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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

RECEITA DA LAMPREIA, sécs. XV – XVI

melgaçodomonteàribeira, 26.03.13

 

 

« Receita da lampreia » no Livro de Cozinha da Infanta

Dª. Maria de Portugal (séculos XV – XVI)

 

 

    O Livro de Cozinha da Infanta Dª. Maria, códice portugués da Biblioteca Nacional de Nápoles, de fins do século XV e principios do XVI, ilumina moito mellor a antiga arte de cociñar en Portugal nunha época histórica de que pouco se coñece sobre matéria gastronómica. Dona Maria de Portugal (1538 – 1577), filla do Infante D. Duarte e neta de D. Manuel I, era una muller de notable formación e sensible á cultura de súa pátria.

    No seu manuscrito lemos esta receita da lamprea: « Tomarão a lampreia lavada com água quente e tirar-lhe-ão a tripa sobre uma tigela nova, porque caia o sangue nela, e enrolá-la-ão dentro daquela tigela e deitar-lhe-ão coentro e salsa e cebola muito miúda, e deitar-lhe-ão ali um pouco de azeite e põ-la-ão coberta com um telhador, e como for muito bem afogada, deitar-lhe-ão muito poucochinha água e vinagre, e deitar-lhe-ão cravo e pimenta e açafrão e um pouco de gengibre ».

    Esta xoia bibliográfica, xunto coa de Rupert de Nola, veñen a ser as máis antigas referencias – fins do século XV e comezos do XVI – que ensinan de maneira clara receitas sobre a lamprea. Estes autênticos « libros de receitas », aparecidos finalizando o período medieval, posiblemente recollan unha tradición culinaria de séculos anteriores, e igualmente demonstran que o petromyzon fluvialis era prato coñecido de grandes señores e de ilustres señoras, tal o caso da infanta dona Maria de Portugal e o rei don Hernando de Nápoles.

 

 

Retirado de:

 

Caderno da XLIII Festa da Lamprea

2003

Arbo – Galicia  

 

CASTRO LABOREIRO, POVOAMENTO E ORGANIZAÇÃO DE UM TERRITÓRIO SERRANO

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

Alexandra Cerveira Pinto Sousa Lima, nasceu no Porto em Fevereiro de 1963. Inicia a sua actividade arqueológica em Mértola e no PARM (Moncorvo), tendo terminado o curso de História, Variante de Arqueologia, em 1985, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 1994 finaliza o Mestrado em Arqueologia na mesma Faculdade, com a defesa de uma Dissertação versando o tema da organização do povoamento em Castro Laboreiro. Foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. É desde 1992 colaboradora do Parque Nacional da Peneda-Gerês. O trabalho de investigação que desenvolve centra-se na análise do povoamento, ocupação do espaço e aproveitamento de recursos ao longo dor períodos Medieval e Moderno na área montanhosa do Noroeste português.

 

CASTRO LABOREIRO: POVOAMENTO E ORGANIZAÇÃO DE UM TERRITÓRIO SERRANO

 

Autor: Alexandra Cerveira Pinto Sousa Lima

 

Edição: Instituto da Conservação da Natureza

 

             Parque Nacional da Peneda-Gerês

 

             Câmara Municipal de Melgaço

 

Cadernos Juríz Xurés

 

1996

 

UMA HISTÓRIA MELGACENSE

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

“LEITURA”

 

 

    Não, não pensem que vou falar de livros! O título sugere-o, eu sei. Trata-se, tão somente, de uma escultura do nosso conterrâneo Acácio Caetano Dias que acaba de ganhar o 1º prémio da Quinzena Cultural Bancária (10ª edição), iniciativa do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas. O Júri «constituído pelo pintor António Carmo, pelo arquitecto João Santa Rita e pelo pintor A.M. Pinto Carvalho, tendo em conta os regulamentos publicados e os trabalhos apresentados aos respectivos concursos, decidiu:

    b) – No concurso de Escultura, atribuir apenas o primeiro prémio à peça de escultura “Leitura” de Acácio Caetano Dias»…

    Não tive ainda a oportunidade de ver a escultura, nem de falar com o seu criador, mas espero consegui-lo em breve. Disso falarei oportunamente. A peça está exposta no Palácio Foz, em Lisboa, juntamente com outros trabalhos premiados.

    Um conterrâneo com o talento do Acácio é um orgulho para todos os  melgacenses. Ele é um artista nato, um homem que não tendo frequentado Escolas Superiores de Arte é émulo daqueles que tiveram essa possibilidade; é um autodidacta, pois as suas habilitações literárias (1º ciclo) nunca o impediram, nem impedem, de brilhar em várias exposições: Escola de Belas Artes, Hotel Altis, Palácio Foz, Festa da Cultura (Melgaço).

    Acácio nasceu em Prado em 1935. Seu pai, o popular Amadeu «Rato», tinha a profissão de latoeiro. A sua oficina situava-se perto da barbearia e taberna-restaurante do Carlota (quem não conheceu?). Juntamente com a sua oficina coexistia uma outra, de sapateiro, cujo mestre era o Henrique «Abelhão» (isto em 1958, mais ou menos). Nessa altura já o Acácio se encontrava possivelmente em Lisboa, pois em 1959 entra para o Banco Nacional Ultramarino como apontador.

