsabilidade. Aparentemente, o amor não o consumia e não estava pronto para ser homem, perdida a honra da moça, perdia ele a sua, abandonando-a, não estava sozinha no mundo, tinha muitos irmãos para a ajudarem a criar o filho.

Os três irmãos uniram-se para cobrar a desfeita, até um garoto ainda menor de idade tomou parte no desforço. Observaram as idas e vindas do bandalho pelos caminhos da serra e uma noite surpreenderam-no nas pedras de Penagache. A probabilidade de encontrarem alguém era mais do que mínima e, sem testemunhas, fizeram-no pagar a sua dívida com o bem mais precioso que tinha: a vida. Deixaram o corpo exposto ao tempo, sem qualquer resquício de respeito, abandonado no lugar onde foi encontrado em adiantado estado de decomposição. Foi identificado pela roupa e pelo anel que usava no dedo mindinho da mão direita. A família, amargurada por uma vida ceifada tão antes de tempo, mandou fazer uma cruz no alto da pedra na base da qual o tinham encontrado. Das razões que o teriam levado àquele fim não queriam saber, ou sabiam e calavam-se para não dar mais força às vozes viperinas do povo.

 

O GUERRILHEIRO EM CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 28.09.19

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INTENTO DE DETENCIÓN DE MANOLO (VICTOR GARCÍA “EL BRASILEÑO”) POR LA GUARDIA FISCAL PORTUGUESA

 

El intento de detención de Manolo (Dente de Ouro) es ya  leyenda popular.

La mayoría de gente de Pereira – Portugal, lo conocía. Aqui contamos la versión de Domingo Alonso (D.A.R.) una de las personas más próximas a los protagonistas en el territorio y personalmente.

El 2 de Mayo de 1943 por la noche, en Castro Laboreiro después de una cena conjunta en la que participaba Manolo, un guarda fiscal llamado Carlos intentó deternele. Al parecer hubo un diálogo previo:

“Señor Manolo, dese preso”.

“Déjeme en paz si no quiere tener problemas” le respondió.

El diálogo finalizó cuando, sintiéndose acosado Manolo, le disparó desde el bolso de la gabardina y le mató.

Huyó para Ribeiro de Cima, y se refugió en casa de Rosa Alves “La Africana”. Probablemente en este acidente participó también  “Enrique” (Ramón Yañez).

Estando en Ribeiro de Cima en casa de “La Africana”, Manolo fue cercado por unos veinticinco (25) guardias fiscales. Primero salió “Enrique” por un agujero hecho en la pared de la casa, com acuerdo previo de cubrir luego la salida de Manolo. No obstante “Enrique”, al verse acosado por los guardias, huyó. Salió luego Manolo por la puerta que daba al camino y gritó a los guardias:

“Dispararé al primero que se mueva!”.

“Oh, señor Manolo. Usted no debe hacer eso” respondió el jefe de los guardias.

La situación de la casa al lado del camino y la estrechez de éste, facilitó que probablemente Manolo les pudiese apuntar com sus armas a uno o a varios de ellos. Manolo se fue alejando sin que se atreviesen a dispararle.

José (J.A.P.) transmitía la creencia popular de que los guardias le tenían miedo.

Cuando ya estaba lejos abrieron fuego. Manolo huyó para siempre.

En la zona no se supo más de él, aunque su persona y sus hechos fueron recordados durante mucho tiempo y siguen vivos en la historia del lugar.

 

Retirado de: Víctor García G. Estanillo el Brasileño

http://blocs.tinet.cat/lt/blog/victor-garcia-g.-estanillo-el-brasileno

 

UM CONCURSO DE CÃES DE CASTRO EM 1971 I

melgaçodomonteàribeira, 11.05.19

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concurso de 1971

 

EM CASTRO LABOREIRO

TERRA DE EMIGRANTES E CÃES FAMOSOS

 

Melgaço foi o local de encontro de pessoas de Lisboa, do Porto e de Viana que iria superintender no concurso. Depois de almoçadas, ei-las pela estrada acima, na subida de uma trintena de quilómetros. Quando os juízes e demais comitiva lá chegaram já os concorrentes aguardavam impacientemente a chegada daqueles que iriam ditar a sorte dos seus exemplares. Para os menos avisados no assunto, como o repórter, logo ressaltaram vários pormenores que chamaram a sua atenção.

