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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

LADINA III

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

 

Mas a história vai ser minha. E foi. Ai, se foi!

A minha Ladina retirou-se para a serra, não longe da vila. Casa recatada, marido e esposa com bens terrenos e outros em papel de crédito; algumas (muitas) notas no banco. Labuta, de sol a sol, como criada de família, que para os trabalhos caseiros outros haviam.

Nos campos e pinhais, gente da aldeia deixava o suor na camisa, mesmo em tempo de neve, para que o sustento da casa não faltasse.

E ela! Bela, mulher de cuidados extremos, não parava. De vela acesa em cada canto, à braseira na sala e no quarto do casal, os lençóis de linho e mantas de grossa estopa, tudo era um brinco. Raio de sol fugidio que entrasse em casa, grão de pó não se via.

— Tudo tão limpo! Parece que foi Deus que a enviou. – Dizia a esposa para o marido.

— Realmente. Comparada com as moças da aldeia que cá trabalham parece um anjo. A água sempre límpida, nem um grão de pó onde quer que entre”. – Retorquia ele.

Veio a Primavera e os fenos cresceram. Uns serviam para o gado, outros, no barraco encontraram lugar e outros ainda de leito serviram a amo e criada. Quanto mais feno cortaram, mais o desejo e luxúria em casa entraram.

— Blasfémia – gritaria quem soubesse o que se passava no quarto do senhor entre os lençóis que a criada alinhava. De um lado, uns olhos de amor, de prazer … este corpo, estas mamas … o rei deste corpo sou eu. De outro, uns olhos de ouro, ouro de lei a luzirem.

— És igual ao outro, mas passo de criada a senhora e desta vez não me apanham.

Depois do jantar, junto ao oratório familiar, um – Deus nos guarde, até amanhã – um olhar piedoso e a prece ainda nos lábios, entre olhares de desejo e pecado. A senhora retira-se para o seu quarto. Se eu pudesse vê-los nesses momentos! … Talvez me atirasse de cabeça para a polícia e esta história acabava aqui. Talvez, eu … mas o certo é que nada vi.

E aquela a quem os criados conheceram como senhora passou a ser o anjo da aldeia. Aquele rosto, naquele corpo magro, banhado pela luz do fim do dia, antes que o sol se ponha, realçava a palidez de tal forma que já se sussurrava ser de prata. Só mais tarde descobri que era de morte.

Após a oração nocturna, um chá para descansar. Se calhar cidreira … tília de certeza que não havia na aldeia, mas outras ervas não faltavam. Nem o vão de escada, dormitório da criada, quando os calores apertam e a senhora dorme …

— Desgraçaste-me … e agora?

Tão grande foi o espanto que seu amo e senhor não abriu a boca. Ou por outra, não a fechou que aberta estava ela.

— Esqueces que és casado? Que fizeste de mim demónio? Para onde vou viver com um filho teu nos braços, ou achas que ela não sabe? – Quase sem respirar continuou a metralhar, não dando tempo a que ele reagisse:

— Julga-la cega, por ventura? Olha-te ao espelho. Quando vês as minhas mamas és pior que o cobridor da quinta. E ela sabe-o.

— Que posso fazer, sabes que te quero, que me importa a mim ela?

— Acaba-se com ela … Santa ignorância …

— És capaz disso?

— Fico sempre contigo na cama grande? Vou ser a mãe dos teus filhos?

— Fala baixo, pode saber mas não ouvir.

Do pote que aquecia na lareira, tirou a água para o chá nocturno da senhora.

— Leva, leva. Ela agradece e dorme mais descansada.

Durante semanas o chá passou da mão da criada para as do patrão com um beijo fugidio, até aos lábios da cada vez mais branca senhora.

 

(continua)


LADINA II

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

 

Um crime!

Do que eu precisava era dum crime!

E, na minha terra, com uma mulher como a do filme…!

