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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MEMÓRIAS

melgaçodomonteàribeira, 18.10.14

 

   Estas histórias, simples no contar e simples no ouvir, não foram “trabalhadas” na memória, emergiram de um passado já mais-do-que-perfeito.

   Foram contadas ao acaso e a “propósito de algo” que surgia nas aulas de alfabetização, de jovens da 3ª idade, no Centro de Convívio de Prado.

   E se registássemos essas lembranças guardadas no baú das recordações?

   Durante 3 meses, os idosos empenharam-se em rebuscar nos seus livros, de folhas amareladas pelo tempo, nas suas memórias de rapazes e raparigas, histórias de moralidades, poesias de namorados e cantigas de amigo.

   Fez-se a recolha dos textos escritos e orais, registaram-se e, assim, nasceu “Memórias”.

   Sem o contributo da voz da experiência, muito de que outrora se cantava e declamava nos serões, nas desfolhadas, nas lavradas e festas religiosas, perder-se-ia no tempo e não teríamos a oportunidade de “passar o valioso testemunho” para as gerações deste novo milénio.

   Um bem haja a todos aqueles que colaboraram para que esta colectânea fosse uma realidade.

   Não deixe que a recordação vos maltrate a alma, pois como diz a canção: “Recordar é Viver”.

                                                        

                                                                            Sejam Felizes

 

                                                                            Eva Martins

 

 

Memórias, gentes de Melgaço

 

Edição Câmara Municipal de Melgaço

 

2001

 

RETALHOS DE VIDAS

melgaçodomonteàribeira, 16.08.14

 

 

   Sabemos que envelhece melhor quem exercita a memória mantendo uma actividade intelectual contínua. O que nem todos sabemos é que não existem lembranças puras.

   De facto, a memória humana não funciona como a dos computadores e jamais permite recordar o passado exactamente como ele foi.

   Não é possível lembrar nenhuma experiência de maneira pura. Boas ou más, as nossas memórias são sempre reconstruídas. Ao contrário do que imaginamos não existe lembrança perfeita das alegrias, tristezas, angústias, sucessos e fracassos.

   É nesta linha de pensamento que pretendemos realizar esta edição de “Retalhos de Vidas”, para que cada um dos idosos conte, na 1ª pessoa, a sua história de vida ou lembranças que lhe afloram ao pensamento, cantigas, versos, ditos, etc.; para que as recordações dos mais velhos, embora não completamente fiéis, se possam apresentar como factores de construção de novos pensamentos e não apenas repetidores de informações do passado.

   Não pretendemos recordar o passado com exactidão, mas antes estimular a construção de ideias, contribuir para o avivar das memórias já perdidas ou esquecidas e partilhá-las com as gerações vindouras.

   Vale a pena pensarmos neste pequeno gesto como forma de expandir a arte de criar e libertar o pensamento das pessoas com quem trabalhamos e que estão ávidas por partilhar as suas experiências.

   Para eles um bem haja e que continuem a treinar a “memória”.

 

                                                                   

                                                              A equipa do “Melgaço Solidário”

 

 

Retalhos de Vidas

 

Edição Câmara Municipal de Melgaço

 

2002

 

A ALTA E LIVRE TERRA DOS PASTORES, DOS CONTRABANDISTAS E DAS URZES

melgaçodomonteàribeira, 02.08.14

 

Lamas de Mouro - PNPG

 

 

O MINHO

 

(…)

Em Melgaço, do alto do castelo, tentei abranger num relance a pátria toda. Mas o horizonte visual não me ajudou. Verifiquei apenas que a burguesia comilona curava ali perto a diabetes e que o rio Minho, laboriosamente, continuava a defender a fronteira desguarnecida. Como a espada de Tristão, também aquele fio de água cristalina se esforçava por tornar impossível o coito das duas margens.

Teria chegado ao fim do inventário verde? Talvez não. Embora lido, o livro fora certamente mal interpretado. Mas quem poderia vislumbrar uma grandeza humana e telúrica soterrada por tanta parra sulfatada? Um solo que não se mostra, de tão revestido, e uma gente atacada da doença de S. Vito, perturbam qualquer observador. (…)

 

(…) Desanimado, meti para Castro Laboreiro à procura dum Minho com menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras de enforcado e mais meu.

Um Minho que o não fosse, afinal.

