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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

DE MELGAÇO A CUYABÁ

melgaçodomonteàribeira, 01.07.15

Vista sobre Prado

 

JOÃO POUPINO CALDAS


Na sociedade cuyabana dos fins do século XVIII e inícios do XIX, formara-se uma espécie de patriarcado, constituído pelos elementos de maior prestígio, seja pela posição, seja por haveres, seja pela tradição familiar. Compostas em grande parte pelos descendentes dos penetradores do sertão, vindos nas bandeiras ou nas monções de povoado, a que se uniram os filhos da Metrópole, em geral “homens que viviam dos seus negócios” como costumavam individuar-se elles mesmos, as linhagens cuyabanas mais realçadas levam quasi sempre, nas suas origens, um costado luso para três nativos, quando não paulistas. Em geral, são pelo lado materno autochtones e portugueses pelo paterno, como occorre com Serras, Cerqueiras, Rochas e Corrêas, sendo raras as famílias cujo ascendente masculino, dentro da antiga Capitania, não seja português. Podem citar-se nestas condições os Laras, Monizes, Amaraes, Coutinhos e Gaudies, tendo aquelles genearchas paulistas (de Itu, Porto feliz) e estes goianos. Não fugiram à regra os Poupinos, progênie das mais destacadas da época, na qual deveria evidenciar-se, como figura primacial nas luctas nativas, o famigerado João Poupino Caldas. O avô de João Poupino, Joaquim Lopes Poupino, natural da Villa de Belém, bispado de Elvas, arcebispado de Évora, desempenhou proeminente papel na vida da Capitania, para onde veio moço ainda, occupando os cargos de almotacé e vereador do Senado da Câmara, tendo sido ajudante do terço das ordenanças da villa, morrendo capitão das mesmas ordenanças, a 21 de Junho de 1796. A sua actuação nas guerras de fronteiras, na conducção do ouro, no levante de negros no Iacé (Jacé?) e, sobretudo, na construcção do forte do Príncipe da Beira, se patentêa através da justificação que, em 1809, fez um dos seus netos e que fiz publicar na Revista do Instituto Histórico de Matto-Grosso, na qual se vê que “por espaço de mais de 29 annos thé sua morte” “se empregou por muitos annos no Real Serviço de Sua Alteza”. Casado em Cuyabá com D. Maria Bernarda do Rosário, natural dessa villa do Bom Jesus, teve, como testifica o seu inventario, procedido em 1797 os filhos: José Lopes Poupino, Izabel Antonia, Catharina Maria Jorte (ou d’Orta), Maria Bernarda e Anna de Alvim Poupino. José Lopes (filho) falleceu com 67 annos, a 8 de Outubro de 1824, sem deixar descendentes; Izabel Antónia e Catharina conservaram-se solteiras, sendo a primeira demente; Maria Bernarda casou-se com o licenciado Francisco de Paula de Azevedo, fallecido no fim do século XVIII, deixando um filho, Albano de Sousa Ozório e Anna recebeu por marido a Manoel Ventura Caldas, português, filho de Custodio Caldas e Rosa Gomes, naturaes da villa de Melgaço, arcebispado de Braga. De Manoel Ventura, fallecido em 1800, e Anna de Alvim Poupino procederam os quatro filhos Bento José Caldas, João Poupino Caldas, Marianna de Alvim e Maria Teresa. Bento, o primogénito do casal, nasceu em 1788 e João Poupino em 1790, como se vê do termo que se segue: «Aos sete dias do mês de Julho de mil setecentos e noventa annos nesta igreja Matris de Cuyabá baptizou e pos os Santos Óleos o Reverendo Ignácio da Silva de Albuquerque a João inocente nascido a vinte e seis de Junho do dito anno filho legitimo do Tenente Manoel Ventura Caldas e D. Anna de Alvim Poupino, esta natural e baptizada nesta freguezia aquelle natural de Portugal, neto paterno de Custodio Caldas e Rosa Gomes naturaes de Melgaço Arcebispo de Braga e materno de Joaquim Lopes Poupino natural da freguezia da villa de Belém bispado de Elvas e de D. Maria Bernarda do Rosário natural desta freguezia forão padrinhos o capitão Joaquim Lopes Poupino e sua filha D. Maria Bernarda Poupino, solteira».
Adversa fortuna acolheu desde o berço o pequeno João – tinha seis annos quando perdeu o avô e padrinho e ao completar os dez ficou orphão de pae, tendo no anno anterior perdido o tio, esposo de Maria Bernarda. Manoel Ventura era comerciante e casara-se em 1787 com Anna de Alvim. Nesse mesmo anno “tendo de seguir viagem para o Rio de Janeiro” fez o seu testamento, que só veio a ser executado 13 annos após. Declara no mesmo ter nascido na freguezia de S. Lourenço de Prado, termo de Melgaço, comarca de Valença, arcebispado de Braga. No seu inventario, além de grande numero de mercadorias, figuram ouro (em barra, em pó e lavrado) pratas, casas de sobrados na Rua do Ouvidor e uma chácara no Andarahy (Rio), compradas aquella ao cap. Manoel Gomes Pinto, ao preço de 4:000$ e esta ao cap. Pedro Duarte a 2:400$. Os bens de Ventura foram a praça, em 1801 a requerimento do alferes José de Pinho de Azevedo, tutor dos orphãos, e tendo a viúva reclamado ao Rei assistir-lhe, emquanto se não casasse, o encargo de tutora, foi, por provisão de D. João VI, datada de 22 de Julho de 1804, reconhecido o seu direito.
Dos irmãos de Poupino, Bento falleceu antes de 1833, sem deixar herdeiros, Marianna casou com o capitão-mór André Gaudie Ley e Maria Teresa com António Navarro de Abreu (o 1º) de quem veio a enviuvar-se em 1825, casando-se com o desdor. António José da Veiga.