O certame realizava-se na «artéria» principal da povoação – Largo do Eirado – mesmo defronte da igreja (cuja primeira pedra remonta de há mais de oito séculos) e à porta das principais autoridades da terra: abade, presidente da junta e regedor.

Pois para além da circunstância do concurso se realizar na via pública (a fazer lembrar uma «passarelle» em plena Praça da Liberdade…), pormenor que igualmente nos despertou a curiosidade foi o facto dos exemplares se apresentarem como que «descalços» e as donas de avental à cinta e lenço pela cabeça.

Com efeito, no Estoril, no Porto e em Lisboa, estávamos habituados a ver desfilar no ringue exemplares cuidadosamente tratados e o sexo feminino primar pela elegância, vestindo pelo último figurino, de tal modo que o assistente menos dado à canicultura não sabe que mais admirar, se o garbo de o cão concorrente ou a distinção de quem o conduz pela trela. Pois em Castro Laboreiro os cães eram presos por nagalhos e cordas, raramente por coleira. Puxados e não exibidos por gente «fardada», de tamancos ou de botas, por mulheres «uniformizadas» de preto. De preto porque ali predomina o luto, de tal forma que até se diz que em Castro Laboreiro as mulheres dão viúvas de homens vivos.

 

Terra onde não há pobres

Disse-nos o pároco da freguesia, Rev. Padre Aníbal Rodrigues: «A emigração aqui é habitual. É tão antiga como a própria terra. O homem de Castro Laboreiro nunca se sujeitou a um nível baixo. Foi sempre sua ambição ganhar muito.»

Por isso, aquela freguesia é uma comunidade de mulheres. Mulheres que, durante a ausência do pai, do marido, dos filhos, se vestem, dos pés à cabeça, de negro. É tradição de há longa data. Só quando os «homes» regressam as vestes escuras dão lugar a outras de cor garrida.

Prosseguiu o nosso interlocutor: «Primeiramente os homens de Castro Laboreiro emigraram para todo o país. Depois, a grande atracção foi a Espanha e agora a França. Mas hoje não há terra onde não haja gente nossa: Brasil, Argentina, México, Taiti, Turquia, Gibraltar, Estados Unidos, Holanda, Austrália, Paquistão. Em toda a parte. Os nossos operários são altamente especializados em betão armado. De tal modo conceituados que, quando do rebentamento de diques na Holanda, foram para lá especialmente contratados. Outro exemplo elucidativo da categoria da nossa mão-de-obra: nas bases americanas na Turquia há gente daqui.»

 

«Castro Laboreiro»: Raça que teve os dias contados

O cão da raça «Castro Laboreiro» é um extraordinário cão de pastor «ai de quem toque no gado!» e cão polícia. Mas deixemos o padre Aníbal Rodrigues, personalidade altamente credenciada na matéria, falar sobre aquela raça: «É um cão excepcional, quer em faro, quer em inteligência em valentia e docilidade. Como companhia, também não há melhor. É duma fidelidade a toda a prova. Tem um sentido de justiça que impressiona. Se o dono o castigar sem razão o animal nunca mais lhe liga, pois o cão de Castro Laboreiro tem grande aversão à injustiça».

Pois esta tão «sui generis» raça nacional, que o Exército presentemente utiliza como cães-polícia (ainda há pouco recrutou 50 naquelas paragens) e desperta o interesse dos canicultores de todo o país, esteve em vias de desaparecer, tal como acontece presentemente com o «Serra da Estrela». A raça, através dos tempos, foi-se degenerando pelo cruzamento com outras espécies. Foi então que desde há 17 anos, em Castro Laboreiro – o solar da raça – vêm sendo realizados concursos, promovidos pela Intendência de Pecuária de Viana do Castelo, em estrita colaboração e com o apoio técnico do Clube Português de Canicultura com sede em Lisboa, (entidade que no nosso país superintende na canicultura nacional) exactamente com a finalidade de fomentar e preservar aquela variedade.

Dizia-nos o Dr. Teodósio Marques Antunes, Intendente Pecuário de Viana, que no primeiro concurso estiveram presentes apenas 9 animais e desses só 2 eram exemplares mais ou menos característicos. «Tudo o resto era uma salada russa».

 

«Como a ti»

Coisa esquisita também, que chamou a nossa atenção, é o nome que aquela gente põe aos seus cães.

Quando alguém pergunta o seu nome, a resposta é do género: «Que lhe diga ele», «Não se diz», «Pergunta-lhe», «Como a ti», etc.

