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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOFRIMENTOS INSENSATOS V

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

Ao cabo de meia dúzia de voltas no quinteiro, a Delfina queixou-se que estava cansada e que não podia andar mais. A filha, para que não se habituasse a fazer cada vez menos, forçou-a a dar mais uma volta e, depois, “subiu-a” para a casa. “Nom hai meios, pensava a Palmira, cando se lhe mête uma na cabeça, nom lhe sai enq’anto nom bencer a dela !” Sentou-a na cadeira e fê-la beber um pouco de água. Deu, em seguida, uma mexedela ao caldo que fervia como a caldeira de uma locomotiva e subiu o pote de meia dúzia de elos. Agora, ferver lentamente, chegava-lhe. Era a combinação da longura do tempo com a fragilidade do calor que fazia daquilo um caldo delicioso.

As grossas achas de carvalho, vindas do azinhal, faziam um caloroso braseiro avermelhado e duradouro. Para um balde que tinha a água gordurenta de lavar a louça, deitou as cascas das cenouras e das batatas que descascara para o caldo, assim como os caroços mais grossos das couves. Estava quase pronta a lavadura, o caldo do porco. Jamais utilizara sabão ou outros produtos para lavar a louça. Acrescentou-lhe mais um pouco de água, até cobrir largamente os desperdícios dos legumes. Por cima do comprido móvel e, de dentro de um saco plástico, tirou dois punhados de farinha que deitou no balde e que, seguidamente, mexeu bem com a mão. “Tenho que mandar o Mindo c’um saco de milho à ‘zenha”, lembrou-se, reparando na pouca farinha que lhe restava.

Olhou para a mãe discretamente. A Delfina, agradavelmente encostada à cadeira, baloiçava-se imperceptivelmente com a ponta dos pés. Como a grande maioria dos velhos, vivia no passado. Era o seu futuro. Os seus pensamentos estavam noutra época, estavam nos tempos em que era nova, feliz. Nos tempos em que o seu Abílio, às noites, depois de um dia no campo ou no monte, dava descanso ao corpo estafado nessa mesma cadeira, enquanto que ela preparava de comer. O seu odor agreste, de terra, ficara incrustado na madeira e havia alturas que lhe dava a impressão de o sentir. Gostava tanto daquela cadeira !

Tinha o olhar fixo na lareira. Mas, de repente, como se o olhar da filha a tivesse atingido, virou a cara para ela.

— Bou dar de comer ôs animais. Bôcê fica sentada na cadeira ou quêr que a ba meter na cama, é ?

— Nom, mulhêr, nom ! Bai tranquila qu’êu estou bem aqui sentada.

A Palmira não gostava muito de deixá-la sozinha, tinha medo que se levantasse e se desequilibrasse. Nunca se sabe, ao chegar a certa idade, as pessoas são imprevisíveis e inconscientes.

Pegou no balde e num pequeno cesto com asa que estava por cima do móvel e tomou a direcção da porta. Mal a entreabriu e já o Fedelho estava de pé, à espera. Sabia muito bem qual era o percurso, quais eram os destinos da dona. Deixou-a passar diante e, com as calmas comuns habituais, começaram a descer as escadas um atrás do outro. A maneira pausada de andar, semelhante, assim como o conhecimento mútuo, era o manifesto de um longo concubinato, de uma velha  cumplicidade rotineira.

Havia muito que a Palmira fazia tudo inconscientemente. O prazer que sentia nas coisas do dia a dia foi murchando até desaparecer por completo. Tinha acalentado e desenvolvido uma disposição ao aborrecimento do qual se sentia vítima. Se tivesse tido alguma paixão ou pesares abomináveis, que é nisso que acabam as futilidades das lembranças, podia ter sido uma presa para os seus pensamentos ou para os seus sentimentos. Não tinha o interesse profundo e imaterial que algumas almas orgulhosas tiram delas. O aborrecimento era o seu mal. Infelizmente, era o seu mal de todos os dias. Não só um aborrecimento cansado, nervoso, entorpecido, que vem dos outros, mas o que certas almas trazem nelas, como uma nativa enfermidade. Nunca tivera um coração para ouvir nele o eco dos seus sofrimentos, das suas alegrias e, quando esta íntima fraternidade, esgotada de lassidão, cede e alui, o aborrecimento abate-se sobre as pessoas como os rapaces sobre as presas. O tempo da esperança, da confiança, foi pouco duradouro. Quando se casou com o Belardo, passara dos trinta. Não tinha nada, não era nada bonita e nunca se preocupara em compensar este inconveniente por uma outra qualidade qualquer. Não casara por gosto, mas por necessidade, como ele, apesar de ser um homem bem mais apresentável do que ela. Havia bastante que a mãe lhe dizia: “Bem sabes qu’as bacas, qu’anto mais belhas, menos balem é menos aquêcem ôs bois”. De outro modo, por ser filha única, nem para tia ficava. O Belardo apenas tinha uma coisa a mais do que ela : a vontade incansável de trabalhar e conseguir ter o mínimo indispensável. A precariedade em que vivera com os pais desenvolvera-lhe os atributos da humildade mas, sobretudo, os do empenho pela vida.

