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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO DA PRÉ-HISTÓRIA AO SÉCULO XXI

melgaçodomonteàribeira, 21.05.16

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 J.Marques Rocha nasceu em Monção (Alto Minho) em 1941. Ali aprendeu as primeiras letras. Até 1962, trabalhou no escritório dum reputado advogado monçanense tomou o gosto pelos meandros do Direito. O serviço militar deu-lhe a conhecer terras (Porto, Espinho, Torres Novas, Estremoz, Aveiro e Lisboa), até que, em 1962, foi mobilizado para Angola. Lá ficou, ingressando, em 1966, no semanário «Jornal do Congo», em Carmona. O espírito de aventura levou-o para o «Rádio Clube de Benguela», mas por pouco tempo. Em 1967, entrou nos quadros de Benguela, do diário «A Província de Angola», mas logo abalou para Luanda.

Em 1975, farto de conflitos armados, bem mais graves do que os enfrentados em 1962, aceitou o convite do «Portugueses Rádio Clube», de Toronto (Canadá). Contudo, uma passagem, para rever amigos, pela cidade do Porto fê-lo desistir de refazer a vida longe de Portugal, e levou-o a integrar a equipa de jornalistas do diário «Comércio do Porto». Em 1977, ingressou na RTP, como subchefe da Redacção. Presentemente, continua a integrar a estrutura redactorial da RTP/Porto.

Entre 1988 e 1995, publicou quatro trabalhos monográficos da região do Minho – Monção, 1988; Valença, 1991; Melgaço, 1993 e Vila Nova de Cerveira em 1995.

 

 

MELGAÇO da pré-história ao século XXI

J. Marques Rocha 

2001

 

O MELGACENSE DAS LETRAS AFRICANAS

melgaçodomonteàribeira, 09.12.15

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Pires Laranjeira, que nasceu em 1950, em Melgaço, e viveu no Porto, Luanda, Coimbra e Londrina, é Professor Associado da Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, onde é responsável pelas cadeiras de Literaturas Africanas e de Culturas Africanas e onde leccionou as cadeiras de Literatura Brasileira e Introdução aos Estudos Literários. É Licenciado em Estudos Portugueses, Mestre em Literaturas Africanas e Brasileira e Doutor em Literaturas Africanas. Da sua actividade académica destaca-se ainda a criação e direcção do Mestrado e da Pós-graduação em Literaturas e Culturas Africanas e da Diáspora (2001-2005), na mesma universidade, a docência no programa do mestrado em Relações Interculturais da Universidade Aberta (Porto), nos anos 90, e a colaboração com esta universidade (delegações de Coimbra, Porto e Macau), Universidade de São Paulo e Universidade de Rennes 2, entre outras. Foi professor convidado da Universidade de Salamanca (no ano lectivo de 1996-97), leccionando as cadeiras de Literaturas Africanas de Expresión Portuguesa, de Historia y Cultura Brasileña e de Literatura Brasileña.

Publicou textos científicos, culturais, jornalísticos e literários em mais de 100 jornais e revistas locais, regionais, nacionais e internacionais, desde 1965, e proferiu conferências, deu cursos e participou em reuniões científicas e culturais, desde 1981, em Portugal, Angola, Brasil, Espanha, França, Cabo-Verde, Moçambique, Itália, Suíça, Canadá, Estados Unidos, Áustria, Alemanha, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e China.

Organizou e apresentou programas-rubricas de literaturas de língua portuguesa na rádio (em Angola e Portugal) e organizou vídeos para a Universidade Aberta (transmitidos pela RTP-2). Foi crítico literário dos jornais Diário de Luanda, A Província de Angola (1973-74) e África (Lisboa, anos 80) e é crítico de literaturas africanas do Jornal de Letras (Lisboa, desde 2002). Co-coordenou (c/Ernesto Rodrigues e José Viale Moutinho) os três volumes de Actualização (1960-2001) do Dicionário de Literatura fundado por Jacinto do Prado Coelho, tendo escrito mais de 400 verbetes de Literaturas Africanas e Brasileira. Os seus interesses actuais de investigação englobam história, sociedade, política e cultura nas literaturas africanas e também culturas orientais e do Medio Oriente (nomeadamente filosofia, religião e poesia tradicional e clássica da China, Japão, Índia e Pérsia).