Encontrei-o logo dois passos adiante, severo, de curcelo e carapuça. A relva dera finalmente lugar à terra nua que, parda como o burel, tinha ossos e chagas. O colmo de centeio, curtido pelos nevões, perdera o riso alvar das malhadas. Identificara-se com o panorama humano, e cobria pudicamente a dor do frio e da fome. Um rebanho de ovelhas silenciosas retouçava as pedras da fortaleza desmantelada. E uma velha muito velha, desmemoriada como uma coruja das catacumbas, vigiava a porta do baluarte, a fiar o tempo. Era a pré-história ao natural, à espera da neta.

Ó castrejinha do monte,

Que deitas no teu cabelo?

Deito-lhe água da fonte

E rama de tormentelo.

Bonita, esbofeteada do frio, a cachopa vinha à frente dum carro de bois carregado de canhotas. Preparava a casa de inverno para quando chegasse a hora da transumância e toda a família – pais, irmãos, gados, pulgas e percevejos – descesse dos cortelhos da montanha para os cortelhos do vale, abrigados das neves.

- Conhece esta cantiga?

- Ahn?

Falava uma língua estranha, alheia ao Diário de Notícias, mas próxima do Livro de Linhagens do Conde de Barcelos.

- É legítimo este cão?

- É cadela.

Negro, mal encarado, o bicho olhou-me por baixo, a ver se eu insistia na ofensa, o matriarcado cuidava ainda.

- A Peneda?

A moça apontou a vara. E, como ao gesto de um prestidigitador, foram-se desvendando aos meus olhos mistérios sucessivos. Todo o grande maciço de pedra se abriu como uma rosa. A Peneda, o Suajo e o Lindoso. Um nunca mais acabar de espinhaços e de abismos, de encostas e planaltos. Um mundo de primária beleza, de inviolada intimidade, que ora fugia esquivo pelas brenhas, tímido e secreto, ora sorria de um postigo, acolhedor e fraterno.

Quando dei conta, estava no topo da Serra Amarela a merendar com a solidão. Tinham desaparecido de vez as cangas lavradas e coloridas que ofendiam as molhelhas do suor verdadeiro. A zanguizarra dos pandeiros festivos e as lágrimas dos foguetes já não encadeavam a lucidez dos sentidos. Os aventais de chita garrida davam lugar aos de estopa encardida. Nem contratos pré-nupciais ardilosos, nem torres feudais, nem rebanhos de homens pequeninos, dóceis, a cantar o Avé atrás do cura da freguesia. Pisava, realmente, a alta e livre terra dos pastores, dos contrabandistas e das urzes.

 

 

MESTRE MIGUEL TORGA

 

Retirado de: www.bibliotecavieiraaraujo.pbworks.com

 

JOSÉ SERRANO

melgaçodomonteàribeira, 28.06.14

 

 

Quem sou?

 

De tantas coisas que fiz…

Comecei em estudante;

Fui lavrador e soldado,

Escriturário e ajudante.

Fui professor e polícia…

Fui mandado e comandante!!!

 

Emigrei, depois mais tarde,

P’ra terras desconhecidas

Onde vi, quase o início

Tantas ilusões perdidas,

E quando me dei conta

Da minha mente varridas!!!

 

Dei serventia a “maçons”…

Fui trolha… fui carpinteiro;

“Telhador” e electricista!

Fui pintor e jardineiro;

Desenhador… capataz!

E também fui picheleiro!!!

 

Desde criança que tive

Grande amor à poesia,

E nos poucos livres

Insonsos versos fazia,

Que uma pedra sepulcral

Ao ouvi-los se mexia!!!

 

José Serrano??? Poeta?!

Nunca o foi! Nem se-lo-à!

Mas enquanto tiver vida

O que puder ‘screverá

Mas a saúde, por vezes,

Mal nos deixa andar por cá!!!

 

Não fales, assim, não fales!

Deixa-me ser como sou;

Não pod’ria ser poeta

Aquel’ que jamais prestou

E nos planaltos da Serra

Tanta coisa imaginou…!!!

 

 

Uma Vida Entre Poesia

 

José Maria Rodrigues (José Serrano)

 

Câmara Municipal de Melgaço

 

2007

  

OS MEUS SONETOS (E OS DO FRADE)

melgaçodomonteàribeira, 07.06.14

 

 

INÊS NEGRA

 

 

Estavas, linda Inês, tão repousada,

Saboreando a árdua e sã vitória,

Sobre a traidora vil de má memória,

Que chamam por desdém d’Arrenegada!