Cinco anos depois de terem casado, a vida difícil, sem qualquer possibilidade ou expectativa de melhoras, forçou o Belardo a ir trabalhar para o estrangeiro. Foi logo a seguir ao fim da segunda grande guerra. A Áurea ainda não tinha quatro anos. Veio pela primeira vez três anos depois passar um mês a Orjás. Quando regressou para França, a mulher ficou embaraçada pela segunda vez. Pouco a pouco, foi mandando dinheiro para aumentar a casa que apenas tinha dois quartos insignificantes e uma cozinha e que mais parecia um casebre. Compraram duas leiras ali perto e a vida melhorou muito.

Sete anos depois da Áurea, nasceu o Armindo. A partir dali, o tempo das estadias na França foi aumentando. Uma vez a primária feita, os frutos do trabalho do Belardo começaram a financiar exclusivamente os dispendiosos estudos da rapariga, primeiro na Vila e, em seguida, em Braga. Ia fazer sessenta e três anos e a questão do seu regresso definitivo nunca fora abordada. Era uma falta de respeito. O homem sempre foi o senhor das decisões.

E a Palmira usava-se nesta vida triste e rotineira com os filhos e a mãe, havia mais de vinte anos. Desiludida pela enfermidade do filho, a dureza do coração substituiu-se ao orgulho natural. Já não sabia dar uma gargalhada, o que era gostar,  fazer carinhos, recebê-los ou ter compaixão. Vivia numa indiferença cega, alheia, total. Nunca tivera confiança nas suas qualidades, pensava-se estúpida e então desenvolveu uma passividade, um ar furtivo para proteger a ferida incurável de solidão, de infelicidade, no meio da indiferença familiar. Os olhos vidrados, sem qualquer lustro, reflectiam a frialdade na qual repousava a sua alma. A vida miserável que levava pesava-lhe mais do que o que podia suportar e estremeceu ao pensar que tinha que continuar  nisto amanhã, depois e sempre, até ir para debaixo da terra. “Pareço uma belha árbore podre, cheia de serrim”, pensou. Deu aos ombros e continuou o caminho ousadamente.

Não acabara de descer as escadas quando começou a sentir umas grossas gotas de chuva caír-lhe por cima do lenço da cabeça. Olhou para o céu. Estava cheio de nuvens escuras pelo meio das quais os raios de sol, já pálidos, tinham dificuldades em sorrir. Não havia perigo de borrasca. Era coisa passageira, predisse sabiamente.

A casa era em forma de L. Os fundos da parte em que viviam serviam de celeiro e de adega; neles estavam depositadas diversas provisões, suspenso o fumeiro, guardada a lenha seca, etc. A outra parte da casa, que fora acrescentada, era formada por duas divisões com duas portas pequenas. O primeiro compartimento servia de corte às vacas e às cabras ; o segundo, ao porco e aos coelhos.

A Palmira torneou a rústica chave na fechadura da porta do compartimento do suíno e dos coelhos. O Fedelho ficou de pé, abanando o curto rabo, à espera. Por experiência, não ignorava que a espera seria curta. Depois de deitar a lavadura ao porco, foi ao outro lado buscar meia dúzia de batatas e de cenouras que tinha numa grande caixa sem tampa e, juntamente com uns bons punhados da erva fresca que havia pouco trouxera do campo, deitou-as aos coelhos. “Deixa-me meter o resto da erba dentro da corte sinom logo as cabras...” Por fim, encheu o balde de milho no celeiro e, depois de fechar as portas, dirigiu-se para as traseiras da casa. A meia centena de galináceos esperava por ela na capoeira. Lá foram os dois, com manifesta indolência, um diante do outro.

Dispersou o milho pelo recinto, às punhadas, para evitar que os animais se amontoassem e se atropelassem. Arrancou um bom monte de folhas dos pés de couve, das mais velhas, que também espalhou pelos quatro cantos do galinheiro. Enxaguou os seis latões que estavam quase vazios e encheu-os de àgua fresca do bidão que ali havia e que recolhia a água da chuva. Foi às capoeiras e recolheu uma dúzia de ovos que depositou delicadamente no cesto. Prontos ! Estavam arrumadas, até ao outro dia. Olhou para o céu, as nuvens tinham-se dissipado.

Languidamente, sempre um atrás do outro, regressaram à casa. Embora o balde que levava na mão estivesse vazio, subiu as escadas com bastante mais dificuldade do que quando as desceu. “Ê bem berdade que, p’ra baixo, todo los santos ajudam.” Abriu a porta da casa cujos gonzos chiaram, pedindo um pouco de óleo. O Fedelho, como sempre, esperou que a patroa sacudisse a terra dos tamancos antes de se sentar no seu posto.

A Delfina encontrava-se exactamente na mesma posição, baloiçando-se com uma notável lentidão. Apenas virou os olhos na direcção da filha. O braseiro parecia inalterável. Naquela casa tudo parecia postergado, adiado, em suspensão.

— Cheguei, minha mai !

— J’ó sei ! Tenho olhos, nom ?

Não fez caso, ignorou a provocação da mãe, como ignorava tudo que não lhe convinha. Se lhe respondesse cada vez que a provocava, passavam o dia em altercações. Não era dia de gana para isso. Pegou na longa colher de alumínio e foi mexer o caldo. Mal tirou a tampa, um cheiro delicioso, do qual se destacava o do pernicho, inundou-lhe as narinas. Estava bom, como devia estar.