Entre as suas publicações em livro, destacamos: Antologia da poesia pré-angolana (1976); Literatura calibanesca (1987); De letra em riste. Identidade, autonomia e outras questões na literatura de Angola, Cabo Verde, Moçambique e S. Tomé e Príncipe (1992); A negritude africana de língua portuguesa (1995); Literaturas africanas de expressão portuguesa (c/ Inocência Mata e Elsa Rodrigues dos Santos) (1995); “Le monde lusophone (Chapitre V): la littérature coloniale portugaise”, in Jean Sevry (ed.); Regards sur les littératures coloniales. Afrique anglophone et lusophone, tomo III (1999); Negritude africana de língua Portuguesa. Textos de apoio (1947-1963) (2000); Estudos afro-literários (2001, 2ª ed. 2005); Cinco povos, cinco nações. Estudos de literaturas africanas de língua portuguesa (c/ Maria João Simões e Lola Geraldes Xavier, org.) (2007).

 

 

Retirado de:

                  www.unicepe.pt

 

O FILHO MAIS VELHO DE DEUS

melgaçodomonteàribeira, 07.10.15

 

 

 

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O FILHO

MAIS VELHO

DE DEUS

 

Esta obra não pretende ser um manual catequético, mas sim um texto que incita à reflexão séria do leitor sobre a possível relação simbiótica, quase carnal, quase espiritual, com aqueles que já partiram. Mas, os que partiram, partiram para onde? Ou para o quê? O narrador sente-se penhorado com todas as entidades místicas por todo o apoio e todas as graças espirituais que lhe concederam durante e após esta missão de escrita pura.

 

Vai um agradecimento especial ao homem que, mesmo vivendo no mundo incorpóreo, deu corpo diegético a esta narrativa com uma única razão, salvar o seu filho de uma morte bárbara a que a ciência física o havia condenado.

 

Nasceu na casa da Corga, em Remoães  (Melgaço), Alto Minho. Licenciou-se em ensino. Atualmente é professo num agrupamento de escolas de Vila Nova de Famalicão. Amante das letras, desde que se conhece, tem como mestres grandes autores clássicos e contemporâneos: Camilo, Eça, Voltaire, Byron, Sartre e tantos outros. Desde sempre que o seu interesse pelo oculto e pela vida depois da morte lhe provocou um desejo de busca, de procura intensiva.

 

Como autor publicou em 2011

Contos da Raia

 

O Filho Mais Velho de Deus, é o seu segundo livro.

 

O Filho Mais Velho de Deus

Luís Faria

Chiado Editora

1ª Edição

Fevereiro 2015

 

www.chiadoeditora.com

 

O RECUPERADOR DE TEMPO

melgaçodomonteàribeira, 05.09.15

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O autor, numa escrita verosímil de sobriedade e transparência, e com breves episódios, ocorridos entre o campo e a cidade, conduz o leitor, em crescendo de curiosidade à forma como o homem, enquanto ser existencial, caminha ao alcance do “Recuperador do Tempo”.

Através do protagonista da obra, Osvaldo, que ofuscado por um passado de vivências de leviandade, vive o presente, numa luta constante, revendo o tempo perdido, em seu benefício e do meio que o circunda. Paulatinamente, em contacto com a natureza e com as pessoas que lhe são fiáveis, abandona o mundo de futilidades, outrora por ele adotado, e consegue pôr em prática, com atitudes e comportamentos fidedignos, alcançado o tão desejado “Recuperador”.

