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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

A FROTA 1930-1940

melgaçodomonteàribeira, 13.06.15

Vista sobre o Minho

 

MELGAÇO 1930-1940

 

CLARO QUE CONTRABANDISTA ERA PROFISSÃO

 


Claro que contrabandista era profissão. Sempre houve os exportadores e importadores, sendo que na nossa terra e outras terras raianas, era uma actividade ilegal mas lícita e consentida. Melgaço sempre sobreviveu ao contrabando. Com a livre circulação das mercadorias, agora, a nossa terra sobrevive das remessas dos emigrantes; o futuro é uma incógnita.
Voltando ao tio Emiliano, de quem mais nada havia a dizer: os galegos que transportava eram fugidos quer duma quer doutra situação. Houve perseguições e chacinas de parte a parte. Veja-se, "Por Quem os Sinos Dobram", de Ernest Hemingway.
Apareciam em Melgaço, escondidos, acobertados por amigos (não sei se o Figueirôa tinha alguma coisa com o assunto, talvez). Transportá-los não era difícil embora requeresse alguma habilidade. De admirar era eles se radicarem em Lisboa onde a PIDE era mais activa. Sair de Melgaço num Ford, modela A, de madrugada, não era problema. Estrada deserta. Não havia tanta fiscalização assim como se apregoa. Vivia-se com bastante liberdade. Ninguém perseguia ninguém, a menos que houvesse denúncia. Muitas, algumas, injustiças houve neste aspecto. Quando um não gostava de outro denunciava-o como comunista, sinónimo de anti-regime. Aí, sim, até que provasse estar isento de culpa sofria um bocado.
Quando eu era criança lembro-me que iam umas mulheres oferecer à tia Ana, açúcar branco e também de trigo branco, pão. Na altura em Melgaço o açúcar era escuro e fazia-se pão de milho em todas as casas; algum de trigo no forno do João Morais. Petins ou moletinhos de trigo e bôlas, de trigo e centeio.
Naquela altura tudo na Espanha era melhor que em Portugal, pelo menos o que chegava a Melgaço. Viana não tinha, então, grande significado e o Porto, a maior cidade próxima, era longe, muito longe; Vigo e Orense eram ali perto, de comboio que se pegava do outro lado do rio. O dinheiro para comprar os artigos espanhóis era o que os trabalhadores iam ganhar lá. Engraçado, não?
Anterior a esta época deve ter havido outros artigos que não são do meu conhecimento. Também não achei literatura a respeito. Depois rebentou a guerra civil e a consequente escassez de alimentos na Espanha foi grande. Então, de Melgaço ia tudo que representasse mantimentos, produzidos na terra ou vindo de fora, especialmente café. Os inescrupolosos misturavam tudo o que pudesse aumentar esse produto. Torravam e trituravam milho escurecido com óleo queimado de automóvel, chicória, cevada e não sei que mais.
Antes de vir para esta terra fui à festa a Orense com o Manuel Macarrão, pai do Miguel. Entramos num bar e a primeira coisa que ele me avisou foi: "Não tomes café. É feito com as merdas que mandamos para aqui". Ele inclusive. Em troca desses produtos alimentícios vinha a prata e o ouro. A moeda não valia nada. Seguiu-se a guerra mundial. Para não desagradar ao "seu aliado" inglês Portugal exportava tudo através do contrabando, agora não tanto mantimentos que também não os tinha, mas tudo que pudesse transformar-se em produto bélico que a Alemanha precisava. Volfrâmio e Xelite escavados em Castro Laboreiro e Monte da Agueira; os cigarros americanos, a tripa seca vinda da Índia, pedras de isqueiro, continuava o café e o sabão, este o maior potencial. O sabão feito de "judeus" escasseava na Alemanha e o feito de cães em Portugal ia às toneladas. O ouro e a prata continuavam a ser a moeda e já agora as pesetas que começavam a representar alguma coisa. Após guerra, a Espanha por ter sido aliada da Alemanha foi isolada comercialmente. Tudo continuou faltando. A frota automotora era velha; os carros caindo aos pedaços eram recuperados com as peças que de Portugal iam como contrabando. Nesta operação de vender peças de carro o Miguel Macarrão juntou seu primeiro dinheiro. Também peças de bicicleta que o Manuel Castro ia buscar ao Porto. Embora ilegais nenhuma destas operações eram ilícitas muito menos imorais. Algumas pessoas, entretanto, metiam os pés pelas mãos. Todos queriam ficar ricos com o contrabando. Durante o racionamento havia estabelecimentos encarregados de distribuir aos demais, as mercadorias. Entregavam uma pequena parte e o restante vendiam para os galegos. Um sapateiro tradicional foi indicado para receber a sola e cabedais que distribuiria aos colegas para estes continuarem a botar tacões e meias solas. Vendia para Espanha e deixava os colegas a ver navios.
A penicilina e estreptomicina foi o único caso escandaloso. O Lílí do Teodorico foi o bode espiatório. Na Espanha não havia esse medicamento. Os Estados Unidos mantinham o isolamento (só o levantaram e ajudaram a Espanha quando, durante a guerra fria precisaram de instalar bases aéreas). A penicilina chegava a Melgaço por requisição médica destinada aos pacientes graves. Não havia como desviar esse produto. Então, certas pessoas que ainda existem, compravam das famílias dos pacientes os frascos vazios. Para que queriam eles esses frascos?... A resposta está no livro e filme "O Terceiro Homem". A não ser esta nódoa da penicilina tudo o mais sobre contrabando pode ser tema de conversa por não envergonhar quem quer que seja. Toda a população da vila de Melgaço, mas toda mesmo, duma forma ou de outra esteve envolvida nessa actividade durante os ano 40.
O meu pai que não tinha habilidade para essas coisas, nem os filhos, emprestava a sua casa para o Júlio Coelho, de São Gregório, guardar os volumes de cigarros americanos que chegavam pelo correio. Em troca recebia uma vez ou outra uma garrafa de vinho do Porto. Coitado do Augusto Félix! Também em nossa casa eram guardados pacotes com remédios, do Adolfo, marido da tua tia Ernestina. Deu-se um caso curioso, assás hilariante, que foi tema do anedotário. Descoberto que pelo correio podia chegar a Melgaço tudo que se quisesse, era ver pacotes e pacotões de cigarros e outros produtos chegarem em profusão. O comando da Guarda Fiscal deu-se conta da actividade postal e tomou providências. Enquanto só o destacamento local sabia da coisa não teve impedimento. O comando geral, então, mandou montar guarda à porta do correio e apreender todas as mercadorias que não fossem para consumo local.
A anedota chegou ao conhecimento do comando: "o chefe dos correios de Melgaço está tão mal de saúde que lhe está saindo a tripa por detrás".
A tripa seca era um dos artigos mais transportados.
A residência do chefe do correio era na traseira da estação e de noite, e até de dia, facilitava a saída das encomendas por ali. Veio a ordem: fechar e cravar todas as janelas e portas da residência. Foi a coisa mais absurda que já se viu. O chefe da estação ficou quieto. Se resmungasse era capaz de perder o emprego. E viveu algum tempo emparedado. Mesmo assim, com a conivência dos guardas que fingiam vigilância, as encomendas continuavam saindo.
Nessa euforia frotista, como era conhecido o contrabando (se por acaso não conheces o termo toma nota para futura informação), uns poucos ficaram ricos, alguns remediados, a maioria, porém, os transportadores que levavam as mercadorias às costas até à beira do rio, o pouco que ganhavam gastavam a seguir no café do Hilário ou do Manuel Castro. Pobres diabos que por momentos gostavam de se sentir importantes.