 

(continua)

 

SOFRIMENTOS INSENSATOS IV

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

A Lídia era mais nova do que ele um ano mas, físicamente, não o parecia. Pouco mais baixa do que ele, que era bem grande, não trazia lenço na cabeça, ao contrário da maioria das mulheres e das moças. A cabeça, sustenta por um pescoço de uma energia escultural, estava coberta de cabelos castanhos, que tanto caím em onda encrespada dos dois lados do rosto, como, por vezes, divididos em duas faixas e presos por uma fita trabalhada, como hoje, contrastando com todas as outras raparigas. Era bem proporcionada e, para a idade, possuia uns seios bastante desenvolvidos. Sempre bem disposta, era de uma rara beleza rústica. Seduzia quem a aproximasse pela extraordinaria nobreza do rosto com linhas tão simples, tão puras que nem a idade, nem o tempo alterariam a profunda benevolência, a expressão de calmo e lúcido agrado. Depois da escola primária, embora tivesse vontade, não pôde continuar os estudos. O pai, além de trabalhar nos campos, era capador mas não ganhava o suficiente para poder pagar-lhos. A mãe havia muito que lutava contra a doença e ela, como mulher, tinha a obrigação de se ocupar deles. Os dois irmão, mais velhos, estavam casados fora dali e tinham família.

Regressaram do moinho três boas horas mais tarde. O Mindo trazia o saco com cerca de vinte quilos de farinha às costas. Pousou-o por cima do muro e foi verificar prontamente se faltava alguma cabra. Estas, ao senti-lo, barregaram em grupo, como se quisessem sossegá-lo. Ficou aliviado e voltou logo para junto da Lídia que se sentara no muro, ao lado do saco.

— Estás a ber como nom fugiram ? Ê de dia é ô lobo nunca bem, j’ó sabes.

Não respondeu. Só ele sabia o que teria que suportar se perdesse uma cabra por negligência. Agora queria aproveitar o mais que podia o gosto inebriante que a sua deslumbrante presença lhe proporcionava, devorando com um olhar alienado aquele angélico rosto inocente que o excitava desmedidamente. “Que linda ê !” Se, casualmente, se tocavam, o seu sangue era fogo. O impacto que a ingénua e cândida conversa da rapariga exercia sobre ele, arrojava-o  para um mundo no qual gostaria de ficar eternamente, berçado pela sua voz cativante e repousante. Só ela falava. Ele não a ouvia. A sua inocência, a pureza da sua alma, não lhe permitiam conceber quanto a sua familiaridade o torturava. Quando ela falava, o rapaz não tirava os olhos dos seus lábios. Perturbavam-no. Podia sentir o seu hálito adocicado no seu rosto e então pensava que ia desmaiar ou ser reduzido a cinzas, como se tivesse sido atingido por um lampejo. Cada palavra que pronunciava era como uma baforada de ar fresco em dia de estio. Quando o silêncio se instalou, desviou, sem saber, o olhar, que permaneceu profundamente concentrado nos seus singelos olhos, sorrindo-lhe inocentemente.

— Ai, êl atê parêce que nunca me bistes – disse-lhe sorrindo por sua vez, ao reparar no seu olhar  fixo e persistente.

Sem esperar resposta, saltou do muro fazendo prova de uma autêntica agilidade de cabrita. Pôs o saco de farinha às costas com perfeita maestria e perguntou-lhe:

— É tu por que nom bés tamém ?

— ‘Ind’ ê cedo p’ra mim.

— Bô, já tinha bisto que tu nom m’estabas’ oubir ! – disse ela, levemente contrariada.

E pôs-se a caminho, cantando serenamente. O Armindo, sem perceber, ficou a olhar para ela até desaparecer na curva do caminho. Ainda perturbado pelo passeio inesperado mas quanto aprazível, voltou para junto das cabras, sorridente. Encostou-se ao eucalípto e tirou o chapéu da cabeça. Estava a suar e não sabia porquê. O sonho fora curto, para o seu gosto, mas excepcionalmente marcante. Fechou os olhos para reviver aqueles radiosos momentos e tentar assim prolongá-los o mais que podia.

V

A Áurea estudou no colégio da Vila até ao quinto ano. Seguidamente, frequentou o magistério em Braga, saindo professora com distinção. Era o orgulho do pai que, como presente, deu-lhe dinheiro para tirar a carta e comprar um modesto automóvel, necessário para poder deslocar-se a fim de exercer o trabalho que escolhera e do qual gostava imenso. Foi colocada pela primeira vez numa aldeia cerca dos Arcos de Valdevez onde as suas raizes montesas se familiarizaram de imediato e onde todavia se encontrava. Exercia a profissão com considerável paixão. Tinha imensa paciência, adorava a canalha e esta retribuía-lho fortemente. Os pais dos alunos prezavam-na dignamente, acariciando-a frequentemente com frutas, doçaria, bolos e queijinhos caseiros.

No entanto, à primeira vista, ninguém diria que aquela rapariga miúda, delicada e frágil, era portadora das qualidades essenciais a uma boa educadora. Magra, de altura média e de cabelos pretos cortados à rapaz, coisa que a mãe, embebida nos costumes, reprovara categoricamente, era bem feita e tinha um rosto bastante aprazível. Não era bonita mas tinha qualquer coisa que retinha o olhar. Dela emanava um sentimento de bondade infantil. Os redondos olhos pretos reflectiam uma fonte inesgotável de meiguice. Parecia-se muito com o pai, fisicamente. O carácter e o feitio circunspecto vinha inteiramente da avó Delfina.