    Os dois, Amadeu e Henrique, formavam um duo impagável no que diz respeito a «malandrices». Não havia cliente que não saísse sorridente com a graça de ambos, mesmo os mais sisudos.

    No Carnaval, o pai do Acácio fazia normalmente parelha com o Sr. António «Trauliteiro» (apesar da alcunha o Sr. António era um homem pacífico, brincalhão, o alvo cavaleiro – S. Jorge – que na vizinha vila de Monção, aquando da procissão do Corpus-Christi matava a Coca, ou Santa Coca, o terrível dragão que afugentava o povo amedrontado).

    Ainda me lembro de ver o «Trauliteiro» dentro de um carrinho de bebé, vestido a rigor e com chupeta na boca, chorando lágrimas comoventes, a ser empurrado pela velha ama (Amadeu «Rato»), pesarosa e convincente. Davam a volta à Avenida, percorriam as ruas da Vila, iam até à Calçada e Loja Nova e depois recolhiam, pois o líquido precioso esperava-os ansiosamente!

    Acerca do pai do Acácio conta-se uma história divertidíssima: o seu irmão, Edmundo «Rato», também latoeiro, um dia recebe na sua oficina um camponês que lhe pede para pôr um fundo a uma lata que consigo trazia, daquelas que se usavam para o sulfato ou a cal. O cliente perguntou quando é que poderia ir buscar a obra e a resposta, carregada de sofisma, não se fez esperar:

    — «Sr. Fulano, não precisa vir buscá-la. Na próxima semana tenho de ir visitar uma pessoa sua vizinha e assim aproveito para lha levar».

    O homem ficou radiante, pois deste modo evitaria perder tempo, tempo esse que necessitava para o amanho das suas terras.

    — «Obrigado Sr. Edmundo. Vai provar uma pinga que lá tenho que é só para os verdadeiros amigos».

    O convite do agricultor veio aguçar ainda mais o apetite devorador do latoeiro. Depois do cliente ir embora apressou-se a falar com o Sr. António «Cerinha», seu vizinho de oficina, e seu irmão Amadeu, acerca de tal convite. Todos eles passaram a língua pelos lábios ressequidos, fecharam os olhos e tiveram a visão do deserto, isto é, começaram a ver o líquido (em lugar da água o vinho do lavrador) a cair de baixas nuvens espessas. As malgas, todas elas do tamanho de alguidares, começaram a encher-se do divino néctar e seus olhos brilharam de sofreguidão e ânsia. O Sr. Amadeu sentenciou:

    — «O vinho só não chega. Terá de ser acompanhado de presunto e broa!»

    A lata parecia nova. Marcaram o dia e a hora e puseram-se a caminho. Dois quilómetros a pé não é brincadeira nenhuma, mesmo naquele tempo. Chegaram extenuados. O aldeão andava a sachar as suas leiras, perto de casa, e quando os viu gritou-lhes com ar bonacheirão:

    — «Ainda bem que vêm a esta hora porque também estou com sede».

    Todos aplaudiram o gracejo e como quem não quer a coisa lá se foram aproximando da adega. Malgas na mão, olhar fixo no presunto que baloiçava ali bem perto, começaram, um por um, a receber da pipa a tão esperada pinga. Depois de já terem despejado três ou quatro malgas, um deles disse ao anfitrião:

    — «Sr. Fulano, um naco de pão não lhe ia mal agora!»

    Isto apanhou o homem de surpresa. Aguardava que eles se despedissem a fim de recomeçar os seus trabalhos. O tempo passava, a torneira sem descanso e agora o pão! Chamou a patroa e pediu-lhe que trouxesse broa para a gente da Vila.

    — «Rico pão, sim senhor!», comentou um dos glutões.

    Outro, aproveitando a deixa, arrisca:

    — «Pão pede algo, talvez presunto!»

    O pobre lavrador estava entre a espada e a  parede, acossado com raposa e lobo. Se recusasse passava por somítico; se aderisse à sugestão ficava sem presunto. Pegou na faca, olhou pela última vez para o presunto que tanto trabalho e cuidados lhe dera e diz-lhe, como falando para um filho que parte para longe:

    — «O teu dia chegou – é o destino!»

    Do desgraçado, duas horas mais tarde, restava apenas um grande osso feio e bruto. Da broa nem um côdea restou! A pipa ficou exausta! Saíram da adega, cambaleando, rindo descaradamente! O cavador, entre pragas, foi-lhes dizendo:

    — Três para uma lata! É obra!

    Que me perdoem aqueles que conhecem a história ao vê-la tão mal narrada. Contei-a como ma contaram, apenas lhe acrescentei um pequenino ponto!

    Saudações amigas a todos os melgacenses.

 

Joaquim A. Rocha

 

Publicado em: A VOZ  DE MELGAÇO