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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

UMA CASA FIDALGA

melgaçodomonteàribeira, 14.01.17

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CASA DO RIO DO PORTO

 

 

 Sita na freguesia da Vila, SMP. As armas foram concedidas, a 1/9/1793, ao Dr. João Manuel Gomes de Abreu Cunha Araújo. O primeiro membro dessa família a residir no Rio do Porto parece que foi o Dr. João António, nascido no século XVIII, filho de Bento da Cunha Araújo e de Maria Gonçalves, ou Maria Martins (moradores na Rua do Campo, depois Rua do Espírito Santo, perto da igreja matriz da Vila), casado com D. Maria Gomes de Abreu, ou D. Mariana Gomes Figueiroa (ver “O Meu Livro das Gerações Melgacenses”, vol. I, p. 409). Na obra citada, p. 410, lê-se: «Ora em 17/5/1748 D. António da Glória, mestre doutor de Sagrada Teologia na Universidade de Coimbra e Prior Donatário do Real Mosteiro do Salvador de Paderne e os mais padres conciliares emprazaram por três vidas aos fidalgos da Casa do Rio do Porto o prazo das Serenadas, que pertencera à família da mulher.» No entanto, quem solicitou à rainha D. Maria I a justificação de nobreza e mandou colocar as pedras de armas no frontispício da Casa foi o Dr. João Manuel Gomes de Abreu Cunha Araújo, filho do Dr. João António de Araújo e de D. Mariana Gomes de Abreu, neto paterno de Bento da Cunha Araújo e de D. Maria Martins, e bisneto de Gonçalo da Cunha Araújo e de D. Catarina Esteves; e neto materno de João Gomes de Abreu e de D. Maria Gomes de Figueiroa, e bisneto de Manuel Gomes de Abreu e de D. Jerónima de Castro. Este Dr. João Manuel casou, a 6/8/1768, com D. Isabel Maria, filha do capitão Manuel Luís Pereira da Gama e de Maria de Araújo, moradores no Campo da Feira de Fora, SMP, e faleceu em 1813.

 É curioso que esta Casa Solar tenha sido adquirida, na década de vinte do séc. XX, pelo então secretário de finanças em Melgaço, Ernesto Viriato dos Passos Ferreira da Silva, de Braga, casado em Melgaço a 21/9/1918 com Margarida Maria, neta ilegítima do fidalgo da dita Casa, Caetano José de Abreu Cunha Araújo, e de Margarida Carolina de Castro Álvares de Barros. O acontecimento gerou polémica, pois Ernesto Viriato era o chefe dos republicanos no concelho, e foi Governador Civil de Viana em 1925. Acusaram-no de monárquico, mas ele argumentou publicamente que comprara aquela Casa fidalga porque estava em ruínas e queria recuperá-la. O certo é que ali viveu com a família, com o peso daqueles brasões à porta de entrada.

 

Dicionário Enciclopédico de Melgaço II

Joaquim A. Rocha

Edição do autor

2010

p.127

 

Joaquim A. Rocha é o editor do blog Melgaço, Minha Terra

 

INDISCIPLINA CLERICAL

melgaçodomonteàribeira, 17.09.16

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LUCAS DE ABREU MAGALHÃES (P.e)

 

Filho de Pedro Gomes de Abreu e Ana Gomes, Nº 9 do Costado Magalhães de S. Julião de Baixo, foi presbítero e morou no lugar do Viso da freguesia de Chaviães e durante muitos anos prestou os serviços à Misericórdia local como capelão.

Faleceu em 6 de Agosto de 1737 e ao seu funeral anda ligada uma triste e flagrante prova da indisciplina clerical desses tempos.

Foi este um dos muitos padres melgacenses marcados com o ferrete da imprudência por à sombra da fragilidade humana sacrificar nos altares de Afrodite como qualquer leigo. Assim ferreteado decerto não deixou de ser vítima dos costumes sociais por ter sido empurrado para o breviário, quando o corpo lhe pedia matrimónio.