Rio, 31 de Março de 1996
Correspondência entre Manuel e Ilídio

 

MELGAÇO ESCENARIO DE PELÍCULA

melgaçodomonteàribeira, 23.05.15

Museu de Cinema

 

O SEU MUSEO DE CINEMA PERCORRE TODA A
HISTORIA DA SÉTIMA ARTE

 

ere gradín

Melgaço nasceu á sombra do castelo mandado erixir por Afonso Henriquez e a vila articúlase ao redor da fortificación medieval asomada ao Miño. E aquí, alén da fronteira, entre un labirinto de cañellas onde se apiñan fermosas casas de pedra, atópase o Museu de Cinema, único no seu xénero en Portugal e dos poucos dedicados integralmente á Sétima Arte en toda a península.

Foi o francés Jean Loup Passek, melgacense de corazón, quen hai uns anos decidiu doar á Câmara Municipal a sua impresionante colección de obxectos, carteis e pezas relacionadas co cinema, que acolle o antigo edificio restaurado da Guarda Fiscal. A planta baixa do espazo museístico alberga o precine, o tempo anterior á invención do cinematógrafo polos irmáns Lumiére – a primeira proxección pública nunha pantalla foi en 1895 -, onde se podem ver lanternas máxicas, sombras chinesas, discos estroboscópicos, zootropos e teatros ópticos, entre outros inventos e produtos da historia da Sétima Arte.

Máquinas, aparellos e obxectos, á parte de carteis orixinais en tea, fotografias e documentos diversos que falan da importancia da aparición da industria cinematográfica. Entre as moitas imaxes expostas neste peculiar moseo atópase a do proprio Jean Loup Passek xunto a unha foto dedicada do director máis lonxevo do mundo, o portugués Manoel Oliveira. Apaixonado do celuloide, Passek dirixiu o departamento cinematográfico do parisiense Centro Georges Pompidou e foi director do Festival da Rochelle. Ademais da exposición permanente, o museo conta cunha sala de exposicións temporais, na actualidade sobre o cinema xaponés.

 

Retirado do jornal:

 

farodevigo.es – 31/01/2011

 

http://galego.farodevigo.es/fin-semana/2011/01/31/planes/que-hacer/melgaco-escenario-de-pelicula/13083.html

 

PARAÍSO EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 11.04.15

Galvão, Melgaço

 

RUA DA ESTRADA DO PARAÍSO

 

PARA os que pensam que a Rua da Estrada é um inferno, lhes diria que é o seu contrário e que não é difícil provar tal facto de tão visível e argumentada que está a existência do paraíso, decorado interior e exteriormente e equipado com mobiliário de jardim como lhe compete. As portas do paraíso teriam que dar para a Rua da Estrada que é coisa que vai a todo o lado e não tem portagens como as vias mais rápidas.

Depois de terem provado do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, Adão e Eva foram expulsos, como se sabe. Ei-los, no entanto, sentados à porta, já completamente calçados, vestidos e penteados de caracolitos, razoavelmente refeitos dos seus desentendimentos com o Todopoderoso. Em todo o caso, o querubim disfarçado de anjinho papudo, deve ter a espada de fogo guardada debaixo da túnica, não se lembrem eles de voltar a entrar. Da fartura do éden e da paz que reinava entre as bichezas que o habitavam, vislumbra-se daqui a fertilidade de uma galinha no choco e uma águia em sã e branca convivência. Confere.

Como é Paraíso, a Rua da Estrada organizou-se como nunca: ele é passeios, rampas, baias de estacionamento, passadeiras, iluminação, bandeiras, petúnias em vasos e tiras relvadas, separação de faixas de entrada e saída de veículos, caixotes verdes para o lixo e o que mais se poderia ver ao longe se não fosse a curva.

 

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada

 

Retirado de:

Correio do Porto

memórias de um mundo à parte

 

www.correiodoporto.pt/rua-da-estrada/rua-da-estrada-do-paraíso

 

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - VI

melgaçodomonteàribeira, 08.04.15

Foto da CMM

 

(continuação)

 

A comitiva da Rainha continuava a sua marcha descendente.

