Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

LINA FILHA DE PÃ

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

     Joaquim Agostinho da Rocha nasceu em Cevide, Cristóval, Melgaço, a 12/6/44. Até aos seis anos de idade, viveu no lugar onde nascera; dos seis aos vinte anos residiu na vila da Melgaço, terra de sua mãe e seus avós maternos.

Em Janeiro de 1965, ingressou no serviço militar onde permaneceu até aos finais de 1967, tendo comprido quase dois anos nas matas da Guiné-Bissau. No regresso de África ficou a morar em Lisboa. Trabalhou como empregado de escritório, bancário, contabilista, bibliotecário, professor do ensino secundário…

     Ao longo da vida foi estudando: primeiro tirou o Curso Comercial; depois o Curso de Contabilidade (técnico de contas); mais tarde fez algumas disciplinas do Liceu e o Propedêutico, a fim de ingressar na Faculdade de Letras de Lisboa, completando aí o 2º ano de Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses). Devido a incompatibilidades de horário, terminou esse Curso na Universidade Autónoma de Lisboa – Luís de Camões.

     Em 2001 regressou ao seu Minho, fixando a sua residência na cidade de Braga.

     Dedica-se à investigação na área da História Local e Regional, e à criação literária.

 

A TIA TINA

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

ERNESTINA SOUSA, FILHA DE AMÁLIA E ILÍDIO

 

A TIA TINA

 

   Nos bailes frequentados pelos papo-secos de Monção as raparigas caíam dengosas para o lado deles, a Ernestina, que era um espectáculo de mulher, aliás, cabe aqui registar que todas, mas todas as mulheres descendentes do Félix e Conceição eram uns pancadões de tirar o fôlego a qualquer mancebo. Pois a Tina fisgou o Adolfo que se aprumava na vida com uma lojinha de sociedade com outro rapaz, de Monção.

   Aconteceu o casamento e a Tina com seu dinamismo e pendor para o negócio transformou a incipiente loja do marido em poderoso entreposto de contrabando. Tornou-se o membro da família mais abastado só suplantado em curta fase pelo tio Emiliano.

   Houve nesta época uma atitude da Tina, curiosa, que revelou seu afecto aos familiares. Eu era garoto e assisti. A Tina combinando com o tio Emiliano:

   — O meu pai, dizia ela, anda bebendo nesta e naquela taberna umas malguinhas com os amigos; pois eu quero que ele tenha o vinho que quiser para beber a qualquer hora com os amigos.

   A partir daí havia na adega do tio Emiliano uma pipa de vinho comprada pela Tina para o pai beber e oferecer. Não sei quantos anos durou essa euforia ou se só se resumiu àquela pipa que eu assisti.

   O marido, o tal Adolfo, era um mulherengo, putanheiro dos diabos. Aqui cabe uma observação particular: a Tina, não obstante ser uma mulheraça na aparência talvez não o fosse na cama, daí o marido ser obrigado a procurar satisfação com outras…

   Em 1952 já estavam separados, e quando em 1969 fui até aí e à França, com os parceiros de viagem, Emiliano (sobrinho), Gú, Pirata e mais o Zeca Chatice, visitamo-lo no trabalho, uma Casa de Saúde, onde era fachineiro, com aparência deplorável. Fiquei com pena.

   A Ernestina, devido à sua condição de "sem-filhos", sempre se rodeou de sobrinhas e amigas.

 

Rio, 6 de Fevereiro de 1997

Correspondência entre Manuel e Ilídio

 

   A última recordação que tenho da tia Tina remonta a 1981. Na altura eu trabalhava em Viana do Castelo e fim-de-semana era sinónimo de Melgaço. O comboio chegava por volta das 2 horas da tarde e não havendo boleia para Melgaço ou porque tinha assunto em Monção (feminino), ia almoçar a casa da tia, por trás do Palácio de Justiça.

   — Euláááliaaaa, chegou o menino. Faz um bife e dá-lhe de comer.

   O dar-lhe de comer era o que tinha sobrado do almoço terminado há minutos. A minha tia era mulher para pesar os seus cem quilos e apesar de um tumor no cérebro tinha um apetite voraz. Eu sabia e ela sabia o significado das dores de cabeça que a atiravam para a cama.

   Eulália saía da cozinha, a dois passos da mesa onde nos sentávamos, põe o prato à frente do menino, e com a carinha angélica, branca e sarapintada com um toque de tinto nas bochechas, cabeça inclinada sobre o ombro:

   — E a senhora?...