Vivia para o trabalho e o tempo que tinha disponível dedicava-o a afazeres simples. O terceiro ou o quarto fim-de-semana de cada mês, na medida do possível, ia passá-lo a Orjás, junto da família. Das outras vezes, o cinema era o seu passatempo favorito. Se não lhe agradava o filme proposto ao domingo de tarde no único cinema da vila, o seu divertimento habitual consistia em passar horas a ler no quarto ou, se o tempo era propício, sentada na relva, por debaixo das copadas tílias que ladeavam o rio Vez. Adorava e preferia os autores que a faziam reencontrar o mundo em que vivia e que retraçavam o que a envolvia e cujas narrações lhe faziam bater o coração e a fascinavam tanto como a sua vida diária que, sem ser um paraíso, era, apesar de tudo, uma fonte de felicidade indizível. Senão, passeava tranquilamente pela verdejante alameda, apropriada naquele dia pelos jovens casais de namorados. Tinha vinte e quatro anos e ainda não encontrara nenhum homem que a tivesse entusiasmado. Não tinha pressa, deixava o destino operar libremente. Como nunca se deixara corromper pelos frívolos prazeres da vanidade e pelo namorico, os seus desejos eram concretos. Sempre creu que as coisas atiladas eram as mais sensatas. Considerava a ignorância como a causa da infelicidade de muita gente. Talvez fosse isto que a incentivara a ser professora.

A meio da tarde, no café mais recente da alameda, degustava o mil-folhas habitual e o copo de leite com canela, o seu pecado aconchegante, ao mesmo tempo que estudava  as pessoas à sua volta. Tinha uma distinta tendência e um gosto requintado pelo estudo da  fisionomia das pessoas. Dizia que o conhecimento dos outros era o melhor caminho para se conhecer a si próprio. Sentia-se bem nesta vila.

Em Braga, estivera hospedada na mesma casa com a Natália, uma colega de magistério que era dos Arcos. Os anos que passaram juntas fizeram delas duas amigas leais e inerentes. A Natália fora colocada em Trás-os-Montes e, quando soube que a amiga vinha para a sua terra, propôs-lhe imediatamente albergue na casa familiar. Ali, a Áurea encontrou um ambiente caloroso e e afectuoso. Agradecia o destino pela sorte que tivera, pois era melhor do que o que tinha na casa familiar em Orjás.

 

(continua)

 

SOFRIMENTOS INSENSATOS III

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

A Palmira ajudara a mãe a sentar-se na cadeira de balanço, desbotada pelos anos e pelo fumo, que estava ao lado da lareira, depois de esta se ter asseado. Resmungava sempre um bocado para se lavar ou fazer outra coisa qualquer. Com a idade, começava a ficar calaceira, desleixada. Não tinha ânimo para nada. O único esforço que consentia com agrado, e ainda bem, pois era-lhe necessário andar, era ao domingo, para ir à igreja. Mas a filha não a deixava descurar-se e, como o doutor lhe tinha dito, todos os dias a fazia dar umas voltas no quinteiro. Era bom para as pernas e para o coração, dizia-lhe.

A Delfina sentia-se bem, quentinha, ao lado das flâmulas coloridas, companheiras da sua achacosa solidão, que, havia anos, ritmavam os seus frescos e intermináveis dias outonais e invernais.

A filha preparava o caldo para pôr ao lume no pesado pote preto. Batatas inteiras que esfarrapava com o garfo uma vez cozidas, feijões, cenouras cortadas em grossas rodelas, uns grãos de arroz, meio copo de massa de cotovelos muito pequenos, couves esfarrapadas, um pouco de farinha milha, um fio de azeite, sal e um pedaço do fundo do pernil afumado (ou uma chouriça ou um naco de presunto ou unto) eram os ingredientes invariáveis deste excelente e nutritivo caldo que, diariamente, comiam. O único desvio era quando matava uma galinha para a mãe, que gostava muito, e aproveitava para fazer uma deliciosa canja com os miúdos. Uma boa malga, do que se podia considerar uma refeição completa, era mais do que suficiente para cada um deles.

Cozinhava sempre na lareira. Portanto, tinha uma boa cozinha de ferro que lhe comprara o marido em Braga. Os velhos hábitos, enraizados, são difíceis de cambiar. Fazia sempre caldo para dois dias. Era mais cómodo e, como a feijoada, também era mais saboroso quando requecido.

Do tecto, pendia por cima do lume a cadeia de ferro e o gancho em forma de S que servia para prender os potes. Pegou nele e, depois de o prender na alça do pote, enganchou-o num elo do fundo da corrente. Assim, as chamas, mais libres do que se o pote estivesse pousado por cima das brasas, eram maiores e lambiam-lhe o cu vigorosamente.

Olhou para a mãe fortuitamente, que parecia estar irrequieta, e perguntou-lhe se estava bem, quentinha, ao que ela assentiu. Estava bem, estava. Só que os dias, quanto mais passavam, mais longos lhe pareciam. A última carta que receberam da França excitara-a desmedidamente. Nela, o genro deixava planar a possibilidade da sua vinda no Natal. Ainda que assim fosse, faltavam mais de dois meses e ele só costumava certificar verdadeiramente a sua presença o máximo uma semana antes. Entretanto, não desesperava e pedia a ajuda de Deus.