O caminho agora começava a estreitar-se entre muros e sebes avivadas de silvados e plantas agrestes, e tão apertado que mal cabiam a dous, sendo diffícil a passagem quando de frente encontravam um boisinho barrosão de hastes enormes, ou as récuas de mulas que levavam provisões ao convento. Esse corredor serpenteante (quasi escadaria) de mais de meia légua, desembocava abruptamente no acampamento. N’este o Rei que logo veio receber a Rainha, começou explicando o modo de arremetter, e como se realizaria a escaramuça entre as duas mulheres.

Na Corte dos Valois, perto de três séculos depois, em plena Renascença, os combates singulares, antigo julgamento de Deus, tornaram-se solemnidades quasi festivas, que chegariam ao apogeu de brilho, no célebre torneio em que Jarnac, o favorito da Duquesa d’Etampes, o pomposo Chataignerie, defensor de Diana de Poitiérs, na liça rutilante de St. Germain, sob os olhares do Rei, da nobreza, e de todas as summidades de França.

Aqui, porém, n’esse final do século XIV, e n’este canto da Península, as escaramuças, perante uma corte mais guerreira que polida, mais austera que licensiosa, se não tinham o esplendor das cerimónias thetraes que deslumbram, não eram menos impressivas, ou menos importantes os seus resultados.

Pelo contrário. Na Corte de Henrique II digladiavam-se dois adversários para liquidarem uma intriga de alcova.

No arraial de D. João I batiam-se duas mulheres, disputando a honra de dous exércitos, empenhados em fixar a fronteira do Reino.

N’essa manhã do começo de Março em que a Arrenegada sahiu pelo postigo da fortaleza, para vir defrontar-se com a sua competidora Ignez Negra, todos de um lado e outro se dispuzeram a presencear o espectáculo d’esta pugna de nova espécie, a que deram foros de combate, e que a chronica regista com a designação honrosa de escaramuça entre duas mulheres bravas. Bravas no sentido de valorosas, e bravas na acepção de ferinas.

Os de dentro subiam aos parapeitos das cortinas e bastiões, debruçando-se curiosos. Os do arraial formavam círculo em volta das luctadoras, saudando com vozearia carinhosa Ignez Negra a portugueza, e enchendo de vaias e apupos a desnaturada castelã.

As almas também tem sexo, como os corpos. Assim se aclaram, quando a natureza as troca, tantos casos inexplicáveis, tantas anomalias flagrantes – homens mulherengos, mulheres viragos.

Nos corpos d’estas duas moravam almas de luctadoras valentes, herdadas talvez dos seus avoengos; dos que em eras remotas haviam ajudado a expulsar da Penínsulas as raças invasoras.

Foi logo impetuoso o primeiro embate das justadoras. Com fúria, com sanha, com rancor atiraram-se uma à outra sem mais armas que as unhas, com que reciprocamente rasgavam as carnes, e os dentes com que se esfacellavam. Atropellando-se, arrancando os cabellos, afogando-se nos fortes braços nervosos, derrubando-se alternadamente na lucta; ensanguentadas, esfarrapadas, e rugindo como feras prolongaram durante minutos a encarniçada peleja.

Davam mais a impressão de dous monstruosos animaes enovellados em trapos, cabellos e sangue, que de duas mulheres humanamente construídas.

O drama começava a abalar o ânimo ainda dos menos susceptíveis de soffrer comoções, quando a Arrenegada, ou porque tivesse menos elasticidade nos músculos que Ignez Negra, ou porque o espírito dos que renegam crenças e opiniões é sempre menos resistente, entrou a fraquejar, cahindo logo desfallecida.

Então Ignez, que a suplantara, foi gloriosamente levada em triumpho e saudada com aclamações, ao som de trombetas e charamelas festivas.

Alguns escritores, seduzidos pela ideia de attribuir a este episódio o resultado da empreza, outros copiando aquelles (o que é pecha vulgar em quem não se dá grande trabalho nas investigações), affirmam ter sido decisiva para a entrega do castello a pugna entre as duas mulheres.

Phantazias!

A verdade é que, se este duelo animou e exccitou a coragem dos portuguezes, foi só d’ahi a horas, na manhã de segunda-feira, três de Março, que a praça se rendeu pela acção dos nossos guerreiros e poder dos engenhos.

Conta-o Fernão Lopes fazendo-nos assistir ao movimento da bastida sobre as suas rodas, avançando dezoito braças; depois à escalada dos que «se chegavam tanto à Villa que punham um pé no muro outro na escada», atirando-se, primeiro que todos, o Prior do Hospital.

A peleja foi feroz. Dez homens no mais alto estrado levavam pedras de mão que arremessavam aos de dentro, (como agora se arremessam granadas) emquanto outros se atiravam ao muro com grossos paos.

De cima choviam pedras e fachos incendiados de mistura com impreccações e insultos, «desmesuradas palavras» que assanhavam o ânimo de D. João I.

Por isso, o Rei assomado e iracundo, quando os de dentro, reconhecendo a própria inferioridade, pediam novamente tréguas, recusou qualquer avença e resolveu continuar o assédio à viva força. Então João Rodrigues de Sá, o das Galés – voz sensata – alvitrou que era de boa política acceitar a capitulação. D. João I, brutalmente, retorquiu:

- «Quem medo houver não vá na escada.»

Subiu uma onda de sangue às faces do guerreiro, que tinha ainda frescas as quinze cicatrizes de feridas, que recebera quando foi do ataque das Galés da Ribeira de Lisboa. E ressentido respondeu:

- «Eu, Senhor, não sei se dizeis vós isso por mim, mas cuido que nunca me vós a mim por tal conheceste.»

E o Rei, cahindo em si, pois que n’elle estes assomos de cólera eram logo dominados pela força da razão, emendou:

- «Nem eu não o digo por vós. Mas digo-o, por que os hei já por tomados.»