Osvaldo “não recupera os tempos de juventude, física e reverente, mas o seu espaço temporal de equilíbrio (…) alguém superior no universo lhe desobstruíra o caminho da vida terrena, tendo apenas de seguir os sinais de corpo e alma. Ladeado de pessoas que lhe queriam bem, construiu um mundo à sua medida, eximo a entraves de uma vida plena.”

Valera-lhe, deveras, o conselho do amigo nórdico: “Não vale a pena perder tempo com coisas que não chegam a ser coisa alguma.”

 

Quito Arantes, nasceu em Luanda a 9 de Julho de 1960 e reside em Portelinha, Castro Laboreiro.

 

MELGAÇO NA LITERATURA GALEGA

melgaçodomonteàribeira, 02.09.15

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         O CAPITÁN GALEGO 

 

A xeografia galega de Álvaro Coristanco é, fundamentalmente, ourensá e raiana, moi limitada espacialmente e restrinxida ao sur de Galicia. Como xa indicamos anteriormente, Sernin sitúa o nacemento, a infancia e a adolescência de Álvaro no pobo ourensán de Sobrado, a duas horas de cabalo da fronteira portuguesa. En torno a Sobrado, terán importancia no relato os pobos de Maceda, Ribadavia, Carballiño, Allariz e por suposto Ourense. Coa excepción de Maceda, que o autor situa a tres kilómetros de Sobrado, o resto das distancias son bastante aproximadas e as descricións cheas de verismo. Así, põe exemplo, a gran importancia de Ribadavia na vida de Álvaro vén dada pola estación de ferrocarril, describindóse no texto con exactitude as liñas de tren galegas e aquelas que unen Galicia coa meseta; as que xa non son tan realistas son as precisións temporais, pois o noso protagonista, un apaixonado das locomotoras, realiza traxectos de ida e volta entre distancias imposibles de cubrir nunha xornada. En tren, en autobus, a cabalo ou a pé móvese Álvaro polo sur de Ourense e o norte de Portugal, citándose no texto os topónimos lusos de Castro Laboreiro e Melgaço, así como tamén o de Coimbra. Aparecen mencionados no texto lugares galegos moi emblemáticos, como por exemplo, o porto de Vigo, ou os matadoiros de Vigo e Redondela.

 

O CAPITÁN GALEGO de André Sernin

Por: María Lopo

 

Retirado de:

UNIÓN LIBRE – CADERNOS DE VIDA E CULTURAS – EDICIÓS DO CASTRO – MEMORIA ANTIFASCISTA DE GALICIA

 

http://www.unionlibre.org/artigos/artigosmemoria.htm#capitan

 

A QUINTA DAS VIRTUDES

melgaçodomonteàribeira, 19.08.15

 

(…) Umbelina, só ela própria se lembraria de haver sido derrubada, entre o milho, numa tarde de Agosto de pó no ar, à margem de um regato das Taipas, donde era oriunda, mesmo à beirinha daquelas fundas tinas, pétreas e quase tumulares, que pertenciam às termas vetustas, que os patrícios romanos tinham abandonado. E alistar-se-ia o moço que a desonrara num regimento de Braga, relapso à promessa de casamento que, frente ao sacrário, solenemente assumira, e garantia-se, pouco depois, que era visto transviado, jogando a vermelhinha e puxando de facas, emborcando sucessivas malgas de um verde tinto que, pelas caídas comissuras, lhe escorria. Passou Umbelina a procurar alguma tarefa de jornal, propositadamente se situando à mercê de humilhações, mas ocorreu que o gosto de cozinhar a encaminharia para uma festeira estalagem da Falperra e, daí, para certa residência de burgueses de Guimarães, até desembocar nas Virtudes, afinal, defronte daquela lareira de espetos e de potes, onde já com ela e seus dramas topámos. Faltaria debitar a crónica do galante Raposo, lacaio que por inteiro ignorava, se quisermos ser verídicos, a bênção de beleza que, sobre ele, lá do alto, descera e ficara. Esperto e lépido, isso sim, possuía o rapaz consciência de o ser, e não se revelaria de mais aventurar que entretecia uma estratégia demorada de ascensão, a culminar em loja de batentes abertos, casamento com filha de capataz, pequenos entretenimentos negociais de contrabando de influências. Recordava-se dos pedregais de Castro Laboreiro, donde era oriundo, e que se não distinguiam das próprias habitações, como de um continente outro, sem candelabros, nem colchões de lã, onde se tornava áspero bastante, se bem que energético, trabalhar e conviver. E a nostalgia maior que, de muito a muito longe, o deixava deitado, sem dormir, de pestanas subidas, era daqueles rumorejantes e saltadores riachos que lhe sobrevinha, onde se especializara, para gáudio e animação da rapaziada menor, na apanha, à mão e num relâmpago, das trutas transitórias que, sob o círculo das águas, fulgiam e estrebuchavam. Em esparsas noites de Verão, em que as veias lhe pediam a violenta aragem serrana, com esse cheiro de giesta e de arruda, descia Raposo à porta da rua, acomodava-se num canto, pelo meio dos mendigos e dos almocreves, mascando uma pouca de tabaco-em-folha, ou lambuzando um qualquer pau de canela, até que o tomava o sono e, entontecido pelo pesadume, se deixava vencer.