Netto de militar e filho de commerciante – ambos portugueses de boa linhagem – o jovem João conseguiu aprimorar os attributos que a herança physica lhe trouxera. Foi ambas as cousas ao mesmo tempo: homem da milícia e de negócios, e, ainda mais, político de projecção marcada, de prestigio social inconfundível, chegando a ser quasi o verdadeiro Conductor da sua geração, por seus attributos pessoaes de nobreza, bravura e desprendimento, que o fadariam a mais altos destinos, se essas mesmas qualidades não o houvessem sacrificado tão prematuramente, na mysteriosa tragédia do “beco da Câmara”.

Poupino, ao invés, quando se apercebeu da desgraça, que vinha ennodoar a sua administração, havia dois dias iniciada, procurou sinão impedir, que era tarde, a reprimir e attenuar, confinando quando possível ás proporções da hecatombe.
E o cabecilha de motins nativistas, que em 1831 era apontado como açulador da desordem, apparece, à testa de governo, e no momento preciso, como o agente inflexível da ordem e o rígido instrumento da repressão à anarchia.

Estava-se na primeira quinzena de Maio de 1837.
No dia 9, terça-feira da semana que precedia as grandes festas do Espírito Santo, de que era imperador nesse anno o capitão-mór Gaudie, seu cunhado, João Poupino Caldas regressava de umas visitas de despedidas, por ter de seguir para a Corte, quando, na esquina da rua Bella com o beco da Câmara, traiçoeiro agressor o prosta, quasi morto, com um tiro de pistola pelas costas.


JOÃO POUPINO CALDAS
(contribuição para o estudo da “Rusga”

Autor: José de Mesquita
           Do Instituto Histórico e da Academia
           Mato-grossense de Letras

Edição: Cuiabá
               ESCOLAS PROFISSIONAIS SALESIANAS

MCMXXXIV

http://www.jmesquita.brdata.com.br/bvjmesquita.htm

 

VERTIGENS

melgaçodomonteàribeira, 30.05.15

 

A pedra de toque desta obra de Albertino Gonçalves é a vertigem, uma repentina névoa do olhar que o leva a perder nitidez, associada a um ligeiro desequilíbrio que complica os movimentos, baralhando os gestos e as acções humanas. O sociólogo cujo olhar, por natureza epistemologicamente calculado e vigiado, se deixe tentar pela vertigem deste desequilíbrio humaniza todavia o conhecimento, aproximando-o da condição humana e das figuras que a exprimem, não apenas a ambivalência e o desassossego, mas também o enigma e o labirinto. (…) A indagação sobre a natureza das práticas e das classificações sociais coloca-nos na senda da sua irremível vertigem e viscosa ambivalência, reconduzindo-nos ao quotidiano, prosaico umas vezes, exaltante, outras, em que a existência humana se decide.


Vertigens. Para uma sociologia da perversidade

Albertino Gonçalves

Grácio Editor

2009

 

E AGORA, LUÍSA ?

melgaçodomonteàribeira, 10.05.14

 

 

Olinda Carvalho nasceu em Castro Laboreiro, Melgaço, em 1953. Deixou a serra para poder estudar. Passou por Melgaço, Braga, chegando a Lisboa aos dezoito anos. Aí se formou em Filologia Germânica na Faculdade de Letras, durante os conturbados anos que precederam e se seguiram à Revolução, que ela viveu intensamente. Ingressou na carreira docente por opção e fez da educação projeto profissional. Viveu dez anos em Bruxelas, viajou pela Europa, pela América e por África procurando sempre novos estímulos e talvez mesmo novas raízes. Estas não deixam no entanto de estar profundamente ancoradas nas suas origens da montanha agreste e violenta de Portugal. Inicia com este romance um projeto cismado desde sempre.

 

E Agora, Luísa? Conta-nos duas histórias que se entrelaçam. Oriunda de Lisboa, onde cresceu despreocupada no seio de uma família da média burguesia, é Luísa que nos conduz a outras terras e nos introduz outras vidas, outros modos de vida e, sobretudo, de pensar. Narrativa vívida que privilegia os sentimentos e a representação do real, personagens complexas evoluindo interiormente, muito marcadas pela educação, pelo sentido do dever, pelo tempo da História. Há uma presença contínua de um qualquer tipo de dor, física ou introspetiva, a perturbar o equilíbrio que todos querem, mas que só a idade e a aceitação acabam por permitir.

Anos setenta do século passado, por aqui perpassam alguns dos problemas que a sociedade portuguesa enfrentou, desde a guerra colonial e as lutas estudantis aos arroubos revolucionários do pós 25 de Abril e à evolução dos costumes.