Dividiam-se ainda as opiniões. Uns queriam continuar o assalto, na esperança de farta preza. Outros seguiam o alvitre razoável do ponderado Sá, com o qual o Rei conccordou afinal, enviando o Prior do Hospital a acceitar a preitezia e estipular as condições.

Foram todas aceites. Não só entregariam a villa e castello a El-Rei, mas obrigavam-se a sahir da fortaleza em gibões sem outra cousa…

Assim foi. No dia seguinte, o rapazio foi apanhar feixes de varas verdes, e cada um dos que pela porta do castello ia sahindo era, por escarneo, obrigado a empunhar um d’esses ramos.

Alguns mordiam-se de raiva pela humilhação imposta.

Houve até um escudeiro fidalgo que, fincando os joelhos em terra, pediu a El-Rei que lhe entregasse as suas armas e lhe poupasse a deshonra, ao que D. João I galhardamente accedeu.

Outros, comtudo, com riso forçado, e levemente alvar, como gracejando, tomavam o expediente de dizer aos garotos que lhes davam as hastes verdes:

- «Ai, rogo-te ora que me dês uma bem direita e boa.»

Não ficou nenhum! Quando na quinta-feira seguinte, depois de cincoenta e três dias de assalto, o castello e villa de Melgaço foram entregues a João Rodrigues de Sá, para governar; e quando El-Rei e a Rainha retiravam festivamente com a sua comitiva em direitura a Monsão, do alto da muralha, que olha para noroeste, um vulto de mulher (segundo reza a tradição local), empunhando a bandeira gloriosa das quinas, agitava com ufania esse pendão redemptor.

Era Ignez Negra a batalhadora, imagem symbólica das energias femininas, proclamando assim a victória que consolidava de vez a fronteira no extremo norte de Portugal.

Se Aljubarrota tem a illustral-a pittorescamente Brites de Almeida, a denodada padeira, e a sua lendária proeza, não é menos digno de registo, no livro de ouro da epopéa joannina das luctas da independência, o feito mais authentico e mais significativo de Ignez Negra a heroína de Melgaço.

 

(*) Ainda hoje, emquanto isto escrevemos (Agosto 1917), a villa conserva alli algumas d’essas vielas de pittoresco aspecto, e é, em parte, cintada com as veneráveis muralhas que tanto a enobrecem.

Consterna-me, porém que o município, com a deplorável mania de «modernizar», vício incorregível das nossas edilidades, umas boçaes, outras mal orientadas, está attentando criminosamente contra a magestade da sua terra, dilacerando-lhe os vestutos flancos para «fazer dinheiro» e colher materiaes destinados a um edifício público! Um tribunal, segundo me informam, que será provavelmente semelhante ao matadouro com que já se orgulha! Uma lástima! Se alguma entidade há, que possa impedir o sacrílego, acudi breve a afastar esta vergonha de Portugal!

 

NEVES DE ANTANHO

CONDE DE SABUGOSA

 

Retirado de:

 

www.archive.org/stream/nevesdeantanho00sabu/nevesdeantano00sabu_djvu.txt

 

MATILDE, A BRUXA EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 04.04.15

 

O CAVALEIRO DE OLIVENÇA

 

A vida de Matilde cruzara-se com a de Vasco no longínquo ano de 1498, quando fora condenada à morte por enforcamento, em Melgaço, sob a acusação de ser bruxa e de ter provocado a morte de uma fidalga. Mulher nova, então com uns vinte anos de idade, sempre se dedicara a mezinhas e poções, e aprendera com a avó e uma tia a distinguir as plantas e a saber as propriedades de cada uma; era uma ciência natural, mas a ignorância das pessoas julgava-a sobrenatural e, na verdade, Matilde aproveitava-se da credulidade da vizinhança; imprevidente, não se importara ao ganhar fama de bruxa. Um dia uma amiga sua, criada de fidalgos abastados, aparecera discretamente e contara-lhe que a filha de seu senhor emprenhara; estava muito desgostosa e não podia levar a gravidez avante, pois assim que se soubesse, seu pai a mataria. Trazia boas moedas e logo Matilde lhe deu as ervas apropriadas. No entanto o caso correra mal e a fidalga finara-se esvaída em sangue. A Justiça apertara com a criada e esta denunciara a amiga. O fidalgo pressionara o juiz e como este era amigo da maior rival de Matilde naquela comarca, cedeu aos pedidos da sua amante, por entre beijos e afagos, para lhe conceder o exclusivo dos negócios de bruxaria. No entanto, o corregedor trabalhava para Vasco de Melo e conseguira deter a execução até seu amigo regressar de uma viagem à Mina.

Vasco visitara-a no calabouço e salvara-a da morte, a troco de lhe ficar com a vida. Tinha de deixar o Minho e instalar-se no Alentejo, onde ninguém a conhecia. Tinha de se ajuntar com um homem novo, de nome Gonçalo, que era natural de Terras do Bouro. E com mais um corcunda e três anões passariam a espiar para a Coroa de Portugal, disfarçados de jograis. Matilde aceitara de bom grado a proposta.

 

pp. 26 – 27

 

Ao entrar na sala, comoveu-se ao ver Vasco de Melo vestido de bobo. Enquanto se aproximava dele recordou o momento em que ele lhe aparecera no calabouço de Melgaço, qual anjo, prometendo livrá-la da forca; reviu a sua face radiosa quando lhes dava ordens entusiasmado com o serviço a el-rei; lembrou-se dele aos solavancos na cabeça do touro em Burgos ou de espada em riste, em Mirandela, salvando-a do linchamento; e, finalmente, recordou-o agarrado à mão fria de Iamê, fazia agora um ano. E ali estava ele, fidalgo da Casa Real de Portugal, fazendo de bobo, como disfarce para poder chegar a um colaborador perdido.