 

A QUINTA DAS VIRTUDES

Mário Cláudio

Publicações Dom Quixote

4ª Edição

2009

pp. 95, 96

 

AS ORDENAÇÕES AFONSINAS

melgaçodomonteàribeira, 09.05.15

 

UM DOCUMENTO FUNDAMENTAL PARA A COMPREENSÃO DAS LEIS PORTUGUESAS NA IDADE MÉDIA.

 

Os primórdios da Dinastia de Avis trazem consigo a premente necessidade de coligir o Direito vigente no reino, abrindo caminho para uma autêntica lida codificadora, que irá terminar na vila de Arruda em 1446. Mas será que essa compilação de leis, que chegou aos nossos dias sob a designação de Ordenações Afonsinas, foi a mais antiga a vigorar em Portugal?
Em redor dessa faina compiladora, imortalizaram-se os nomes do coevo corregedor da Corte, João Mendes, e do Doutor Rui Fernandes. Mas não será justo conjecturar que os nomes de outros compiladores podem ter ficado sepultados na tumba rasa do esquecimento? Qual o papel do notável jurista, João das Regras, que avassalou a Assembleia coimbrã de 1385?
O cotejo documental permite sondar o árduo caminho palmilhado, há mais de seis séculos, por esses percursores das Ordenações e dos Códigos modernos. Será que, como se acreditou durante muito tempo, a diferença de estilo de redacção, entre o livro I e os livros de II a V, tem a ver com o punho compilador?
Outra questão lancinante é a da efectiva vigência da compilação, nas seis décadas seguintes à sua conclusão. O facto de ainda não existir a Imprensa, será argumento suficiente para a sua escassa divulgação e fraca influência no quotidiano jurídico da segunda metade de quatrocentos? Qual a efectiva preponderância em relação ao Compromisso de D. João II e às Ordenações Manuelinas?

 

Título: As Ordenações Afonsinas
Três Séculos de Direito Medieval
(1211-1512)
Autor: José Domingues
2008

 

