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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

EMIGRAÇÃO & CONTRABANDO

melgaçodomonteàribeira, 04.11.15

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A FRONTEIRA COMO DESTINO

 

Melgaço traz consigo as marcas da emigração. O seu lastro prolongar-se-á, certamente, por longos anos. Ficou para perdurar e não há modo de o ignorar. Os nossos avós foram pioneiros na emigração para os países da Europa, designadamente para França. Quando o País acordou para este fado, já os melgacenses trabalhavam, há vários anos, para além dos Pirenéus. Primeiro, os do monte, logo os da ribeira. O êxodo foi de tal ordem que, em poucas décadas, a população concelhia diminuiu para quase metade (55%). Se o censo de 1960 registava 18 211 residentes, estes resumiam-se, no censo de 2001, a 9 996, ou seja, menos 8 215 habitantes em 41 anos. A envergadura do movimento avoluma-se ainda mais se recordarmos que, durante esse período, Melgaço, principalmente no que respeita às freguesias da ribeira, acolheu importantes contingentes de pessoas provenientes de concelhos mais ou menos vizinhos. A maioria veio suprir a carência de mão-de-obra provocada, precisamente, pelo vazio aberto pela emigração. Acorreram, sobretudo, caseiros para viabilizar as “quintas”, mas também “artistas” para a construção civil, comerciantes, empresários, empregados, funcionários… Esta afluência, que diversificou a origem geográfica dos melgacenses, assevera-se, aliás, uma das marcas indirectas da emigração.

Mas a emigração, no nosso concelho, não se distinguiu apenas por ter sido mais precoce e mais intensa do que nos demais. Apresenta outra característica que a individualiza: manifesta-se bastante elevada a proporção de emigrantes que regressam à terra natal, mormente entre aqueles que, mais antigos, pertencem à chamada  “primeira geração”. Terminada a lide no estrangeiro, demandaram as origens. A dimensão deste movimento expressa-se, de forma imediata, no envelhecimento da população, um dos mais pronunciados da Região Norte. O censo de 2001, registava, no concelho de Melgaço, uma relação de três idosos (pessoas com 65 ou mais anos) para cada jovem (até aos 14 anos). O triplo do País, quase o quádruplo da Região Norte! No caso das freguesias da Gave, Castro Laboreiro, Fiães e Cousso, este número ultrapassa os seis idosos por cada jovem! A intensidade da emigração, a saída dos mais jovens, a esperança de vida e a taxa de mortalidade são variáveis que não chegam para explicar a razão por que, em matéria de envelhecimento da população, Melgaço ultrapassa, por exemplo, a maior parte dos concelhos de Trás-os-Montes. A diferença radica, provavelmente, numa maior incidência do regresso, normalmente em idade avançada, dos emigrantes melgacenses. Os resultados de um inquérito aos idosos das freguesias do Alto Mouro, promovido em 2003 no âmbito da Rede Social, ilustram esta realidade: 90% dos homens com mais de sessenta anos foram emigrantes, o que nos dá uma ideia do impacto da emigração e do alcance do regresso. Trata-se de mais uma marca da emigração, a acrescentar a outras, tais como a distorção do ciclo anual de actividades, a efervescência do Verão e a letargia do Inverno, o desequilíbrio da estrutura produtiva, a propensão para o consumo, a renovação da paisagem ou a mudança dos hábitos e dos valores locais.

Para além da emigração, o presente livro contempla, também, o fenómeno do contrabando, outra actividade vinculada à fronteira, que, na sua ambivalência, ora se ergue como obstáculo, ora se oferece como oportunidade. Em Melgaço, o contrabando é uma tradição que remonta a tempos longínquos que nem a memória enxerga. Café, minério, metais preciosos, gado, marisco, electrodomésticos, tabaco, entre outros produtos, sucederam-se na travessia furtiva da fronteira pela mão de pequenas redes informais assentes na família e na vizinhança, mas também de organizações relativamente complexas. Ao contrabando de mercadorias, talvez se deva acrescentar uma outra “passagem clandestina”, a de homens e de mulheres rumo a destinos mais promissores.