 

HISTÓRIAS DE UM MARINHEIRO

melgaçodomonteàribeira, 10.08.13

 

 

 

José Joaquim da Ribeira – Oficial da Armada – nasceu em Cristóval, Melgaço, a 15 de Abril de 1943. Em 12 de Setembro de 1961 alistou-se como 2º Grumete na Armada.

Ao longo da sua carreira militar, frequentou vários cursos, entre os quais o de promoção a Oficial da Armada.

Desempenhou diversas funções, inclusivamente na área da formação. Fez parte de um grupo de trabalho com o fim de renovar os cursos de marinheiros ministrados na Armada.

Combatente em Moçambique, participou em distintas missões, salientando o resgate de militares da Armada retidos no Malawi, em 1974.

 

MELGAÇO

MINHA TERRA – MINHA GENTE

HISTÓRIAS DE UM MARINHEIRO

 

Autor: José Joaquim da Ribeira

 

Edição: CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO

             JOSÉ JOAQUIM DA RIBEIRA

 

2006

 

AUGUSTO CÉSAR ESTEVES IV

melgaçodomonteàribeira, 12.03.13

 

 

Uma obra impressa nas folhas do Notícias de Melgaço, órgão e voz de uma mescla de juristas, de professores, de funcionários públicos e de negociantes bem sucedidos conotados com posições e sobretudo com interesses contrários aos defendidos e representados pelos Padres Vaz e seus amigos na Voz de Melgaço, que ainda hoje se publica.

Num oportuno artigo intitulado Os lugares vistos de dentro: estudos e estudiosos locais do século XIX português, Augusto Santos Silva começa por tentar explicar os factores que motivaram o interesse pelos estudos locais no Portugal oitocentista, apontando de um lado a tradição da memória e do levantamento histórico, corográfico e administrativo do território, cujas raízes podem ser remontadas a Quinhentos, mas se afirma sobretudo no fim do Antigo Regime; do outro, a mudança cultural e doutrinária trazida pela primeira geração romântica no modo de ver, interpretar e identificar a Nação, essa nova realidade em formação, pelo cruzamento da tradição histórica e da sociedade liberal; e, por último a acção específica do Estado constitucional e, em particular, a construção do quadro político, administrativo e social pós-absolutista. É sabido, porém, que estes factores não se impuseram imediata e solidamente. Foi preciso esperar pelo amadurecimento de condições estruturais e conjunturais para que irrompesse o clima intelectual e ideológico no qual se formará uma nova fileira de conhecimentos – os estudos locais e regionais – um novo perfil técnico e intelectual – o erudito ou estudioso local – e uma nova legitimação e racionalização da pesquisa sobre o País – o bairrismo ou “amor da terra” própria. E o autor que estamos a citar oferece-nos de seguida uma visão panorâmica através da qual “arruma” a produção monográfica, anterior às duas últimas décadas do séc. XIX, em três grupos: o primeiro descende directamente das tradicionais pesquisas corográficas, topográficas e estatísticas; o segundo incluiu textos de diversa intencionalidade e natureza, que não assumem a forma de estudos, em sentido estrito, mas consideram e destacam factos e atributos reputados característicos de espaços sociais locais ou regionais; e o terceiro engloba o interesse da erudição e da análise propriamente dita concretizada na história lacunar e parcelar, que se justifica e engrandece, porém, como propósito de fixação e difusão pública, de arquivo, de inscrição na memória de factos, feitos, figuras, e patrimónios, para testemunho dos presentes e benefício da posteridade. Os livros intitulam-se, em consonância, esboços, memoriais, compêndios de notícias, apontamentos, subsídios, etc., perseguem sobretudo fins morais e cívicos (…) Quando procura maior fôlego e efeito, o estudioso pode aproximar-se do registo para-literário.

Filia-se neste terceiro grupo o modelo que haverá de projectar-se sobre quase todo o séc. XX e no qual se enquadra facilmente Augusto César Esteves e a sua obra, apesar de ter optado por “fragmentos” monográficos em vez de ousar a monografia integral num ou em vários volumes como aconteceu em muitos concelhos deste Portugal de norte a sul, de oeste a leste. Convém, por isso, que atentemos, à guisa de síntese final, nos traços principais do referido modelo condensados por Santos Silva de forma precisa e esclarecedora: Desde logo, é um tipo próprio de intelectual e de intelectualidade que se afirma – e marcará a vida institucional e cultural local do nosso século XX. Pároco, literato, homem de leis, funcionário da administração, professor ou líder político, o estudioso é uma figura cada vez mais presente no círculo intelectual que cada cidade ou vila da “Província” portuguesa pode gerar. Escolarizado ou autodidacta, amador ou semi-profissional da erudição, tornar-se-á um interlocutor incontornável das instituições políticas e administrativas e dos poderes municipais e uma espécie de garante e avalizador da apresentação pública de si que uma localidade pode forjar – a projecção e rentabilização pública do seu “carácter” singular. Depois, é toda uma retórica que tem aqui uma das suas bases e expressões principais. O bairrismo – que, em poucos casos, pode chegar a conceber-se como um regionalismo – é a representação-tipo das razões e finalidades do trabalho do estudioso. Amor, e glória da terra, para usar os termos mais frequentes. Eis o que define o empreendimento analítico, o que desculpa as suas falhas, o que gratifica o seu auto, o que singulariza e engrandece o lugar no conjunto dos lugares de que se faz a nossa história e a nossa identidade nacional.

