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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

CONTRABANDO, A FROTA EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

A FROTA



   Frota era o termo como se vulgarizou o contrabando. Foi uma invenção do Ná. Em 1940 a guerra mundial estava no auge germânico. A Melgaço chegavam as notícias através dos poucos rádios existentes, dos jornais e principalmente das revistas de propaganda enviadas pelas Embaixadas dos países envolvidos no conflito. Essas revistas eram maravilhosas em aspecto gráfico, coloridas, quase só com fotografias mostrando o progresso dos exércitos dos países em questão. Quem distribuía as revistas inglesas (em língua portuguesa, umas e outras) era o António Reis e o Alfredo Pereira (Pandulho); e as alemãs o Hilário. Este, além de distribuir as revistas expunha nas suas vitrines cartazes e fotografias do cenário da guerra, exibindo o sucesso nazista.

   Nos primeiros anos de guerra, em Melgaço, havia bastantes simpatizantes dos alemães.

   Então, falava-se muito no movimento das frotas marítimas, dos grandes navios, especialmente as frotas (comboios) que atravessavam o Atlântico com suprimentos americanos para os aliados. Os submarinos alemães botavam a pique parte dessas frotas.

   O contrabando em Melgaço era a única actividade do povo; acontecia, vez por outra, para mostrar serviço ou porque não lhes davam a ‘bola’ que esperavam, os guardas-fiscais prendiam as mercadorias. ‘Bola’ era a propina para fecharem os olhos. E este termo derivava da bola de carne com veneno que alguém incomodado dava, secretamente, aos cães vadios ou dos vizinhos para se calarem (morrerem).

   Quando, então, a guarda-fiscal pegava as mercadorias diziam: a Frota de fulano foi a pique. O termo se vulgarizou e passou a designar contrabando em todo o Alto-Minho e pessoas ficaram famosas e ricas como Frotistas.

 

Rio, 31 de Maio de 1996

 

Correspondência entre Manuel e Ilídio

 

LINA FILHA DE PÃ

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

     Joaquim Agostinho da Rocha nasceu em Cevide, Cristóval, Melgaço, a 12/6/44. Até aos seis anos de idade, viveu no lugar onde nascera; dos seis aos vinte anos residiu na vila da Melgaço, terra de sua mãe e seus avós maternos.

Em Janeiro de 1965, ingressou no serviço militar onde permaneceu até aos finais de 1967, tendo comprido quase dois anos nas matas da Guiné-Bissau. No regresso de África ficou a morar em Lisboa. Trabalhou como empregado de escritório, bancário, contabilista, bibliotecário, professor do ensino secundário…

     Ao longo da vida foi estudando: primeiro tirou o Curso Comercial; depois o Curso de Contabilidade (técnico de contas); mais tarde fez algumas disciplinas do Liceu e o Propedêutico, a fim de ingressar na Faculdade de Letras de Lisboa, completando aí o 2º ano de Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses). Devido a incompatibilidades de horário, terminou esse Curso na Universidade Autónoma de Lisboa – Luís de Camões.

     Em 2001 regressou ao seu Minho, fixando a sua residência na cidade de Braga.

     Dedica-se à investigação na área da História Local e Regional, e à criação literária.

 

MELGAÇO, 16 DE NOVEMBRO DE 1913

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

AFASTANDO AS «PEDRAS»  DO CAMINHO

 

 

   A ofensiva do Partido Democrático prosseguia. Raimundo Meira aproveitava qualquer ocasião para eliminar a oposição existente e colocar à frente do município pessoas da sua confiança. Em 16 de Novembro de 1913 retira a confiança ao Administrador do concelho de Melgaço. Este apresenta a demissão passados 10 dias.

 

   Exmo. Sr.

 

   Tendo Vexa significado em seu oficio nº 445 de 16 do corrente, que não lhe mereciam inteira confiança as minhas informações oficiais, acerca das obras da pesqueira a que o mesmo oficio se refere, e isto por não serem elas conformes com outras informações particulares, que sem fundamento de verdade foram dadas a Vexa, acerca do mesmo assunto; e não tendo querido Vexa aceitar a justificação do meu procedimento exposto no meu oficio nº 144 de 20 do corrente, tanto que o tal oficio me foi devolvido por ordem de Vexa, como consta do ofício emanado d’esse Governo Civil sob o nº 461, assinado pelo oficial-chefe da 2ª repartição, no qual se diz que fui “incorrecto e inconveniente” para com Vexa, julgo do meu dever, por não poder continuar a merecer a Vexa, a necessária confiança no desempenho das minhas funções a meu cargo, pedir a minha demissão, depositando nas mãos de Vexa, o lugar de Administrador deste Concelho.