 

(continua)

 

A HABITAÇÃO CASTREJA DO ANTIGAMENTE

melgaçodomonteàribeira, 27.04.19

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castro laboreiro

 

A ESTRUTURA DA HABITAÇÃO TRADICIONAL

 

 Como em todas as sociedades de tecnologia primitiva e onde o meio natural se apresentava muito pouco diversificado quanto a materiais utilizáveis, também na antiga sociedade castreja qualquer das realizações materiais, levadas a cabo pelo homem, trazia impressa a marca do ambiente. Por outro lado, o sentido de equilíbrio que o artesão sempre realiza em toda a sua obra, permitiu também que aqui existisse uma adequação formal da casa à natureza que a cercava. Portanto, nas antigas construções de Castro Laboreiro, estiveram presentes estas duas marcas naturais, que ao fim e ao cabo se resumem numa só: a marca do equilíbrio entre o homem e a natureza.

Efectivamente, os únicos materiais empregues na construção foram o granito arrancado ao chão e às rochas; a madeira que crescia nas matas; a palha de centeio que o homem produzia e a urze que espontaneamente se criava em profusão. Quanto à própria estrutura, não ia além de um modelo simples de linha direita, de área estritamente necessária ao abrigo da família, dos animais e da alfaia agrícola e ao armazenamento da produção.

A casa era pois uma peça de tal maneira integrada na paisagem, pela cor e pela forma, que cada um dos lugares, composto de muitas dessas casas, quando visto de longe, configurava uma das variadíssimas formações rochosas em que se capricha a natureza de Castro Laboreiro. Ainda hoje este quadro é-nos sugerido pelos pequenos conjuntos de habitações de tal tipo existentes em lugares outros que não a «vila», embora já destacados do meio natural por força do contraste que a este oferecem as novas construções, que surgiram no seu interior ou à sua volta.

Curiosamente, e reportando-nos ainda a esse tempo, a única marca imediatamente visível da acção do homem sobre a natureza devia ser a que era formada pelas manchas coloridas dos barbeitos cultivados sempre em zonas distantes da zona habitada. Esses, sim, contrastavam pela macieza dos seus verdes e pela geometria dos seus contornos, com a cor parda cinzenta dos grandes e irregulares rochedos, erguidos à volta de Castro Laboreiro.

Mas se a estrutura da casa se harmonizava com a natureza e satisfazia por outro lado necessidades de abrigo, não satisfazia de maneira eficaz as exigências de comodidade das pessoas que a habitavam, embora tais exigências se reduzissem àquele mínimo determinado pelas próprias condições em que decorria a sua existência.

Na verdade, ninguém em Castro Laboreiro que tivesse experimentado o desconforto destas habitações, a elas se refere sem ser em manifesto repúdio pelas condições de vida que a tal obrigavam. Contudo, não aceitamos o quadro desumanizado que nos foi deixado por José Augusto Vieira, na sua obra «Minho Pitoresco»: «Anexo a este interior, o que há de mais sórdido, de mais negro pelo fumo, e de mais anti-higiénico, ficam as cortes para os gados». Vista assim, a casa mais nos parece um «covil» para animais selvagens que propriamente um abrigo para os homens. Com outros olhos a viu José Leite de Vasconcelos no seu artigo «Viagem a Castro Laboreiro», publicado na Revista Lusitana, vol. XIX. A descrição que a seguir vamos tentar esboçar deste tipo de casa, resulta das visitas que fizemos a algumas das que a despeito das transformações que lhes foram introduzidos, ainda conservam o essencial da estrutura primitiva, e resulta igualmente das informações que fomos colhendo junto das pessoas que habitaram ou conheceram a casa tradicional antiga.

Era uma casa pouco alta, de linha direita e forma rectangular, composta de dois pisos: o piso de cima destinado ao abrigo da família e o piso de baixo a corte dos animais. Esta corte tinha geralmente uma divisória ao meio, para apartar os animais que luitavam.

O andar superior, ou piso de cima, constava de dois compartimentos separados por um tabique de madeira cuja altura não ultrapassava a das paredes, ficando portanto descoberto o espaço que ia destas ao cumio.

Do primeiro compartimento, a cozinha, quase sempre ampla, passava-se por uma porta aberta a meio do tabique para o resto da casa, constituído de uma só peça e que funcionava como quarto de dormir comum a toda a família, fosse esta grande ou pequena.