JOSÉ DOMINGUES nasceu em Lamas de Mouro (c. Melgaço) em 1969. Licenciou-se em Direito na Universidade Católica Portuguesa – Porto (1995) e âmbito da História do Direito Medieval Português (2008).
É autor de alguns livros e artigos no âmbito da História Local, mas também de interesse histórico-jurídico e da História em geral, nomeadamente:
O Couto de S. João de Lamas de Mouro, Porto, 1999.
“O Direito do Padroado da Igreja de Castro Laboreiro na Idade Média”, Boletim Cultural de Melgaço, 2002.
O Foral de D. Afonso Henriques a Castro Laboreiro, “adito” para o debate, ed. Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro, 2003.
“O Foral Afonsino de Monção”, Estudos Regionais nº 23/24, Viana do Castelo, 2003.
“Padroado Medieval Melgacense (S.ta Mª da Porta, S.ta Mª do Campo e S. Fagundo)”, Boletim Cultural de Melgaço, 2005.
“Caça ao Lobo – Legislação Arcaica”, Agália nº 83/84, 2005.
“Paderne Militar”, Boletim Cultural de Melgaço, 2006.
“A Pastorícia e ‘Passagem’ de Gado na Serra do Laboreiro”, Boletim Cultural de Melgaço, 2007.
“Brandas e Inverneiras, o nomadismo peculiar de Castro Laboreiro”, Arraianos, 2007.
Contrabando pela raia seca dos Montes Laboreiro (em publicação).
É um dos dois fundadores do Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro:
www.monteslaboreiro.com
Actualmente é docente na Universidade Lusíada, Porto.

 

MATILDE, A BRUXA EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 04.04.15

 

O CAVALEIRO DE OLIVENÇA

 

A vida de Matilde cruzara-se com a de Vasco no longínquo ano de 1498, quando fora condenada à morte por enforcamento, em Melgaço, sob a acusação de ser bruxa e de ter provocado a morte de uma fidalga. Mulher nova, então com uns vinte anos de idade, sempre se dedicara a mezinhas e poções, e aprendera com a avó e uma tia a distinguir as plantas e a saber as propriedades de cada uma; era uma ciência natural, mas a ignorância das pessoas julgava-a sobrenatural e, na verdade, Matilde aproveitava-se da credulidade da vizinhança; imprevidente, não se importara ao ganhar fama de bruxa. Um dia uma amiga sua, criada de fidalgos abastados, aparecera discretamente e contara-lhe que a filha de seu senhor emprenhara; estava muito desgostosa e não podia levar a gravidez avante, pois assim que se soubesse, seu pai a mataria. Trazia boas moedas e logo Matilde lhe deu as ervas apropriadas. No entanto o caso correra mal e a fidalga finara-se esvaída em sangue. A Justiça apertara com a criada e esta denunciara a amiga. O fidalgo pressionara o juiz e como este era amigo da maior rival de Matilde naquela comarca, cedeu aos pedidos da sua amante, por entre beijos e afagos, para lhe conceder o exclusivo dos negócios de bruxaria. No entanto, o corregedor trabalhava para Vasco de Melo e conseguira deter a execução até seu amigo regressar de uma viagem à Mina.

Vasco visitara-a no calabouço e salvara-a da morte, a troco de lhe ficar com a vida. Tinha de deixar o Minho e instalar-se no Alentejo, onde ninguém a conhecia. Tinha de se ajuntar com um homem novo, de nome Gonçalo, que era natural de Terras do Bouro. E com mais um corcunda e três anões passariam a espiar para a Coroa de Portugal, disfarçados de jograis. Matilde aceitara de bom grado a proposta.

 

pp. 26 – 27

 

Ao entrar na sala, comoveu-se ao ver Vasco de Melo vestido de bobo. Enquanto se aproximava dele recordou o momento em que ele lhe aparecera no calabouço de Melgaço, qual anjo, prometendo livrá-la da forca; reviu a sua face radiosa quando lhes dava ordens entusiasmado com o serviço a el-rei; lembrou-se dele aos solavancos na cabeça do touro em Burgos ou de espada em riste, em Mirandela, salvando-a do linchamento; e, finalmente, recordou-o agarrado à mão fria de Iamê, fazia agora um ano. E ali estava ele, fidalgo da Casa Real de Portugal, fazendo de bobo, como disfarce para poder chegar a um colaborador perdido.

 

p. 365

 

O Cavaleiro de Olivença

João Paulo Oliveira e Costa

Círculo de Leitores e Temas e Debates

2012

 

FRÁGEIS ELOS

melgaçodomonteàribeira, 21.02.15

 

À primeira vista parece fácil escrever a história de uma família, mas à medida que se vão conseguindo nomes, datas, e outros dados considerados importantes, verifica-se que não existem facilidades de espécie alguma. Pelo contrário, os obstáculos vão surgindo, e os pontos de interrogação nascem aqui e ali, como a lembrar-nos de que muitas coisas do passado ficarão para sempre soterradas e esquecidas.