E que acabasse viva, é claro! E eu a desvendar o mistério. Do grande César a grande frustrado foi um passo. Dois, três meses depois … espiolhados os maus e os bons, hereges e beatas, nada. Absolutamente nada. Tudo limpo. Mas desistir nunca. E a glória, o grande dia, o abre-te Sésamo, surgiu:

Dia de festa na vila, o povo desceu a serra e foi desaguar nas ruas tortuosas a que chamam direitas, vestidos a preceito, com grandes samarras, alguns calçados e chapéu na cabeça. Se calhar o negócio de sabão tinha rendido bom dinheiro nessa semana. Não cheiravam a vaca, estrume, porcos e galinhas, a patos, se calhar pareciam faisões, pavões e outros bichos que tais, mais vistosos mas não sei se menos cheirosos …

Encostado a uma esquina da igreja, boné e óculos escuros, orelha arrebitada, logo dei com aqueles dois: velho de sessentas ao lado de uma morena, cabelo negro e viçoso, mamas a gritar ais e uma cinturinha … meu Deus! Nem a roupa grosseira destoava naquele corpo. O velho, bem, o velho baba-se, não sei se da idade, doença ou do calor que vem do lado. Jeito de filha não tem e, de certeza, que não me fogem. Só faltou não aparecer em casa para o almoço, porque nem na tasca, onde manducaram uma bucha, os larguei. No meio da confusão todos os gatos são pardos e ouvir conversa de outros não é difícil: 

— Eu gostava de uma menina, grande e bonita como tu.

— E se for um rapaz, com a força que tu tens? …

Uma boca babada de velho e um olhar de desprezo de rapariga! A escolha está feita. A aldeia não é longe, controlá-los não deve ser difícil. Foi, foi. Foi difícil e molhada! Até que um dia, já de autêntico desespero, atirei uma olhadela mais afoita pela vidraça suja de pó e fumo da candeia e o que vi foi de bradar aos céus. Que maravilha! Podre de boa. Só faltava tirar o saiote, mas eu não despegava os olhos daquelas mamas. Nem as melhores castanhas da terra se pareciam com o tamanho daqueles mamilos. Quando tirou o saiote, então fiquei branco, ia caindo do calhau onde estava empoleirado.

A barriga … a barriga era de trapos! Trapos tão bem enrolados que nem a nossa bola de domingo. O crime! O crime tal qual Caim o deu ao mundo. Ela vai fazer o velho … o velho está feito … - pensei.

Está, está, dias depois no hospital ele e ela de filha nos braços.

— É da idade. Com uma mulher daquelas! Devia era ter juízo … – comentavam.

E eu a correr entre a aldeia e o hospital da vila, onde tinha entrada franca devido ao funcionalismo público familiar, lá fui descobrindo uns trapos queimados no quintal e uma recém-nascida, que visita no hospital não era demorada e, na aldeia, de casa não saía. O velho “esticou”. Mas o crime não estava desvendado.

Logo a força da terra, isto é, das terras, trataram do caso, porque nisto de heranças aparecem de todo o lado com cinquenta razões qual delas a mais forte. Ao fim de umas horas larguei o meu poiso, pois nada me prendia ali.

— Já sei a quem compraste a miúda - berrou um.

— Sim. Nós sabemos que junto ao rio nasceram gémeos e agora falta um. - berrou outra.

— Daqui não levas nada, só porrada e tribunal - ajudou outra voz.

— Ficai com essas leiras de m**** que serão a vossa sepultura, pacóvios; passastes todos estes anos a lamber-lhe o cu para conseguir o que eu fiz em meses.

Ladina falhou-lhes com raiva: – Tacanhos de m**** …

Estas palavras, passado o espanto inicial e o silêncio que em casa se fizera, foram gritadas já ela corria pelo monte fora, que o caminho não era seguro com uma matilha daquelas atrás, e forquilhas e gadanhas não servem só para o amanho da terra.

Não fui eu a desvendar o crime mas não haja dúvida que eles não passavam de tacanhos, interesseiros e só descobriram aquilo que eu já sabia há muito. Fiquei quedo e mudo à espera que a bomba rebentasse, mas o certo é que nunca mais se falou no assunto.

Partilhas e festas … ele já se foi e ela desapareceu.

Pois sim! Desapareceu, mas não da minha cabeça. Não sei se por causa da falsa barriga, se das coxas leitosas ou daquelas mamas. Senhor, que mamas aquelas! De certeza que menino da minha idade, na altura, nunca pôs olho em cima.

E eu ia remoendo entre a memória e o desejo de saber onde encontrá-la. Mulher assim não desaparece de um momento para o outro. Que esteja noutra aldeia tudo bem, mas a mim não me pode fugir. Seria traição. E eu que nunca gostei da Arrenegada nem do Miguel de Vasconcelos aceitar uma coisa dessas nunca!