O acesso ao interior da casa fazia-se por uma tosca escada sem resguardos laterais, quase sempre perpendicular à parede fronteira, no cimo da qual se abria a única porta com ligação para dentro da casa e que era também a única abertura por onde entrava a luz do dia na cozinha. A outra abertura, de dimensões muito reduzidas, com a mesma função, era uma janela existente numa das paredes do quarto de dormir.

O piso era feito de toscas tábuas de carvalho, não aplainadas, a que o povo dava o nome de ratchons.

A designação – rachões – resulta da técnica que era empregada para se obterem as tábuas. Como não havia serra, serviam-se de cunhas espetadas em linha direita ao tronco de carvalho, e que, marteladas, provocam o rachamento do tronco dando origem aos ratchons.

As paredes eram formadas de pedras nuas encaixadas umas nas outras, depois de se lhes ter picado o leito, para um mais perfeito acerto, e o parelamento ou face, com o ponteiro ou pico.

O telhado de duas águas, bastante inclinadas para evitar acumulações de neve, oferecia ao interior a primeira camada da sua cobertura, constituída pela latiça, isto é, urzes finas acamadas sobre ratchons de carvalho. O emprego da urze devia-se ao facto de esta oferecer uma grande resistência ao tempo, chegando a haver latiças com uma duração de séculos. No entanto, também havia quem utilizasse a giesta para o mesmo efeito.

Piso, paredes, tecto e tapume, tinha tudo uma cor uniforme e levemente envernizada, que o fumo de muitos anos dá aos ambientes fechados e não renovados. Contudo, esta habitação apresentava algumas vantagens relativamente às temperaturas agrestes de longa duração e ao calor do verão.

No inverno, constituía um abrigo aconchegado e quente: a sua pouca altura e o colmaço da cobertura, que devido às sucessivas camadas de palha ali colocadas ao longo dos anos, chegava a atingir no exterior a espessura de 60 cm e mais, possibilitava a conservação do calor das duas fontes que no interior o produziam: a lareira e os animais abrigados logo abaixo na corte. Por outro lado, oferecia também frescura no verão, que lhe advinha do próprio colmo da cobertura do tecto, a funcionar então como superfície isoladora.

Ao lado da casa era construído o palheiro, também de dois pisos, destinado exclusivamente à arrecadação dos fenos, lenha, alfaias e colheita do ano.

A parte que dava para a rua levava um fetcho de lado. Invariavelmente, as últimas palavras pronunciadas antes da família recolher ao leito seriam estas: Corrête-lho fetcho? – Corrim.

 

Castro Laboreiro e Soajo – Habitação, vestuário e trabalho da mulher

Alice Geraldes

1979

 

MELGAÇO, ACÇÃO CULTURAL E RECREATIVA

melgaçodomonteàribeira, 02.02.19

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fonte termal

ACÇÃO CULTURAL E RECREATIVA

 

A vila possui uma grande herança natural, histórica e cultural marcada pelo Parque Nacional Peneda-Gêres e pela recente revitalização do Parque Urbano Rio do Porto, pelos mais variados monumentos de arquitectura religiosa, civil e militar como as pontes romanas que se destacam pela simplicidade e plena integração na natureza (Rocha, 1993).

Esta região tem a sua origem no povo castrejo, de raça celta, que habitava as construções chamadas de castros e viviam com base no nomadismo entre terras serranas (brandas) durante os meses de maior calor e nas terras ribeirinhas (inverneiras) nos meses de temperaturas mais frias. Praticavam a caça, a pesca e a agricultura, cultivando na serra apenas a batata, centeio e pastagens, e na terra ribeirinha os cereais variados, fruta e vinhos.

Ao longo dos anos foram passando, pelo lugar de Melgaço, várias civilizações como os Romanos que ao longo do território deixaram marcas da sua cultura, através de construções como as pontes que vão ligando as margens do rio Laboreiro.

Após quatro ou cinco mil anos, este território continua a demonstrar uma forte ocupação humana. Aqui, tiveram grande destaque as culturas dolménica e castreja comprovadas pela presença de várias construções como as antas e os dólmenes e também alguns menires. Como monumento nacional adquiriu evidência o pelourinho, de 1560, e a igreja matriz, como exemplo do estilo românico do século XII, que mais tarde, em 1775, foi completada com um coro, torre e capela-mor.

