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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XV

melgaçodomonteàribeira, 21.07.18

 

 

Continuação do post do 07 de julho de 2018.

 

 

A mente, saturada de vapores de álcool, afigurava-se-lhe deperecida, despregada do tronco. Procurou decantar as ideias enfezadas que rodopiavam no seu cérebro, mas este, penado, reagiu confusamente. Não tinha desejo nem forças para guindar a cabeça. Raramente, e apenas com finalidade devidamente firmada, o vinham arreliar durante um momento tão íntimo como aquele.

— Não há ninguém?

Desta vez a voz derivava de cerca, mais explícita, mais distinta. A ressonância desaparecera, substituída por umas pancadas secas, insistentes e inconfortáveis, sendo-lhe, todavia, impossível demarcar a proveniência. Sentiu uns adejos temíveis nos tímpanos.

Na sala lôbrega, junto do balcão, mantinha-se um homem sorridente, de uma trintena de anos, solicitamente trajado e engravatado, com uma volumosa pasta preta de couro na mão.  

O Manco, enfurecido, levantou a cabeça abruptamente e, sem abrir os olhos, berrou:

Me cago en Dios! Quem me vem enfadar a esta hora?

Assustado pelo grito estentóreo, e talvez ainda mais por aquele impressionante vulto cabalístico que distinguiu ao fundo do bar, o indivíduo relutou uns segundos antes de recitar num tom musical e bajulador:

— António Perez Gallardo, representante da fábrica de queijos Lacta Casales, da Ortigueira, A Coruña, para o servir, caro senhor.

Estupefacto, o Manco, perante tal prolação, descolou as pálpebras parcialmente; sem pronunciar uma palavra ou fazer qualquer movimento, olhou, para o jovem que se acercara da sua mesa e o agraciava com uma cativante expressão comercial.

Era uma première. Nunca um caixeiro-viajante o apostrofara manifestando-se com este maneirismo mercantil. Não lhe agradou mesmo nada. Esta arenga tinha um timbre incrivelmente efeminado para o seu gosto. Apeteceu-lhe expelir o tipo do bar. Alguém lhe telefonara para o informar que o Manco precisava de queijo? Que maneiras eram estas? Odiava que o assediassem, que o perseguissem! Era ele quem decidia! Que descaro, que arrogância havia que ter para desterrar uma pessoa dum adorável sono reparador! E isto para tentar vender-lhe produtos similares aos que ele comprava, havia muito, a outro provedor do qual estava plenamente satisfeito!

Joder, tio! – improperou com desacato. 

Reticente, engoliu em seco e ficou uns segundos a deliberar sobre o comportamento a adoptar. Por fim, resolveu conter-se. Taciturno e firme, pressionou as maxilas.

— Dá-me licença, caro senhor? – perguntou-lhe o profissional, desdenhando a careta inenarrável e inquietante em que o carão do Manco se metamorfoseara.

Não era a amabilidade ilusória do homem que enganaria o Manco.

O caixeiro-viajante deduziu que a sua quietação era uma acreditação. Sem aguardar pelo seu agrément – que não sabia se teria – colheu a segunda cadeira e sentou-se, risonho, diante dele, o attaché-case preto por cima dos joelhos. O proprietário do estabelecimento, descontente, arrulhou, resignado.

A estes cantamanhanas antevia-lhes os procedimentos comerciais e os métodos de comunicação. Visitas de representantes stressados como este tivera várias dezenas; eram um pesadelo. Ainda que vivamente contrariado, esforçou-se para aguentar a estopada do indivíduo sem extravagar. Fitava-o, mas não o via.

No entanto, para lhe significar o seu frenesim, remoeu a língua com barulho na boca mirrada, indício de que a ressaca não tivera tempo de se esbanjar. A subida do vinho branco é tão fulgurante como a queda é lenta; a diferença é que a primeira é atractiva, álacre e tebaica, enquanto que a segunda é subversiva e, por conseguinte, desagradável e encolerizante.

Desinibido, o polido viajante minuciou-lhe o que fazia a especificidade das criações propostas pela fábrica que personificava. Realçou as excelentes virtudes da nutrição que as vacas – a quintessência de raças – tosavam nos amplos campos de pastagens verdejantes, perto do mar; vizinhança que, aliada às admiráveis condições climáticas de que a região usufruía, conferia uma deliciosa eflorescência salina ao leite. Fez um breve hiato para observar o primeiro efeito sobre o cliente.

O Manco tinha o semblante duma cariátide. Não mexia nem descravava os olhos do caixeiro-viajante. Permitiu-lhe desenrolar o palavreado à vontade, movendo com subtileza a cabeça periodicamente, como se a conversa lhe interessasse.

Se o homem soubesse quanto gostaria de ir buscar uma garrafa de branco por detrás do balcão! Controlava-se porque mais uns minutos e livrava-se do desavergonhado intruso de uma vez por todas.

O viajante, implacável, mencionou o tempo de refinação; exaltou, em seguida, as suas dominantes e traços gustativos, olfativas e texturais, tamanhos e peso. Sobrepôs-se a amostra fotográfica dos produtos para os quais o Manco, grosseiramente, fingiu olhar. O extremoso viajante terminou a perfeita hipotipose sublinhando os controlos higiénicos regulares de que as modernas instalações, assim como todos os produtos nobres nelas elaborados, eram objecto.

O homem emudeceu. Finalizara a lábia sem um lapso, um erro e uma expressão oral irrepreensível. As feições afáveis persistiam. Persuadido, sem dúvida, do resultado da sua convincente dissertação, intentava desmascarar-lhe vestígios da sua adesão.

O Manco manteve-se imóvel uns segundos, deixando o silêncio desestabilizá-lo. Duas rugas, sinónimo de ambiguidade, esculpiram-se na testa do representante. Para testá-lo, o anfitrião deu uma tossidela cavernosa, como se quisesse desobstruir o gorgomilo para falar, e humedeceu os lábios com a ponta da língua alvacenta. As rugas faciais do visitante distenderam-se ao mesmo tempo que o bem-estar o invadia. A intuição garantia-lhe que a sua démarche ia ter uma saída favorável.

Sobrestimava-se, e essa análise presuntuosa comprazia imenso ao Manco que pensava: «É quando menos se prevê que a coisa mais dói». Com o ar sério e normal que até ali fora capaz de desvendar, indagou:

— Dos queijos que o senhor me sugere, qual deles atrai mais as moscas?

A questão insensata petrificou o visitante. Ofendido, adoptou um ar digno e esquiçou um gesto de repulsa, negando resolutamente com a cabeça.

— Nenhum. Isso é coisa impensável, caro senhor. Os nossos queijos são de uma qualidade extra, sublime, sem falar da frescura incomparável e inigualável. Depois de encetados pode mesmo conservá-los ao ar livre uma semana.

 

Continua.

 

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XIV

melgaçodomonteàribeira, 07.07.18

 

 

Continuação do post do 23 de junho de 2018.

 

 

Nascera a Casa Manco, cuja popularidade se difundiria rapidamente.

A partir do ano mil novecentos e sessenta e oito, a vaga de emigração principiou a enfraquecer vagamente, sem todavia deixar de ser uma forte fonte de rendimentos. A efervescência económica originada pela construcção da barragem fazia levedar os proventos do seu negócio. Mais tarde, a ponte forneceu-lhe um novo filão de receitas adicionais. Sem jamais o ter agoirado, em dez anos o Manco transformou-se num homem pecunioso.

Optou, então, por empregar parte do augusto pecúlio na compra de uns magníficos campos adjacentes, no lugar da Agra, perto da junção da estrada Puente Barjas-Orense e da que descia para A Frieira.

No maior, fez erigir o que ele denominou, não sem prosápia, o Chalé Manco, uma linda casa com rés-do-chão e primeiro andar, para mais tarde ele e a Vicenta lá acabarem os dias. Nos remanescentes, plantou um sem-fim de árvores frutíferas. Uns anos mais tarde, todos falavam do vergel do Manco; era o mais completo e exótico da região.

Porém, o seu chalé não foi rematado sem sérios distúrbios. Os trabalhadores portugueses com os quais tinha negociado a execução da obra, depois de tormentosas altercações, queixaram-se à guarda civil por ele não ter honrado a totalidade dos pagamentos estabelecidos. Foi tempo perdido. Sem documentação que os habilitasse a trabalhar em Espanha, o comandante recomendou-lhes que negligenciassem a tramóia e não voltassem a cair noutra. Procedendo assim, o tenente da Benemérita – nome dado à Guardia Civil pelos serviços ministrados à população no século XIX – também poupou o Manco por recorrer à mão de obra estrangeira não declarada, deliberação que lhe abria as portas da Casa Manco.