 

   Saúde e Fraternidade

 

   Administração do Concelho de Melgaço

 

   O Administrador do Concelho

 

   António Augusto Simão

 

Retirado de:

 

Cartas Portuguesas - A Primeira Republica por Correspondência

 

http://cartasportuguesas.blogspot.com/2005_02_01_archive.htlm

 

«A RUA DA ESTRADA» E «VIDA DO CAMPO»

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

A Rua da Estrada emerge sobre os escombros da dupla perda da «cidade» e do «campo». Da cidade, ficou a representação comum de uma sociedade plural e intensa num território densamente construído e com limites definidos, um «interior» confinado, rodeado pelos espaços ditos naturais, da floresta ou da agricultura. Do lado de fora, guarda-se a imagem de um espaço rural, habitado por visões do mundo fechadas sobre si e sobre poderosas identidades. Nada mais falso. As transformações dos campos são tão radicais como as transformações das cidades. Hoje, a urbanização progride a um ritmo avassalador e já não está exclusivamente dependente da aglomeração e da proximidade física. As infraestruturas percorrem territórios imensos que tornam possível um sem número de padrões de localização, construções e formas de organização social. O urbano é um «exterior» desconfiado e instável, por contraposição à imagem da cidade amuralhada.

A Rua da Estrada é a imagem perfeita desta metamorfose. Mais do que lugar, ela emerge como resultado da relação, do movimento. O fluxo intenso que a percorre é o seu melhor trunfo e a sua própria justificação. Sem fluxo não há troca nem relação, génese primordial da velha cidade. Dizia alguém explicando as manobras de sedução que praticava para tornar o seu negócio visível para quem vai na estrada: O problema é fazê-lo parar.

 

Álvaro Domingues (Melgaço, 1959), geógrafo, formou-se na Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 1981. É professor da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.

 

A RUA DA ESTRADA

 

 Autor: Álvaro Domingues

 

 Edição: Equações de Arquitectura

 

Dafne Editora

 

 Patrocínio: ESTRADAS DE PORTUGAL, SA

 

 Porto, 2009

 

Vida do Campo – Um livro feito de retratos de um país composto de mudança.

A brincar costuma dizer: «Fui primeiro a Paris do que a Lisboa». Poderia ser sobranceria, ou até sinal de um certo cosmopolitismo bacoco. Mas não. É  apenas a sua forma de desmistificar algumas ideias feitas, enraizadas na sociedade nas últimas décadas, fruto da propaganda do Estado Novo e das idealizações turísticas do século XXI. Melgaço, onde nasceu em 1959, «nunca foi, nem é, esse mundo remoto e desligado da terra como muitas vezes é pintado». Dessa terra, no limite norte de Portugal, lembra, partiu o primeiro autocarro semanal para Paris. E nos seus tempos de criança era tão frequente falar-se da «próxima vaca que ia parir», como da «atualidade da Nova Caledónia», onde morava um conterrâneo.

…………………………………………………

 

Ler mais em:

 

 Texto publicado no JL 1081, de 7 de Março de 2012

 

 Retirado de:

 

 A VOLTA DO PARAFUSO

 

 voltaparafuso.blogspot.pt

 

LUIZ FILIPE, CARICATURISTA, ANTI-SIDONISTA

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

LUIS FILIPE GONZAGA PINTO RODRIGUES


(n. Melgaço, 21/03/1887 – m. Viana do Castelo 10/08/1949).

Advogado e caricaturista. Estudava direito em Coimbra, quando sentiu o apelo das artes. Fez parte do grupo de Coimbra, centro germinador e propagador do modernismo em Portugal. Foi director artístico de A Farça, colaborando também em O Povo, Limia, A Águia, Folha de Viana, A Montanha, A Rajada, A Bomba, entre outros.

Findo o curso voltou para o Minho e acabou por dar prioridade à carreira de advogado. Mas nunca deixou morrer o gosto pela ilustração.

Ainda enviou trabalhos para o 2º Salão de Modernistas do Porto e, em 1919, quando foi preso como anti-sidonista publicou no jornal policopiado A Velha.