No entanto, e apesar das enormes despesas, é gratificante ir a pouco e pouco descobrindo, quase desbravando, as nossas raízes.

Em Portugal, devido à anarquia, desleixo, e até desprezo pelos documentos antigos e, quando existem, ao seu difícil acesso, quase se torna impossível investigar para além do século XIX! Os arquivos distritais estão em fase de organização, a informática está a dar os seus primeiros passos nesta área, os arquivos municipais praticamente não existem! Atrevem-se a alvitrar que este tipo de trabalho não passa de um capricho de quem nada tem para fazer, uma brincadeira de curioso! Claro que não se trata disso. A família teve ao longo dos séculos um papel assaz importante. Era dentro do seu seio que os jovens se educavam e cresciam; era ela que defendia os seus membros e os apoiava em situações difíceis. A sociedade do século XX – devido em parte à entrada da mulher no mundo do trabalho e ao aparecimento de grandes cidades (onde ninguém conhece ninguém) – desprezou os laços familiares, o elo que ligava um parente a outro parente.

Neste século da indústria, do petróleo, dos automóveis e aviões, do computador e da energia atómica, cada qual tem de valer por si: rico ou pobre, doente ou com saúde, não pode mais contar com a estrutura familiar, porque esta já não existe como tal! O egoísmo e o salve-se quem puder é a norma hoje em dia.

Não escrevi esta história com a intenção de me tornar conhecido ou apreciado; escrevia-a porque quis dar a todos os familiares a ideia exacta do seu parentesco, destruindo, quanto possível, fantasias e laços inexistentes. Quis também homenagear os nossos ancestrais, aqueles que nos trouxeram a este mundo.

 

Frágeis Elos (Uma História Familiar)

 

Joaquim A. Rocha

 

Edição do Autor

 

1997

 

UMA ALMA BEM MELGACENSE

melgaçodomonteàribeira, 15.11.14

Álvaro Domingues

Foto www.por.ulusiada.pt

 

ÁLVARO DOMINGUES E MELGAÇO

  

O pai foi contrabandista, ele contrabandeia ideias à luz do dia e dos livros, passando-as entre geografia, em que se formou, a arquitectura, a cujos alunos dá aulas, a semiologia, só para citar alguns dos seus territórios de eleição. Pela Rua da Estrada e entre a Vida no Campo, levou-nos a Melgaço, uma terra que, com as suas palavras, se nos mostra como não parece: cosmopolita.

 

Não fomos pela rua da estrada (nacional). O horário era apertado, Melgaço ainda é longe do Porto e, na EN13, seríamos forçados a um pára-arranca. Não por causa do trânsito, mas porque esta via, e outras por aí, atraem de tal forma a atenção do geógrafo Álvaro Domingues que seríamos quase de certeza obrigados a várias paragens por essa cidade em contínuo, cidade-montra onde tudo se vende, que ele conceptualizou no livro A Rua da Estrada. Escolhemos por isso a A28, início de conversa (quase) sem distracções, o mais próximo que há, na Terra, do tele-transporte. E, ainda assim, tínhamos a paisagem, a aproximação ao destino, a fazer-nos curvar a conversa entre o passado e o presente.

A Rua da Estrada tem já uns anos. Em 2012 Álvaro atirou-nos para os olhos Vida no Campo, outro murro no estômago em que digerimos as nossas convicções até às generalidades que nos saciam as conversas de café. Livro a abrir brechas nas habituais oposições conceptuais cidade/campo, rural/urbano. É próprio dele. É como se achasse que ainda estuda no conservador e católico Colégio D. Diogo de Sousa, em Braga, e nos visse a todos como os padres a quem dava cabo do juízo com a sua tendência para quebrar as regras estabelecidas. A diferença é que, em troca, não lhe aplicamos castigos. Lemos, gostamos ou não, e seguimos em frente.