Presentemente, já meio enfastiado e entediado, contentava-se em realizar bailes – reuniões dançantes, dizia, salientando a nuance. Aos domingos, do fim da tarde até altas horas da madrugada, amontoava-se ali a juventude da zona, assim como alguns portugueses.

Os galegos, como muitos outros povos, com um copo a mais são perturbadores e desordeiros. Todavia, nos dias de sarau, as zaragatas eram marginais. Os casos, esporádicos, afloravam, logicamente, quando os espíritos estavam escaldados e amblíopes.

A esposa, um tronco de couve a quem ele obedecia cegamente, murmuravam os alcoviteiros locais, tivera de aprender a brincar ao bombeiro.

Alguém que protestasse, fosse qual fosse a causa, ou vociferasse por se atrasarem em atendê-lo, era repreendido descaradamente com severidade. Podia até ser motivo para que o Manco ressentisse o reparo como um ultraje e incitasse illico o impertinente a ir empachar-se para outro lado, prevenindo-o cinicamente: «Agora, nem que me baixasses as calças te servia, cabrón

Nestas declinações, sem a intervenção pronta e habilidosa da Vicenta, a ameaça de que a controvérsia se alastrasse precipitadamente e findasse à hóstia era flagrante. Alguns jovens imprudentes, pensando que a sua debilidade os avantajava, tinham saído do seu estabelecimento fortemente aturdidos.

O génio rabugento que se apossara dele incentivava-o com regularidade a acometer alguns indivíduos por razões muitas vezes mais do que duvidosas, impertinência que o obrigara a sentar o cu no mocho – ir a tribunal – mais de uma vez.

Todos os dias, depois de almoçar copiosamente em família, sentava-se a uma das duas mesas do bar e entrava num estado tórpido, pré-letárgico, tanto físico como mental. Em silêncio, continuava a beber até ser aspirado, como por magia, pela tranquilidade feltrada, abstracta e opiácea de Hipnos, da qual, infalivelmente, emergia cerca de uma hora mais tarde.

A vida era-lhe insípida, inerte, agnóstica: elanguescia-o. Amigos não tinha, apenas conhecimentos. O vinho branco, o seu acólito, a sua amizade pagã desviava-o durante as situações instáveis, das águas do rio. Imergia-se nas lágrimas dos bagos, o paredão que conseguia retê-lo no seu mundo austero. Sempre disponível, afagava-o e mostrava-lhe, através dos seus vapores, uns raios de sol, embora lívidos e insulsos. Concorria para amortecer e equilibrar a fervorosa, a insuperável ira que, de modo impiedoso, fora prosperando nele e lhe despeçava o moral e a vida, desde que aquele malvado camião despejara parte da carga por cima dele. Se não fosse a carneirada, a barragem e a ponte, havia muito que o Manco não era deste mundo.

Na verdade, ninguém podia asseverar categoricamente que o Manco se embebedava, no sentido literal que ali as pessoas atribuíam correntemente à palavra; ninguém o vira alguma vez cambalear.

Homem condicionado pelo ânimo e pela atmosfera, arpoado pelo infortúnio, abusava do álcool, sem dúvida, mas comia bem e apenas bebia até um dado pique que poucas vezes excedia.

O mês de março estava a chegar ao fim. A mulher e as duas filhas andavam azafamadas nos campos: plantavam batatas, couves, tomates, ervilhas, cebolas, alfaces, feijões, cocos, alhos...

Naquela tarde insolada, encontrava-se, mais uma vez, desamparado no estreito e obscuro bar, ao lado da porta vaivém que o separava da sala do restaurante. Sentado diante da pequena mesa, a manga da camisa do braço órfão pendente, e a cabeça assentada sobre o ressaltado peito, degustava a descida fleumática das pálpebras defessas pela bebida. Por cima da mesa, uma garrafa e um copo, vazios. Era a hora da sesta, da primeira viagem do dia.

Intrépido, deixava a porta escancarada, mas, nunca se sabe, na gaveta nem uma perra – peseta – ficava. No entanto, qualquer podia entrar e apoderar-se sem grande trabalho de uma ou mais garrafas das que tinha em evidência no bar. Hipótese que descartava totalmente; o medo que inspirava desencorajava qualquer um. Aliás, as pessoas, em grande maioria, eram íntegras e trabalhadoras.

De repente, uma voz ecóica que lhe pareceu vir de longe extirpou-o dos braços hipnagógicos de Morfeu, nos quais se aninhara.

— Não há ninguém ?

 

Continua.

 

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XIII

melgaçodomonteàribeira, 23.06.18

 

 

Continuação do post do 9 de junho de 2018.

 

 

Em geral, os problemas eram esparsos. A maioria dos próximos integrara a sua tendência inesperada, a sua cegueira e sabia diferenciar os bons dos maus auspícios. 

Depois de casado, e com quatro filhos, manteve-se com os pais numa casa de aspecto andrajoso, a quatrocentos metros, em linha recta, da Frieira da orla esquerda do Minho, até estes falecerem. A taberna que os pais tinham explorado no rés-do-chão – a única que havia entre a Notária e o rio – foi o que deu à família as precípuas perras – dinheiro – para adquirir o que não arrancavam dos campos. Com o que nestes recoltavam, a agnação subsistiu com entraves, mas suplantou o pauperismo generalizado, e a descendência amadureceu jovialmente.

Uns meses antes do falecimento da sogra – o sogro e os pais já os tinham deixado –, a vida sorriu-lhe. Os anos sessenta tinham dado os primeiros passos. A construção da barragem materializava-se.

As gigantescas degradações materiais e as inumeráveis perdas humanas da Segunda Grande Guerra tinham desencadeado grandes vagas de emigração dos países circunvizinhos mais carecidos, entre os quais Portugal. Esta emigração era vista com permissividade pelo governo salazarista pois enviava umas divisas indispensáveis que remediavam a inópia florescente da camada mais carecida. A eclosão da guerra no ultramar em 1961 – daí em diante, e até aos quarenta e cinco anos, todo homem necessitava de uma autorização militar para sair do país legalmente – deu um impulso ciclópico à emigração portuguesa. Neste fluxo foi muito adolescente.

O Manco tinha pouco mais de quarenta anos. Esta conjunção acalorou-o a associar-se com o cunhado, tenente da guarda civil e marido da sua única irmã, que prestava serviço no posto fronteiriço de Irun, País Basco.

Milhares de portugueses, dos quais uns ambicionavam suplementar a carência incurável, outros, desertar a ininteligível guerra do ultramar, e outros, ainda, escapar às duas cominações, acederam aos países que lhes alimentavam a cenestesia da existência de uma vida melhor, livre, trespassando o rio Bidassoa. O seu ténue percurso internacional – uma dezena de quilómetros –, que delimita a Espanha da França, constituía uma balaustrada acessível, confrontado às veredas intrincadas dos respeitáveis e temerários Pirenéus.

Nesses tempos, um número confortável de espanhóis residentes na zona fronteiriça de Irun passavam todos os dias a fronteira para ir trabalhar em território francês. De madrugada, uma enxurrada de operários, de pessoal hoteleiro, de empregadas domésticas e de trabalhadores de sectores diversos desfilavam pela ponte internacional; imperturbáveis, palravam e brandiam, sem parar, o passaporte bem alto diante dos funcionários.

Alguns oficiais subalternos, como o cunhado do Manco, e um sem-fim de inferiores organizaram um sistema mafioso do qual todos beneficiavam chorudamente. Parasitavam a corrida matinal dos trabalhadores, intercalando entre eles os carneiros – nome da gíria contrabandista que designava os candidatos à emigração – transportados pelos intermediários. Era a estes que os passadores da zona do rio Trancoso entregavam os pretendentes à emigração recrutados pelos angariadores. No caso do cunhado do Manco, eram veiculados pela Vicenta, a esposa, mulher desapiedada questão negócios, e dois ajudantes, visto a configuração ser aleatória.

Arvorando a capa de um passaporte espanhol – em seguida recuperada – com meia dúzia de folhas em branco no interior, muitos portugueses atingiram deste modo o solo francês nos dias em que os funcionários hispánicos peitados estavam de serviço.