 

p. 365

 

O Cavaleiro de Olivença

João Paulo Oliveira e Costa

Círculo de Leitores e Temas e Debates

2012

 

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - V

melgaçodomonteàribeira, 01.04.15

Codex Manesse - Heinrich von Breslau

 

(continuação)

 

Ao mesmo tempo mandou que nas imediações se cortasse madeira, e se acarretassem materiaes para se construírem duas escadas e uma bastida, formidável machina de guerra sobre rodas, de temeroso effeito contra as praças fortes.

Descreve Fernão Lopes minuciosamente essa bastida, muito larga de roda a roda, e de padral a padral; com os seus três sobrados madeirados de pontões, para serem guarnecidos de homens de armas; com estrados de mui grossos caniços para se andar por cima; com escadas de alçapão e nos pontões superiores, três mil pedras de mão, que mandaram apanhar pelas regateiras. Havia também trebolhas cheias de vinagre para evitar o fogo, e seis grandes caniços forrados de carqueja, assim como vinte e quatro couros verdes de boi para guardar o fogo que viesse.

Era um rudimento do moderno tank; era o precursor d’essa machina de guerra, que nos campos da Bélgica está actualmente exercendo a sua terrível acção devastadora.

Esta de D. João I, que levou quinze dias a construir, era mais modesta e de mais acanhados recursos. Mas o seu effeito, ainda antes de manobrar, foi eficaz, pois os de dentro, que assistiam aterrados a fabricação do aparatoso engenho, apressaram-se a pedir tréguas, propondo que João Fernandes Pacheco conferenciasse com Álvaro Pães. Por mandado de El-Rei chegou-se o Pacheco à barbacã, e de dentro, encostado ao muro, falou-lhe o comissário castellão. Longo espaço de tempo durou esta conversação entre os dous guerreiros arvorados em plenipotenciários. E emquanto elles falavam, assediados e assediadores suspenderam as investidas, acudindo ao ânimo de uns, (os mais pacíficos) esperanças de uma concordância; refervendo no de outros (os mais belicosos) desejos impacientes de recomeçar a pugna. D’estes o mais irreprimível era o da Arrenegada que ardia em sanha. Sabendo que os dous chefes não se tinham accordado resolveu então provocar um combate singular, pois sabia que entre a gente do arraial se achava um contendor digno d’ella.

Era uma mulher d’aquella região a quem chamavam Ignez Negra.

Negra, por apellido da família? Talvez!

David Negro se chamava o rabi de Castella que urdiu o enredo contra D. Leonor Telles. E Affonso Pires – o Negro – era o escudeiro de Nun’Álvares na véspera de Valverde.

Famílias com o nome de Negrão e Negreiros tem havido em Portugal, pertencendo à primeira no século XVIII, o poeta da Arcádia – Almeno Sincero.

Ou seria antes a nossa Ignez, negra, porque a sua pelle exageradamente trigueira como a da Sulamite do Cântico dos cânticos, (nigra sum sed formosa) contrastasse com a das suas conterrâneas, quasi todas alvas, de olhos claros e cabellos aloirados, revelando a origem celta das nobres raças?

A iconografia portugueza é assaz pobre. E, se nos faltam retratos de tanta figura predominante, não é maravilha que a galeria das mulheres illustres careça de qualquer documentação acerca das feições da modesta, mas valente portugueza dos arredores de Melgaço.

Figuramol-a, porém, por artifício da imaginação, com encrespado cabello da cor do seu apellido; olhos ígneos como o seu nome de Ignez; a pelle acastanhada, adusta e curtida pelo mordente sol dos campos, na ceifa. Magra, musculosa e com farto buço a atapetar-lhe o lábio superior. Peito chato como o das amazonas. Typo levemente aciganado e plebeu, mas não destituído de encanto. E no seu todo o interesse que provoca sempre uma personalidade fortemente accentuada.

Visitando a casa onde segundo a tradição elle habitou depois da sua proeza, – a Venda da Angelina – (hoje um prédio modernizado), ou percorrendo as ruazinhas estreitas que descem até à porta de D. Affonso, encontrámos algumas moradoras ao soalheiro, que, por comparação retrospectiva, nos ajudaram a recompor uma effigie da Ignez Negra, porventura sua remota parenta. Devia ser assim como a evocamos!

Quando lhe chegou aos ouvidos o desafio da Arrenegada acceitou prazenteiramente o repto.

Entretanto El-Rei enviara à Rainha recado para que viesse. Os engenhos estavam concluídos, e quasi aplanado o caminho pelo qual se devia fazer rodar a bastida e encostál-a às muralhas.

É possível que o mensageiro anunciasse também no Mosteiro de Fiães, onde D. Filippa se achava, o desafio entre as duas mulheres de Melgaço.

E isso seria certamente escutado com curiosa attenção pelo mundo feminino que rodeava a Rainha. Ávidas deviam estar por certo as suas damas e cuvilheiras, de distracções e recreios, tão escassos n’aquella solidão.

E logo entre o mulherio quantos comentários sobre o projectado duello! Nas velhas, altos escarcéos, e motivo para ralharem de tão descomposta escaramuça. Nas novas, grande jubilação com a espectativa das comoções.

Por isso quando n’aquella manhã do princípio de Março a Rainha, com a sua Corte, se apromtou para descer de Fiães a Melgaço, eram agitadas as discussões acerca do projectado combate.

A primavera anunciava-se promettedora. O ar gelado da manhã bafejava a pelle do rosto das senhoras, que, ao montarem se embuçavam friorentas nos seus manteus e biocos.

Na descida, quasi a pique, da íngreme ladeira, que durante uma hora percorreram, caminhando pelos carreiros do monte escalvado, algumas das boas donas iam só attentas ao perigo, que offerecia o marchar hesitante dos cavallos sobre os pedregulhos das veredas agrestes.