O estudioso Augusto César Esteves pertence indiscutivelmente ao perfil traçado e a sua escrita, imbuída de bairrismo, esteve sempre ao serviço da identidade e da singularidade do local dos seus afectos, das atenções e voluntarismos do benemérito – a criação dos Bombeiros Voluntários foi a mais saliente –, atingindo, a partir daí, do singular, a afirmação da plenitude nacional. Não admira, por isso, que o aparo afiado que alinhava em folhas inteiras ou em linguados de trinta e cinco linhas textos de denúncia, de defesa, de pedagogia cívica, de elogia e de crítica viperina acolhidos no Notícias, alinhava também longas transcrições com abreviaturas e grafismo arcaico arrancados ao empoeirado dos cartórios, dos arquivos e do olvido mais cruel, rabiscando, assim, a História desconhecida de Melgaço que quase ninguém antes dele, ressalvadas as notícias corográficas elaboradas desde o séc. XVIII, ousara desvendar. Dizemos quase ninguém, porque na lista incompleta de estudos monográficos sobre Melgaço que inserimos no levantamento feito em 1990-91 tínhamos referência ao opúsculo de Almeida Silvano intitulado As Águas de Melgaço: notícia histórica e prática (1896) com uma genérica contextualização corográfica e histórica do espaço termal. Mas este exemplo é pálido e insuficiente para sustentarmos a tese de estudos anteriores ao contributo de Augusto Esteves que, por sua vez, será o pioneiro e despoletador da produção monografista em que vão pontificar o P.e Manuel Bernardo Pintor, P.e Júlio Vaz e o Doutor José Marques a par de outros autores mais esporádicos.

Num estilo que articula o para-literário com o jargão jurídico de antanho e alfinetadas várias em tom ora jocoso, ora ofensivo, a concatenação de elementos e de citações colhidas tanto numa boa biblioteca erudita que acumulou ao longo dos anos e acabou, após a sua morte, por ser vendida, como em inúmeras centenas de folhas de documentos encontrados ao pé ou localizados em Arquivos Públicos nacionais e espanhóis, para onde dirigiu pedidos de transcrição e de ajuda paleográfica – essa concatenação, dizíamos, não obedeceu a um plano muito sistemático como ficará patente já neste primeiro volume e nos seguintes, reservados, à excepção do último, para a reedição integral dos livros que publicou em vida. Postumamente, foi já possível editar a obra monumental que preparou com esmero e deixou pronta para impressão pouco antes de falecer. Referimo-nos ao O Meu livro das gerações Melgacenses (2 vols., 1989-1991). O plano destaobra surgiu naturalmente anunciado no seu jornal e, por isso, aparecerá adiante neste volume inaugural de um projecto editorial modesto, mas urgente e imprescindível ao aprofundamento dos estudos melgacenses que não se podem esgotar apenas na História em stictu sensu – a faceta em queo contributo de Augusto César Esteves mais se centra – , podendo e devendo abranger também a Etnografia, a Arqueologia, a Arquitectura Civil e Religiosa, etc.

 

  1. Homenagem e desafio – o projecto editorial que tardava…

 

Pelas razões acima expressas tínhamos de principiar este projecto de (re)edição da Obra completa do Dr. Augusto César Esteves com a colecta de todos os artigos impressos nas paginas do Notícias de Melgaço. Daí o título inevitável que se impôs sem margem para hesitações e alternativas. Mais complexa, ainda que perfeitamente superável, foi a classificação temática que fomos burilando a fim de agruparmos de forma coerente e próxima da lógica originária os múltiplos artigos que ao longo de mais de duas décadas tiveram espaço cativo nas colunas do dito periódico. Apesar da variedade temática e do empenho do autor em assuntos actuais e polémicos, é flagrante a destacada quantidade de artigos sobre história local, artigos esses que acabavam compilados em livro, como foi o caso, incluído neste primeiro volume, do opúsculo de 46 páginas editado em 1960 e intitulado O Ensino da História de Melgaço na Escola Primária.

Foi o que aconteceu com Melgaço e as Invasões Francesas, 1807-1814 (1ª edição, 1950) e que será o próximo volume desta colecção.

Seguir-se-á Melgaço, Sentinela do Alto-Minho, editado em 1957 com uma primeira parte com um só volume, e uma segunda parte dividida em dois volumes. Manteremos a divisão dada pelo autor, o que significa que esta obra será dada à estampa em três volumes.

No mesmo ano de 1957 foram reunidos em livro os artigos dedicados à Santa Casa de Melgaço.

O projecto encerra com um volume final em que incluímos textos de imprensa anteriores à fase do Notícias de Melgaço, artigos desta fase que por lapso já não puderam ser inseridos neste primeiro volume, apontamentos, autógrafos e inéditos do Dr. Esteves e, ainda, críticas e comentários entretanto aparecidos e referentes a este projecto editorial.

Os projectos são para se cumprir e pela nossa parte fica, aqui, lavrada a promessa e o empenho de um cumprimento que agora começa. Esperamos dos leitores o que lhes cabe – tornar este exercício, que para nós foi de prazer e de satisfação ímpar, num bem útil e partilhável pelo maior número possível.