Mas, como toda comodidade tem o seu custo, os que quisessem gozar desta passagem de primeira classe deviam desembolsar uma soma consequente.                     

Outros, economicamente mais abstémios, afrontavam, de noite, as autoridades e o Bidassoa num barquito que o passador trazia dobrado sob o braço. O calibre do brinquedo, insuflado à beira do rio, quando não havia qualquer percalço, apenas possibilitava o enbarque de cinco pessoas, incluindo o passador. Duas pequenas espátulas de madeira serviam de remos.   

Os emigrantes portugueses apanhados no território espanhol sem carimbo de entrada – os clandestinos – sofriam repercussões tremendas. Escoltados até à fronteira lusa mais perto da sua terra, eram entregues aos agentes da PIDE, a polícia cujos funcionários se encarregavam das fronteiras, da emigração, dos passaportes e de todos os que se opunham ao regime. Infligiam-lhes, automaticamente, uma onerosa punição carceral por saída ilegítima do país e tiranizavam-nos para os fazer escarrar o nome do ou dos passadores e remontar a fileira. Intento árduo pois os membros das redes usavam pseudónimos.

Os postulantes à imigração não desprezavam os perigos imponderáveis a que se expunham, mas os desideratos eram tão pesados que não os esmoreciam. Uma vez na outra margem do Bidassoa, em Hendaye, com ou sem passaporte, eram recebidos com toda a atenção, visto o país estar em plena expansão económica. Os portugueses, homens de braços viris, aclimatados à rudeza, de modo geral ignaros, prestadios e católicos, eram uma bênção.

E, para melhor os proteger da ditadura franquista, não lhes outorgavam permisso de residência nos quatro departamentos que faziam fronteira com Espanha.

A casa do Manco estava num estado de deterioração adiantado. O andar superior, integralmente de madeira – material secular predominante no primeiro andar nas casas galegas por ser mais quente e barato do que a pedra –, putrefazia-se e dissociava-se aos poucos. Só os fundos, justamente edificados com robusto granito, permaneciam direitos e reutilizáveis. Mas a antiguidade não era apenas sua, pois as partilhas ainda não tinham sido feitas com a irmã. Esta, desde que casara, nunca mais voltara à Frieira. Era tempo de construir uma moradia aceitável. Não eram os meios que lhe escasseavam.

Comprou as metades da irmã, ficando com as ruínas da casa e com os dois vastos campos em declive, do outro lado da estrada.

Alugou uma casa no lugar, mandou derrubar a velha habitação, conservando todavia a pedra das paredes do rés-do-chão e construiu outra de grande envergadura. No andar térreo, equipou um salão grandioso para a organização de bailes, jantares de casamentos e de batizados; montou um bar galego típico, um restaurante, a cozinha respectiva e os sanitários adequados a cada uma das funções, fasto supremo naquela época para a localidade. No primeiro andar, alojamentos espaçosos para toda a família.

 

Continua.

 

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XII

melgaçodomonteàribeira, 09.06.18

 

 

Continuação do post do 26 de maio de 2018.

 

 

Já um pouco curvado para diante e arrastando os pés, o septuagenário desceu com cuidado o reduzido declive que havia entre a estrada e o prédio do Manolo.

Foi quando os dois agricultores, esgotados pela espera ilimitada, acharam que, no fim de contas, era melhor concluir a expectativa; impulsivamente, abandonaram o bar, perseverando, todavia, com o maior alarido, em rejeitar-se a culpa do absentismo do taxista.

Um deles entrechocou-se com o senhor Ângelo, indelicadeza a que foi insensível. Penetrou no café e cumprimentou os presentes com a cortesia costumeira. Abeirou-se do balcão, deu aos ombros, puxou pelas golas e deu dois saltinhos, obviamente.

O Manolo acolheu-o com o entusiasmo usual.

— Senhor Ângelo, então que tal o tempo pela estação?

Não replicou. Com a característica equanimidade que toda a gente lhe reconhecia, exigiu:

— Po... po... põe... mum...mum... mum branco!

— Que diz, senhor Ângelo?

— Po... po... põe... mum...mum... mum branco!

— Quem foi para o campo?

— Não... Na... bran... bran... branco! – repetiu, levemente incomodado.

— Que diz, senhor Ângelo? Não o ouço. Fale mais alto, carambas!

Impaciente, suspirou e sacudiu a cabeça com firmeza em sinal de agastamento e de lassidão. Arranjou o capote à pressa esticando as golas, deu os saltinhos e arremeteu de novo.

— Po... po... po... põe mum... mum... muuun bran... bran... branco! – empenhou-se, quezilado.

O gaguejo enfatizara-se com a aflição, e o seu rosto purpurara, tanta fora a instância.

Para reprimir o riso que estava prestes a deflagrar, o Fernando simulou contemplar o regato e o lugar de Cevide, do lado português, observáveis do janelo do fundo do salão do café. Era, também, para dar mais credibilidade à chocarrice.

— Ah! Um branco? – exclamou finalmente o Manolo – Já podia ter dito há mais tempo, senhor Ângelo! – e deu um dos seus singulares risos – Eu pensei que me dizia que andava manco, já viu? Ai meu Deus!

Agarrou na caneca e baixou-se diante do pipote de vinho branco que confinava com o de tinto.

Foi a altura apropriada para o padeiro delivrar a forte pressão que o sufocava e dar azo à pândega. Era a primeira vez que participava a uma brincadeira implicando o senhor Ângelo. Intrometeu-se amavelmente na conversa.

— Este, senhor Ângelo, já perdeu o juízo e agora está a ficar mouco. Mete pena! É tão novo!  Há quem diga que foi por isso que o correram da França. Não me estranharia nada.

O homem ignorou as suas palavras, como se fosse pusilânime. Nem um célere olhar de solicitude se dignou conceder ao panificador. Ergueu um braço e buliu duas vezes a mão entreaberta diante da testa, como quem quer dissuadir um insecto desenvolto e importuno. Era a sua modalidade. Desta forma, mostrava implicitamente – a quem tinha faculdade para tal – que interpretara o chiste, que este não o estimulava nada e, sobretudo, que não era nenhum títere. 

Para coroar o painel, e sem piar, acomodou o capote, desfraldou-lhe as lapelas e deu os saltinhos compatíveis.

No olhar irónico do dono do café reluzia um afecto real. Meneando a caneca como se fosse um ioiô, a fim de fazer espumar o líquido, encheu a tigela que pousara diante dele. Estava tão acostumado que, uma vez a tigela cheia, não ficava praticamente nada da quantidade de vinho retirada do pipote.

Deglutiu a primeira tigela de uma golada e a segunda de duas. Despejou o recheio do porta-moedas – que abria em forma de vulva – sobre o balcão, destacou umas quantas  moedas e saiu, silencioso, como se não tivesse estado no bar. Viria umas quatro vezes mais durante o dia.

O Fernado sentiu-se embasbacado. Intimamente, admitiu que o homem tinha a sua personalidade. Não era sem razão que todos o tratavam por senhor.

— Já viste, Fernando? Esta gente põe-me louco! – bradou o Manolo.

 

 

O Manco era seguramente a pessoa mais conhecida da Frieira, indubitavelmente a mais temida e, incontestavelmente, a mais amaldiçoada. Hercúleo e titânico – mais de um metro e oitenta e cinco e uns bons cento e dez quilos –, tinha uma força assombrosa e, ademais, um temperamento de suíno.

Ninguém sabia a razão por que tinha o cognome de manco pois, na realide, era maneta. Segundo rumores, o drama dera-se uma tarde, no centro da cidade de Orense, havia bastantes anos. O que ainda não era Manco estava na esquina de duas ruas à espera de uma oportunidade para atravessar com confiança. Subitamente, um velho camião atulhado de canos de cerâmica para o saneamento, vindo de uma transversal, largou parte da carga diante dele e doutros. Acordou no hospital. Os estragos foram plurais, mas o dano irreversível deu-se no braço esquerdo, triturado pelos tubos maciços. Do úmero, os médicos apenas foram susceptíveis de lhe preservar um toco com cerca de uma dezena de centímetros.

Desgraça que, pouco mais tarde, o não impossibilitava de manipular uma enxada ou uma pá e de trabalhar, ocasionalmente, como qualquer indivíduo consumado.