O desenvolvimento gerado pelo comércio tradicional e serviços, adquiriu maior expressão através das obras de requalificação de alguns espaços públicos da vila, tais como: a Casa da Cultura; os Núcleos Museológicos da Torre de Menagem, da Praça da República, Memória e Fronteira e o Museu do Cinema; as Piscinas Municipais; a revitalização das margens do Rio do Porto; o Centro Cordenador dos Transportes; e a praça urbana no recinto da feira, que vão proporcionando o aumento do turismo através do impulso cultural, social e de lazer.

Deste modo, quando visitamos a vila, o acesso e reconhecimento dos diversos espaços museológicos existentes no concelho é simples e rápido, mostrando a valorização do património enquanto conjunto através da criação de uma rede denominada Melgaço Museus, da qual fazem parte o Núcleo Museológico da Torre de Menagem e as Ruínas Arqueológicas da Praça da República, Núcleo Museológico de Castro Laboreiro, Museu de Cinema e Espaço Memória e Fronteira. O Núcleo está instalado na Torre de Menagem do Castelo, em plena zona histórica, valorizando a Torre e dando a conhecer o património arquitectónico, histórico e cultural de Melgaço. Associadas a este Núcleo existem as Ruínas, situadas na Praça da República, onde é possível observar e interpretar parte da história medieval do concelho. O Espaço Memória e Fronteira é dedicado à preservação da história recente do concelho, relacionada com o contrabando e emigração, conduzindo o visitante pelas histórias da História. O Núcleo Museológico de Castro Laboreiro centra-se na história e tradição da freguesia de Castro Laboreiro, a maior e mais antiga do concelho. Divulga aspectos relacionados com a paisagem e com as vivências locais. Na casa anexa à sede, numa construção tipicamente castreja, é retratado o ambiente de uma casa local, na segunda metade do século XX. O Museu de Cinema de Melgaço – Jean Loup Passek, inaugurado em 2005, encontra-se instalado em plena zona histórica da Vila, no edifício da antiga guarda-fiscal. Tem por base o espólio coleccionado ao longo da vida pelo francês Jean Loup Passek e doado ao Município, conta com duas exposições, uma de carácter permanente e outra temporária, distribuídas pelos dois andares do edifício. A Casa da Cultura de Melgaço é um serviço público, que tem por finalidade promover e valorizar o património cultural de Melgaço, com o objectivo da compreensão, permanência e construção da identidade do concelho e a democratização da cultura. É um espaço de encontro e convívio aberto à intervenção e dinâmica cultural do concelho (Melgaço, 2013).

No parque termal do Peso, os edifícios da fonte termal e do balneário apresentam-se como exemplos únicos da arquitectura do ferro e arquitectura neo-clássica que devem ser incluídos neste grupo de elementos culturais, diversificando a oferta e valorizando este espaço termal. Observando o parque percebemos rapidamente as suas enormes potencialidades, com uma envolvente natural propiciadora de actividades ao ar livre e grande dinamismo social e cultural.

Os locais de lazer, recreio e cultura são sempre necessários à promoção de um equipamento, onde os espaços exteriores complementam os interiores, fomentando o pleno equilíbrio entre vertentes terapêuticas e paisagísticas, conservando e valorizando a permanência num ambiente propício à saúde e bem estar.

 

Medeiros, Daniela Faria Vilela Lourenço

RECUPERAÇÃO E REVITALIZAÇÃO DO PARQUE TERMAL DO PESO

http://hdl.handle.net/11067/1506

Universidade Lusíada do Porto

Dissertação para obtenção do Grau de Mestre

Porto 2013

 

O AMOR DO PADRE ANÍBAL

melgaçodomonteàribeira, 26.01.19

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distribuição dos dólmens no planalto de castro laboreiro

 

 