Bem hajam por isso.

 

Braga, Julho 2003-07-31

 

Armando Malheiro da Silva

Joaquim Rocha

 

 

Obras completas: Augusto César Esteves

 

NAS PÁGINAS DO NOTÍCIAS DE MELGAÇO

 

Recolha e Apresentação: Armando Malheiro da Silva

                                             Joaquim Rocha

 

Edição: CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO

 

2003

 

AUGUSTO CÉSAR ESTEVES III

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

1. A escrita ao serviço da identidade local e nacional

 

Esse testemunho merece toda a nossa atenção e engloba parcelas importantes da tua actividade como melgacense preocupado com a sua terra e o seu país, como cidadão politizado e decidido a uma intervenção pública constante, como jurista e como eterno e incansável aprendiz de historiador e monografista local.

Membro da geração do primeiro decénio de novecentos, interventiva como se infere, por exemplo, da greve académica de 1907, e influenciada, à semelhança de algumas gerações anteriores, pelo romantismo, pelo naturalismo literário, pelo positivismo (Ordem e Progresso), pelo socialismo utópico e pelo republicanismo, Augusto César Esteves não destoou do quadro geral em que podemos inseri-lo. Quer como jurista, quer  como intelectual e cidadão politizado reflectiu as preocupações sócio-políticas do seu tempo e acompanhou as sucessivas tendências e alterações mundiais com espírito simultaneamente crítico e atento. Mas fez isto tudo, saindo o mínimo possível de Melgaço e este traço merece destaque porque em certa medida proporcionou que, a partir sobretudo da década de quarenta, intensificasse a recolha de informação histórica e trabalhasse o caudal crescente de dados a fim de firmar créditos como o único monografista sistemático do seu concelho natal.

A passagem por Braga e sobretudo por Coimbra, num período curto de viragem político-institucional – a instauração da Republica em 1910 - , foi importante para a sua postura ideo-política e para o seu perfil de intelectual progressivamente seduzido e embrenhado nos estudos históricos (desde o período medieval até ao séc. XIX). Militou no Partido Republicano Português/Partido Democrático (1911-1926) liderado por Afonso Costa e após 1919 pelo Eng. António Maria da Silva, embora não tenhamos ainda podido colher na imprensa regional vestígios claros desse seu militantismo partidário, vindo depois a situar-se na barricada dos que opondo-se ao Estado Novo não podiam hostilizá-lo se queriam continuar com o emprego público e a residir onde desejavam. Em contrapartida, é mais fácil compreender e explicar as linhas de força que orientaram o publicista e o historiador amador de Melgaço.

Temos mais de um milhar de páginas escritas em que estas facetas complementares se derramam e evidenciam. Merece, aliás, destaque a dedicatória à sua mulher com que abre o primeiro livro impresso: Esmeralda/ Porque nem tu receias a linda rival, nem eu temo se aniche no teu peito o ciúme provocado por esta amante, para mim tão cara e feiticeira, avalia tu própria os meus novos amores, lendo com atenção estas páginas ligeiras, escritas quase todas a teu lado. /Para isto t’as ofereço e confiadamente, as deponho no teu ragaço, beijando-te a mão. / Teu/ Augusto 1. E logo a seguir, sob o título Conversemos, deixou gravados os propósitos que o levaram a escrever, anos antes, os artigos sobre história local nas páginas do jornal Notícias de Melgaço destinadas aos seus patrícios: Mas como o Autor não aspira à imortalidade apetecida pelo historiador ou pelo purista da língua, pois se contenta com as honras de pequeno cabouqueiro da história local, votado a carrear elementos, para outros, mais tarde, sáfaro e ingrato, inicia-se mesmo assim a publicação de Melgaço e as Invasões Francesas.

Os valores republicanos que perfilhou – um exacerbado nacionalismo e patriotismo de matiz regionalista, um claro apego à liberdade, à democracia e à justiça social e um indelével intransigência moral – emergem claramente da sua prosa de publicista e da pena do publicista saíram a “tinta” e as cores políticas e ideológicas mescladas, sempre, com a defesa intrépida dos interesses locais. Significa isto que o político, o ex-militante republicano e o cidadão zeloso de seus direitos e dos seus conterrâneos perpassa nas páginas históricas tecidas num estilo com concessões frequentes ao subjectivismo literário e ao constante remoque moralista, social e político. Não é, assim, possível separar o publicista do monografista, mas é deste que nos temos de ocupar porque ele se agigantou e deixou obra.

 

 

(continua)

 

AUGUSTO CÉSAR ESTEVES II

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

Augusto Esteves logo que começou a abrir os olhos para a vida, o que viu?

Qual Buda viu crianças expostas, viu a miséria de caseiros e jornaleiros, viu gente a morar em casas minúsculas, tugúrios inóspitos e horríveis – enfim, viu uma feira de vergonhas, de situações aberrantes e indignas do ser humano. Ele viu tudo isto, porque como o próprio deixou dito: cresci (…)  ao ar livre. E à medida que foi crescendo afastou-se paulatinamente do modelo: viu, tornou a ver, mas seguiu outros caminhos.