O traumatismo engendrado pela deficiência fora o inodoro fermento que fizera com que, passo a passo, medrasse nele um carácter irascível e provocador que, por vezes, alcançava proporções excessivas e preocupantes. A mínima adversidade era vista por ele como um opróbrio, uma vexação e mesmo como um insulto.

As pessoas, com os seus aforismos e as suas paródias ásperas, justificavam a sua força excepcional afirmando que a do braço perdido fora herdada pelo outro. O caso é que onde deitasse a mão nem Cristo lha abria, diziam.

Fumava como as primeiras locomotivas e bebia vinho branco como um tudesco. Quando estava de mala hóstia – mal disposto –, coisa mais amiudada do que o contrário, era mais idóneo evitá-lo ou abordá-lo apenas se o caso fosse francamente imperioso.

 

Continua.

 

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XI

melgaçodomonteàribeira, 26.05.18

 

 

Continuação do post do 12 de maio de 2018.

 

 

Nessa manhã, exaustos, depois de mais uma madrugada uniforme em que tinham o sentimento de serem os raros sobreviventes do lugarejo, transpuseram a estrada e empurraram a porta do familiar café. Os rostos, assolados pelo trabalho ininterrupto e opressivo, denunciavam o cansaço compilado durante a noite. A roupa, vetusta, suja e enfarinhada, dava-lhes uma triste aparência de foragidos.

O panificador e o jovem ajudante fincaram-se no extenso balcão, estenderam os cacetes recém-cozidos à Rosa e pediram as habituais sandes: hoje seriam de presunto. Concertavam-se anteriormente e concordavam sempre em comer ambos o mesmo acompanhamento.

A uma das mesas do café, uma parelha de camponeses de certa idade querelava-se incompreensivelmente, increpando-se mutuamente. Segundo a Rosa, havia mais de uma hora que esperavam pelo improvável aparecimento de um taxista que se comprometera a conduzi-los a Padrenda; contavam regularizar um problema importante no ayuntamiento – junta de freguesia.

— Quantos cacetes quereis hoje, Rosa?

— Eu sei lá! Olha, traz oito, como ontem; depois, se precisarmos de mais, vê-se.

O padeiro fez um gesto da cabeça, o ajudante sumiu-se e regressou decorridos dois minutos com os oito cacetes.

Quando sobrava pão, depois de feita a repartição pela esposa do Fernando, confiavam a chave da padaria à Otília que, com todo gosto, se incumbia de corresponderer às eventuais demandas da clientela. Era o ensejo para uma hipotética conversa.

— Onde anda o sorna ? – o Manolo – Diz-lhe que a mulher despertou e quer o café.

A moça riu. Tinha uma repulsão ínsita pela patroa. Portanto, esta considerava-a mais como uma colaboradora do que como uma criada.

Quando o marido se deslocava a Ourense por exigências comerciais, a Maribel, uma vez por outra, acompanhava-o e, diligentemente, percorria uma ou duas galerias –centros comerciais. Nunca menosprezava a empregada. Carinhosamente, brindava-a com uma peça de roupa interior, uma camisa qualquer, um tecido para fazer uma saia ou um vestido, um perfume de qualidade...

— Estás doido! Ela não o quer. Quem ligaria a um homem como ele? – e deu uma risada – Anda no outro lado a pôr um pouco de ordem nas mercadorias – confessou por fim.

Naquele instante, saiu ele de trás da cortina da cozinha, excitado.

— Vai-te embora, Rosa! Vem aí o senhor Ângelo. Vamos gracejar um pouco. Vais ver como o enervo. – disse ao Fernando.

No país onde os desconhecidos se tuteavam, fosse qual fosse a idade duns e doutros, o Ângelo, ferroviário reformado, era a irregularidade notável. Fazia parte dos raros homens da Frieira a quem todos tratavam, invariavelmente, por senhor.

Tanto no verão como no inverno, exibia orgulhosamente pelas costas, quase como um troféu, um grosso capote castanho com o logótipo da companhia estampado no lado esquerdo. A cabeça, que abanava continuamente, trazia-a resguardada pela típica boina galega. Tartamudeava e articulava muito baixinho. Era, além disso, homem duns tiques pasmosos, excêntricos, mas cómicos: dava aos ombros repetidas vezes, tirava pela gola direita do capote com a sinistra, e vice-versa; depois, alçava o pé sestro ligeiramente, imitado imediatamente pelo direito. Era uma coreografia incontestável.

Segundo constava, estes gestos eram a sequela de um ritual que praticara sem restrição durante a vida que trabalhara nas linhas galegas da RENFE – caminhos de ferro espanhóis. Para não perturbar a trâfego, os trabalhos nas vias são efectuados de noite, maioritariamente; ora o senhor Ângelo fora capataz – chefiara uma equipa de dez trabalhadores – e, como é logico, não se movia muito. Durante as noitadas invernais, para que o frio não se assenhoreasse dele, supõe-se que operava estes meneios centenas de vezes, cadência que, com o tempo, acabara por se tornar mecânica e incontrolável.

Ademais destas digressões, soliloquiava imperceptivelmente de modo constante. Nunca falava com quem quer que fosse, nem nada o interessava ou comovia. Limitava-se a saudar as pessoas com um respeituoso aceno de cabeça sem nunca suspender a sua deambulação ramerraneira, como se fizesse tudo para se fundir no meio, dar a impressão de ser invisível.

Morava do outro lado da ponte, numa casinhola, a dois passos da estação dos caminhos de ferro, como não podia deixar de ser.

Matrimoniara-se com uma costureira, mulher muito interesseira, egoísta, cujo ódio que afeiçoava se lhe via na cara engelhada: a Henriqueta. Só se entendia  com as mais linguareiras da aldeia. Dizia-se que nada podia subtrair-se aos seus olhos de fuinha. Despudorada como poucas, tinha livretas em todos os comércios da zona, nomeadamente nos que vendiam tecidos. Os credores, apesar de a acossarem, viam-se na incapacidade de cobrar as dívidas que lhe foram consentindo acumular.

Tanto na Frieira da margem direita como na da esquerda, já ninguém se recordava de quando o senhor Ângel e a Henriqueta tinham sido vistos juntos ou a falar em público pela última vez. O domicílio era o único espaço que ainda os achegava corporalmente. Os ralhos, pontuais e ríspidos, eram a discussão exclusiva entre eles de que os vizinhos depositavam.

Ao senhor Ângel, nem todos os dias o blanco – vinho branco – lhe instilava a disposição satisfatória para digerir a maldade e as insinuações biliosas da mulher. Quando a discórdia rompia e percebia que a sua metade não tardaria em ultrapassar a linha exacerbante que ele lhe autorizava, ajeitava a boina na cabeça, deitava o capote pelas costas e, mais uma vez, fazia a mímica crónica; dava uma vista ao relógio de bolso e, se lhe desse tempo, encaminhava-se para o pequeno bar de As Neves, três casas acima da dele. Abancava ali e bebia umas chiquitas – tigelas – enquanto pacientava pelo comboio.

Podendo viajar gratuitamente, como todos os aposentados da RENFE, era o epílogo preferido para estas peripécias glaciais. Entrava no primeiro comboio que ali fizesse uma alta, sem se alarmar com o paradeiro, e só reintegrava o domicílio no outro dia, conforme a inclinação. Os diversos amigos, ex-ferroviários ainda vivos, tinham a porta sempre aberta para ele. Havia anos que trocara a companhia da mulher pela do vinho branco e dos camaradas, muito mais acomodatícios e sociáveis do que a ominosa mulher.

 

Continua.

 

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - X

melgaçodomonteàribeira, 12.05.18

 

 

Continuação do post do 28 de abril de 2018.

 

 

O posicionamento canalizador acaparado pelo bar e a loja fazia do Manolo o promotor prepotente. Adjudicara-se as praxes, as manias e as comédias das criaturas com as quais convivia e que admirava ternamente. Augurava o que lhes agradava e forcejava-se por responder aos seus ardores antes de os exprimirem. Uma palavra, um gesto ou um olhar bastava para o guiar. Tinha, também, desenvolvido uma clarividência inabitual para detectar o marasmo e as falhas dos habitantes, avivando-os e manuseando-os, depois, com um talento brilhante.

Nesse dia, como nos outros, o Manolo descerrou as portas dos seus comércios depois de ingerir as imutáveis sopas de café com leite. Eram sete e meia passadas.