Mais tarde, depois de ter retomado a sua actividade profissional, desenhou cartazes para as festas da Sr.ª da Agonia. Já na década de trinta realizou uma exposição de caricaturas de figuras vianenses.

 

Retirado de:

 

http://hemerotecadigital.cmlisboa.pt/Fichashistoricas/ASatira.pdf

 

A TIA TINA

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

ERNESTINA SOUSA, FILHA DE AMÁLIA E ILÍDIO

 

A TIA TINA

 

   Nos bailes frequentados pelos papo-secos de Monção as raparigas caíam dengosas para o lado deles, a Ernestina, que era um espectáculo de mulher, aliás, cabe aqui registar que todas, mas todas as mulheres descendentes do Félix e Conceição eram uns pancadões de tirar o fôlego a qualquer mancebo. Pois a Tina fisgou o Adolfo que se aprumava na vida com uma lojinha de sociedade com outro rapaz, de Monção.

   Aconteceu o casamento e a Tina com seu dinamismo e pendor para o negócio transformou a incipiente loja do marido em poderoso entreposto de contrabando. Tornou-se o membro da família mais abastado só suplantado em curta fase pelo tio Emiliano.

   Houve nesta época uma atitude da Tina, curiosa, que revelou seu afecto aos familiares. Eu era garoto e assisti. A Tina combinando com o tio Emiliano:

   — O meu pai, dizia ela, anda bebendo nesta e naquela taberna umas malguinhas com os amigos; pois eu quero que ele tenha o vinho que quiser para beber a qualquer hora com os amigos.

   A partir daí havia na adega do tio Emiliano uma pipa de vinho comprada pela Tina para o pai beber e oferecer. Não sei quantos anos durou essa euforia ou se só se resumiu àquela pipa que eu assisti.

   O marido, o tal Adolfo, era um mulherengo, putanheiro dos diabos. Aqui cabe uma observação particular: a Tina, não obstante ser uma mulheraça na aparência talvez não o fosse na cama, daí o marido ser obrigado a procurar satisfação com outras…

   Em 1952 já estavam separados, e quando em 1969 fui até aí e à França, com os parceiros de viagem, Emiliano (sobrinho), Gú, Pirata e mais o Zeca Chatice, visitamo-lo no trabalho, uma Casa de Saúde, onde era fachineiro, com aparência deplorável. Fiquei com pena.

   A Ernestina, devido à sua condição de "sem-filhos", sempre se rodeou de sobrinhas e amigas.

 

Rio, 6 de Fevereiro de 1997

Correspondência entre Manuel e Ilídio

 

   A última recordação que tenho da tia Tina remonta a 1981. Na altura eu trabalhava em Viana do Castelo e fim-de-semana era sinónimo de Melgaço. O comboio chegava por volta das 2 horas da tarde e não havendo boleia para Melgaço ou porque tinha assunto em Monção (feminino), ia almoçar a casa da tia, por trás do Palácio de Justiça.

   — Euláááliaaaa, chegou o menino. Faz um bife e dá-lhe de comer.

   O dar-lhe de comer era o que tinha sobrado do almoço terminado há minutos. A minha tia era mulher para pesar os seus cem quilos e apesar de um tumor no cérebro tinha um apetite voraz. Eu sabia e ela sabia o significado das dores de cabeça que a atiravam para a cama.

   Eulália saía da cozinha, a dois passos da mesa onde nos sentávamos, põe o prato à frente do menino, e com a carinha angélica, branca e sarapintada com um toque de tinto nas bochechas, cabeça inclinada sobre o ombro:

   — E a senhora?...

   — Sabes que não posso comer…

   — A tia ainda não almoçou a esta hora?

   — Almocei mas ainda comia uma sopinha – Euláááliaaa

   — Ai diga, senhora, não estou surda…

   O bife a desaparecer e eu a pensar nos restos do almoço, empurra a porta e entra o tio Aprígio. Pela cara, vi logo que havia treta e quando a tia Tina ouviu que a sobrinha e a carga tinham sido apanhadas, levantou-se, deu um murro na mesa e gritou:

   — Caaralho, será que tenho que voltar a trabalhar? Não sabem fazer nada?

   Claro que a sobrinha, o camião e a carga não demoraram a estar na estrada.

   A tia Tina faleceu pouco depois vítima do tumor.

 

Três décadas antes o amigo Vasco descrevia o enredo da Tia Tina  e família, nestes versos:

A tua mãe onde está?