   — Sabes que não posso comer…

   — A tia ainda não almoçou a esta hora?

   — Almocei mas ainda comia uma sopinha – Euláááliaaa

   — Ai diga, senhora, não estou surda…

   O bife a desaparecer e eu a pensar nos restos do almoço, empurra a porta e entra o tio Aprígio. Pela cara, vi logo que havia treta e quando a tia Tina ouviu que a sobrinha e a carga tinham sido apanhadas, levantou-se, deu um murro na mesa e gritou:

   — Caaralho, será que tenho que voltar a trabalhar? Não sabem fazer nada?

   Claro que a sobrinha, o camião e a carga não demoraram a estar na estrada.

   A tia Tina faleceu pouco depois vítima do tumor.

 

Três décadas antes o amigo Vasco descrevia o enredo da Tia Tina  e família, nestes versos:

A tua mãe onde está?

Não sei se é viva se é morta,

Andava a passar p’ra lá

Em companhia do Ná,

Tripa no tempo da ‘Frota’

 

O Tio Ná, Oceano de Sousa, foi sempre um dos braços direitos da irmã Ernestina. O contrabando de tripas, chegou a ser, com o de ovos e café, dos mais procurados pelos nossos vizinhos galegos.

 

Ilídio Sousa

 

AS MULHERES DO CONTRABANDISTA

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

UMA VIDA SENTIMENTAL PARTICULARMENTE ATRIBULADA

 

   "Águas passadas não movem moinhos." Helena do Ângelo, de 70 anos, resume, assim, as vidas sentimentais atribuladas – a sua, a de Adolfo Vieira e a de outras mulheres que ele conquistou ao longo das décadas de 40 e 50.

   No auge, dono de propriedades, milionário, figura respeitada, Adolfo deitou para trás das costas moralismos ou tradições familiares e tratou de levar a vida à sua maneira. As mulheres terão sido a sua perdição.

   Casado com Ernestina, senhora da vizinha vila de Melgaço, cedo abandonou o lar, deambulando atrás deste ou daquele rabo-de-saia. “Se calhar, porque a legítima nunca lhe pode dar filhos”, recorda Joaquim Brito, presidente da Junta de Freguesia de Monção, que herdou do pai uma alfaiataria, onde Adolfo Vieira mandava fazer os seus fatos.

   De Helena do Ângelo, o homem deixou três filhos  –  Idalina, Luís e Fernando – , da Quinhas outro, mais um da Binda das Sousas e dois da bonita galega Pilar Ramona. Avesso a “falsos moralismos”, conforme relata o dono de um café no centro de Monção, o contrabandista viveu ali todas as suas paixões, fixando residência conforme a senhora amada. Devaneios que nunca escondeu.

   Na vila, não se conhecem desvarios sentimentais, arrufos públicos, dramas conjugais. “O que havia era que, quando íamos à mercearia, ficávamos a olhar umas para as outras, a ver quem comprava mais, para ver a quem ele tinha deixado mais dinheiro”, lembra Helena.

   Adolfo alugou casas, entregava a mesada às companheiras, “amou todos os filhos”, mas deitou tudo a perder. “A Ramona fê-lo perder a cabeça. Gastou todo o dinheiro com as mulheres, mais a Pilar, mas também me deu muito!”, atira.

   Helena, por desgosto, emigrou para Angola e, quando voltou, soube que Adolfo, antes de morrer, tentara voltar para a esposa. “Quem não teve a carne também não quer o osso”, ter-lhe-á dito Ernestina, na versão de Helena.

   Há dias, Pilar Ramona passou por Monção, aonde foi tratar de papelada relacionada com a morte recente dos dois filhos. E quis visitar Helena, por quem nutre um sentimento de amizade…

 

 DIÁRIO DE NOTÍCIAS – QUINTA-FEIRA, 30 DE JANEIRO DE 1997

 

DEVANEIOS DE UM CONTRABANDISTA

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

Rio Minho em Monção

 

 

   Adolfo Vieira, de Monção, outro dos nomes referenciados pelos investigadores militares norte-americanos, nunca se envolveu naquele tipo de actividades, a acreditar nos testemunhos escutados pelo DN. Café, sabão, sementes pretas de cereais e amêndoa constituíam o seu negócio.

  Era um dos mais ricos de Monção, mas não se lhe conhecem valores extraordinários. “Teria umas largas centenas de contos. Não mais”, assegura Helena do Ângelo, uma das mulheres com quem viveu maritalmente.

