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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOFRIMENTOS INSENSATOS XV

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    A Áurea, consciente da hora, resolveu parar diante do mostrador da pastelaria onde, às vezes, isto é, quase sempre, sucumbia à sua insuperável fraqueza: os mil-folhas. Pediu dois para ela, dois de coco para a mãe da Natália e mais dois de nata para o pai. À tarde, se estivessem disponíveis, podia tomar um chá com eles e passar uns agradáveis momentos de convivência. A vendedora, uma moça simpática que já a conhecia, preparou-lhe a caixinha de papel que atou com uma (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS XIV

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    Antes de chegar ao cruzeiro, distinguiu imediatamente três vultos. Eram sempre os mesmos. Não se atrapalhou.  Se por azar o provocassem, iam ficar a saber com que lenha se aquecia. Escolhiam mal o momento de o importunar ou de lhe procurar pulgas na cabeça. Quando chegou junto deles, disse-lhes, sem parar: — Que boa bida tedes ! Atê parêce que bibides nô cruzeiro ! Surpreendidos, riram e um deles convidou-o: — Aonde bás a esta hora, Mindo ? Fica aqui c’ôs homes, (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS XIII

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    Os raios de sol tímidos, mas ainda tépidos, que entravam pela janela fizeram-no pensar noutra coisa e deram-lhe coragem para se levantar. Quando passou diante da porta entreaberta do quarto da avó, ouviu-a ressonar profundamente. “Devia-se ter deitado tarde, coitada”- pensou. Havia muito que a avó lhes tinha dito que, às noites, quando ela o chamava, o seu Bilinho vinha ter com ela e passavam horas a falar. Só ela o podia ouvir. E, claro, ela punha-o ao corrente de tudo (...)

SENTIMENTOS INSENSATOS XII

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    Apertou a mão do rapaz com a força que lhe restava. Ele, apático, não desviava os olhos do rosto esquelético da avó. Percebia muito bem o que ela lhe queria dizer. Já se tinha esquecido, mas realizou por fim por que razão a lareira não fôra acesa. — Eu nunca dei por ela, bó. É quem ê ô... ? Não sabia como lhe chamar. A Delfina alçou os ombros. Quem quer que fosse, para ela, era-lhe totalmente indiferente. Preferia não sabê-lo. — Como quêres qu’eu saiba, (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS XI

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    — Onde fostedes, minha mai ? — Fui à minha bida, se quêres saber. – retorquiu de mau humor. Subiram as escadas pacatamente. O Fedelho, exausto, quase a arrastar-se, dirigiu-se para a casota. Não tinham acabado de sacudir os tamancos e já a Delfina perguntava do quarto : — Ês tu, Palmira ? Não obteve resposta da filha. Foi o neto que, enervado com o amuo da mãe, respondeu carinhosamente à avó. — Somos nós, bó, somos. Quêr algo ? — Nom quero, nom. Sentou-se (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS X

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    Cansado e ofegante, pousou o saco por cima dum penedo e aproveitou para recobrar as forças tomando fôlego uns momentos. Encantado, deixou vacar pausadamente o olhar pela imensidão que o assombrava, que o fazia evadir-se e esquecer por uns curtos momentos o que o desgastava psiquicamente. Chegou à azenha do “tio” Júlio  uma hora e um quarto depois de ter saído da casa. Havia um homem cujo segundo saco de milho estava a ser moido e, seguidamente, uma mulher com um único (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS IX

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    X A manhã começou com uma chuva miudinha mas persistente. A Palmira ocupou-se da mãe com a habitual negligência. Depois de lhe dar as sopas, que a Delfina ingurgitou paulatinamente, acendeu a lareira cuja pedra ainda estava morna e, depois de a vestir, sentou-a na consumida cadeira. Ocupou-se seguidamente das tarefas diárias habituais. Mas, quando depois da  chuva ter parado quis ir passear com a mãe para o quinteiro, deparou com uma ferronha resistência da sua parte. Não (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS VIII

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    Levantou-se e, depois de lavar as mãos, pôs-se a caminho da feira. Passou diante da estação de camionetas que despejavam rebanhos de pessoas azafamadas, vindas das inúmeras aldeias do concelho. Desceu em seguida, mais à frente, uma rua onde já havia algumas tendas e que desaguava na alameda cuja metade esquerda estava totalmente invadida pelas barracas de cores extravagantes e garridas dos tendeiros. Gostava de ir cedo à feira para evitar os errantes ociosos, os madraços (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS VII

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    VIII O Armindo, a mãe e a avó acabaram de cear. A Palmira ajudou a mãe a sentar-se na cadeira, junto da lareira, enquanto lavava a louça com a água bem quente que pusera a ferver no lume. O rapaz, ainda sentado à mesa, olhava para a tigela meia de vinho que tinha diante dele. Gostava de guardar uns bons golos para o fim. Era uma mania que agarrara já não sabia quando. O dia de hoje fora excepcional, o mais feliz que o Armindo tivera. Riu-se. Pensava na Lídia. “Ê tam (...)

SOFRIMENTOS INSENSATOS VI

07.03.13, melgaçodomonteàribeira
    VII O Armindo, apoiado ao eucalípto que já tinha a marca das suas costas, falava sozinho e ria de satisfação. Sentia-se leve, diferente. Tivera oportunidade de ver o mais perto possível a linda cara da Lídia, a sua pele rosada, os seus olhos mordazes. Havia tanto tempo que pensava nela, que sonhava com ela ! Era verdade que sempre manifestara amizade por ele mas, hoje, pensou descobrir nela, nos seus gestos, no modo como olhava para ele ou como lhe falava, um prazer manifesto (...)