Andava meditativo, ansioso, pois estava prevista a chegada de mais uma camioneta com cinco toneladas de bananas. Ir-se-iam reunir a outras cinco ainda entravadas na garagem. Portanto, uma incógnita infrangível, para a qual os seus acólitos ainda não tinham solução, perdurava, mas uma vez o processo engrenado, era-lhes inimaginável bloqueá-lo.

Este contrabando de bananas – bastante recente – era extremamente lucrativo e revigorava gradualmente a sua conta bancária e a dos seus comparsas.

Por volta das dez, saiu da loja. Paulatinamente, aproximou-se da estrada e verificou o lado da ponte e o oposto, como o oficial que controla a vanguarda. Com um prazer desmarcado, inalou o ar moderadamente frio e humectante da manhã, no qual discerniu  uma fracção do fumo que algumas chaminés da aldeia evacuavam.

Apesar de a primavera estar perto, a fresquidão teimava em implantar- se de noite. Enquanto os primeiros raios de sol não dissipassem o nevoeiro resultante da insondável massa de água estagnada pela barragem, as manhãs demoravam friascas.

Do outro lado da estrada, vivia a Otília, uma sexagenária avançada, viúva acolhedora, mimoseada por todos e muito picaresca.

Havia muitos anos que o pai, o Laranjeira, um português dos Casais – freguesia de Paços –, casara com uma espanhola e lhe fizera duas filhas e um filho. No rés-do-chão da obsoleta casa, fundara a única padaria existente num raio de dois quilómetros. No forno rudimentar a lenha, começara a cozer, com amor e devoção, um pão saboroso, extraordinário.

Os anos consumiram-se e o homem sucumbiu. Com o tempo, a padaria amodernou-se, mas a receita seguiu sendo a mesma, e o forno, a lenha, perpetuava a cozedura dum apetitoso pão cuja excelência pouco ou nada invejava ao das fornadas iniciais. Os de Cevide e dos Casais, lugar próximo do primeiro, comiam bolas e cacetes galegos. Quando vinham às compras à Frieira, alguns portugueses nunca se esqueciam desse afamado pão pastoril e estranhamente requintado.

Nos dias de hoje, a padaria era gerida por uma filha da irmã – também viúva –  e pelo marido, o Fernando. Diariamente, com a ajuda de um rapaz, tirava mais de trezentos cacetes e cinquenta bolas em cinco fornadas, durante os dias úteis. Ao sábado, labutavam até ao fim da tarde, pois era pão para dois dias. A esposa, numa carrinha renault 4L, encarregava-se da distribuição pelas aldeias e lugares circundantes.

A Otília vivia com a mãe, acamada havia uns anos. As consequências mentais – subestimadas – das fases delicadas e embaraçosas atravessadas, fizeram dela uma mulher desataviada, crédula e pueril; era o mais seguro e rápido condutor de atoardas.

Tinha os dois filhos arrumados e, questão dinheiro, sentia-se à vontade. Com cerca de sessenta e sete anos de idade, recebia o aluguer da sua parte do forno e duas pensões correctas para o meio: uma por ela e outra pela mãe. Marcada pela abstrusidade, a felonia e a lazeira, era de uma sobriedade estarrecedora. Para ela, o dinheiro contribuía para granjear o estrito necessário e não para saciar prazeres que ela julgava fúteis.  

O Manolo, supostamente apático, avistou o Fernando. Deteve-se a examiná-lo com o zelo do contrabandista. À porta do telheiro – um magistral cangalho –, distante três ou quatro metros da padaria, o jovem escaqueirava ripas de pinheiro meio secas com um machado. De uma ruma, ia recolhendo as compridas e afiladas fasquias que cortava em vários pedaços, mais ou menos símiles, por cima de um mortificado cepo. Amanhava estritamente a porção que aqueceria o forno a madrugada seguinte. Volta e meia, um dos fragmentos decepados era projectado pela lámina amolada do machado e embatia contra a parede da padaria, a casa da Otília.

Havia pouco que esta, com uma ponta de sarcasmo, já fizera notar ao padeiro que podia evitar aquela tarefa quotidianamente. Sacrificando três ou quatro horas uma tarde qualquer, teria lenha mais do que suficiente para toda a semana. O sobrinho, cuja juvenilidade animava a precindir dos seus conselhos, retorquiu que era ele e a mulher que determinavam cientemente a gestão da padaria. Como é óbvio, foi uma resposta que a melindrou e pôs a ruminar.

Habituada a decretar, prezava muito pouco o feitio resmungão e sedicioso do marido da sobrinha. Ingenuamente, espalhara pela povoação a ideia contrafeita de que o jovem não tinha por ela qualquer acatamento. Mas o Fernando era impermeável a estas atitudes disparatadas. A pobre mulher tinha sérios inconvenientes em fazer a distinção entre mando e deferência.

— Trabalha, carambas, não faças de conta, que a Lucita – a mulher do Fernado – não te paga para passares o tempo, seu malandro! – gritou o Manolo ao panificador, deixando estalar uma das suas gargalhadas simbólicas.

O padeiro olhou para ele de soslaio e esboçou um sorriso brincalhão.

— Vê-se bem quem trabalha, gandulo.

E prosseguiu a corveia, desinteressado.

O Manolo deu meia-volta e dirigiu-se novamente para a loja. O seu rosto exuberava de gáudio. Tinha-o na mão. Descobrira matéria maliciosa para o endiabrar e passar uns momentos festivos

Seis dias por semana – isentando o domingo –, entre as dez e as onze, depois de inseridos no forno os cacetes e as bolas finais, limpado a amassadeira e aprontado a lenha, o Fernando e o efebo ajudante iam desjejuar ao bar do Manolo.

Escolhiam dois cacetes da derradeira fornada, ainda tépidos; bem crocante para um, não muito cozido para o outro. Em seguida, a Rosa, segundo a apetência do dia, preparava-lhes com esmero dois tonificantes bocadillos – sandes – de presunto, sardinhas de conserva, queijo, atum, ou chouriço Revilla. Cupidamente, os dois jovens aspergiam o casse-croûte com cerveja San Miguel fresquinha – três para o Fernando. «A cerveja, alegava quando lhe faziam qualquer reflexão, favorece a expulsão das partículas de farinha absorvidas.»   

 

Continua.

 

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - IX

melgaçodomonteàribeira, 28.04.18

 

 

Continuação do post do 14 de abril de 2018.

 

 

Com pouco mais de dezoito anos, a desditosa rapariga, oriunda de um lugar da freguesia de Roussas, furtara-se à bestialidade do pai alcoólico, à miséria da casa e ao défice de vicissitudes ao labor desumano do campo.        

O abandono da terra, do país, o medo do incerto, que desmoronava qualquer um, fez com que fosse pouco além da fronteira. Ficou na Notária, onde conseguiu o primeiro emprego num café. Aguentou um par de meses, apesar do ambiente autoritário e famélico que o casal proprietário lhe impunha. Por ser um trabalho menos cáustico que o do campo, conciliara-se com a perversidade.

Um jovem que acusava uma dilecção indecorosa por ela direccionou-a para o estabelecimento do Manolo.

Criada, cozinheira e empregada de bar podia dizer-se que fazia de tudo, inclusive o que o patrão de mais profundo lhe pedisse, segundo as más-línguas.

Os taxistas da zona, quando livres, eram os primeiros clientes do bar. Todas as manhãs, uma hora antes da entrada na estação dos dois ferrobuses – automotoras – procedentes de Vigo e de Monforte de Lemos, que, normalmente, ali se cruzavam – a linha era de via única – já estavam acotovelados ao balcão, tomando o café e a copa matinais. Conversavam e parafraseavam desordenadamente as últimas informações ouvidas no auto-rádio.

Muitos trabalhadores rurais e da construção civil, de um e outro lado do rio, sustavam-se ali uns minutos para matar o bicho. Os mais descuidados tinham a possibilidade de se procurar algumas ninharias de primeira necessidade, tanto para o campo como para as obras.

Havia também aquelas pessoas, entre as quais portugueses, que, por volta das nove, se acercavam da estação de caminho-de-ferro. Algumas, as que iam comerciar, apenas bebiam um café, mas outras, que iam de visita, lembravam-se do presente que tinham em vista ou obliterado à última hora.