OS DÓLMENES DE CASTRO LABOREIRO

                                                                         Por P. Aníbal Rodrigues

Castro Laboreiro, situada na extremidade da Alto Minho, a nascente de Melgaço e a uma altitude de 932 metros, constitui uma região de extraordinária beleza, onde os seus vales amenos, os planaltos extensos e a serra agreste se harmonizam maravilhosamente, dando à paisagem cambiantes de rara grandeza. Banha   da pelas águas cristalinas do Rio Laboreiro e embalada pelas maviosas canções da sua rápida corrente, é uma região bela cheia de micro-climas desde a terra fria que produz unicamente batata, centeio e pastagens até à parte quente e ribeirinha em que se cultiva toda a espécie de cereais, fruta e vinhos. Desde 1271 até 1855 foi esta região Vila e sede de concelho com Alcaidia e tribunal a que estava entregue o destino da sua população. Pertença do Condado de Barcelos até 1834, Comenda da Ordem de Cristo desde 1319, Castro Laboreiro ocupou um papel de grande relevo, quer na independência Pátria, quer na Guerra da Restauração, desde 1640 a 1707. Defendida pelo seu inexpugnável Castelo, manteve-se sempre fiel ao ideal pátrio, sem nunca se vender ao estrangeiro. Desde 1136, data em que D. Afonso Henriques visitou Castro Laboreiro até ao presente, o povo castrejo conservou-se sempre coerente consigo mesmo e de um portuguesismo a toda a prova. Hospitaleiro, folgazão e alegre, o castrejo reúne em si as qualidades e defeitos do povo minhoto e a firmeza e carácter do transmontano. Vivendo nas faldas da Serra da Peneda, é um povo de uma maneira de viver sui-géneres.

Embora alguns pseudo-historiadores de antanho tenham apresentado o povo castreja como originário de habitantes degradados nesta região, a sua origem confunde-se com o Homem da Pedra ou do Megalítico Ocidental. Compulsando os seus documentos, gravados em pedra, há já 4.000 e 5.000 anos, que a acção destruidora do tempo e a mão demolidora do homem não lograram fazer desaparecer, verificamos que nesta região se desenvolveram sucessivamente duas grandes culturas que atingiram um grau elevado de civilização: - A Cultura Dolménica e a Cultura Castreja. Percorrendo o lindo e extenso planalto de Castro Laboreiro, que nos lembra a meseta ibérica, podemos observar os numerosos e notáveis dólmenes que se dispersam por todo o planalto, dando-lhe um aspecto de grandiosidade histórica, raras vezes encontrada numa região. As tribos nómadas, que povoaram o planalto, viviam da caça, da pesca e da cultura do trigo, centeio, cevada e aveia, bem como da pastorícia, depois que conseguiram domesticar o boi, o porco, o carneiro e a cabra. Da sua permanência nesta região restam-nos os numerosos dólmenes a que o povo liga as belas lendas das moiras encantadas à espera de um valoroso cavaleiro que um dia lhes quebre o encanto e as faça suas esposas. Em noite de São João toda a sua riqueza ficará exposta ao ar para arejar e ser aquecida pelo sol do dia. Os dólmenes desta região estão colocados em sistema ternário e são geralmente constituídos por sete esteios e uma mesa ou chapéu. Além da câmara funerária têm o corredor, com a porta de entrada voltada sempre para nascente. Em todos eles foram inumados as cinzas dos chefes tribais, uma vez que são cercados e cobertos pelas mamoas. Alguns foram já violados, embora o seu principal recheio se encontre praticamente intacto, no que diz respeito aos machados, raspadores, coup de poing, pontas de sílex e de quartzo, etc. Os vasilhames de cozinha ou das cinzas foram destruídos nos dólmenes violados, por se julgarem cheios de ouro e outros metais preciosos. Há-os ainda virgens onde a mão do homem não logrou devassar. Na destruição das mesas ou chapéus dos mesmos tiveram um papel importante a cobiça da laje para a construção de casas nesta freguesia e os trabalhos realizados pelos tractores dos Serviços Florestais, cujos óleos eram mudados em cima das mesas dos dólmenes, quebrando-as. Vale a pena preservá-los da sua completa destruição, fazendo um inventário de todos eles e declarando-os imóveis de interesse público e pré-histórico. Eles constituem, além do património cultural e pré-histórico de Castro Laboreiro, preciosas relíquias do passado e pelas quais podemos aquilatar o grau de cultura daquele povo, como a evolução do homem do paleolítico, mesolítico e neolítico. Seria de muito interesse para a cultura e para o turismo que todos estes monumentos funerários estivessem mencionados e localizados nos mapas e itinerários publicados pelo Parque Nacional de Peneda – Gerês. Facilitaria aos estudiosos destas coisas pré-históricas e aos turistas a sua mais fácil localização.

 

    Castro Laboreiro, 27 de Julho de 1978.

 

 

 

SANTA MARIA DE CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 22.12.18

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em 1910

PARÓQUIA DE CASTRO LABOREIRO (SANTA MARIA)

 

A primeira referência conhecida a esta igreja remonta a 1141, ano em que D. Afonso Henriques coutou o mosteiro de São Salvador de Paderne, em reconhecimento pelo auxílio que lhe prestou a sua abadessa, D. Elvira Serracins, “quando tomavit dominus rex castellum de Laborario”.