A escolha da emigração e do contrabando para tema deste livro não podia ter sido mais pertinente e oportuna. Sintoniza-se, designadamente, com o desígnio local de promover um espaço museológico e de animação dedicado à “memória da fronteira”. Em Melgaço, tem vindo a ressurgir uma auspiciosa actividade cultural, um sobressalto decisivo para a construção da identidade do concelho e para o estímulo da sua vontade criadora. Boa parte da responsabilidade deste impulso anímico cabe às gerações mais jovens, a que pertencem o autor, Joaquim Castro, e o colaborador, Abel Marques. Pulsa-lhes nas veias a história da terra natal. A sua escrita é reflexiva, movida pelo entusiasmo e pela curiosidade, num misto de rigor e inconformismo. Disposição que não lhes tolda, todavia, o olhar, que se quer pautado por uma abordagem de cariz científico. Tiveram, nomeadamente, a sensibilidade de investigar o nosso “legado histórico” privilegiando fontes de ancoragem local: os jornais Notícias de Melgaço e A Voz de Melgaço, o jornalista melgacense N. Rocha e a memória de conterrâneos. Um dos capítulos mais interessantes do livro consiste, aliás, num relato de vida. Sabendo-se que “cada pessoa que morre é uma biblioteca inteira que arde”, urge programar e intensificar esta recolha de testemunhos e de histórias de vida para uma valorização previdente do património local.

Encarando a cultura actual como um rio que corre na “sombra dos dias velozes”, exposto, portanto, à vertigem do esquecimento, esta obra revisita o passado, procurando convocar “a vida intensa de outrora”. Não o faz, porém, com o propósito de uma contemplação saudosa. Procura-se, antes, que a memória concorra para dar corpo ao presente e alma ao futuro. Nesta perspectiva, o estudo é movido por um duplo ímpeto de apego e de inquietação.

Abre o livro com cinco citações, uma, por sinal, do poeta espanhol António Machado. Não resisto a transcrever o poema na íntegra:

Caminante, son tus huellas

el camino, y nada más;

caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se há de volver a pisar.

Caminante, no hay camino,

sino estrellas en la mar.

Se é certo que “caminhando, não há caminho, o caminho faz-se a andar”, não é mesmo verdade que convém, de vez em quando, olhar para trás para reconsiderar a “senda que nunca mais se há-de voltar a pisar”. Indispensáveis são, ainda, as “estrelas” para nos orientar. Como constata Walter Benjamim “estamos condenados a avançar com os olhos postos no retrovisor”.

São gratas as obras que, como esta, indagam as pegadas e sondam as estrelas do nosso devir colectivo. Ouvir, fotografar, revolver, contar e escrever o concelho de Melgaço, apresentar, sem exageros ou artifícios, a terra, as gentes e a história é, no meu entender, quanto baste para lhe prestar homenagem.

 

                                                                     Albertino Gonçalves

 

 

RIOS DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 16.09.15

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O PARQUE NACIONAL DA PENEDA – GERÊS TEM UM “NOVO” E EXCELENTE ATRACTIVO

 

Melgaço juntou-se aos vizinhos galegos para criar a primeira reserva fluvial da Europa nos Rios Trancoso e Laboreiro.

 

Abel Coentrão

03/11/2014

Jornal Público

 

Já se sabia que o Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) tem um certo carisma, que lhe advém de um certo magnetismo que nos atrai para as suas paisagens de montanha. Mas Carisma é também o acrónimo, em castelhano, para Qualidade Ambiental das Reservas Naturais Fluviais Internacionais do Meio Aquático, o projecto galaico-português que transformou os rios Trancoso e o Laboreiro na primeira reserva fluvial europeia.