E quando as montadas punham o pé com menos segurança, o que trazia a iminência de um tropeção, ouviam-se exclamações afflictas das mais timoratas, provocando risadas escarninhas entre as resolutas. Outras olhavam maravilhadas a paysagem deslumbrante, o panorama das extensas ondulações que formam o berço delicioso em que se espreguiça voluptuosamente o rio Minho.

Além à esquerda os montes de Pernidêllo, em cuja verdura se aninhava o conventinho de Paderne. Mais ao largo Monsão, a pátria de Deu-la-Deu. E, como a manhã era clara, lá muito ao longe, quasi se distinguia a nobre Valença. Para a direita inferiormente, e já em terra extranha, as pequenas povoações gallegas tão maneirinhas… que apetecia dal-as como brinquedo a uma creança!

A maior parte, porém, da comitiva só tinha olhos para a villa de Melgaço, alli em baixo com a sua airosa torre quadrada, que uma coroa de ameias enfeitava, e para a povoação em redor della, mettida nas faixas das muralhas defensoras, promettendo um espectáculo attrahente, quando se rendesse à força, como fêmea dominada pelo seu legítimo senhor.

Por de fora d’essa muralha estendia-se em arruamentos de tendas de campanha o arraial português, sobressaindo a barraca elegante tomada em Aljubarrota aos Castelhanos, que já servira em Ponte de Mouro para firmar a alliança ingleza. E, informe, como um animal antediluviano, destacava-se a medonha bastida, prompta para atacar.

 

(continua)

 

JOGA-SE EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 28.03.15

Sueca

 

Fui a Melgaço, p’la serra,

e ia morrendo de pasmo;

nos Cafés da nossa terra

joga-se com entusiasmo.

 

Joga empregado, patrão,

o rico, pobre, maltês;

comerciante, artesão

aristocrata, burguês.

 

Cabo, sargento, tenente,

alfaiate, meirinho;

tudo joga, minha gente,

a cerveja ou alvarinho.

 

Não sei se acreditais,

‘té eu entrei na jogança;

o meu parceiro Morais,

pra jogar veio de França.

 

No meu tempo de moçito,

jogava no escondidinho;

o sumo e o pirolito

substituíam o vinho.

 

Agora, joga-se ali,

na saleta principal;

e a bebida sorri,

borbulhando em espiral.

 

Joga-se em Prado, Paderne,

em Cubalhão, Remoães;

em todo o lado se joga,

em Lamas e Chaviães.

 

Um pedaço de alcatifa

cobre a mesa de jogar;

não sei se saiu na rifa,

ou se foi ganho ao bilhar.

 

A senhora da limpeza,

quando o chão vai aspirar,

aproveita e limpa a mesa,

prò jogo continuar.

 

E é tanta a emoção,

tanta punhada ali dada,

que até se ouve em Monção

a enorme barulhada.

 

Joga-se copas e burro,

também vai uma bisquinha;

inventam-se novos jogos,

mas a sueca é rainha.

 

Fala-se já em campeonato,

numa tournée sem destino;

querem subir ao estrelato,

tornar Melgaço um casino.

 

Quando chegar o Agosto,

não se admirem de nada;

Melgaço não terá rosto,

perdeu-o numa jogada.

 

Joaquim Rocha

 

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - IV

melgaçodomonteàribeira, 25.03.15

Batalha de Aljubarrota

 

(continuação)

 

Compunha-se a casa da soberana de nobres senhoras que El-Rei puzera ao seu serviço. A ella pertenciam: como aia e camareira-mor D. Beatriz Gonçalves de Moura viúva de Vasco Fernandez Coutinho, senhor de Liumil, e como damas a filha d’esta Teresa Vasques Coutinho, viúva do filho do Conde D. Gonçalo, e, portanto, cunhada de Leonor Teles; a irmã d’aquella, Leonor Vasques, que depois casou com D. Fernando, que chamaram de Bragança, filho do Infante D. João; D. Beringeira Nunes Pereira, prima do Condestável e filha de Ruy Pereira, que morrera na peleja das naos ante Lisboa; e ainda outras que formavam um luzido batalhão volante, n’esse cortejo que ia assistir ao mais typico episódio d’aquella época.

D.João I preparava-o adrede para mostrar à Rainha como se assediava uma praça, e para exhibir perante a sua Corte, a valentia dos homens d’armas, que vinham consolidando a independência do Reino.

Era uma genuína galanteria de guerreiro medieval, esse desejo de fazer assistir a fina flor da Corte feminina ao rude embate dos seus besteiros contra a fortaleza rebelde. E era ao mesmo tempo um poderoso incitamento para a hoste, esse torneio revelador da arte, da destreza, e do valor com que se pelejava.

Era também uma vistosa parada de forças combatentes perante os olhares mulheris, o mais aguilhoante estímulo da cavallaria gloriosa.

Era, finalmente, uma ala de namorados de nova espécie, batalhando em frente de suas damas.

Era, em resumo, uma phantasia de heroe!

Marchou a numerosa comitiva de Braga para Monsão, onde D. Filippa foi acampar, indo logo a seguir ao mosteiro de Santa Maria de Fiães, perto de Melgaço. Acompanhavam-n’a João das Regras – o Doutor, João Affonso de Santarém, e ainda outros lettrados e jurisperitos, mais exercitados no manejo das Pandectas e das Instituías, que no brandir das espadas e dos arremeções.

Corria o mêz de Janeiro de 1388. As chuvas tinham ensopado os campos. A payzagem minhota, tão festiva de cambiantes durante o verão, com os seus soutos de castanheiros florentes; com as suas videiras de enforcado enroscando-se nos troncos e ensombrando os pateos das habitações; com os fetos de franjas recortadas, adornando as sebes; com as heras e musgos revestindo os penedos graníticos; com o velludo esmaraldino das nogueiras, e as folhas bicolores das tílias opulentas; com a pradaria clara rindo alegremente na voluptuosidade das regas abundantes; toda essa symphonia de verde, executada a grande orchestra, sob a regência de um sol brilhante, que vivifica o torrão; que se reflecte nas lantejoulas de feldspatho e mica, que atapetam os caminhos como pó de diamantes, e que dá a essa região o jeito de um sorriso da natureza; essa payzagem apresentava n’aquella quadra do anno a physionomia rabugenta de uma creança amuada.