A Delfina gostava muito do Belardo. Talvez mais do que da filha que, quantas vezes, a desdizia, chegando a pisar o limiar do desacato. Ele, sim, era um homem de palavra, de princípios e de respeito. Só tinha uma cara. Na frente dele, a filha remoia bem as palavras antes de abrir a boca. “Home” ! Sabia pô-la no devido lugar quando disparatava. Um simples olhar seu era suficiente para que a mulher o compreendesse imediatamente. “Coitado Belardo pensava. Trabalha tanto, hai tantos anos é tam longe da terra !” Mas, fosse como fosse, tinha fé de que não morreria sem voltar a abraçá-lo. Com ele na casa, os dias tinham mais sol, mas eram demasiado curtos. A última vez que viera fora no ano em que a filha Áurea acabara os estudos no magistério. Ficara contente como um cuco. Que evento ! “Como se fosse onte”, lembrava-se a Delfina, melancólica. Nunca pensara que tal coisa pudesse fazer dele um pai tão feliz. Tinha de quê. Era a primeira e a única professora que o lugar dera. Tinha sido há mais de três anos.

— Bamos, minha mai, bamos dar umas boltinhas p'rô quinteiro.

A pobre mulher, interronpida repentinamente nas suas aprazíveis reminiscências, sobressaltou e olhou para a filha, interrogadora.

— Nom seja manhôsa, minha mai ! Bamos p'rô quinteiro enq’anto nom chobe ou já estab'à dormir ?

Fez uma careta. Eram estes preconceitos insultuosos, estes comentários indecentes da filha que denunciavam a sua pouca paciência para com ela, que desgustavam e nauseavam a Delfina. Há pessoas que irradiam, que aquecem; ela absorbia todo esplendor, todo calor, como um pote ao lume. Levantou-se contrariada e, com a filha que a agarrava pelo braço, desceu as escadas diante do Fedelho, tão contrariado como ela.

IV

O Armindo, de olhos abertos, encostado ao eucalipto, não parava de sonhar. Com a idade dele, tinham ido muitos ganhar a vida para outros lados. Ele não podia ir para lado nenhum. Não avistava escapatória concebível. Avidez tinha ele, faltavam-lhe as possibilidades. Estava condenado a guardar gado e a suportar os olhares e as palavras de abandono, de falsa compaixão. Desconfiava da piedade que exaltava nele um prazer indecente, sentimentos um tanto indignos, uma comichão nas feridas da alma. Sentia-se doente. A sua doença não era a que ele via, mas sim a que lhe mostravam, que lhe impunham. Sentia uma desesperante solidão, um abandono assustador. “Estou bazio”, pensava. Via-se despejado. Nada o impedia de se ver e, portanto, havia anos que não se punha diante dum espelho.  Inchava de desejos em vez de saciar-se. Não incorporava nada, nem bem, nem mal, e a sua alma não era mais do que um odre cheio de vento. Via-se fundido, aspirado, desaparecer num estômago voraz que lhe feria os ossos. Fechou os olhos para constranger os pensamentos incongruentes, incoerentes e insuportáveis que há muito o remoíam, o rasgavam  lentamente.

— Ô Mindo, el tu dormes ?

O rapaz estremeceu. A voz fez-lhe abalar qualquer coisa dentro dele, qualquer coisa que só aquela voz podia atingir e avivar. Reconheceu imediatamente a voz melodiosa da Lídia que o fez sorrir e abrir os olhos com enorme prazer. Para ele, ela era como o orvalho da manhã que revigorava as plantas. Foi um balde de água fria que o reavivou e lhe aliviou, momentaneamente, a queimadura que continuamente o abrasava.

A miúda estava parada por debaixo do carvalho que cobria e ensombrava aquele pedaço do caminho, encostada às pedras do muro, um saco ao ombro e fincada graciosamente na típica vara. Olhava para ele sorrindo, com um ar prazeroso e provocador que demonstrava o degrau de carinho com que o considerava. Com a irmã dele e a avó, fazia parte das pessoas que sempre tiveram uma relação franca com ele, que jamais pronunciaram uma simples palavra de travesso ou lhe lançaram um olhar que o pudesse ferir ou mesmo lembrar-lhe o seu martírio. Era um espelho que reflectia a sua imagem melhorada.

Ficava desatinado quando via a rapariga. Só ela conseguia suscitar-lhe um pouco de gosto, de desejo ou de interesse pela vida. O sangue invadia-lhe o rosto e aquecia-lhe as bochechas. Contente mas confuso, tremia e tinha enorme  dificuldade em coordenar e articular as palavras que lhe saíam fragmentadas com uma fluência incontrolável. Dava-lhe a impressão que, consciente disso, não desagradava à moça e que até a divertia.

— Nom... nom sei !  Enfado-me... aqui sozinho. É tu, onde bás ? À ‘zenha ?

— Si ! Bou moer um saco de centeio. Quêres bir comigo ?

Ficou pasmado, sem fala, durante uns segundos. A moça passava ali de vez em quando e falava-lhe sempre, amistosamente, mas era a primeira vez que o convidava para ir com ela. Ganhava uns tostões indo ao moinho moer o centeio ou o milho das pessoas que não tinham tempo ou não podiam fazê-lo. Não hesitou. Não devia deixar as cabras ao abandono mas o prazer inefável que a sua presença lhe proporcionava e a vontade de poder acompanhá-la à azenha do tio Júlio foi mais forte do que a razão. Pela rapariga, era homem para correr qualquer risco. Quantas vezes sonhara que eram namorados !