De qualquer das formas é certo não ter sido cauto o padre e como deste seu proceder deixou ficar provas no mundo melgacense, aqui se invocam para ficarem conhecidos alguns dos seus descendentes.

Embora no seu testamento apenas refira duas amantes – Maria Fernandes, galega e Camila Rodrigues, portuguesa e de Paços – três foram os seus aconchegos de solteirão, porquanto naquele número de amásias também se deve incluir a Maria Gomes, solteira, de Chaviães.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume II

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1991

pp. 101-102

POMAR DAS ADEGAS

melgaçodomonteàribeira, 23.07.16

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O ANTIGAMENTE

 

A Maria Florinda, filha do saudoso Francisco de Sousa Cardoso, querida contemporânea, esclareceu a oleogravura “Frades Barbeiros” que mencionei num dos meus “Antigamente”. Obrigado pelo esclarecimento que me despertou mais esta crónica.

Nos meados dos anos quarenta, no jornal “Notícias de Melgaço”, do também saudoso Adriano Costa, apareceu um artigo assinada por M, referindo-se a um garoto modesto e educado, que pela vila circulava assobiando despreocupadamente. Que tal rapazinho tinha pendores para desenho e pintura, fazendo um repto às autoridades camarárias para que fosse mandado a Lisboa a fim de ser submetida a análise a sua capacidade artística em laboratório estatal que existia e não me lembro o nome. Ora, esse garoto era eu. Fiquei atarantado e envaidecido ao mesmo tempo. Alguém reparara em mim e na habilidade que eu não tinha a certeza que tinha. Pelo Fabiano soube que o autor era o Sr. Cardoso. Como retribuição ofereci-lhe uma pintura feita a pastel que pelo visto ainda existe pois foi referida há pouco tempo pela mesma Maria Florinda.

O Sr. Cardoso era figura destacada na vida social de Melgaço. Acho que fora comerciante e chegara a ser Presidente da Câmara, quando mandou fazer, se não o primeiro, um dos primeiros jardins da Vila, ali naquele espaço onde actualmente está o chafariz de São João. Era o local, até aos anos cinquenta, conhecido como Jardim do Cardoso, onde jogávamos bola de pano. Nunca vi o jardim, apenas nomeá-lo. Foi o Sr. Cardoso, o primeiro melgacense que viu em mim alguma habilidade e me dava atenção. Era o mentor da sociedade recreativa que se denominava Assembleia. Esse clube organizava metodicamente bailes. Como era destinado ao que na época chamávamos “alta sociedade”, esses bailes revestiam-se de grande gala. Nas noites das realizações, as mulheres do povo (plebeias), inclusive as minhas irmãs, aglomeravam-se na porta da Assembleia para apreciarem as senhoras entrando para o baile e comentarem suas indumentárias, por dias a fio. Situava-se este clube no sobrado por cima da loja do Sr. Aurélio, na confluência da rua Velha e rua do Rio do Porto. Das frequentadoras ilustres lembro as meninas Durães, as meninas da Fonte da Vila, as meninas da Calçada, as meninas do Sr. Cardoso, as do Antonino Barros, das Cerdeiras, das Teixeiras, e outras famílias afidalgadas. Foram acontecimentos de destaque social, bailes que feneceram a partir dos anos quarenta. Querendo soerguer o clube o Sr. Cardoso convocou uma reunião de associados e para tal fez uma lista com os nomes, cerca de cinquenta e contratou-me para procurá-los e pegar a assinatura de todos como cientes da reunião. Pagou-me cinco escudos por tal. Nas casas ou no trabalho visitei a todos, apenas o Manéco do Simão encontrei na rua, e como era um gozador, além de assinar escreveu isto: “visto em trânsito”.

Pouco tempo durou essa reanimação, os tempos do após guerra já eram outros.