No catálogo das igrejas situadas ao norte do rio Lima, que o rei D. Dinis mandou organizar em 1320 para a determinação das taxas a pagar, Santa Maria de Castro Laboreiro pertencia, na época, à Terra de Valadares.

Em 1546, na avaliação efectuada no tempo do arcebispo D. Manuel de Sousa, a igreja de Santa Maria de Castro Laboreiro, avaliada então em 60 mil réis, figurava na Terra da vila de Melgaço.

No Censual de D. Frei de Baltasar Limpo (1551 – 1581) que descreve a situação canónica dos benefícios eclesiásticos da comarca de Valença do Minho, diz-se que esta igreja fora da apresentação do rei e, depois, do duque de Bragança, por doação régia. No aludido documento, Castro Laboreiro pertencia ao julgado do mesmo nome e era comenda.

Américo Costa descreve-a como reitoria da apresentação da Casa de Bragança e Comenda da Ordem de Cristo, na antiga comarca de Barcelos, sendo sua donatária a Casa de Bragança.

Em termos administrativos pertenceu, em 1839, ao concelho de Ponte de Lima, aparecendo em 1853 como sede do concelho de Castro Laboreiro, na antiga comarca de Monção. Em 1878 passou a fazer parte do julgado de Fiães e posteriormente ao concelho de Melgaço.

Pertence à Diocese de Viana do Castelo desde 3 de Novembro de 1977.

 

Retirado de: Arquivo Distrital de Viana do Castelo

http://digitarq.advct.dgarq.gov.pt/ditails?id=1070101

 

CASTELOS DE MELGAÇO, CASTRO LABOREIRO E A RAIA

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castelo de melgaço 1913

 

FRONTEIRA DO MINHO

 

A monte de Valença, e em frente à praça espanhola de Salvaterra de Miño, situava-se a posição fortificada de Monção e, a seguir, o último lugar deste rosário de povoações da “borda-Minho”: Melgaço. Aqui, o rio circula apertado entre vertentes abruptas, ficando o lugar no topo da vertente. Ponto estratégico importante desde os princípios da nacionalidade, na antiga estrutura defensiva, que ainda existe mas sofreu várias obras de remodelação, sobressai uma torre quadrangular no centro de um pátio, a que se acrescentou, no século XIII, uma muralha envolvendo o núcleo urbano. Quatro séculos depois, foi transformada, como outras, numa fortaleza abaluartada, com uma frente alongada, onde se situava o Campo da Feira. Com Valença, Melgaço constituíra o primeiro conjunto de sítios fortificados da margem do Minho, a que acresceriam, nos reinados de D. Afonso III e D. Dinis, Monção, Caminha e Vila Nova de Cerveira, regularmente espaçados. Mas, em finais de Setecentos, perdera já interesse para a defesa da raia e, estando as instalações militares arruinadas, também não se consideraram úteis as despesas que a sua reconstrução implicava.

Depois de Melgaço, os lugares fortificados eram escassos e já nada tinham a ver com os da orla do rio. Castro Laboreiro, em plena serra da Peneda, fica já um pouco afastado da raia (mais de 5 km em linha recta). De origem muito antiga, o castelo localiza-se a sul da povoação, num topo que se eleva a mais de 1000 m, onde se abrigavam homens e gados em caso de ameaça espanhola. Conquistado por D. Afonso Henriques antes de meados de século XII e reformado 150 anos depois, devido à profunda ruína que o ameaçava, o aspecto actual deriva em grande parte dessa reconstrução efectuada no reinado de D. Dinis. Ele testemunha hoje a atenção que, para a defesa do território nacional, a Coroa dedicou então à raia seca.

 

 

Retirado de: FINIS PORTUGALIAE = NOS CONFINS DE PORTUGAL

                    Cartografia militar e identidade territorial

                    Autores: Maria Helena Dias e Instituto Geográfico do Exército

                    2009

 

 

http://www.igeoe.pt

 

ANIVERSÁRIO DO BLOG e O HOMEM E A TERRA

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de

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

 

 

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O PELOURINHO DE CASTRO LABOREIRO

 

(…)