 

O Trancoso e o Laboreiro são dois rios pequenos, de montanha: o primeiro está no Parque do Xurés e é um afluente do Rio Minho, de 13,6 quilómetros de extensão; o segundo está no PNPG, tem 8,4 quilómetros e é um afluente do Lima, ao qual se junta na Albufeira do Lindoso. Para além de servirem, em grande parte dos seus troços, como (antiga e porosa) fronteira entre Portugal e Espanha, mantêm muita da biodiversidade que outros cursos de água, em zonas mais povoadas, já perderam. O que explica a vontade transnacional de investir cerca de dois milhões de euros, grande parte dos quais de fundos comunitários, em acções que valorizassem ainda mais essa qualidade ambiental e permitissem uma maior fruição deste património natural.

 

Em termos práticos, o projecto terminou em Setembro, mas não se ouviram “foguetes”, apenas uma pequena notícia da Lusa em Portugal e uma longa e entusiástica explicação na página do Ministério do Ambiente Espanhol, sobre o resultado de um trabalho de dois anos, levado a cabo pela Confederação Hidrográfica Minho-Sil, da Galiza, que convidou a antiga Administração Regional Hidrográfica do Norte (ARH), e os municípios de Entrimo, Padrenda e Melgaço para este projecto no qual o município português investiu 250 mil euros. Dinheiro que acrescenta outra fonte de interesse a esta zona mais setentrional do PNPG.

 

O parque já está classificado como Reserva da Biosfera da Unesco. Abriga espécies de fauna e de flora que o resto do país viu desaparecer e o Laboreiro, que atravessa a conhecida vila de Castro Laboreiro e as suas brandas, as antigas aldeias de verão dos pastores, está integrado no território desta que é a única área protegida de carácter nacional. E esta localização ajuda a perceber, segundo o chefe de divisão de Obras e Serviços Urbanos de Melgaço, Humberto Gonçalves, as reticências da gestão do PNPG a algumas componentes do projecto, como a abertura de caminhos de acesso ao rio, que acabaram por não se concretizar.

 

O plano de Ordenamento do PNPG impede a abertura de novos caminhos, permitindo apenas a limpeza e requalificação de trilhos existentes, e desde que estes não ponham em causa valores naturais protegidos. Ou seja, se a componente de intervenção na qualidade da água, pela eliminação de alguns pequenos focos de poluição, foi atingida, a componente ligada à fruição destes espaços só parcialmente foi concretizada. Teve de ser abandonada a intenção de criar acessibilidades a alguns pontos mais belos do Laboreiro, explicou o responsável pelo projecto na Câmara de Melgaço. Ainda assim, foi possível construir alguns acessos, noutros pontos, tal como aconteceu no Trancoso.

 

Apesar destes percalços, o projecto foi considerado um sucesso. Em Setembro, numa sessão de apresentação das conclusões do mesmo, na Galiza, o presidente da Confederação Hidrográfica do Minho-Sil, Francisco Marín, destacou que, através do Carisma, “pela primeira vez na Europa administrações de diferentes países puseram-se de acordo para proteger e valorizar rios partilhados”. E, acrescentou, esta iniciativa promove o desenvolvimento deste território periférico e das suas populações, outrora unidas pelas cumplicidades do contrabando.

 

Melgaço pretende agora dar continuidade a este projecto, promovendo-o, quer do ponto de vista ambiental, quer em termos turísticos. O concelho é uma das entradas para o Parque Nacional da Peneda-Gerês – através da porta de Lamas de Mouro – e compensa a distância a que está do resto do país com uma diversidade de paisagens, quase todas elas em Rede Natura 2000. Seja no vale do Minho, com as margens pontuadas pelos vinhedos de alvarinho, quer na montanha, entre as casas graníticas de Castro Laboreiro ou da branda da Aveleira, cujas casas de pastores estão a ser adaptadas ao turismo em espaço rural, está bem presente o papel do homem na definição deste território. Uma presença que, ainda assim, conseguiu não estragar dois pequenos rios internacionais.