As primeiras letras aprendeu-as com o P.e João Nepomuneceno Vaz, sacerdote e professor do ensino primário, doutrinador exímio, um verdadeiro Santo Agostinho em miniatura. Frequentou também a escola de D. Maria Augusta de Passos Brito, professora oficial da instrução primária, nascida em Monserrate, Viana do Castelo, e casada em Melgaço com o proprietário Manuel José da Costa, de São Paio. Augusto César convenceu-se de que com ela perdera ingloriamente o seu tempo. Conviveu muito com seu pai, que o levava a passar serões na Loja Nova e aí se entreteve com os jovens caixeiros, enquanto os adultos falavam da lavoura, da política, de câmbios, de fortunas e azares em terras longínquas, etc.

De Melgaço a Braga é um passo de anão e para lá seguiu em 1899, tendo-se matriculado na segunda classe do Colégio do Espírito Santo. Da cidade dos Arcebispos partiu para Coimbra, onde se graduou bacharel em Direito no ano de 1912.

Ainda jovem teve uma ideia oportuna e generosa: dotar Melgaço de uma corporação de Bombeiros Voluntários. A seu lado, no dia 15 de Maio de 1926, no salão nobre da Assembleia Recreio Melgacense, estiveram os notáveis da terra: Dr. Américo de Freias Coutinho Maltez, juiz de direito na comarca de Melgaço, Dr. Armando António Barbosa, delegado do Procurador da República, Ernesto Viriato Passos Ferreira da Silva, Hermenegildo José Solheiro, Dr. Joaquim de Barros Durães, Dr. Augusto César Ribeiro Lima, Dr. António Francisco de Sousa Araújo, Dr. António Cândido Esteves, médico, Abel José Nogueira Dantas, professor, José Pires Louro de Oliveira, tenente, António Joaquim Esteves, Germano Alves Carabel, Duarte Augusto Magalhães, Manuel José da Costa, padre António Manuel da Cunha e Raul Solheiro Esteves. Todos aplaudiram a excelente ideia e assim nasceram os Bombeiros Voluntários de Melgaço. O primeiro tesoureiro foi precisamente Augusto César Esteves. A Associação foi inaugurada a 14 de Abril de 1929, servindo de madrinha do baptismo do material de incêndios a menina Iracema Mendes de Araújo. Teve como 1º comandante Herculano Arsénio Gomes Pinheiro; 2º comandante Abílio Domingues; e chefe da Banda de Música Manuel Rodrigues de Morais, que fora até aí regente da Filarmónica Música Nova, e que veio a dar que falar por ter conseguido transformar a Banda de Música numa das melhores do Alto Minho.

Augusto Esteves passou alguns anos na contígua vila e termo de Monção, onde exerceu o ofício de advogado e de notário. Transferiu-se depois para o Tribunal Judicial de sua terra natal assumindo funções de Secretário e veio também a acumular cargo de ajudante do conservador do Registo Predial.

Na sua amada terrinha foi homem activo politicamente durante a I  República (1910-1926): administrou o concelho durante algum tempo, presidiu meteoricamente à Câmara Municipal de Melgaço, foi tesoureiro e provedor da Santa Casa da Misericórdia. Interveio sempre que pôde nos assuntos do concelho, mas com o advento primeiro da Ditadura Nacional (1926-193) e depois do Estado Novo salazarista (1933-1974) a sua voz e a sua acção tiveram de ser refreadas, pois as consequências de palavras “mal” ditas reflectir-se-iam inevitavelmente no seu emprego. Perdido este, teria de deixar Melgaço e isso ele não queria de forma alguma. Amava o torrão natal como poucos e era aí que queria passar a sua vida. Inteligente e hábil, soube sempre dosear a sua intervenção, de maneira a não ferir as susceptibilidade daqueles que tinham força e poder, os quais o poderiam prejudicar seriamente. Por vezes até os gabava, louvando a sua “obra”! Aos outros, embora salazaristas, atirava amíude as suas setas, embebidas em suave veneno, com uma ironia à Eça de Queirós, sabendo de antemão que daí não adviriam represálias, apenas comentários mais ou menos felinos, mas cem por cento inócuos.

Ideologicamente era republicano e democrata, mas não socialista e muito menos afecto ao comunismo, não poupando ataques ao regime soviético. Não idealizava igualdades, contudo detestava ver o povo na miséria. Não era um aristocrata, mas o seu lado burguês impelia-o ao convívio com os “grandes”. Pregava e adoptava uma postura humilde e tolerante, mas quando alguém, por maldade, lhe lembrou que a sua esposa nascera de mãe solteira, embora perfilhada posteriormente pelo pai, irritou-se, ferido no deu orgulho, tomando a afronta como grave questão de honra. Era acima de tudo humano com suas contradições, defeitos e virtudes.

Casou no ano de 1914 com Esmeralda Esteves e enviuvou em Dezembro de 1956. Não se pode afirmar que o seu casamento foi infeliz, pelo contrário. Tudo nos leva a supor que o casal viveu em harmonia e felicidade. Porém, essa felicidade foi ensombrada pela morte prematura da filha, Belarmina Cândida, nascida em 1915 e falecida a 10 de Setembro de 1936, solteira e sem geração. O filho Henrique César, nascido em 1917, fez alguns estudos, poucos, empregou-se no Grémio da Lavoura, e aí permaneceu até à aposentação, com magro salário, mantendo-se completamente à margem dos interesses políticos e culturais do progenitor. Casou, já em madura idade, com D. Clementina Rosa e tal como a sua irmã também não deixou geração.