O inverno ia rigoroso. As chuvas tinham engrossado as levadas e avolumado os regatos, difficultando a marcha da hoste guerreira, e os movimentos da comitiva real. Por isso o séquito prosseguia lentamente, mas sem desfallecimento.

O tropear dos cavalos e dos machos sobre o lagedo da estreita estrada romana, que segue de Monsão a Remoães, e d’ali à aldeiazinha do Prado, galgando os rios com a ponte do Mouro e a ponte da Folia (duas relíquias de eras já idas), que as urzes e as heras enfeitavam com garridice; o vozear dos homens de armas; as exclamações e gritos femininos; e as pragas rouquenhas dos moços bagageiros e condutores de equipagens, alvoraçavam as pessoas do campo.

Aqui e além deparavam-se n’uma volta do caminho povoações ou casas isoladas.

E do fundo escuro dos estreitos postigos, perfurados nos rústicos tugúrios de pedra cinzenta, debruçavam-se bustos de mulheres com olhar curioso. De sobre os muros, cabeças hirsutas de camponezes olhavam embasbacados os comboieiros de munições, e pasmavam para as hacaneas em que cavalgavam as donas, as aias, as creadas e as crystaleiras. Dos cancellos surgiam garotos a misturarem-se na comitiva, mendigando sobejos dos farnéis, emquanto bandos de gallinhas e de patos fugiam espavoridos da perseguição da soldadesca, que dissimuladamente tentava deitar-lhes a mão, na expectativa de uma ceia restauradora.

E a extensa comitiva coleando pelos caminhos do valle, deixava à esquerda os montes levemente ondulados de Galliza, e começando a subir a encosta, que vae a Prado, avistava já a senhoril Melgaço com a sua torre tão nobre a destacar-se sobre o verde escuro dos pinheiros de Rouças.

A rainha com a sua Corte, contornando Melgaço, foi aposentar-se no opulento mosteiro de Fiães, onde os oitenta monges benedictinos, com o Dom Abbade à frente, a vieram receber fidalgamente na avenida que conduzia à portaria do convento.

El-Rei D. João I, ficou com as suas mil e quinhentas lanças, afora a gente de pé, no campo a nordeste de Melgaço, onde logo ordenou que se assentasse o arraial.

Armaram-se as tendas em que pousaram, além do soberano, o Prior do Hospital, D. Álvaro Gonçalves Camello; D. Pedro de Castro, que havia pouco abraçara a causa de Portugal; João Fernandes Pacheco, (filho de Diogo Lopes, assassino de D. Ignez), de quem Mem Rodrigues dizia ter as qualidades de Lancelote do Lago, e muitos outros capitães e senhores.

Tudo se preparou para a arremetida.

Melgaço, dentro das fortes muralhas em que D. Diniz envolvera a quadrada torre afonsina, era defendida por Álvaro Pães de Souto Maior, e Diogo Preto Eximeno, que tinham trezentos homens de armas e muitos peões.

Além de gente de guerra era a pequena villa povoada por moradores pacíficos, cujas famílias habitavam as casinholas de granito, com pequenas escadas exteriores, de poucos degraus, e um varandim, que formavam junto à parte interna das muralhas estreitos arruamentos.

Entre as famílias que n’esse fim do século XIV se acoitavam n’aquelles habitáculos, havia a de uma portugueza a quem, por se ter bandeado com os castelhanos, tinham dado a alcunha da Arrenegada.

Era esforçada. Era o que o povo chama uma refilona e, como todos os renegados, odiava figadalmente os seus antigos compatriotas.

Fervia-lhe o sangue em cachão com o presencear, do alto das muralhas, os preparativos do campo portuguez. Ardia em fúria e ânsia de arremeter ella própria. E não foi extranha aos primeiros lançamentos de trons contra os nossos.

Assistiu também inquieta e fervilhante às primeiras escaramuças, rejubilando logo que viu que, com uma setta, fora ferido Pêro Lourenço de Távora, um portuguez do arraial. Era uma verdadeira virago, mais aguerrida que muitos dos seus camaradas castelhanos.

Durante nove dias houve tiroteio sendo lançadas contra o arraial sessenta pedras de trons, ao que do lado português foi correspondido, não havendo grandes damnos de parte a parte.

Resolveu-se então El-Rei a mandar armar em cima da ponte da villa, um engenho, com que os sitiantes arremessavam muitos projectos que destruíram algumas casas e caramanchões de Melgaço.

 

(continua)

 

A ANGELINA DA PONTEPEDRINHA

melgaçodomonteàribeira, 21.03.15

Na Rua de Baixo

 

O ANTIGAMENTE

 

Na Pontepedrinha, lugar um pouco mais elevado que o regato na subida para o Monte de Prado (antigo campo de futebol), ficava a casa do Castro e Angelina, casal com muitos filhos. Embora algo isolada, a casa, sempre havia por ali muitas mulheres que iam do Mascanho e das Carvalhiças lavar a roupa no regato, e todas as tardes as conversas eram animadas comentando a vida alheia. Era a Angelina muito popular por ser bastante activa e muito faladeira. Era conhecida como a Angelina da Ponte Pedrinha a maior mentirosa das redondezas. Não inventava casos ou dava respostas ofensivas. Era de espírito alegre, galhofeira, que as outras pessoas tomavam como bazófia sempre que ela se engrandecia como mais abastada que as outras criaturas. Tinha solução para tudo no seu imaginário. Era uma humorista nata sem saber mas as outras pessoas não lhe reconheciam essa qualidade. Na época de crise passava ela e a família as necessidades que todos passavam, mas não se dava por achada. Na frente das outras pessoas, recomendava aos filhos que fossem jantar ou cear pois tinham sardinhas e bifes no forno, porém havia só uma sardinha para cada dois filhos. Gabava-se de grandes conhecimentos com pessoas gradas e amizades, alardeando sempre que a conversa permitia ser parente do rei da Bélgica.