Mas também foi só dar tempo ao tempo. Uns anos em cima do lombo e eis que nos encontramos. Motivo: um homicídio. Admiração, nenhuma. Pois que outra coisa senão o crime nos poderia juntar?

Uma vez mais apelei ao poder familiar do funcionalismo para saber o que se passava.

— Nada … Não sei …. Está em segredo de justiça …

Grande treta de homens, nem uma abébia … e eu a pensar que tinha amigos em todo o lado, até no tribunal.

 

(continua)


LADINA I

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

Melgaço

 

 

Ladina!

Se na altura tivesse cabeça para as definir, como hoje, não arranjaria outro termo. Ladina!

E é bonito. Cheira-me a raposa matreira em liberdade … à terra onde nasci …

Mas nesse tempo eu não passava de um ganapo, filho de funcionário público, a quem a curiosidade não matava, mas chegou para me atirar para esta vida de andarilho da qual não me consigo safar.

Apresento-me: um sem eira nem beira, com poiso fixo num terceiro andar, detective de profissão e IRS em dia, come em pé por falta de “croas”, porque a kapital e ou o “capital” é bom para os outros. Profissão destas, sem amigos na “bófia”, não dá. E amigos eu tenho, felizmente nenhum herdado da tropa que não fiz, porque para Angola e em força nunca deu de comer a ninguém. Chamar chuis caceteiros a todos eles era ofensa a alguns a quem aperto os ossos. Amigos nos copos e na profissão.

O não conhecer África e ter o atrevimento de falar de uma terra que não conheci, perdoem-me os que lá se encheram … Aos feridos e estropiados da guerra de certeza que lhes saco um sorriso e àqueles que, roupa só a que a tropa dava e tratar das santas couvinhas era tudo, de certeza que me insultam. - Atão não era o país que estava em causa? Mas voltemos à minha vida de bófia  privado e vadio. Aqui começou a borrasca porque depois da bonança…

De curiosidade de puto a pseudo detective mais tarde, a experiência arranjada por entre milho, couves e vinhas e a corridinha do dia-a-dia na grande cidade, não foi um passo, foi um sonho. Sonho! Maldito, diga-se, que isto de andar dias, semanas e meses atrás de bruta fabiana de trinta e dois anos de idade, 90-55-89, e de quem o senhor director de cinquenta e cinco, barriga proeminente, não só desconfia, mas quer gozar os prazeres proibidos de saber o corno que é, não só gasto solas como atiro com a cabeça para outro lado, ao ponto de não saber se satisfaço o cliente que entra com as “lecas”, ou se é o gozo de descobrir até aonde elas chegam.

E pensar que os descontos para a segurança social ainda vão parar ao bolso de outro parceiro e, na volta, a “massa” paga não chega para os curativos, se a coisa azeda! Bom, foi a vida que escolhi. Será que escolhi? A curiosidade, o meter o bedelho em tudo, o chico esperto da vila, atiraram-me para isto? Verdade seja dita que tudo começou de pequeno.

Andava eu todo vaidoso com botas de cabedal que o velho tinha comprado em dia de festa, boné de flanela e óculos de sol que o avô, músico nas horas livres, latoeiro de profissão, com um manancial de namoradas a quem servia e se servia na pequena oficina, entre pingos de estanho e uns canecos para a próxima vindima, distraidamente esquecera. O meu espírito detectivesco já me tinha levado a coleccionar informações do mais alto valor, desde capoeiras sem guarda, até uvas de mesa a mais de cem metros da casa do caseiro.

No rol das confidenciais tinha, em carteira, a identidade de dois marmanjos que entravam a horas pouco recomendáveis em casa de moças já entradotas e sem namorado conhecido. Sabia a melhor maneira de dar a volta aos matraquilhos sem a patroa desconfiar que a moeda de cinco paus que ía para trocar em moedas de dez tostões era sempre a mesma. Obrigado general que, além de libertares a França, contribuíste para os nossos campeonatos com a “peça” de dois francos. Mas isso não chegava para apaziguar a minha paz de espírito. Queria mais e mais mas não sabia o que havia para descobrir.

O Cinema da terra deu-me a solução. Quinta-feira à noite, acompanhado da mamã, cumpriu-se o ritual: bilhete não se pagava; lugar cativo no balcão central; no écran Hitchcok “amanda-me” com Psico. Se o “Botas” soubesse teria caído da cadeira mais cedo…

 

(continua)