Não sei se é viva se é morta,

Andava a passar p’ra lá

Em companhia do Ná,

Tripa no tempo da ‘Frota’

 

O Tio Ná, Oceano de Sousa, foi sempre um dos braços direitos da irmã Ernestina. O contrabando de tripas, chegou a ser, com o de ovos e café, dos mais procurados pelos nossos vizinhos galegos.

 

Ilídio Sousa

 

AS MULHERES DO CONTRABANDISTA

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

UMA VIDA SENTIMENTAL PARTICULARMENTE ATRIBULADA

 

   "Águas passadas não movem moinhos." Helena do Ângelo, de 70 anos, resume, assim, as vidas sentimentais atribuladas – a sua, a de Adolfo Vieira e a de outras mulheres que ele conquistou ao longo das décadas de 40 e 50.

   No auge, dono de propriedades, milionário, figura respeitada, Adolfo deitou para trás das costas moralismos ou tradições familiares e tratou de levar a vida à sua maneira. As mulheres terão sido a sua perdição.

   Casado com Ernestina, senhora da vizinha vila de Melgaço, cedo abandonou o lar, deambulando atrás deste ou daquele rabo-de-saia. “Se calhar, porque a legítima nunca lhe pode dar filhos”, recorda Joaquim Brito, presidente da Junta de Freguesia de Monção, que herdou do pai uma alfaiataria, onde Adolfo Vieira mandava fazer os seus fatos.

   De Helena do Ângelo, o homem deixou três filhos  –  Idalina, Luís e Fernando – , da Quinhas outro, mais um da Binda das Sousas e dois da bonita galega Pilar Ramona. Avesso a “falsos moralismos”, conforme relata o dono de um café no centro de Monção, o contrabandista viveu ali todas as suas paixões, fixando residência conforme a senhora amada. Devaneios que nunca escondeu.

   Na vila, não se conhecem desvarios sentimentais, arrufos públicos, dramas conjugais. “O que havia era que, quando íamos à mercearia, ficávamos a olhar umas para as outras, a ver quem comprava mais, para ver a quem ele tinha deixado mais dinheiro”, lembra Helena.

   Adolfo alugou casas, entregava a mesada às companheiras, “amou todos os filhos”, mas deitou tudo a perder. “A Ramona fê-lo perder a cabeça. Gastou todo o dinheiro com as mulheres, mais a Pilar, mas também me deu muito!”, atira.

   Helena, por desgosto, emigrou para Angola e, quando voltou, soube que Adolfo, antes de morrer, tentara voltar para a esposa. “Quem não teve a carne também não quer o osso”, ter-lhe-á dito Ernestina, na versão de Helena.

   Há dias, Pilar Ramona passou por Monção, aonde foi tratar de papelada relacionada com a morte recente dos dois filhos. E quis visitar Helena, por quem nutre um sentimento de amizade…

 

 DIÁRIO DE NOTÍCIAS – QUINTA-FEIRA, 30 DE JANEIRO DE 1997

 

VIDA DE RICO, MORTE DE POBRE

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

   Dinheiro e mais dinheiro. A movimentação de homens, carroças e sacos no armazém de Adolfo Vieira, por detrás do actual Palácio da Justiça de Monção, significava mais uns contos largos a amealhar ao seu já milionário pecúlio. Os negócios, legais ou ilegais, terão feito dele um dos indivíduos da vila. A acreditar nas histórias de amantes, filhos e de alguns que o conheceram, Adolfo não era do género de correr riscos, andar a saltar de um lado para o outro da fronteira. Raramente conduzia a carroça até à pesqueira do rio.

   Não. O contrabandista sempre terá preferido o recanto do seu armazém para gerir a actividade. Ali recebia e pagava. Apenas algumas vezes ia ao Porto, onde mantinha contactos com os bancos.

   Mas Adolfo Vieira era um esbanjador por excelência. Ninguém lhe conhece uma nega a quem lhe pedia emprestado ou dado. O resto era para as mulheres, que o levariam à ruína. Sem fundo de maneio, o contrabandista, então a deixar o negócio, emigrou para Bologne, perto de Paris, França, em finais da década de 50. Lá, trabalhou como recepcionista e foi doméstico em casa de uma família que alugava quartos.

   Voltou a Monção alguns anos mais tarde. Sem dinheiro. Pouco depois sofria uma trombose que o deixava parcialmente paralítico, para morrer em Março de 1970, com 68 anos. Na miséria.