Não tendo quem lhe continuasse o trabalho e a estirpe, Augusto Esteves foi-se refugiando cada vez mais na sua obra. Aí vingou. Nela investiu todo o seu saber, o seu amor pela terra, os seus tempos livres, tirando partido do fácil acesso aos documentos em posse de famílias melgacenses e, sobretudo desempoeirando todos os velhos papéis jazentos sob o efeito letal da indiferença nas Conservatórias, Câmara Municipal, Tribunal, Confrarias, Paróquias, Misericórdia… Abdicou de prazeres mundanos, de descansos merecidos e embrenhou-se na história de Melgaço, tentando dar aos conterrâneos uma visão de conjunto, enaltecendo os feitos dos antepassados, enquadrando-os no todo nacional, pesquisando em alguns importantes arquivos públicos do país (Braga, Coimbra e Lisboa), tudo à sua custa, sem subsídios, sem ajudas. Hermenegildo José Solheiro, aquando da sua passagem pela cadeira do poder local (1926-1931), quis dar-lhe algum dinheiro da Câmara Municipal para custear as investigações, mas Augusto César Esteves, sabendo que os cofres da edilidade andavam quase vazios, não aceitou tal dádiva.

Não era um profissional da investigação histórica, mas um apaixonado pela história da sua terra e nessa condição conseguiu transpor dificuldades e desânimos deixando um testemunho variado, desigual e meritório, que deve estar acessível, em primeira mão, a todos quantos, se orgulhem, como ele se orgulhou, de serem portugueses de Melgaço.

 

(continua)

 

AUGUSTO CÉSAR ESTEVES I

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

AUGUSTO CÉSAR ESTEVES – O HOMEM, A VIDA, A OBRA…

 

 

O real serve-nos apenas para construir, melhor

ou pior, um pouco de ideal. Talvez não seja

útil para nada mais.

Anatole FRANCE – Le Jardin d’Epicure

 

 

1 – Um português de Melgaço ou o enorme peso das raízes

 

Escrever sobre uma pessoa é fácil ou difícil conforme as perspectivas, os elementos biográficos que tivermos ao nosso dispor, a distância no tempo, a nuvem que o encobriu depois da sua morte, o manto mitológico que se distendeu sobre a sua figura.

Quanto a Augusto César Esteves poder-se-á afirmar, sem grande margem de erro, que para a maioria dos melgacenses ainda vivos, com menos de cinquenta anos de idade, ele não existiu. Nem uma praça, uma rua, nem sequer um beco ou uma travessa, lembravam até 9 de Agosto de 2003 (data em que se fez finalmente justiça) o seu nome, a sua obra, a sua passagem pelo mundo!

Atribuir culpas a este ou àquele, dizer que foi esquecido de propósito, seja pelos políticos, seja pelos críticos, isso seria fugir à verdade, menosprezar o tempo e os interesses individuais e colectivos que estão na origem de tal fenómeno.

Quando Augusto Esteves morreu em 1964 já o concelho de Melgaço estava a sofrer uma transformação profunda, uma metamorfose sem paralelo na sua história. E porquê? Porque em 1961 começou a guerra colonial em várias frentes e os jovens começaram a debandar, tal como sucedeu em todo o país de norte a sul. Os mais novos não estavam preparados ideológica, nem psicologicamente, apesar de toda a doutrinação salazarista, para morrer nas matas africanas. Voltaram-se, por isso, para a França, para a Alemanha, para o Luxemburgo, a Suíça… Alguns anos mais tarde casaram, levaram as esposas, os sogros, os cunhados, toda a gente. O concelho ficou sem imensa gente! A elite, se é que se pode chamar elite a um pequeno grupo de pessoas letradas: o padre, o juiz, o advogado, o notário, o delegado do Procurador da República, o professor do ensino primário, um ou outro comerciante mais culto – foi a pouco e pouco deixando este vale de lágrimas, e os mais novos nem sequer tomaram conhecimento de que existiu na vila um homem que dedicou parte do seu tempo a escrever sobre a sua terra natal. Um homem que nasceu, viveu e morreu cercado e seduzido pelas suas raízes.

Antes dele ninguém escrevera nada que se visse sobre Melgaço. Os padres escreviam o assento de baptismo, de casamento e de óbito, talvez um ou outro sermão para apresentarem na missa, mas crónica, história, estudos genealógicos… nada! Claro que algo se escreveu nos jornais que foram surgindo em Melgaço a partir de 1887, mas os artigos do jornal duravam pouco tempo, eram logo devorados pelo esquecimento, e por incrível que isso pareça, nunca houve uma Câmara, um Pelouro da Cultura que apoiasse a colecta e edição daqueles textos em livro! Tudo, ou quase tudo se perdeu! Restam alguns números na Biblioteca Nacional de Lisboa, a desfazerem-se em pó.

Estamos a falar de Augusto César Esteves. Mas, afinal, quem foi ele?