 

Eis senão quando, mente arrebatada,

Não temendo ferir honra e glória,

Apaga, com um só golpe, da História,

Tua figura de heroína abençoada!

 

Querem metamorfosear-te em lenda,

Levar-te para o museu das velharias;

Roubar-te o nobre troféu cobiçado.

 

Regressa, bela virago, à contenda,

Desenterra as armas das armarias,

Reconquista teu renome ameaçado!

 

 

Joaquim Rocha – Os Meus Sonetos (e os do frade)

 

E AGORA, LUÍSA ?

melgaçodomonteàribeira, 10.05.14

 

 

Olinda Carvalho nasceu em Castro Laboreiro, Melgaço, em 1953. Deixou a serra para poder estudar. Passou por Melgaço, Braga, chegando a Lisboa aos dezoito anos. Aí se formou em Filologia Germânica na Faculdade de Letras, durante os conturbados anos que precederam e se seguiram à Revolução, que ela viveu intensamente. Ingressou na carreira docente por opção e fez da educação projeto profissional. Viveu dez anos em Bruxelas, viajou pela Europa, pela América e por África procurando sempre novos estímulos e talvez mesmo novas raízes. Estas não deixam no entanto de estar profundamente ancoradas nas suas origens da montanha agreste e violenta de Portugal. Inicia com este romance um projeto cismado desde sempre.

 

E Agora, Luísa? Conta-nos duas histórias que se entrelaçam. Oriunda de Lisboa, onde cresceu despreocupada no seio de uma família da média burguesia, é Luísa que nos conduz a outras terras e nos introduz outras vidas, outros modos de vida e, sobretudo, de pensar. Narrativa vívida que privilegia os sentimentos e a representação do real, personagens complexas evoluindo interiormente, muito marcadas pela educação, pelo sentido do dever, pelo tempo da História. Há uma presença contínua de um qualquer tipo de dor, física ou introspetiva, a perturbar o equilíbrio que todos querem, mas que só a idade e a aceitação acabam por permitir.

Anos setenta do século passado, por aqui perpassam alguns dos problemas que a sociedade portuguesa enfrentou, desde a guerra colonial e as lutas estudantis aos arroubos revolucionários do pós 25 de Abril e à evolução dos costumes.

 

O GUARDA BRINCALHÃO

melgaçodomonteàribeira, 26.04.14

 

Antigo posto da extinta Guarda Fiscal, São Gregório

 

 

Junto à fronteira havia um posto da Guarda Fiscal. Um dos soldados, considerado o mais brincalhão dos brincalhões, um certo dia chegou a casa cabisbaixo. A esposa, habituada a vê-lo sempre alegre, pergunta-lhe: «Querido marido, por que estás assim?» «Ó mulher, então não sabes? A filha de sicrano vai casar no domingo e não nos convidaram para a boda!» «Ó homem, não te importunes por causa disso; não nos falta comida em casa.» «Isso é verdade, mas a festa… nós vamos!» Gizou um plano de mestre, a mulher entrou no jogo, e ei-los no domingo a caminho de casa dos pais da noiva, onde decorria o banquete. À cerimónia religiosa não estavam interessados em assistir. As horas passam. O cortejo nupcial finalmente chega. O casal estava atentíssimo. Aguarda que os convidados se sentem à farta mesa e comecem a devorar a vitela, os cabritos, o bom presunto, o arroz de lampreia, etc. O guarda vira-se para a mulher e diz-lhe: «Chegou a hora. Não falhes. Foste sempre uma óptima actriz.» A esposa, encorajada por aquele piropo, avança resolutamente. Entra pelo casamento dentro aos gritos de «quem me acode; o meu marido quer matar-me, salvem-me por amor de Deus.» Aqueles dentes pararam de mastigar. As mulheres rodearam a senhora, prometendo defendê-la com a própria vida, se necessário fosse. A falsa vítima rejubilava. O plano estava a funcionar. Sentou-se à beira delas e dali a pouco já estava a encher a barriguinha. Subitamente surge o malandrete aos berros, cabelos desgrenhados… «Onde está essa maldita? Eu mato-a!» Os homens aproximam-se dele, pedem-lhe para se acalmar, era um dia importante para aquela família, ele que se sentasse, comesse e bebesse até toupar. Adorou ouvir essas palavras. Era música angelical para o seu estômago vazio. Acalmou, deu um jeito ao cabelo, sentou-se à beira dos comilões e ei-lo a regalar-se com todos aqueles manjares. Dali a pouco já ria, contava anedotas picantes, e tudo acabou no melhor dos mundos. À noite, quando chegam a casa, diz à cara-metade: «Fomos ou não fomos à boda? E sem dar prenda!» A mulher, bem bebida, exclama: «Tu és um génio, meu amor!»