O movimento matutino fazia parte dos momentos favoritos do Manolo. O ar da alvorada, frio ou morno, fortalecia-o. Porém, tinha um apego particular pelas manhãs dos dias 10 e 25 de cada mês, dias da feira de Ribadavia, a mais popular da região. A avidez dos campónios à ida – para os quais a feira era como um dia de festa – e a satisfação da volta, carregados de utensílios, mantimentos e produtos eclécticos para o campo, regalava-o. 

Conhecia grande parte das pessoas que por ali transitavam e com as quais adorava ter um diálogo caloroso, apesar de sucinto. Eram ocasiões propícias, preponderantes. Para ele, que desabrochara numa casa mesquinha das proximidades e tivera de sujeitar-se mais do que alguma vez pensara tão longe dela, estas ocasiões eram-lhe angelicais.

A privação daquela aldeia e dos seus odores peculiares, daquele rio imponente e do regato insignificante; a falta daquele sol abrasador, mas inerente; a falta daquelas glebas verdes em escaleira; a falta do cheiro da terra tórrida quando era refrescada pela chuva; a falta daquela gente simplória vestida de preto, que desafiava as agruras do meio com um sorriso clemente; a indigência daqueles montes e da sua vegetação ubiquista, fizeram-no tergiversar, desalentar, chorar, padecer...

Ainda o moço trabalhava como aprendiz de carpinteiro numa oficina da Notária, trazendo ao fim do mês uns escassos duros para a casa, quando o pai pereceu. A partir daí, esses irrelevantes vinténs eram imprescindíveis. Pouco a pouco, tentou preencher o lugar insubstituível que ficara desguarnecido. A mãe, a Lucinda, via-se obrigada a lutar em duas frentes: os afazeres das magras terras e o desvelo ao irmão primogénito do rapaz, o Chíchio, que sofria de desequilíbrio psíquico.

Foi na Notária que conheceu e namorou com a que seria mais tarde a sua esposa. Mas o seu destino e o da rapariga, como o de um elevado número de outros jovens, fora previamente decretado pela letargia, pela míngua e pelo ostracismo a que a política totalitária do Caudillo submetera o país.

Casaram e renunciaram ao berço, à terra por onde tinham repartido os seus marcos e emigraram para França em busca de perspectivas mais entusiasmantes.

A destreza que o Manolo tinha para a carpintaria facilitou-lhe uma presta progressão no ramo. Ao cabo de um ano, tinha um salário equivalente a vários meses de actividade na sua terra. A Maribel, sem qualquer contrariedade, logrou um lugar de preparadora de sandes e de saladas numa célebre cervejaria da praça da Ópera. Empregada cuidadosa, ali se manteve até resolverem retornar. Deram vida a um filho e passaram perto de quatorze anos contritos num país cujos fundamentos lhes eram absolutamente impenetráveis.

Com enorme penibilidade, assimilaram o vocabulário elementar que o trabalho e a vida de todos os dias lhes reclamava. O clima e o modo de vida adverso foram outras barreiras às quais tiveram de obtemperar, visto não poderem rectificá-los.

A mãe e o Manolo tinham uma vocação ingénita para o humor e o chiste. À mãe, estes traços linimentavam parcialmente os fortes desassossegos quotidianos da escarpada vida; ao filho e à esposa, travestia-lhes e esquivava-lhes, na medida do possível, a tristeza e a angústia com que a ausência forçada da terra os gangrenava.

Durante quatorze anos pungentes, poucas vezes vieram à terra, mas, quando se dava o caso, ficavam mais de um mês. Em dois dias restauravam o alento moral e anímico. Contudo, à medida que os anos se sucediam, a amargura do retorno à capital francesa crescia. Por esta razão, quando pressupuseram que o contexto era oportuno para uma vinda definitiva, não balbucionaram. Tinham medo de se deixar inflectir por considerandos e, mais tarde, arrependerem-se. As economias e uma modesta reparação (10 000F per capita) com que o governo gaulês – depois do choque petrolífero de 1973 – encorajava os trabalhadores estrangeiros a partir, ajudaram-nos a converter-se nos donos daquela tienda. Esta formalidade vedare-lhes, para sempre, a probabilidade de trabalhar de novo em França.

Havia cerca de dois anos que, despreocupados e felizes, ali se tinham instalado. Portanto, ainda hoje faziam tudo para compensar o desprovimento e desafogar a intensa gula soterrada que o desterro ateara neles.

O Manolo idealizava e confeccionava quadros benígnos para se divertir mofando. De uma coisa banal, e aparentemente inconsistente, extraía assunto ou móbil capaz de espairecer toda a gente durante dias. Despistava, com um tacto maravilhoso, as disparidades, os tiques, as fraquezas, as manias... tudo o que o inspirasse e fosse passível. As suas travessuras compraziam a todos e era a maneira mais cordial de lutar contra a perdurável acinesia mental dos conterrâneos. Nos lugares escabrosos e ingratos como aquele, as casualidades de entretenimento eram fictícias, para não dizer nulas.

 

Continua.

 

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - VIII

melgaçodomonteàribeira, 14.04.18

 

 

Continuação do post do 31 de março de 2018.

 

 

Apesar disso, com as parcas recompensas da lavoura, os magros teres e uns trapicheos – negócios ilegais – circunstanciais, a existência jocosa desta população era visiva.

A gente aceitava a vida rotineira, estóica, compassada pela carrinha que, de manhã, lhe trazia peixe fresco de Vigo; pelo tempo, que era o decisor invariável da viveza e dos encargos colectivos; e pelos crebros comboios que faziam ou não uma transitória paragem no povoado.

O prestigioso e sumptuoso Expreso Rías Bajas que unia a Ciudad Olívica – Vigo – à capital do Reino – Madrid –, e ali apitava por volta das onze da noite, deixava-os impressionados, atónitos. Cópia do famigerado Orient Express, fora fornido, como outros, pela Compagnie Internacionale des Wagons-Lit, depois da sociedade belga que criara o ilustre comboio cessara toda exploração como operadora ferroviária em 1971.

Através das vastas e lustrosas vitrinas do vagão-restaurante, enxergavam os viajantes endinheirados diante de pantagruélicos e refinados pratos. Este espectáculo mirífico e, ao mesmo tempo, fantasmagórico – possível devido à morosidade da locomotiva, compelida pela sinuosidade da linha – pasmava-os e devolvia-lhes a modicidade e a inanidade com as quais se debatiam

Para a prosperidade das aldeias e os seus moradores, a estação era capital, era o seu âmago; a linha Vigo-Orense, o sendeiro para as deslocações inevitáveis. O comboio constituía a única alternativa para os poucos jovens que ainda havia nos lugares redondezes de ambas margens, e cujo futuro dependia dele. Os colegiais utilizavam-no para ir a Ribadávia onde se situavam os colégios mais acercados; os que faziam estudos superiores apanhavam-no à sexta e ao domingo à tardinha para regressar a Santiago de Compostela, depois de um fim-de-semana entre os seus.

Da orla esquerda, distinguia-se um belo, harmonioso e sólido casarão burguês. O contraste com as casas das aldeias das duas ribas era espectacular. Os que se dirigiam para a estação ficavam uns instantes admirativos diante daquele solar, apesar de já o terem visto. O considerável terraço e as colossais galerias envidraçadas, face ao rio, ofereciam uma vista fantástica sobre o Minho e Portugal. Mais abaixo, na parte traseira, uma serração inteiramente mecanizada era imperceptível. Nela trabalhava perto de uma dezena de homens. Mensalmente, despachavam vários vagões abarrotados de pranchas, vigas, traves, troncos e outras madeiras para toda a Espanha. O caminho-de-ferro, ao qual estava subordinada, configurava a sua artéria indispensável.

Era pertença da família Alves Gomes. O genitor, natural de Ponte de Lima, casara com uma espanhola, mas tanto ele como os numerosos filhos eram conhecidos pelos Branquinho. O contrabando fez dele um homem fértil. Várias casas e terrenos disseminados pela zona, serviam-lhe de entreposto para tudo o que contrabandeava. Excluindo o chefe da estação, só ele usufruía de telefone. Apesar da sua influência e dos seus conhecimentos, teve de se refugiar uns tempos em Cevide – onde começara a negociar antes de se instaurar do outro lado – por ter sido objecto de delação. Alojou-se na casa onde vivera, meio degradada. Dali, com um cúmplice, coordenava o seu business sem ser molestado. Para controlar os guardas fiscais com mais facilidade, comprou o moinho junto do Trancoso, a dois passos do posto. Intencionara fazer umas obras de conforto na moradia, mas não teve tempo: o obstáculo que o compulsara a espaçar-se dos seus fora revogado. Reinstalou-se no casarão da Frieira, de onde pilotou os negócios até falecer.