Embora Castro Laboreiro fosse erecta Vila e sede de concelho por foral concedido por D. Afonso III, em 1271, o que correspondia ao direito de pelourinho, o actual monumento, desta antiga Vila, data de 1560, tendo-lhes sido concedido novo foral por D. Manuel I em 1513. Constituído por três degraus, uma base, fuste, gola e capitel, rematado por pequena pirâmide, presidiu aos destinos desta região desde 1560 até 1860, data na qual foi apeado do seu legítimo lugar e dispersos todos os seus elementos para naquele local se construir uma casa particular. Os degraus desapareceram para sempre, não havendo possibilidade da sua recuperação. A base consegui descobri-la a fazer parte de um muro de um quinteiro. O fuste encontrei-o a servir de lintel ou padieira na chaminé da casa construída onde ele se encontrava antes de ser destruído. Preocupado com a sua restauração continuei sempre em investigações para descobrir o seu capital. Depois de numerosas pesquisas, fui encontrá-lo a servir de óculo de luz numa casa em ruínas, a uns trezentos metros do local, onde outrora se levantava este monumento. Colocado à altura de uns seis metros num muro dobrado e de alvenaria irregular, dificilmente se poderia verificar se era pertença do pelourinho ou não. Facilitou-me o seu reconhecimento o facto de ser trabalhado a pico fino e de ter a gola circular voltada para fora. Somente em 1978 me foi possível desmontá-lo do respectivo muro com o auxílio dos pedreiros reconstrutores das muralhas do Castelo. Depois do mesmo se encontrar no solo pude averiguar que era verdadeiramente o capitel do antigo pelourinho de Castro Laboreiro, pelo facto de na face interior ostentar uma gola circular com a espessura de 5 centímetros aproximadamente; e na superior um rebaixe de uns 4 centímetros, onde poisava a pirâmide que rematava este pelourinho. Não me foi possível descobrir a pequena pirâmide.

Os trabalhos de investigação para reunir os três principais elementos constitutivos desta preciosa relíquia do passado, prolongaram-se durante vinte e quatro anos. Mas como saber o estilo e forma deste pelourinho para a total identificação dos seus elementos e sua restauração?

Mercê dos trabalhos de investigação do estudante Soeiro de Carvalho no Arquivo Distrital de Viana do Castelo, conseguiu descobrir-se um esboço muito perfeito deste pelourinho, efectuado pelo sr. coronel Fernando Barreiras, em Julho de 1917, data em que fez uma visita de estudo a Castro Laboreiro; e que, servindo-se das preciosas informações de Castrejo sr. Melchior Gonçalves, que ajudara a desmontar e a destruir este antigo pelourinho em 1860, conseguiu com muita precisão representar a lápis este monumento no artístico esboço de todas as peças constitutivas do mesmo, descrevendo com bastante aproximação as respectivas medidas de cada um dos seus elementos, que acompanha este trabalho.

Foi com este referido esboço e memória descritiva de todas as peças de que este monumento constava, que consegui levar a Direcção dos Edifícios e Monumentos Nacionais do Norte a reconhecer como autênticos todos os elementos descobertos podendo assim solicitar àquela entidade a sua imediata restauração.

Quero manifestar publicamente o meu sincero agradecimento a todos os donos das propriedades urbanas, onde as peças em referência se encontravam, pela cedência voluntária das mesmas. Não posso deixar de expressar, como filho de Castro Laboreiro e humilde estudioso destes monumentos, raízes desta região, o meu eterno agradecimento aos meus estimados amigos, sr. dr. Oliveira e Silva, digníssimo Governador Civil de Viana do Castelo; ao sr. engº José Maria Moreira da Silva digníssimo Director do Parque Nacional Peneda-Gerês; ao sr. arquitecto Roberto Leão, do Planeamento do Porto; ao sr. professor Carlos Alves, digníssimo Presidente da Câmara Municipal de Melgaço, e ao sr. Adelino Esteves, digníssimo Presidente da Junta de Freguesia de Castro Laboreiro, por todo o auxílio e apoio que tiveram a bondade de me dispensar, patrocinando uns, a sua imediata restauração; e outros, além do seu contacto com as entidades responsáveis, a oferta do seu auxílio pecuniário. Bem hajam por todo o interesse que me concederam. A imediata restauração de tão belo e histórico monumento será a recompensa bem merecida de todos estes auxílios e trabalhos a bem da cultura nacional, que tão precisada anda de trabalhos de tamanha monta.

 

Castro Laboreiro, 10 de Fevereiro de 1979

Padre Aníbal Rodrigues

 

Retirado de:

http://www.gib.cm-viana-castelo.pt