— É às cabras, que lhes faço ? – perguntou precipitadamente.

— As cabras nom te bam fugir, home !

Era a resposta que esperava. Nem percebera por que razão perguntara tal coisa. Não podia conter o júbilo que o invadira e perturbava. Sem pensar duas vezes, levantou-se de um salto. Aproximou-se das cabras e disse-lhes com voz forte :

— Nom saiades daqui, oubistes? Nom me criedes problemas, é ?

A rapariga deu uma vibrante gargalhada descobrindo os lindos dentes brancos, bem alinhados, e perguntou-lhe :

— Êl tu crês qu’elas t’entendem?

— Claro que si, mulhêr ! – confirmou  com seriedade.

Agarrou no seu pau e, com um entusiasmo encantador, pegou no saco que a rapariga trazia às costas e foram andando e conversando negligentemente pelo caminho fora, em direcção do regato, da azenha. Sentia-se eufórico como nunca se sentira.

 

(continua)

 

SOFRIMENTOS INSENSATOS II

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

Portanto, a vida não a tinha galardoado. Aos doze anos, a tuberculose levou-lhe os pais e o irmão que era mais novo do que ela e que adorava. Recolhida por uma tia, começou por ir para o monte guardar cabras, seguindo-se depois, dia a dia, a rija escola do campo e do monte. Ainda não tinha dezoito anos quando conheceu o Abílio na festa de Cubalhão. Começou um namoro que não tardou em casamento. Pareciam feitos um para o outro e os anos deram-lhes razão. Apenas puderam dar vida a uma filha e com muita dificuldade. Fora um grande desgosto não poderem ter muitos filhos.

O pouco que tinham foi o Abílio que o ganhou no negócio das ovelhas e das cabras. Era mais do que suficiente para as exigências deles, pois tinham sido criados no nada. Viveram contentes e mesmo felizes, segundo o que eles entendiam por felicidade. Viviam um no outro. Chegaram a um ponto que quase nunca se falavam. Não precisavam de se interrogar para conhecerem os seus pensamentos. Compreendiam-se em tudo, estavam habituados aos mesmos gestos, às mesmas vontades, a viver as mesmas impressões, as mesmas dificuldades e como não conheciam o romantismo, não precisavam das palavras. Até que o Abílio, na sequência de um ataque cerebral, ficou gravemente enfermo. As sequelas eram irreversíveis. Foi o prelúdio de um cruel sofrimento. Tinha sessenta e cinco anos e a mulher menos cinco. Não podia falar nem mover-se. Durante cinco anos, não mais se levantou da cama, ocasionando um monte de desagradáveis encargos e dificuldades à pobre Delfina, que os enfrentou com tanta coragem e dedicação como de amor tinha por ele. Fazia tudo para estar junto dele a qualquer hora e dava-lhe todo o carinho que podia para aliviá-lo do inesperado pesadelo. Uma manhã, encontraram-no sem vida. A partir dali, todas as noites, a mulherzinha implorava Santa Rita para que lhe desse uma horinha breve e, sobretudo, que não acabasse acamada como o seu “Bilinho”. Antes de tudo, queria evitar de ser um fardo para a pequena família.

— Ai que bid’à minha, meu Deus ! – lastimou-se, estendendo a malga à filha.

“A minha pouco melhôr ê !”, murmurou-se esta, levantando-se e recolhendo a malga que foi pousar na cozinha. Regressou com meio copo de água e dois comprimidos que deu à mãe. Havia dez anos que o desditoso cenário se reproduzia diariamente.

— Bou acender a lareira, minha mai.

Foi para a cozinha. Numa panela fina de alumínio, pôs uma pouca de água a aquecer por cima do fogareiro para a mãe se poder lavar mais tarde. A Delfina, a idade ajudando, era muito friorenta. Com uma pinha seca e uma "carqueija" depressa pôs o lume a puxar.

II

O Armindo saíra da casa ao romper do dia com as cabras e com as vacas. Deixou estas a pascentar num grande campo, que se cobria de erva tenra de abril a outubro, situado junto do caminho do regato, e continuou até ao monte, mais adiante, onde as cabras podiam tosar no grande azinhal montanhês que tinham comprado ao tio Vitorino.