Nessa altura, o Sr. Cardoso, que era dinâmico e empreendedor, incrementou a sua propriedade agrícola que tinha no lugar das Adegas. Comercializou o vinho das uvas produzidas nessa propriedade, que baptizou de Pomar das Adegas. Para tornar conhecido encomendou-me uns cartazes promocionais. Feito o esboço aprovou e ajustamos dez cartazes a cinco escudos cada um. Feitos à mão em meia folha de cartolina, tornou-se tedioso repetir dez vezes o mesmo desenho colorido. Representava uma espécie de pomar com o castelo ao fundo, e em primeiro plano dois homens na mesa de um bar, com as legendas em balões. Dizia um: “Estou mal!” (com cara de enjoado), respondia o outro: “Faz como eu que só bebo Pomar das Adegas”. Esses cartazes foram afixados em cafés e tabernas.

Pouco depois aconteceu mais um cortejo de oferendas para o hospital e o Sr. Cardoso resolveu participar do desfile. Encomendou-me duas grandes garrafas de vinho, branco e tinto, feitas chapéus, para dois homens usarem no cortejo. A minha experiência limitava-se a montar as construções de armar que vinham no “Mosquito” e outras revistas infantis. Aceitei o desafio que a custo consegui desenvolver. Com papelão, cola e mais papelão pintadas a carácter, ficaram bonitas mas impossíveis de segurar na cabeça de tão pesadas e grandes, de modo que os rapazes carregaram-nas nas mãos. Não me lembro quanto pagou, sempre foi correctíssimo.

Voltou a escrever no jornal sobre a minha pessoa, a que tardiamente, agora, apresento a minha gratidão. Obrigado Sr. Cardoso!

 

   Rio de Janeiro, Fevereiro de 2013

                                                                       M. Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 

MELGAÇO, 3 - 3 - 1388

melgaçodomonteàribeira, 28.10.15

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CERCO DE MELGAÇO, 1388

 

Nos inícios de 1388, ainda em janeiro, D. João I partiu para Melgaço, com “huas mil e quinhemtas lamças e muita gemte de pee”, assentando arraial longe da vila. A vila era “cerquada se arrabalde, de bom muro e forte castello” e defendida por uma guarnição de “atee trezemtos homes darmas e outros muitos pioens escudados”, comandada por Álvaro Perez de Sottomayor e Diego Preto Eximeno.

Assim que a hoste real chegou à vila, os seus defensores começaram logo a “tirar aos trõos e a escaramuçar com os de fora; e nam se feez dapno de hua parte a outra, nem cos trõos que lançarom. Durante os dias seguintes continuaram a disparar os seus trons e a escaramuçar com os portugueses, resultando alguns feridos e mortos. Ao fim de nove dias de cerco, já teriam “lamcadas sesemta pedras de tõos, que nam ffizeram porem dapno”.

Dom João I mandou então “aramar hum emgenho acima da ponte da vila”, disparado nos dias seguintes de forma sucessiva contra a vila cercada. Tratava-se de um engenho pirobalístico – um trom - , que provocava danos consideráveis na vila.

Paralelamente ao trom, na hoste do monarca “não quedavam de dirribar madeira e acarretalla, que el Rei mamdava trazer pera fazer duas escalas e hua bastida para mover jumtamente e pousar sobre o muro (…) e mandou mais fazer duas escalas”. Estes engenhos já foram referidos no capítulo relativo aos engenhos de assalto, não havendo necessidade de repetir a informação repetida por Fernão Lopes. Acrescenta-se apenas que a construção dos engenhos e a preparação do terreno para o seu avanço demorou quinze dias, durante os quais as duas partes não cessaram os seus ataques.

 Fernão Lopes indica que os atacantes utilizavam ainda “pedras demgenho” contra os defensores. O mesmo cronista relatou que “cada dia tiravam os trõs e o emgenho hus aos outros, e o emgenho fazia muito mal na vila, e os trõs nam empeciam nada”. Tendo em conta a capacidade destrutiva do “emgenho” considera-se que se tratava de um engenho neurobalístico, nomeadamente um trabuco ou um trabuquete.

O aparato militar era tal que o monarca mandou chamar a sua esposa, Filipa de Lencastre, para que esta assistisse àquele que esperava ser o combate final do cerco.