 

(continua)


OS SERVIÇOS SECRETOS USA E MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

Artur Teixeira

 

 

DIÁRIO DE NOTÍCIAS, QUINTA-FEIRA, 30 JANEIRO 1997

 

 OURO

 

FIÃES SERIA O TRAMPOLIM PARA ESPANHA

 

Carlos Carvalho

 

    Por Fiães, junto à actual fronteira pedestre de São Gregório, alguns quilómetros acima de Melgaço, terá passado ouro e volfrâmio para Espanha, dali para França e com destino à Alemanha. O assunto é abordado em surdina na vila minhota, mas ninguém quer dar a cara, temendo qualquer tipo de represália das autoridades.

   O minério seria proveniente de algumas minas do Norte do País, chegando a Melgaço, onde contrabandistas engendrariam o esquema de fazer passar a mercadoria para lá da fronteira. O DN sabe que Artur Teixeira, natural de Melgaço e entretanto falecido, seria um dos líderes ou mesmo o cabecilha da quadrilha, confirmando a informação dos serviços secretos norte-americanos, que, em 1945, o referenciavam como membro de uma “sociedade de contrabando”.

   Artur Teixeira é um dos muitos nomes apontados em relatórios de espiões americanos, elaborados em 1945 a partir de Lisboa, como o DN revelou no domingo. Um tema também abordado pela revista Visão na quinta-feira.

   Populares da vila, que pediram anonimato, recordam ter sido essa a forma de Artur Teixeira e seus pares enriquecerem – os americanos falam em 24 mil contos na altura. “Ele emprestava aos mil e dois mil contos, comprou inúmeras propriedades. Tinha muitas posses”, garantem.

   Ao que o DN apurou, o homem conseguiu instalar um posto de abastecimento de combustível – único em Melgaço -, montou uma empresa de camionagem, que servia o concelho e terras vizinhas, e abriu uma agência de câmbios, resultado de “importantes contactos em instituições bancárias do Porto”.

   Por razões desconhecidas, perdeu quase tudo. Às duas filhas, uma delas solteira e ainda ali a viver, não se lhe conhecem grandes valores. Sabe-se, apenas, que o Tribunal de Melgaço nomeou um gestor para a empresa de camionagem, depois de ser declarada falência.

   Apenas por Fiães passaria para a Alemanha ouro e volfrâmio, destinado ao fabrico de armas. O negócio terminaria em finais de 1944 ou 45, pouco depois dos Aliados terem libertado a França do domínio nazi.

   Nunca o rio Minho terá sido utilizado para transferir a mercadoria de um lado para o outro da fronteira. A divisão natural dos dois países serviu, isso sim, para o contrabando de pequenos produtos e géneros alimentares, muito em voga na altura.

 

(continua)

 

O PEUGEOT DA D. HELENA OU RELATOS DA GUERRA COLONIAL

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

Spínola

 

 

UM MELGACENSE NA GUERRA COLONIAL

 

 

    Relato de Luís

    Com o Fontinha sou chamado ao capitão: a missão é destruir material explosivo despejado para o efeito numa cratera lá para as bandas da bolanha.

………………..

    Estávamos neste compasso de descanso quando, vindo do lado do rio, aparece o Aspirante Comando de sua graça Esteves (creio) – já o conhecia de Lamego onde à altura era Furriel, se não estou em erro – que nos interpela do que estamos a fazer. Esclarecido e sem mais delongas, dizendo que resolve o problema… saca de duas granadas e atira-as para o buraco sem dar tempo a qualquer contraposição argumentativa da nossa parte. Obviamente afastámo-nos rápido!!

    Fiquei expectante e… lixado!! Podia ser que resultasse, quem sabe?

    Bum?!... foi só bum! f***-se… ao menos podia ser bbbbbuummmm.

    Tempo de segurança dado e aproximámo-nos. O Esteves olhou e … retomou o seu caminho. Cobras, lagartos e faíscas à mistura com palavras feias, saíram em janela dos meus olhos na sua direcção! A intenção dele foi boa mas… precipitada e impensada!

 

    Relato de Jorge

    Ainda hoje me arrepio, só de me lembrar desse momento. Ambos conhecíamos o Esteves, dos tempos de Lamego. Mais tu, que com ele privaste nos Comandos, comandados pelo então Capitão Jaime Neves. Já na altura ele havia granjeado fama de maluco e algo irresponsável e essa fama chegou aos nossos ouvidos, nos Ranger’s em Penude!