   Uma versão ratificada por filhos e gente da vila que com ele conviveu. “Morreu na miséria, deixando apenas 400 contos no banco”. Adolfo Vieira faleceu em Março de 1970, no hospital, porque não tinha casa…

  Era um esquema simples e muito em voga nas décadas de 1940 e 50, altura em que o contrabando entre o Alto Minho e a Galiza servia de ganha-pão da maioria das famílias. Adolfo possuía um armazém na vila, sede de um negócio rentável, no qual estavam envolvidos dezenas de homens, da sua confiança.

   Ao que nos contaram, uma carrinha Ford bastava para levar a mercadoria até uma pesqueira no rio Minho. Ali, uma batela fazia o transporte para a margem espanhola, onde contrabandistas galegos se responsabilizavam pelo respectivo escoamento.

   Não havia problemas com as autoridades, porque o dinheiro ganho “dava para tapar os olhos à Guarda Fiscal”, ouvimos à boca cheia. Tratava-se de um negócio tão pacífico que Fernando Vieira, um dos seus filhos, hoje com 49 anos, se recorda de “ir em cima dos sacos na carrinha” até ao rio. Tudo se passava junto à muralha ou um pouco mais acima, em Caldas das Termas. Ali, atravessar o rio tornava-se mais seguro, porque “o leito estreitava, o caudal baixava e a corrente não era tão forte”, explica-nos Helena do Ângelo.

   Adolfo Vieira nunca viveu de ostentações, apesar de ter o devaneio de “rasgar os fatos aos amigos para ter o prazer de mandar fazer um novo”, lembra Joaquim Brito, actual presidente da Junta de Freguesia de Monção e proprietário de uma alfaiataria.

 

(continua)

 

FONTE DE S. JOÃO

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

A Fonte de S. João é, para os da minha idade e mais velhos, fonte de recordações infantis e a reminiscência de um Melgaço desconhecido para os que têm menos de cinco décadas. A canalha toda que nesse tempo havia na Vila bebeu frequentemente naquela fonte e caiu, um dia ou outro, no tanque adjacente ao tentar apanhar o que nós chamávamos “caçolas” (girinos).

Esta fonte foi recentemente degradada. Um tal acto demonstra o desrespeito, o desdém que determinados seres têm pelo nosso património comum (etimologicamente o que se herda do pai) e que é a nossa memória colectiva e o testemunho da nossa civilização, conservado para ser transmitido às gerações futuras.

Não encontro palavras para qualificar acções desta natureza sem cair na bestialidade, na obscenidade, na vulgaridade e muitas mais palavras terminadas por idade. Finalmente, o mais certo é que seja a obra da idade, de alguns jovens ou velhos adolescentes aborrecidos, desorientados, sem ponto de referência, que quiseram manifestar através deste gesto a aflição e a angústia que neles nutre. Ou então foi um desatino momentâneo de estroinas, ocasionado pela inalação de uns fuminhos estimulantes. Mas seja qual for a causa, nenhum dos postulados serve para atenuar ou legitimar um gesto tão absurdo e estéril como este.

Compete ao poder público tomar as medidas necessárias para encontrar os ineptos responsáveis por este feito, a fim de evitar imitações desastrosas no nosso rico património.

 

FESTA EM SEIXAS

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

  

Seixas - Foto de rapazao

 

   Era a segunda vez que íamos tocar à AAS, Associação dos Amigos de Seixas. A primeira vez fora no carnaval do mesmo ano e, aparentemente, a gente gostara da nossa música. Por isso, naquele dia, dia da festa de São Bento, padroeiro da vila, lá estávamos nós a tocar novamente.

   Seixas é uma linda vila da margem esquerda do rio Minho. A largueza do rio mostra que a foz não está longe e que os efeitos das marés chegam ali.

   Nas ruas, a multidão movia-se como duas ondas, uma de cada lado e em sentido contrario.

   A sala da associação era no primeiro andar de uma antiga fabrica. Estava cheia. Ao ar livre, num largo da vila, havia outro baile com um grupo que se podia considerar uma orquestra: eram uma duzia.