 

Dicionário Enciclopédico de Melgaço II

Joaquim A. Rocha

Edição do autor

2010

Pp. 22, 23

 

101 LUGARES PARA TER MEDO EM PORTUGAL

melgaçodomonteàribeira, 29.03.14

 

MELGAÇO TEM MEDO DOS LOBOS

 

 

   Naqueles recuados tempos em que não havia luz em lugar nenhum e o mais pequeno rumorejo da natureza à noite fazia os homens arfar de medo, era também um tempo em que a comida não abundava nem entre os homens nem entre os animais. Por isso, não era estranho que grandes alcateias de lobos descessem às aldeias, à procura de qualquer coisa que lhes enchesse a barriga. As gentes tinham-lhes medo e não raramente contavam histórias à lareira sobre pessoas e rebanhos que tinham sido dramaticamente devorados pelas feras.

   A um desses locais o povo dá o curioso, mas não despropositado, nome de «Botas de Cubalhão». Fica entre as aldeias de Lamas de Mouro e Cubalhão, perto de Melgaço, numa encosta onde não existe mais nada além de uma pequena encruzilhada. Mas conta-se que nessa encruzilhada existe um lobo, capaz de engolir todo e qualquer homem que se aproxime dele pela calada da noite, seja novo ou velho, fraco ou forte. E tudo isto porque o povo se fartou de encontrar naqueles caminhos escuros e inóspitos, botas, sapatos, pedaços de vestuário e até bocados de pés, que deram nome ao lugar e muitos motivos à imaginação.

   Resta contar a história do tio Agostinho, que se diz ter sido o homem mais valente do povoado…

   Há alguns anos, quando se soube que tinham aparecido mais umas botas e uns bocados dilacerados de pernas, o tio Agostinho avançou resoluto com uma solução para o problema: «Desta vez é que é! Vou dar cabo desse maldito lobo de uma vez por todas!»

   Muitos tentaram avisá-lo de que aquilo era uma grande loucura, um ato suicida mascarado de bravura, pois a morte era mais que certa. Outros, porém, achavam que o tio Agostinho sozinho não teria grandes hipóteses e, como era uma figura muito prezada por toda a aldeia, ofereceram-se para o acompanhar. Mas Agostinho não queria ouvir mais conselhos. Depois de beber um par de canecas de vinho licoroso, pôs-se a caminho da encruzilhada e lá ficou à espera do lobo com um pau na mão.

   As suas preces foram ouvidas. Pouco tempo depois, viu um lobo a caminhar lentamente na sua direção. Era inesperadamente grande, de pelo denso e cerdoso. Os seus olhos verdes cor de esmeralda reluziam no escuro com tanta intensidade que o tio Agostinho até pensou que tinha bebido de mais. Mais estranho ainda: olhavam-no fixamente mas sem qualquer sinal de raiva assassina. Agostinho, desconfortável e nervoso, levantou o pau, em posição de defesa, ora rodando à direita ora à esquerda, para não ser surpreendido por nenhum dos lados. O lobo amainou o passo, estudando-o.

   Agostinho tentou logo desferir-lhe um golpe, mas o raio do bicho esquivou-se e, com descaramento inaudito, agarrou-lhe o pau com o rabo! O aldeão voltou a tentar, com outro pau que apanhara na berma, mas o bicho esquivava-se sempre. O pobre homem já estava a ficar cansado de ser toureado por aquele estranho lobo, de olhar gélido como a neve caída no chão em seu redor. Lutou durante uma noite inteira o homem, sempre na tentativa de lhe acertar e, claro, de safar a própria pele! Em vão, pois com o raiar do Sol o tio Agostinho sentia as forças esvaírem-se e sabia que, mais cedo ou mais tarde, iria soçobrar. Então aí, o lobo poderia comê-lo a seu bel-prazer…