 

Vamos a caminho de Melgaço, insistência nossa, a da Fugas, que por ele ficávamos pelo caminho (pela rua, está visto). A biografia está lá, entre vinhas de alvarinho e os rios Minho e Mouro onde adorava nadar, quando a escola, as vacas ou a mercearia da família não lhe ocupavam o tempo. Já não está lá é a “Guidinha”, camioneta que os levava depois para o ciclo em Monção, num movimento pendular hoje repetido por meninos da aldeia a caminho dos modernos centros escolares. E faltam muitas coisas mais – e pessoas. Melgaço é sítio de emigração, “foi dali que saiu o primeiro Expresso para Paris”, nota o geógrafo, nascido em 1959, que, como muitos conterrâneos, conheceu a capital francesa antes de ter vislumbrado Lisboa.

 

Vamos para o “cu do mundo”, palavras dele para dizer o que outros diriam de Melgaço. Mas Álvaro não tem dúvidas que, nesses bafientos anos 1960, havia mais mundo na mercearia do pai do que nas maiores cidades do país. A loja “era o Facebook da altura”, onde lhe chegavam notícias de França, do território francês da Nova Caledónia, do Canadá, da América e de outras paragens longínquas. Um contraste com o subdesenvolvimento reinante, que lhe gravou na memória a chegada da electricidade e o facto de ter começado a ver TV… em espanhol. Um contraste com as ideias de pitoresco, as discussões “agressivas” sobre as casas de emigrantes, e a questão do gosto, com que “chocou” ao conviver com a chamada cultura erudita dos seus professores e colegas universitários.

 

É por isso que ele nos há-de mostrar, no caminho para Parada do Monte – clara alusão a ponta de descanso de uma via romana –, uma casa na curva da estrada. Chalé que viu erguer-se, até ao estado de pronto e desabitado que agora ostenta; que em 1994 foi capa de uma obra, Maisons de Rêve au Portugal, de Roselyne Villa Nova, Carolina Leite e Isabel Raposo. Casa de sonho que, como milhares de outras por esse país fora, foi remetida para um limbo, longe das construções autorizadas pela erudição, os arquitectos, e sem lugar nos livros sobre arquitectura popular. Um livro onde a única classificação plausível, e difundida pelos média, remetia para a condição de emigrante dos seus donos, com uma carga negativa que nunca se vira usada, por exemplo, para falar dos pardieiros de onde aquelas pessoas haviam fugido.

 

Quem classifica, classifica-se, já dizia, resumidamente, Pierre Bourdier, a quem Domingues pede boleia para a conversa, nesta curva por onde, num minuto passam dois táxis. Não. Não é Lisboa. Apenas a ausência de transportes públicos, que, face ao envelhecimento dos que ficaram, os deixa dependentes destes carros verde e negros para qualquer deslocação. Nós, que já o fotografamos sob um sinal de perigo de aproximação de animais (uma vaca) e esperámos que o sol reencontrasse entre as nuvens um buraco para recortar melhor os campos que desenham a encosta do monte, temos a nossa viatura. E, agora que nada nos prende, partimos para o topo da serra, para ver uma casa que vomita um pedregulho em Castro Laboreiro, antiga sede de um concelho e que na polémica reforma em curso poderá ser unida a Lamas de Mouro.

 

A mulher castreja

 

O planalto de Lamas, porta de entrada mais a norte para o Parque Nacional da Peneda-Gerês (criado em 1971), é lugar imperdível. Álvaro Domingues não precisava de dizê-lo. Com cumeadas acessíveis para os mais afoitos nos passeios, é, graças ao rio Mouro, um sítio cheio de verde, de árvores densas e pastos, numa paisagem que, por aqui, de tanta pedra a esboroar-se nas encostas, parece por vezes lunar. Daqui poderíamos descer até à Senhora da Peneda, onde há um lago secreto em que ele gostava de nadar, mas a carne fala mais alto, e a promessa de pecar perante um prato de um bom naco de vitela barrosã empurra-nos para Castro Laboreiro por uma estrada que o geógrafo viu ser inaugurada, inícios de 1970 talvez, pelo então presidente Américo Thomaz.