   Foi durante o nosso intervalo, quando estávamos a ver e a apreciar o outro grupo tocar, que se começou a ouvir uma enorme aclamação: “Amália, Amália !” A singular e adorada fadista portuguesa passeava, descontraidamente, pela festa, xale preto pelas costas, em companhia de um homem de certa idade que, pelo estilo, devia ser seu secretário ou empresário. “Amália, Amália !” Era natural que estivesse de visita à zona pois, se tivesse familia ou amizades por ali, não andaria unicamente na companhia de um secretario. Toda a gente gostaria de se mostrar ao lado da grande Amalia. A multidão era cada vez mais numerosa a entoar o seu nome. Os membros do conjunto que actuava, quando perceberam que ela se encontrava na festa, pararam, anunciaram amavelmente  a sua presença ali e, incitados pelas aclamações ensurdecedoras da multidão, convidaram-na a subir ao palco para interpretar uma canção. Depois de uma rapida concertação com o acompanhante, subiu ao palco sob uma torrente de aplausos. Foi um delirio total por parte da gente que, indubitavelmente, não imaginava nem podia acreditar que a maior, mais conhecida e considerada cantora portuguesa os honrasse com a sua presença e os gratificasse, improvisadamente, com uma canção. O reconhecimento que os portugueses lhe tinham estava à altura do seu talento de fadista. Interpretou o velho “Malhão, malhão” e, em dois segundos, pôs as  pessoas alegres, a saltar, como se fossem todas crianças. Foi um momento enternecedor, de sincera amizade partilhada. Só foi pena não termos sido nós a acompanhá-la. Tinha ficado para a história.

   Regressamos à nossa sala e tocamos mais uma hora. Intervalo. Uma da manhã. O estômago dava sinal. Desci e fui à cantina tentar alivia-lo. Numa das mesas estava o Chancas sentado.

   Cada vez que íamos fazer um baile a qualquer lado, havia sempre quem se propusesse como carregador voluntário com a única finalidade de  entrar gratuitamente no baile. Mas também tínhamos meia dúzia de amigos que, quando podiam, se organizavam e não falhavam uma saída nossa. O Chancas fazia parte destes.

   Dirigi-me para o balcão. Havia caldo-verde, coisa boa para satisfazer e acalmar o estômago. “Olha, Coxo, se vais pedir um caldo-verde, pede outro para mim.” Era o Chancas, sentado a uma das numerosas mesas que havia na grande sala. Com as duas malgas na mão, fui instalar-me na sua mesa. Estava numa de caldos-verdes. Já não sabia quantos tinha ingurgitado, disse-me. Além disso, a gaja que os servia estava a ficar danada com ele porque, malandro guloso, fora várias vezes pedir-lhe uma rodela de chouriço, pretextando que ela se tinha esquecido de lha meter no caldo. Estávamos a saborer a deliciosa sopa devagarinho, com um pedacinho de broa, quando entrou o André, nosso amigo, que se dirigiu para o balcão do bar pedir alguma coisa. “Queres ver que o Cabecinhas (alcunha do André) vai apanhar uma boa seca ?”- inquiriu o Chancas. Sem esperar resposta minha, fez-lhe sinal e perguntou-lhe: “André, vais pedir um caldo-verde ?” Não, vou pedir um sumo”, disse. “Olha, não te importas de pedir uma rodela de chouriço para mim ?” - disse-lhe, gentilmente, o Chancas. “A gaja esqueceu-se de  meter chouriço no meu caldo, pá.” O André deu aos ombros, aproximou-se do balcão e quando chegou a sua vez, pediu um Sumol e uma rodela de chouriço, dizendo à mulher que se tinha esquecido de  deitá-la no seu caldo. A mulher, vermelha de calor, no  meio da confusão que, em geral, reina no bar de um recinto de espectaculos durante o intervalo, mal ouviu pedir mais uma rodela de chouriço, fitou atentamente o André e, simultaneamente, num tom de franca irritação, de reprimenda e de contentamento, como se já estivesse à espera, ironisou. “Ai sim ? Desta vez não me leva, não ! Tive muito cuidado em meter-lhe a rodela de chouriço quando lhe dei o caldo-verde há pouco, sabe ? Andava a brincar comigo, mas acabou-se-lhe a brincadeira, meu amigo. Só tem direito a uma rodela, como toda a gente e mais nada. Agora deixe o lugar a outros, se faz o favor !” O André, estupefacto, sem perceber nada do que lhe tinha acontecido, olhava para nós com um ar inocente. O Chancas, malandro, ria e fazia-lhe sinal com a mão para que cagasse, que não fizesse caso da gaja. “Eu não te disse ?”, gracejou divertido, virando-se para mim. Não sei se o Chancas, alguma vez, lhe explicou a brincadeira.

 

Julho de 2010.

 

A. E. C.