 

DEMARCAÇÕES DE FRONTEIRA

melgaçodomonteàribeira, 08.08.15

 

Chegou Mem Afonso ao concelho do Soajo em 24 de Julho (1538), o qual pertencia à montaria real. Presentes João Pires e Afonso Eanes, vereadores e ainda Afonso Rodrigues, tabelião de Ponte da Barca que serve o ofício neste concelho. Afirmaram que a demarcação com a Galiza inicia-se em Porto da Varzea, na Serra de Travação e Obieiro, no qual porto havia o ribeiro do Tibo. Proveniente da Galiza o ribeiro de Braços junta-se a ele. Corre a linha de demarcação pelo rio dos Braços até dar ao Porto da Vaca e mais acima ao Porto do Salgueiral. Daqui chega-se ao termo do concelho de Castro Laboreiro. Do lado da Galiza perfilavam-se as aldeias de Intirimo e Pereiro, ambas realengas, Becalte, Quintela e Buscalte, ambas do bispo de Orense e Vilar de Lobos do conde de Ribadave. Nenhuma delas possui cercas ou fortalezas.
Vinte quilómetros separavam o Soajo de Castro Laboreiro. No dia 26 de Julho na casa do concelho Mem Afonso encontrou-se com João Vaz e João Fernandes, juízes ordinários e João Galego procurador do concelho. A demarcação deste concelho começava com o concelho de Intirimo, pertença do imperador Carlos V. A seguir temos a vila de Lobeira, amuralhada, igualmente pertencente ao rei de Espanha. Segue-se o concelho de Vande sob a jurisdição do mosteiro beneditino de Celanova, que não possui cerca nem castelo. Segue-se a Portela do Pão e a vila amuralhada, de Milmanda, pertença de D. Pedro, irmão do conde de Benavente. Castro Laboreiro confina com a Galiza na ribeira de Braços, onde se alcança Porto das Pontes e pelo caminho do Campo do Rosário vai-se ter a Salgueira Ruiva. Atravessam-se vários portos, outeiros e fontes. Segue-se um vale que vai de Cancelas ao Porto de Malhão e atinge-se o rio de Portelinha. Aqui termina o termo no sentido de Melgaço. Os galegos de Intirimo e outras aldeias desde o ano 1520 suscitam dúvidas sobre os limites que se situam do Porto da Ponte ao rio de Braços, atravessando a linha de demarcação com os seus gados.
Melgaço dista dez quilómetros de Castro Laboreiro. Nesse mesmo dia 26 reuniu o enviado real na câmara dessa vila com Estevão Aires e Rui Alvares, juízes ordinários, Martim Mouro, vereador e Gonçalo Morim, público escrivão da câmara. A linha de fronteira aparece delimitada pelo rio Minho. Do lado galego temos a aldeia de Alcobaça, do condado de Valadares, que se cinge ao ribeiro do Trancoso. O termo de Valadares alcança o Porto de Peagal. Aí situam-se as aldeias da terra de Sande sob a jurisdição de Milmanda, pertença de D. Pedro Pimentel, irmão do conde de Benavente. A vila de Milmanda encontra-se amuralhada e possui uma fortaleza. O termo desta localidade começa no ribeiro de Trancoso. Já no rio Minho a vila de Melgaço parte do Porto de Frieira e segue o regueiro da Barqueira. Desde fins do século XV esta vila lançou no rio uma barca de travessia utilizada pelas gentes de ambos os lados. Essa barca paga na Galiza, ao senhor da terra de São Martinho, a quantia anual de 600 reais. Esta terra é protegida pelo castelo roqueiro de Fornelos, pertença de D. Pedro Sotomayor, filho de D. Álvaro Sotomayor, que foi degredado para Itália por ter assassinado a mãe. A referida barca anda no Porto da Reboeira. No rio Minho existem as insúas de Prazenteira, Barca de Seixeiras, Porto de Mandelas e Corvaceira. Todas estas insúas pertencem a Melgaço. Através do rio Minho corre o condado de Valadares, pertença do Marquês de Vila Real, o qual foi desanexado da jurisdição de Melgaço. Os limites do concelho de Castro começam na ribeira de Braços, vão ao Porto de Salgueiral, ao Porto de Pontes, ao Porto de Mey Joanes, ao Porto de Malhão e ao porto de Asnos.