   Na aldeia, os habitantes desesperavam por notícias. Um dos amigos de Agostinho resolveu então pôr-se a caminho da encruzilhada, para acabar de vez com aquele sofrimento e antes que o desgraçado se deixasse comer. Pegou noutro pau e numa tocha com lume e subiu a serra. Quando lá chegou, vendo o amigo em apuros, atacou o bicho por outro lado. Este, finalmente, tombou. Mas mal o seu corpo felpudo se afundou na neve, com os dentes afiados a sulcarem o chão e o bafo ainda quente, apareceu quase instantaneamente outro lobo, ainda maior que o anterior. Os dois corajosos aldeões estremeceram e começaram a recuar, de fininho, apesar de o lobo enorme não parecer ter vontade de os atacar. Seguiu-os apenas, serra abaixo, como que empurrando-os de volta à aldeia. Cada vez que os homens se atreviam a olhar para trás, o lobo rosnava baixinho, os seus olhos tremeluziam e estugava o passo. Os homens, perdidinhos de medo, não tinham outro remédio senão acelerar. Só quando se começaram a avistar as primeiras casas de Cubalhão é que o lobo parou e deixou os homens seguirem livremente o caminho de regresso a casa. Já estes só sentiram o sangue a correr-lhes quente e célere nas veias quando tiveram a certeza de que já não estavam na terra dos lobos!...

 

 

101 LUGARES PARA TER MEDO EM PORTUGAL

Vanessa Fidalgo

Edição: A Esfera dos Livros

2013

pp. 37-39

 

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO II

melgaçodomonteàribeira, 01.02.14

 

 

Amar e conhecer Melgaço pelo formato da Enciclopédia

 

 

    Só um acto de amor intenso e prolongado explica uma ideia personalizada da qual começamos a ter uma expressão palpável, visível… Um acto de amor servido por uma morosa, tenaz e bem sucedida busca do que concerne a Melgaço de ontem (um ontem mais ou menos longínquo), explica como os desânimos, as dificuldades e os avultados gastos financeiros, supridos por nenhuma outra bolsa que não os recursos do próprio autor, foram ultrapassados com a leveza de uma pena… Efectivamente, Joaquim Rocha começa agora publicamente a partilhar, com todos os que se aproximem ou se deixem seduzir pelo seu Dicionário Enciclopédico de Melgaço, o singelo, mas generoso e inesgotável acto de amor ao torrão natal, registado para sempre, tanto no seu bilhete de identidade, como em seu coração. A base emocional e afectiva surge, claramente, como a mola impulsionadora e a fonte de resistência para o projecto, que se inscreve naturalmente na trajectória existencial de seu mentor e artífice.

 

Armando Malheiro da Silva

 

MÁRIO

melgaçodomonteàribeira, 02.11.13

 

 

ALDOMAR RODRIGUES SOARES

(MÁRIO)

 

 

Aldomar Rodrigues Soares nasceu em 10 de Setembro de 1913, filho de Luís Cândido Soares e de Emília dos Prazeres. Ele o registou em «A voz de Melgaço» de 15 de Setembro de 1953 com esta singeleza jornalística:

 

«Evidentemente para os meus pacientes leitores o primeiro dos títulos desta carta pouco ou nada poderá dizer. Para mim, porém, ele diz muito, diz tudo; porquanto foi em 10 de Setembro de 1913, que, pelas 3 horas, no lugar de Cerdedo, desta freguesia, numa casa de morada que ora pertence à s.ra Rosalina Cândido Ribeiro, eu vi a luz pela vez primeira».

 

As primeiras letras aprendeu-as na escola do Pombal com o prof. José Caetano Gomes, transitando, em seguida, para a escola da Vila, regida pela professora D. Ana Cândida de Magalhães Barros, e desta para a escola de Rouças, do Prof. Rodolfo Augusto Esteves, que o propôs a exame de instrução primária em1925. Apar com o ensino oficial, recebeu ensino particular, ministrado por Agostinho Fernandes de Barros.

Em Janeiro de 1930 emigrou para a vizinha Galiza e, no mesmo ano, em 8 de Agosto emigrou para a França, fixando-se em Toulouse.

Em 5 de Agosto de 1935 regressa a Portugal. A permanência no estrangeiro facultou-lhe o conhecimento das línguas espanhola e francesa.

Já, de novo, em Portugal, e antes do Serviço Militar, estava em Lisboa, tendo completado o 2º ano e fez o curso de inglês.

Curiosa esta nota musical: em 1928 e 1929 foi discípulo do Mestre Manuel Rodrigo de Morais, o grande artista que, como regente da Banda dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, levou o nome da sua terra e o fulgor da arte a muitas vilas e cidades do país.