   O certo é que depois de fazer o que fez, nos deixou entregues ao nosso petisco, não querendo e não lhe apetecendo participar nele.

 

    Aquele abraço

   

    Jorge

    Camarada Luís

    Conheci bem o Alferes Esteves (há uma confusão com o posto, quando o conheceste em Lamego, era Aspirante, tinha sido FurMil na 4ª C comandos em Moçambique). Em Junho de 1971, julgo que ainda estava na 26ª, mais tarde teve problemas com o comandante de companhia e foi afastado.

   Maluco, era concerteza, irresponsável tenho dúvidas, com essa característica as consequências operacionais seriam graves.

Lembro que em 6/1/1972, fazia 24 anos, cheguei ao fim da tarde a Bissau num heli que me trouxe do Saltinho. Já vinha com os copos e o único conhecido que encontrei para o jantar foi o Esteves.

   Fomos ao Solar dos Dez, onde numa das paredes existia um buraco resultante de um tiro dado com um revolver que o Esteves normalmente transportava.

   Acabou por ser mais uma noite louca, tendo-se juntado a nós o Major Gaspar, talvez ainda mais doida que o Esteves.

   Este era natural de Castro Laboreiro, contrabandista na adolescência, habituado a escapar à Guarda Fiscal e Guardia Civil.

   Outras noites acabavam em problemas com a Polícia Militar, etc.

   Já em tempos escrevi no blogue, a última noite que ele passou em Bissau, quando eu e outros camaradas o fomos encontrar, de braço engessado, no Pilão, rodeado por uma multidão enfurecida…

   Continuou com pancada.

   Há meia dúzia de anos que não sei mais nada do Esteves.

 

    Abraço

     Santiago

     Seguimos em direcção ao Pilão, com o Tomás a fazer uma condução à maluca. Falou numa cabo-verdiana que nenhum de nós conhecia, que ficaria perto da casa da Eugénia, essa conhecia eu bem. Corremos imensas ruas e ruelas do Pilão, eram tantos os saltos que o carro dava que o Rita já dizia estar a apanhar mais pancada que numa tempestade no mar. A determinada altura, uma das rodas do carro cai num buraco com grande violência, ouve-se um barulho de latas e ficamos com menos luz.O Tomás para o Peugeot e saímos para verificar o sucedido. Com a pancada um dos faróis saltara do encaixe, ficando virado para o solo, preso pelos fios de ligação.

    Nenhum problema, continuamos às voltas, à procura das gaijas que nenhum conseguia dizer onde ficavam e o farol acabou por cair, ninguém soube onde. Aí pelas três da manhã, chegamos a um local do Pilão onde se encontrava  um grande aglomerado de pessoas, em estado de grande exaltação. Paramos, saímos do carro e vemos no meio daquele maralhal o Alf Mil Esteves, de braço engessado ao peito, prestes a levar, na melhor das hipóteses, uma grande carga de pancada.

    O comandante Rita, graças à sua estatura, vai furando, connosco atrás até chegarmos ao Esteves, também de cabeça perdida. O que se passara?

    - O caaralho do Oliveira trouxe-me para aqui, bateu à porta daquela gaja, ela diz que está ocupada, o caabrão manda um pontapé na porta, rebenta-a, a tipa grita, começa a juntar-se este maralhal e o gajo deixou-me sozinho.

Foi complicado acalmar aquela gente mas conseguiu-se. Foi mais um passageiro para o maltratado 404. O Tomás ficou no Palácio e, nós os cinco, viemos beber mais um copo ao Orion. O Esteves embarcava nessa manhã para Lisboa, em fim de comissão.

    Alguém tem que reparar o Peugeot da D. Helena Spínola.

 

    PS – O Oliveira era Tenente dos Comandos. Pertencera à 26ª e estivera em Fá com o Miquelina Simões a formar a 2ª CCA (Companhia de Comandos Africanos). O Esteves fora Fur Mil na 4ª CCmds em Moçambique e Alf na 26ª, até apanhar uma porrada e ser transferido para Teixeira Pinto onde teve um acidente do qual resultou um braço partido. Tive com ele várias histórias.

 

     Santiago

 

     TEXTOS RETIRADOS DA NET POR

 

   CAMBORIO REFUGIADO