A família Branquinho fora a mais virente e basta da Frieira da margem direita do Minho. Graças ao pé-de-meia amealhado pelo Alves Gomes, os filhos puderam reciclar-se um pouco por toda a Galiza. Só o mais novo, o Carlos, prorrogou o business que enriquecera a dinastia Branquinho: o contrabando. O seu terreno era o lugarejo de Pousa, em frente da freguesia de Chaviães, por onde circulavam os artigos postulados pelos fregueses portugueses. O petate, dificilmente levado às costas por uma rampa até à beira-rio, era, em seguida, transportado para o lado português numa batela que fazia um vaivém infindável durante a noite.

Todas as casas que fizeram parte do esquema concebido por Alves Gomes para o exercício da ramboia – contrabando – foram-se deteriorando progressivamente até se transformarem em ruínas. A algumas apenas se lobrigavam partes, tanta era a vegetação bravia e daninha que as cobria.

 

 

Oficialmente, a tienda do Manolo estava aberta em permanência e sem excepção das oito às vinte horas quando o sol se deitava mais cedo – de Outubro a Março –, e até às vinte e duas horas quando o sol arredava mais tarde – o resto do ano. No entanto, os horários eram flexíveis, raramente respeitados; o fecho era decidido pelo número de clientes e pelas obrigações do contrabando.

Como acontece ordinariamente nas mais pequenas aldeias ou lugares, a sua loja era o local crucial onde tudo o que ocorria, se fazia, se dizia, se sabia ou se pensava na aldeia da margem esquerda era propagado, discutido, comentado e reiterado pela aldeia homónima da banda direita do Minho.

Na loja, ao lado do café, o Manolo vendia um pouco de tudo: géneros alimentícios, louças, recordações, roupas, tintas, panelas, ferramentas, produtos e alfaias agrícolas, e tudo o que reivindicasse o pescador mais intratável e cerimonioso.

Era dono dum autêntico minimercado bastante rentável, que lhe permitia uma vida planturosa e livre de dificuldades factuais. Porém, os proveitos mais roborativos tirava-os do contrabando.

No seu negócio coexistiam pessoas que tinham trabalhos variegados e, visto o leque de produtos que propunha, as razões de lá encontrarem o que era urgente não faltavam. Os consumidores provinham de todo lado e formavam uma clientela fixa e leal.

O escudo, sobreavaliado – não andava longe das duas pesetas –, tornava um grande número de vitualhas muito mais acessíveis em Espanha. Aos sábados, domingos e feriados, mas especialmente aos sábados, naquela região fronteiriça o escudo e os portugueses eram os patrões das lojas, dos cafés e das limitadas boutiques

Regra geral, quando o tempo estava bom, já o Manolo tinha o café e a loja abertos antes das oito. A Rosa, a criada portuguesa, era a primeira a madrugar a fim de passar a esfregona no chão do café e da loja; o patrão, o segundo, cerca de meia hora mais tarde.

 

Continua.

 

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - VII

melgaçodomonteàribeira, 31.03.18

 

 

Continuação do post do 17 de março de 2018.

 

 

O não dito reforçava-se e acalentava-lhe com veemência o ardimento de um dia lhe enumerar, assanhada, o ror de vericidades que oprimia nas profundidades mais inacessíveis da alma. Esta situação abespinhava-a e erodia-lhe o psiquismo.

As tribulações das previsíveis consequências imobilizavam-lhe a menor tentação, a palavra inaudível, o menor gesto, ocasionando-lhe, nestas circunstâncias, palpitações latentes. Por enquanto, tinha de refreá-las sem piedade, custasse o que custasse. Faltava-lhe a audácia, prisioneira dos efeitos garantidos. Por vezes, asfixiavam-na tanto que tinha crises de dispneia. Estava de mãos atadas; era escrava da sua fragilidade.

Tirou a tampa a uma panela enfumarada que dormitava por cima da longeva cozinha de ferro – desvanecida havia bastante –, pegou num prato, entulhou-o de batatas, duma mão-cheia de grelos e de três módicas postas de merluza – pescada –, tudo cozido, e depositou-o diante dele sem uma palavra.

Em Espanha, o consumo pelos mais pobres deste peixe lauto e gostoso  – congelado e de pequena dimensão – derivava do seu baixo preço, causado pela possante hegemonia da frota pesqueira espanhola; na Europa, só a norueguesa era mais eficiente.

Adiu-lhe um galheteiro encardido, um garfo e um bom naco de pão semiduro que cortou num cacete. Com um pudor conventual, saiu, foi ao barraco e atestou a típica caneca de cerâmica branca com tiras azuis de um vinho recendente e espumoso. O Manel acarinhava ali uma provisão de tintol em garrafões de cabaço – detestava o vinho branco –, bebida de eminente nível, confeiçoada pelos lavradores mais calejados da zona.

A cada refeição, o consuetudinário era um litro. No entanto, havia dias que, por motivos ignotos, vazava pouco mais de meia caneca. O Manel bebia por amor, pela irmandade que o soldava à pinga, à cepa. Ainda não tinha dois anos e já as sopas de vinho alegravam os seus dias.

A placidez sorumbática da casa era amordaçada pelo estribilho casmurro da água límpida do regato.

Estes ápices deprimentes iteravam-se dia sim dia não. Sem se atardar mais, a Gracinda, silente, foi-se discretamente. Subiu as escadas e acostou-se à cabeceira da cama, já desfeita, com o pequeno receptor a pilhas na mão.

Enquanto que o marido se alambazava e drenava a caneca, sobrava-lhe tempo para lucubrar um tanto; olvidar a vida consternada e sem qualquer ambição ou finalidade que, irreparavelmente, encaixava havia um tempo desmedido.

Era a hora da radionovela, a sua baforada de nostalgia, a sua alegórica escapatória interina, o seu alcalóide biológico. Graças a estes romances diários, simples enredos, devaneava. Apesar das tramas e das manigâncias coriáceas, das inimizades, das perfídeas e das paixões insustentáveis, contrariamente à sua realidade, o desfecho era agradável, romântico. Esta escapulida mental era um reconfortante paliativo que lhe aligeirava as difíceis preocupações conjugais.

Nos dois quartos do lado, a prole, passiva fisicamente, matutava, imaginando um rumo, um caminho, uma bússola. Insubmissos, cada qual vivia no seu universo. Com a petulância arcana dos adolescentes indiferentes às inquietudes, às sombras e à atonia dos pais, eram transparentes, inexistentes. A certeza de um dia enveredarem por um trilho diferente, construtivo e escolhido por eles, estava-lhes obscurecido pelo hodierno mofino dos progenitores e pela penúria. Cada qual tinha o seu objectivo preciso traçado. Embora utópico por agora, tinham uma confiança total neles.

 

 

Nos lugares desleixados como os da Frieira – incalculáveis –, o afastamento e a dispersão dos compósitos e espinhosos trabalhos isolavam, no conjunto, as pessoas durante o dia. O contacto era, pois, impreterível para que não se recluíssem numa insensibilidade sórdida, pestilenciosa. O seu desenvolvimento, notório, desaguava, tristemente, nos aberrantes e inexplicáveis suicídios repertoriados anualmente na região. O instigador, em todos os seus perfis, era e continuará a ser, sem dúvida – independentemente dos perenes pseudoprogressos de comunicação –, a solitude. Este veneno, impassível e infatigável, quando o álcool – o amensalismo com o qual acreditavam combatê-lo – se mostrava impotente, esvaía, murchava e, por fim, destruía-os. O vergonhoso agravamento afónico da desertificação rural não fazia senão periclitar o emaranhamento da problemática.

Aos idosos da aldeia, inofensivos – como aos de todas as outras –, ninguém lhes evidenciava quaisquer razões para os impelir a aproveitar e a ter curiosidade por coisas e recursos que não estivessem estreitamente relacionados com as suas incumbências jornaleiras. Levavam uma vida negligente, embrenhados numa total ignorância e incompreensão do mundo truculento que os envolvia. Sendo, pois, a sua inserção irrealista, o progresso ia-os adulterando e desorientando.