Em chegando a idade do Serviço Militar, assentou praça na Escola Prática de Engenharia, em Tancos, em 3 de Março de 1936, tendo feito vários cursos. Passando à disponibilidade, alistou-se na PSP de Lisboa em 4 de Fevereiro de 1941, e foi colocado em Alcântara como intérprete.

Em 16 de Dezembro de 1946 doença grave feriu-o e, tão grave, que lhe causou surdez total e paralisia do flanco direito.

Não obstante os tratamentos efectuados em hospitais abalizados como Curry Cabral (Rego) e o dos Capuchos não recuperou.

Em 7 de Julho de 1947 foi demitido da PSP sem qualquer garantia financeira, não obstante os 3 anos de serviço militar e 5 de actividade naquela Corporação.

Regressou a Melgaço, sua terra natal, onde, felizmente, os muitos amigos o ajudaram a viver e a sofrer as agruras de que fora vítima involuntária.

Casou com Aurora Augusta Domingues em 25 de Novembro de 1943 na cidade de Lisboa, e do casal houve dois filhos: Carlos Alberto Doares e Maria Luísa Domingues Soares.

Faleceu em 7 de Setembro de 1962 na sua residência de Prado.

A vida de Aldomar Rodrigues Soares foi de trabalho, de sofrimento e incertezas.

Observando-a atentamente e em confronto com a obra intelectual que nos legou através de «A Voz de Melgaço» sentimos respeito profundo por esse homem que soube preencher a sua vida com um amor apaixonado à cultura, mormente no que respeita à sua terra natal.

 

Um exemplo:

 

«ZINONA»

 

José Maria Alves, sobrenomeado o «Zinona», filho de João António Alves e de Maria Teresa Lourenço, nasceu, na Vila de Melgaço, em 1871, e aqui casou, em 12-4-1910, com Belmira dos Prazeres Pires, de 38 anos, filha de José Joaquim Pires e de Florinda Vitória Lourenço; portanto, primos co-irmãos, já que ambos eram netos de José Maria Lourenço e de Josefa Antónia Gonçalves.

Tal como seu pai autor dos portões do cemitério municipal e outros trabalhos o «Zinona» foi um serralheiro competente, e o que mais espanta é como ele conseguia fazer obras tão perfeitas e bem acabadas com tão poucas e deficientes ferramentas que possuía…

No mister, ajudava-o seu cunhado Manuel, o «Néné». Este era semi-imbecil, o que o não impedia ou até talvez por isso… de ir todos os anos de abalada a Braga, gozar o S. João. Ia a pedibus calcantibus, comia e pernoitava onde e como podia e de igual modo regressava a penates, para, assim, não encetar o pé-de-meia angariado nos giros da pedincha; e tanto antes da ida como depois do regresso, invariável e frequentemente dizia ele: quem nam bai a Braga nam bê nada!

Apesar da sua semi-imbecilidade, era um filósofo este «Néné»…

Voltando ao nosso «Zizona», este, além de competente artífice, era também um finório. A este propósito, lembro-me muito bem de quando o falecido Simão Luís de Sousa Araújo lhe encomendou os portões para a sua vivenda na Rua Velha, vivenda hoje pertencente a Manuel José Domingues (Mareco). Justaram a obra ao quilo… contrato que ao Simão, à primeira vista, se lhe afigurou ser um verdadeiro negócio da China… Não contou, porém, com a esperteza de Mestre «Zizona», e aqui é que ele havia de ser levado.

Efectivamente, o «Zinona», para a obra em questão, além de empregar ferro da maior bitola que lhe foi possível, ornou-a exuberantemente com aplicações o mais pesadas que pode conseguir; e o resultado foi que uma vez a mesma obra concluída quase não havia em Melgaço balança capaz de a pesar… O Simão, apesar de só ter um olho, achou-a pesada em demasia, mas pagou. Era, pois, um finório Mestre «Zinona»…

Viveu e faleceu na casa que foi sua – o prédio que faz gaveto com a Rua Direita e com o Largo do Município ou Praça do Pelourinho – em 3-4-1941, tendo havido do seu casamento três filhos, dos quais apenas lhe sobreviveu um: a Leonídia. Como, porém, extra-matrimónio, gerou em Lucrécia Augusto da Costa Velho um ranchinho de bastardos, estes lhe tem assegurada posteridade por largos anos…

 

 

P. JÚLIO VAZ APRESENTA: MÁRIO

Autor: P. Júlio Vaz

Edição: autor

1996