 

Nevou por estes dias, lá em cima. Há espelhos de gelo a reflectir o dia luminoso nas fragas e, entre o casario escuro de Castro, uns fiapos de branco, incapazes de se deixarem derreter. Álvaro Domingues vê uma velha castreja, de polainas, e ri-se – lá vem ele outra vez – a lembrar um documentário, que arranca com estas imagens pitorescas, cheias de mulheres de negro, imagem do Portugal profundo (ainda que alto, como é o caso), que nos habituamos a procurar nestas viagens. Chamava-se “Além de nós: mudança na paisagem”, essa reportagem de Anabela de Saint – Maurice, na RTP que, a dado passo, nos mostra Duartina. Mulher regressada para abrir um restaurante na terra natal, após 30 anos de vida na Austrália, destoando em tão antipódica viagem do retrato esperado. Ela, como muitos. Daqui, os pedreiros que trocaram o trabalho nos muros dos socalcos do Douro pela arte da maisonerie de França e outros países tiveram grande sucesso, tendo conseguido, por via disso, dar à geração seguinte condições para irem para as universidades quando no resto do país muitos ainda se ficavam pela quarta classe. O pai de Álvaro, comerciante de dia e contrabandista de noite, dono de pesqueiras no rio Minho, que nos recebera tumultuoso, cheio, à chegada a Melgaço, pensou o mesmo. O miúdo haveria de estudar, que era inteligente e tirava boas notas. As mesmas que o haveriam de salvar de alguns castigos, pelas suas traquinices de adolescente, quando chegou ao liceu. Ele que há quase três décadas trocou as margens do Minho pelas do Douro – que se vê da casa onde vive e da Faculdade de Arquitectura, onde trabalha – fez-se no que é: geógrafo a contrabandear ideias e conceitos entre ciências, a ignorar as fronteiras entre elas e a desafiar os seus guardiões. À luz do dia, que hoje ninguém prende ninguém. Bom, mesmo naqueles outros tempos, o que o pai pagava aos guardas dava-lhe a ele paz, e a eles mais dinheiro que o salário mensal – tinha já recordado o filho Álvaro quando nos mostrara, no lado espanhol, a curva do rio onde tudo acontecia, e em que até lingotes de ouro eram transportados pela calada.

 

O texto anda assim, de trás para a frente e da frente para trás, como a conversa. Agora a olhar de canto para o castro que dá o nome à vila, a recordar já uma carne que soube pela vida, empurrada pelo alvarinho, o vinho da casa. Depois a reparar, já no adro da igreja do mosteiro de Paderne, nas duas palmeiras californianas que, definitivamente – e vamos lá ser preconceituosos –, não casam bem com o estilo românico do templo, com um belo portal do século XIII, mas nas quais Álvaro vislumbra uma estética a puxar para o gótico flamejante. E não saímos de Melgaço sem passar pelo Peso, terra em que o renascimento das termas e do seu parque de árvores frondosas não alastrou ainda aos velhos hotéis de outros tempos, que mantêm o mesmo ar de ruína com que Manoel de Oliveira os filmou em Viagem ao Princípio do Mundo, em 1997.

 

O princípio da nossa viagem é que já vai longe. Temos de ir embora, passar por Viana, que lá chegando haverá barriga para uma bola de Berlim do Zé Natário e, no caminho, sabemos que o nosso guia se perderá na rua da estrada. Dito e feito. Em Valença, fez-nos parar numa loja chinesa que chama atenção pela estátua de sereia na berma, granito fino da região, de mamas fartas, a que ele se agarra para a fotografia final.

 

Jornal Público

23/02/2013

Abel Coentrão