A violência, o sexo, as tecnologias e as práticas cacofónicas e formatadas que viam na televisão – sangrada da sua missão primitiva que era a cultura e a educação dos mais iletrados –, além de os aterrorizar, ainda mais os coagia a persistirem em se enclaustrar nos costumes e nos dogmas arcaicos que sempre foram os deles, e aos quais se empolgavam devotadamente.

O precipício que disjungia a antiga geração da nova era excessivamente largo e intransponível para que a derrisória e árida propinquidade entre as duas o reduzisse com o tempo, mesmo em parte. Viam-se, falavam-se, mas cada qual campava no seu tempo, no seu território, na sua ilusão. A nova, como toda geração nascente, sitiada por uma cinorexia galopante, era febrosa e vivia o dia-a-dia sequiosa, dessabendo a ainda tenra barbaridade passada; a antiga era uma geração descurada, repudiada, incorpórea, que fazia tudo para ressalvar o que lhe sobejava da acidentada modernidade. Por não entrar nos anais do inédito consumismo crescente – a ditadura contemporânea –, nem os corpos políticos seduzia, a não ser em vésperas de eleições.

Não obstante esse encarceramento instrucional, eram seres curtidos. Vivenciaram e superaram uma trágica e interminável guerra civil – incognoscível para a população – que arruinara o país, orfanara um sem-número de almas, desmembrara milhares de famílias e injungira outras tantas à expatriação. Sustentaram com paciência e dignidade o contragolpe acerbo, deletério e miliário que um período bélico desta amplitude acarreta inexoravelmente. Os estigmas complexos e perduráveis que esta hecatombe cruel, inefável gravou neles definiram-lhes uma temeridade original e enrijada. Já nada mais os poderia atribular.

 

Continua.

 

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - VI

melgaçodomonteàribeira, 17.03.18

 

 

Continuação do post do 03 de março de 2018.

 

 

Com os anos, aprendera a arrogar-se daquele recanto, a viver ali. Agora suspeitava de que não se conformaria com uma mudança. Era o seu buraco, o seu ninho. Morava em Espanha e via Portugal da sua casa; de ambos lados do Trancoso falava-se uma língua gémea, e as pessoas não destoavam.

No verão, era um rincão feérico, refrescante; no inverno, para as pessoas que como ele compadeciam ligeiramente de reumatismo, a humidade – acrescida pela que a barragem estancava – acabava por ser inconciliável, ruinosa. «Na vida tudo tem o seu revés; não se pode ter só o lado bom.», desabafava com acrimónia.

Uma vez diante da casa, em vez de escorar a sacha à parede, dependurou-a na parreira, a umbela nos dias de forte sol. Premunia-se assim contra a encurvadura do cabo que o tempo, insensivelmente, lhe faria incorrer; a humectação, por seu lado, fazia com que o cabo da sachola aderisse idealmente à parte férrea. O Manel era muito avisado.

Com o préstimo dum pé, abriu, com vigor, a porta do que outrora fizera as vezes de palheiro e de arrecadação para um carro de vacas e distintos apetrechos para a lavoura. A madeira da armação e da porta da casa, apesar do tempo enxuto e ameno das semanas precedentes, ainda se dilatava.

Entrou na cozinha que, por norma, estava deserta. Além desta, o rés-do-chão do pequeno pardieiro era composto por uma minúscula dependência que funcionava como sala de jantar nos dias de festa ocasionais. De baixo da mesa retirou um banco já meio desgastado pelo seu traseiro e sentou-se. Não havia outro, os demais assentos eram cadeiras. Não se sentia à vontade numa cadeira. Desde criança, as suas nádegas afeiçoaram-se aos bancos toscos, fabricados pelo pai com a madeira das árvores das terras que cultivavam. Aquele, fizera-o ele.

Deixou deslizar um repousante uf de acalmia, de complacência enquanto passeava o olhar lasso pela cozinha. A casa era velha, surrada e insalubre, mas havia muito que transluzia uma conivência absconsa entre ele e aqueles escombros remendados. Fora tudo feito por ele, pelas suas mãos calosas, pela sua força animalesca. Mesmo o primeiro andar, e isso era uma sobranceria que não ocultava a ninguém.

Estava bem. Fora um dia cansativo, um dia de faina como os outros, mas tranquilo, e isso agradava-lhe. Nascera para esta vida.

Alertada pelo ruído da abertura brusca da porta, a Gracinda resvalou com languidez e em silêncio os degraus da escada de madeira em espiral, o acesso aos três ínfimos quartos de dormir, que absorviam o primeiro piso. Intencionalmente, eternizava a descida. Ao fim do dia, quando o travesso marido penetrava no lar, velava em abordá-lo com minuciosa circunspecção; aferia o seu humor, a fim de se eximir do perigo de expressar a palavra indevida que o quizilasse bruscamente de modo irracional.

Pequena, franzina, o cabelo trançado, enrolado e preso na nuca, uns olhos pequenos e vivazes, tinha uma certa graça, mas aparentava não ter qualquer prestância. Portanto, era uma mulher com genica da qual emanava uma energia imparável e uma solidez incrível, tanto compleicional como moral. De tempos a outros, quando a chamavam a ela e ao marido para arrancar batatas ou sachar milho, manejava, de modo pretensioso, uma sachola da mesma polegada que a dele. O Manel, para a acompanhar e resistir ao seu ritmo endiabrado sem perder a face diante dos outros jornaleiros, devia duplicar os esforços. Desforrava-se publicamente da falocracia do homem.

Congratulava-se, com toda a legitimidade, que fora graças à sua volição e ao seu afinco que fizeram as economias correspondentes para adquirir o casebre em que residiam. Actualmente, o marido satisfazia-se em entregar-lhe dois terços do salário do dia, guardando a sobra para cuidar da sua fraqueza dipsomaníaca.

A Gracinda, apesar de fazer uns biscatos todos os dias, tinha necessariamente de ser muito parcimoniosa em tudo: na alimentação, na electricidade e, em especial, no vestuário. Embora limpa, trajava sempre a mesma roupa: uns dias com uma, outros, com outra e, ao domingo, com a mais engalanada. O mesmo acontecia com o marido. Os filhos, jeunesse oblige, eram bem mais impertinentes.

O Manel, ciumento como um leão, condenara-a, desde que se tinham amigado, a vestir calças quotidianamente: não admitia que lhe mirassem as pernas. Demasiado perfeitas e excitantes, captariam, a seu ver, olhares devassos; era uma criação da qual tutelava o monopólio visual.

Para os usos recorrentes da terra – omitindo as adolescentes e as vintaneiras mais emancipadas –, esta conduta feminina não era nada bem vista pelas sexagenárias e septuagenárias, que eram a maioria na aldeia. Contudo, o tempo, inebriante e indulgente, foi empreendendo uma estagnante cura homeopática, fazendo com que até as mais escandalizadas se vergassem àquele modelo de trajo.

A Gracinda falava pelos cotovelos. Em geral, a verborreia é vista por muitos como uma anomalia, um descabimento, mas, na Frieira, para sua grande alegria, não; provava que a pessoa era extrovertida e se agregava sem demora à vida do lugar.

 «O silêncio é a única coisa de ouro que deixa as mulheres insensíveis.», dizia o Manel. Com ele, havia muito que a Gracinda se resignara a reter a língua, mas com os da paróquia tagarelava de tal forma que, por vezes, baralhada, interrompia-se por já não saber de que estava a falar.

— Vens um bocado mais tarde do que nos outros dias. Vejo que tiveste muito que fazer. – arriscou, com prudência.

«Mais uma!», pensou, agastado. Sem olhar para ela, bufou de novo e, em tom agreste, retrucou:

— Só fiz o que tinha que fazer. Nem mais nem menos.

— E agora estás cheio de fome e de sede, não é? A terra seca-te a garganta. – ironizou, um nada solicitante.

O Manel optou por não replicar, embora lhe aprazesse mandá-la calar-se. Fruira de um dia simpático, estava extenuado e não queria estragar a noite de descanso. Sentia-se com pouco ou nenhum ânimo para polemicar. Com malacia e martelando bem as sílabas, retorquiu:

— Vejo que não se te pode esconder nada, Gracinda.

Quando o Manel era prosódico, a mulher não duvidava de que o melhor era fazer de conta e pôr um ponto final ao breve litígio. Desolada, deu meia volta e lamentou-se subtilmente. O diálogo não podia aviltar-se. À medida que as dissimilitudes entre eles floresciam, os dias assemelhavam-se proporcionalmente.

 

Continua.