Quando alguma das suas amigas se queixava de percalços financeiros superados a duras penas, reclamava: “és muito burra, se tivesses falado comigo tinha-te arranjado um bom empréstimo com fulano (dizia o nome de conhecido capitalista da terra)”. Sempre tinha solução fácil para assuntos já resolvidos através dos seus grandes conhecimentos. Quando o assunto requeria solução noutra terra, geralmente alguma cidade, se tivessem recorrido a ela teria preparado uma roupa nova para ir falar com o senhor fulano. Os preparativos compreendiam uma saia nova, blusa, vestido ou sapatos, nunca se apresentaria de maneira vulgar ante seus amigos importantes, dizia.

Certa tarde, no meio de um grupo de pessoas, uma mulher lamentava-se da contrariedade que o seu homem teve com a Repartição de Finanças por uma décima atrasada. A Angelina não teve meias medidas, num rompante bazofiou: “Ó rapariga, se tivesses falado comigo era só fazer meia dúzia de camisolas de dormir e ir a Lisboa falar com o Salazar.” A Maria do Umberto, garotinha, perguntou: “Ó tia Angelina, camisolas? Você ia dormir com o Salazar?”

Nesse dia ela embatucou e desconversou.

 

Rio, Agosto de 2012

 

 M. Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 

MELGAÇO DÉCADA DE 60 DO SÉC. XX

melgaçodomonteàribeira, 28.02.15

Antigo Hospital da Misericórdia de Melgaço

 

PELO HOSPITAL

 

(A VOZ DE MELGAÇO, 01.09.1964)

 

Ainda não é desta vez que podemos dar a todos os nossos amigos a boa nova de termos recebido o anteprojecto das obras do novo hospital e é pena. Há quase dois anos que o esperamos e ainda não nos foi apresentado.

Certamente que o trabalho será muito, lá pelas Repartições, mas a nós é que nos causa sérias dificuldades. Estamos parados e numa obra destas, custa e custa muito. Não é para isso que estamos aqui.

Mas enfim, a vida é o que é, e é assim que temos de a levar. Continuaremos a instar pela entrega do anteprojecto e, entretanto, vamos trabalhando o que pudermos.

 

Continuam as obras na sala do banco, pois tal como estava, era já uma vergonha para todos nós. Custa-nos muito, repetimos, fazer despesas numa casa que breve havemos de deixar, mas há coisas que urge adaptar, sem demora.

Continuam também a registar-se na secretaria do Hospital, casos que nos desgostam bastante, com a apresentação de atestados.

Abusa-se muito de atestados para pobres.

Há dias, uma senhora trazia um desses documentos. Teve de averiguar-se e soube-se que o doente podia pagar a quantia indicada. Pois a boa da senhora respondeu-nos depois: — Olhe que se precisarem de 200 contos ainda os tenho!

Uma outra veio nas mesmas condições. Apurou-se que não era verdade o que nos dizia. O pai podia pagar e, graças a Deus, muito bem. E pagou. Mas isto faz pena! Somos também de opinião que estas casas deviam trabalhar com outro sistema, que a nós que temos de lançar a mão à caridade, de anos a anos, nos penaliza. Precisávamos de maiores subsídios de Lisboa. Mas a vida corre assim e, com estas despesas de África, não vemos, para já, novas soluções.  É assim que infelizmente temos de trabalhar. Incompreendidos tantas vezes! – Mas é mesmo assim. No ano passado, gastou a Santa Casa uns quinhentos contos (falamos assim para aqueles que não estão familiarizados com números) e de Lisboa só nos vieram oitenta e oito contos!

Do Governo Civil de Viana, 12 contos, e o resto, os 400 contos, tivemos de consegui-los por cá. Mas quem nos dera que esta Casa pudesse trabalhar de graça. Que ao menos, que os nossos irmãos pobres não paguem.

Devemos muito, muito, às Juntas, e bem sabemos como este trabalho de atestados lhes é dos mais penosos. Mas nós precisamos, todos, de maior compreensão.

As despesas são muitas e, por vezes, incomportáveis. Se não há seriedade entre nós, tudo se pode perder.

 

Ainda não nos foi autorizada a passagem da Igreja do Convento para a Comissão Fabriqueira da Vila, como já se pediu; a falta de documentos obriga-nos a rever um pouco mais os nossos arquivos sobre dados, de que, nada que nos consta, possuímos. Mas estamos em negociações.

Em Eiró, no Lar de S. José, temos 17 pessoas, a viver por conta da Santa Casa e, para já, não tem havido problemas de maior, graças a Deus.

Tanto há a fazer nestas Casas e tanto nos custa ir devagar…

Têm vindo alguns dos nossos amigos a férias e têm-se lembrado de nós, com os seus donativos. Quem dera que todos assim o fizessem… Valeu?

 

O movimento, neste mês, foi como segue: Consultas, 375; curativos, 392; injecções, 533; peq. cirurgias, 40; grandes cirurgias, 4; diatermias, 4; raios ultravioletas, 5; análises, 14; radiografias, 21; radioscopia, 7; bebés, 9; entradas, 39; saídas, 34; ambulâncias, 6.

E por hoje é tudo.

 

                                                                                     Pe. Carlos

 

Padre Carlos Vaz: Uma vida de Serviço

Edição: Carlos Nuno Salgado Vaz

Coordenadores: Carlos Nuno Salgado Vaz

                           Júlio Nepomuceno Vaz

Braga

Julho 2010

pp. 543,544