Era um belo rapaz, atlético, como o pode ser um aldeão cujo rosto está à mercê das vicissitudes do ar agreste do monte e dos rijos trabalhos do campo. Pacato, introvertido, tinha ares de viver contente no meio da natureza e dos animais. Portanto, tinha passado e passava uma vida difícil, dolorosa, constantamente magoado pela rudeza da gente e pela crassidade dos hábitos. Ia no quinto ano de vida quando teve o ataque de um “mal estranho” que o deixou com um defeito nos dois membros destros : o braço ficou-lhe como quando tinha cinco anos, diminuto, atrofiado, e o pé, igualmente deformado, obrigava-o a coxear. Desde então, experimentou constantemente motejos e trejeitos dos rapazes da sua idade que, ajudados pela ignorância, consideravam mais o seu infortúnio como um sortilégio. A verdadeira mágoa começou a senti-la muito antes do início da adolescência. Morosamente, foi incrementando, roendo-o e confiscando-lhe todo sonho que pudesse ter. Sentia-se preso num beco sombrio, doloroso e sem fim. Dentro e fora dele tudo tinha o sinal da cólera. Sabe Deus quantas vezes se foi deitar com o desejo, com a esperança de não mais acordar e, de manhã, ao abrir os olhos e ao ver o sol, sentia uma tristeza e uma frustração inconsoláveis. O desânimo e a mágoa tinham ganho raízes cada vez mais profundas na sua alma e, pouco a pouco, tinham-se tornado donos de todo o seu ser. Os amigos eram inexistentes e tampouco os procurava. Tinha, simplesmente, alguns raros rapazes com os quais trocava umas palavras quando calhava, sobretudo para tentar minorar as diferenças físicas que os outros não deixavam de lhe relevar incessantemente.

Já não tinham conta as noites que sonhava que era como os outros, que corria, que saltava e até que namorava. Sonhara que tinha uma vida extraordinária, sonhara com tudo o que, certamente, nunca poderia ser, ter ou fazer. A desilusão fora igualmente imensa para toda a família que não pôde senão remeter-se ao destino e a Deus. “Ê como Deus o fijo", consolava-o a avó, meia atordoada pela enfermidade do neto.

Passava os dias a falar e a brincar com as cabras como amigas que as considerava. Às oito que possuiam, tinha-lhes posto um nome. Era da Rabugenta, um cabrito acastanhado, que mais gostava por ser recalcitrante e o contrariar continuamente. As horas que tinha que guardá-las, passava-as sentado a observar os lindos vales bem moldados que dali se podiam divisar ao longe. Desenrascava-se como podia para não se aborrecer. No verão, o voo das moscas, o zumbido das vespas, as borboletas e os insectos atraídos pelo cheiro das flores eram suficientes para lhe distrair o espírito. Outras vezes, deitava-se de costas no chão a observar o céu azul. A sensação de grandeza, de liberdade e de avulsão física que sentia era assombrosa e punha-o num estado de semi levitação. Quando via uma ave de rapina em busca de presa descrever grandes círculos no céu, fechava os olhos e sonhava que voava ao seu lado, livre dos seus movimentos. O sonho era a sua verdadeira realidade.

“O dia nom está mui católico”, pensou o rapaz, olhando para o céu. Este, tanto se encobria de nuvens escuras, ameaçadoras de chuva, como deixava transpassar os raios do sol já combalidos.

Deitou uma olhadela às cabras, disseminadas pelo azinhal e, uma vez assegurado, sentou-se encostando-se a um majestoso eucalipto. Para aquela região montanhosa, era uma árvore inabitual. Apreciava o cheiro que dele emanava porque, além de ser agradável, também era "mi bô" para limpar os pulmões, dizia a sua avó. Tirou o tabaco e as mortalhas e enrolou um fino cigarro calmamente. Fumava um ou dois por dia, quando fumava. Já tinha dezassete anos mas não queria imaginar o que se passaria se os pais chegassem a sabê-lo. O pai nunca o fizera e várias foram as alturas que o magoara, recordando-lhe irresponsavelmente a deficiência, ao dizer-lhe que, para se ter vícios, há que poder assumi-los. Para não dar nas vistas indo à loja do Beites comprar o tabaco, pedia a um “velhote” seu amigo, o Salvador, para lho trazer de Melgaço quando ia à feira. Tinha confiança nele pois provara-lhe, mais do que uma vez, que podia ter. Era o seu maior amigo, apesar da enorme diferença de idade. “Ê co’s mais belhos que s’aprende”, disse, quando os seus “colegas” lhe fizeram a observação.

O Salvador era um homem enigmático que sabia fazer de tudo. Além de campónio, desenrascava-se como carpinteiro, como ferreiro, como pedreiro e mesmo como veterinário. Estava sempre pronto para ajudar quando necessário. O lugar não podia passar  nem era o que é sem ele. Apareceu um dia remoto, ainda um jovem homem, ao lugar e ali ficou. Começou por comprar um velho e abandonado cortelho, um pouco apartado do lugar, que, pouco a pouco, foi remendando. Tanto à volta como por dentro, era um autêntico bazar. Guardava e coleccionava tudo meticulosamente. Aquele barraco era o símbolo da sua existência, onde o passado se manifestava com endiabrada tenacidade. Sério, inimigo dos desvios e da espontaneidade, vivia sozinho conservando misteriosamente o segredo sobre a sua origem e as razões da sua vinda para um lugar perdido como aquele.  Particularmente enigmático, como se estivesse fora do Bem e do Mal, apesar de não ir à igreja, nunca ninguém o ouviu dizer fosse o que fosse a favor ou contra a religião. Toda a gente lhe tinha um enorme respeito e lhe expressava grande gratidão pelos serviços prestados.

Encostado ao eucalípto, o Armindo saboreava o cigarro com lentor, fazendo render ao  máximo o prazer que este lhe exalava a cada chupadela. Lembrou-se duma promessa que lhe fizera o Salvador e riu-se. Como que perdidas, grossas gotas de chuva, que faziam estalar as folhas meias secas do eucalípto, caiam-lhe, esporadicamente, no velho chapéu de feltro que lhe cobria a cabeça.