Nasceu na Rua Nova de Melo, fora das muralhas da vila de Melgaço, onde outrora existira um forte, a 19 de Setembro de 1889 no quarto por cima dos escudos, com apenas sete meses de gestação. Nessa rua, então moderna, tinha seu pai, Francisco António Esteves, mais conhecido por o brasileiro – pelo simples facto de ter sido emigrante no Brasil – comprado a casa do médico Dr. João Luís Sousa Palhares, e que não deve ter sido nada barata, pois ainda hoje se pode considerar uma boa habitação. Ficava pertinho do Hospital da Misericórdia. A sua mãe, prima do pai, chamava-se Belarmina Cândida e era filha de Manuel José Esteves (mais conhecido por Melgaço), emigrante no Brasil, e de Maria Rita Alves.

Augusto Esteves foi filho único de sua mãe, falecida no mesmo ano – a 17 de Outubro de 1889 – em que ele viu a luz do sol. Teve, por isso, que ser amamentado pela Cândida Corujeiras, que também nesse ano dera à luz uma menina, a Idália, e o leite não faltava em seus peitos. Bebiana Cândida salvou-lhe a vida, mas depois o enganido ia-lha levando: desta vez foi o Manuel Zoia quem o salvou com as suas mezinhas (baseadas no trovisco e em outras ervas) perante a descrença e desânimo dos médicos que o viram.

Seu pai nunca mais se casou. Viveu, porém, maritalmente com Teresa Rodrigues, de Paderne, filha de Manuel Boaventura Rodrigues e de Carolina de Jesus Costa Pinto, tendo saído dessa relação Anésia, António Cândido (o futuro médico Esteves) entre outros. E Francisco António Esteves teve ainda geração de Lucrécia das Dores Gomes de Sousa. Assim, Augusto César Esteves, apesar de ser órfão de mãe, teve quatro ou cinco irmãos (os filhos de D. Teresa Rodrigues) reconhecidos pelo progenitor.

No ano de 1889, quando Augusto Esteves nasceu, era Presidente da Câmara Municipal de Melgaço, Baltazar Luís de Araújo de Azevedo, e o Vice-Presidente era José Joaquim Alves de Magalhães – figuras de topo em finais do século XIX ignoradas nos nossos dias. No ano seguinte – 1890 – seria Presidente da edilidade José Cândido Gomes de Abreu, negociante e fundador do Hospital da Santa Casa da Misericórdia.

 

 

(continua)

 

A TI MARIA E O PADRE

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

UM PADRE EXALTADO

 

 

   O caso da mãe do Jacob que aludi, foi o seguinte:

   A tia Maria, já idosa, com outras mulheres e a canalha da doutrina (catequese) entre eles eu, frequentavam a novena no mês de Maio, todos os dias à tarde.

   O pároco, na altura jovem, passava por grave crise existencial e problemas de família (um seu irmão casara com a filha de ex-padre e isso era, a seu ver, sacrilégio).

   Devido a esse estado de espírito andava o padre com os nervos à flor da pele aumentando o seu natural temperamento exaltado.

   Numa das novenas, a propósito de gesto ou posição engraçada de um dos rapazes os outros caíram no riso. Riso abafado como convinha na situação. Rir disfarçado nessas ocasiões acorria a miúdo e ninguém dava importância. Nesse dia, porém, a gracinha fora maior e o riso prolongado e um dos rapazes não se contendo riu mais forte. Para quê!... O padre, que estava de costas dirigindo as orações, voltou-se abruptamente descarregando uma série de bofetadas fortes e estridentes na cara do rapaz que estava mais perto. Pegou-o pela orelha e levou-o até à porta expulsando-o.

   A tia Maria, que estava ajoelhada como todos os demais no meio da igreja, pareceu-lhe que aquele rapaz agredido era o seu neto Zeca, Zeca Chatice, por acaso não era, e protestou resmungando em voz baixa, que aquilo não se fazia, etc., etc.. O padre, em altos brados mandou a mulher retirar-se da igreja. Ela obedeceu continuando a resmungar. O acto religioso continuou sem grande ou nenhuma devoção. O facto foi muito comentado e tempos depois o pároco foi transferido. Reminiscências de infância.

 

 

Rio, 31 de Maio de 1996

 

Correspondência entre Manuel e Ilídio

 

MELGAÇO, NATAL DE 1983

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

O PRESÉPIO AUTARCA DE MELGAÇO EM 1983 

 

  

A Câmara Municipal,

teve uma ideia feliz,

pois armou este Natal

um presépio colossal

nas trazeiras da Matriz.

 

Coisa assim, nunca se viu,

tão bonito e tão real,

pois com gosto reuniu

e assim distribuiu

figuras ao natural.

 

A Teresa é Nossa Senhora,

o Solheiro é S. José,

e quem nasce nessa hora

e entre as palhinhas chora,

Alberto de Sousa, o Bé.

 

A dar calor ao menino

com seu carinhoso alento

com amor e com carinho,

o Luís faz de boisinho

e o Tóninho de jumento.

 

O Jorge, o Moura e o Gi,

três Reis Magos, quem diria,

montados nos três camelos

da Junta de Freguesia.

 

Ventura, Carvalho e Zeca

são os pastores, pobrezinhos

que levam como carneiros

os do lixo e os cantoneiros,

e mais outros, coitadinhos.

 

O Presépio ainda tem

figuras evocativas,

mas a gente sabe bem

que são na Câmara também

apenas, decorativas…

 

Natal de 1983

 

FAIJ