Então, no dia 3 de março, mandou “el Rei que aballase a bastida com os seus coregimetos comtra a villa, como tinham ordenado, e moveo com fforça de gemte, pero ffoi bem dezoito braças; deshi moveo hua ala, depois a outra, e estiveram anbas defromte do muro arredada hua da outra. E tiraram lhe sete trõos que lhe nã ffizeram dapño. E depois movarã outra vez e ffoi bem rijamente; e chegou se tamto a villa que punham hu pee no muro dentro e outro na escala, Sobio muitas companha e o Prioll primeiro que todos, e mandou el Rei que tirassem a fora. Emtam se feez prestes pera mamdar combater e mamdou dez homes darmas que sobisem no mais alto sobraado, homde hiam as pedras da mao. E moveo todo jumtamente, as escallas pera pousar e a bastida em que hiam os homes darmas e besteros. E da bastida saiam homes com grossos paos que acostavã ao muro, e poseram muitos deles e fycavam de fumdo emparados”.

Os defensores tentavam a todo custo impedir o avanço das forças de D. João I, lançando-lhes pedras e fogo, mas não conseguiam provocar-lhes danos suficientes para refrear os seus ataques. Acabaram por pedir preitesia ao monarca, que se mostrou reticente em aceitar mas, por conselho de alguns dos seus homens, acabou por fazê-lo.

Estabeleceu-se que “desem a villa a el Rei, e que saisem em gibões, sem atemdo lamçadas da villa de demtro ao arraial cemto e vimte pedras de trõos, que nenhuu nojo fizeram e do arraial a villa trezemtos e trimta e seis, que danaram gram parte della”.

Assim terminou o cerco a Melgaço, a 3 de março de 1388, no qual se recorreu a trabucos, escadas e torres de assalto, para além de trons, da parte dos atacantes. Os defensores, por sua vez, apenas recorreram a engenhos pirobalísticos, não havendo referência à utilização de engenhos neurobalísticos.

 

Retirado de:

 

Bárbara Patrícia Leite Costa

2º Ciclo de Estudos de Arqueologia

Engenhos, armas e técnicas na Idade Média

portuguesa (séculos XII – XIV)

2014

Faculdade de Letras

Universidade do Porto

 

A TI MARIA E O PADRE

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

UM PADRE EXALTADO

 

 

   O caso da mãe do Jacob que aludi, foi o seguinte:

   A tia Maria, já idosa, com outras mulheres e a canalha da doutrina (catequese) entre eles eu, frequentavam a novena no mês de Maio, todos os dias à tarde.

   O pároco, na altura jovem, passava por grave crise existencial e problemas de família (um seu irmão casara com a filha de ex-padre e isso era, a seu ver, sacrilégio).

   Devido a esse estado de espírito andava o padre com os nervos à flor da pele aumentando o seu natural temperamento exaltado.

   Numa das novenas, a propósito de gesto ou posição engraçada de um dos rapazes os outros caíram no riso. Riso abafado como convinha na situação. Rir disfarçado nessas ocasiões acorria a miúdo e ninguém dava importância. Nesse dia, porém, a gracinha fora maior e o riso prolongado e um dos rapazes não se contendo riu mais forte. Para quê!... O padre, que estava de costas dirigindo as orações, voltou-se abruptamente descarregando uma série de bofetadas fortes e estridentes na cara do rapaz que estava mais perto. Pegou-o pela orelha e levou-o até à porta expulsando-o.

   A tia Maria, que estava ajoelhada como todos os demais no meio da igreja, pareceu-lhe que aquele rapaz agredido era o seu neto Zeca, Zeca Chatice, por acaso não era, e protestou resmungando em voz baixa, que aquilo não se fazia, etc., etc.. O padre, em altos brados mandou a mulher retirar-se da igreja. Ela obedeceu continuando a resmungar. O acto religioso continuou sem grande ou nenhuma devoção. O facto foi muito comentado e tempos depois o pároco foi transferido. Reminiscências de infância.

 

 

Rio, 31 de Maio de 1996

 

Correspondência entre Manuel e Ilídio