 

(continua)

 

O SE TÓNIO I

melgaçodomonteàribeira, 06.03.13

 

Antiga Pensão Parisiense

 

 

   A Pensão Parisiense situava-se na Rua Velha, num prédio de dois andares pertencente ao Teixeira de Monção, cabo da guarda fiscal. Tinha duas grandes portas duplas e uma vitrina no meio. Uma das portas, de ferro, dava para a sala de comer e para a cozinha, que era contígua. A outra, antiga, era de madeira maciça. Por ela, acedia-se a umas escadas de uma dúzia de degraus que findavam num pequeno patamar com duas portas simples diante e outra do lado direito. Esta dava para o meu quarto. Das da frente, a do lado direito dava para um corredor pelo qual se atingiam mais três quartos. O da minha mãe era a meio, à direita. A chave estava sempre na porta, pelo lado de fora, a fim de os hóspedes poderem entrar e sair libremente. Era o primeiro andar. A do lado esquerdo, subindo mais umas estreitas escadas, dava para um apartamento que ocupava por completo o segundo andar e no qual morava o proprietário do prédio e a família.

   O sr António viera da Gave, de onde era nativo e hospedara-se na nossa pensão. Andava  muito perto dos sessenta. Era um homem pacato e sereno. Ponderado, nunca o ouvi levantar a voz a quem quer que fosse. Raras foram as vezes que consegui discriminar-lhe nos traços uma ponta de preocupação ou de irritação. Do chapéu típico dos do monte às botas, do fato à camisa, andava sempre vestido de preto. A única excepção era a camisola interior branca de algodão no inverno. Não sabia se tinha qualquer significado.

   Poucos dias depois de se ter instalado na Vila, alugou os fundos da casa onde o Ilídio tivera a ourivesaria, junto da residência do padre Justino. Ali, montou um comércio onde vendia mobílias rústicas. Eram móveis de pinho bruto, sem pintar ou envernizar, a preços somenos, imbatíveis. Tinha armários, mesas, bancos, masseiras, arcas, cómodas, cadeiras... O estilo de mobílias que, globalmente, era procurado pelos do monte. Ia com frequência à feira a Braga e procurava estilos diferentes, dentro da mesma qualidade, que pudessem engrossar as vendas. Uma camioneta trazia-lhe, em seguida, tudo a Melgaço.

   Tinha uma vida ordinária regulada e rotineira. A sua mesa favorita estava jornaleiramente reservada pois respeitava escrupolosamente as horas das refeições. Estas terminadas, tanto ao meio dia como à noite, ia tomar café e copa de cachaça ao "Nosso Café", exclusivamente.  Um conterrâneo seu, o Justino, que morava ao lado nosso, por cima da gráfica, era quem o explorava.  Uma coisa devia justificar a outra. Nas longas noites de inverno, quando calhava, gostava de enfrentar comigo outra parelha numas boas partidas de sueca. Passávamos momentos agradáveis. Era uma companhia aprazível.

   A meia dúzia de diários que tínhamos (motoristas, guarda-fios) iam, habitualmente, passar o domingo com a família. Ficávamos eu, a minha mãe, a Rosa do Moinho, ajudante na pensão , e o sr António. De tempos a outros, quando a minha mãe sabia que a comida que fazia para nós não era do seu agrado (não gostava de cozido e era do monte), fazia-lhe a sua guloseima: uma travessa de pataniscas e duas colheres de sopa de arroz do forno sêco. Regalava-se.

   Comíamos os quatro à mesma mesa uma vez por semana. A conversa desenrolava-se, quase sempre, entre a minha mãe e o senhor António. Falavam do monte, da existência que tiveram, das suas aldeias, de pessoas que conheciam mutuamente, com quem tinham negociado ou trabalhado, que ajudaram ou por quem o foram... Falavam da vida e conseguiam fazer-me vivê-la. A conversação continuava mesmo depois de termos comido e a Tia Rosa ter levantado a mesa. Eu escutava atentamente e com enorme satisfação. Ensinavam-me muitas coisas. Para mim estas conversas singelas eram um painel patente, falante. Eram a expressão genuína da imensa afeição que sentiam pela terra ingrata que os viu nascer e pelas pessoas que nela viviam. Só não gostava quando o sr António, durante a conversa, fazia uma curta pausa e, virando-se para mim, dizia: "Tu inda nom tinhas nacido." E quê, apetecia-me perguntar-lhe às vezes ? Tinha-lhe demasiado respeito para tal.

   Na Gave, além de trabalhar as terras que possuia, batia o ferro. Por isso, lá, conheciam-no por António Ferreiro. 

   Portanto, se decidira abandonar a sua terra mãe e viver na Vila, era porque a vida, até ali aprazível, fora cambiada por um infausto e severo destino. No princípio, escassas pessoas conheciam a causa da sua vinda.

   Havia poucas semanas que estava connosco. Uma noite,  acabou  de comer, acendeu o "Provisórios" e saiu para tomar o café e a cachaça habituais. Então, a minha mãe, depois de nos ter rogado para não o repetir, contou-nos, a mim e à Rosa do Moinho, o sofrimento e o rasgo profundos que tinham perturbado o homem e o tinham propendido para a Vila: a mulher "trocara-o" !

   — E, por causa disso, veio viver pr'à Vila ? – perguntou a Tia Rosa, admirada.

 

 

(continua)