 

DEMARCAÇÕES DE FRONTEIRA

LUGARES DE TRÁS-OS-MONTES

E ENTRE-DOURO-E-MINHO

Vol. III

Centro de Investigação e de Documentação de História Medieval

Universidade Portucalense – Infante D. Henrique

Porto

2003

pp. 16,17

 

D. FERNANDO, O FORMOSO

melgaçodomonteàribeira, 06.07.13

 

 

MIRANDA OU MILMANDA

 

    Esta Vila encontra-se situada em zona fronteiriça ao reino de Portugal desde a sua fundação, no concelho de Cela Nova e integrada na província de Ourense foi das primeiras localidades que por sua voz tomaram partido por D. Fernando a quando da invasão de Castela em Junho de 1369, pelo assassinato de D. Pedro I por seu irmão bastardo Henrique de Transtâmara, mais tarde Henrique II, respondendo o nosso rei Formoso ao apelo da sociedade e nobreza galega pelo direito que tinha à sucessão da coroa Castelhana por morte do seu primo.

 

    A fronteira era um espaço de convivência galaico-minhota no relacionamento entre os habitantes de um e de outro lado, como escreveu José Marques.

 

“Não obstante as dificuldades que o ‘zelo’ dos oficiais régios levantavam ao intercâmbio e convivência das populações de um e de outro lado das fronteiras, sabemos que os moradores de Araújo e Milmanda vinham a Ponte da Barca, onde se abasteciam de mercadorias que aí chegavam por via fluvial, regressando a suas terras, subindo ao longo do rio Lima e que muitos outros vinham abastecer-se a Valença, donde seguiam até Valadares, desviando-se depois pelo monte da Cumieira, rumo a Lamas de Mouro e ao Porto dos Asnos aí passando para a Galiza. Evitavam assim a passagem por Melgaço reclamada pelas autoridades locais a fim de taxarem a mercadoria transportada.”

 

“… as cartas régias de privilégio outorgadas a cada uma destas localidades há pormenores específicos, como o caso dos pastores de Baiona virem apascentar os seus gados a Portugal, ou os de Castro Laboreiro invocarem que a terra é fragosa e que não poderiam sobreviver sem o comércio com Araújo e Milmanda, na Galiza.

 

Assim os pastores de Baiona e de outras localidades galegas entravam em Valença ‘sem contradiçom alguma’ com gados, cavalos e armas  e  moedas e todallas outras cousas vedadas”…

E em defesa dos moradores de Baiona, os homens bons dessa localidade galega vizinha, alegavam junto de D. Afonso V, que eles não se dedicavam ao contrabando, mas recebiam essas coisas ‘em sorte de casamento’, reagindo assim, contra as ‘muitas injúrias’, que os oficiais régios lhe faziam, revistando-os, contra o antigo costume, na mira de encontrarem ouro, prata, armas e impedirem a entrada de gado bovino e cavalos. Interessado como estava na conservação das boas relações entre as populações fronteiriças, D. Afonso V, transformou esse costume em privilégio, que lhes permita ‘levar pam, vinho pêr terra pêra sua provisom e mantimento de suas casas cada hua pessoa e nam pêra averem de vende’

 

    Teresa de Jesus Rodrigues em “A fronteira do Minho nos finais da idade média: aspectos sócio-económicos” num parágrafo descrevia o relacionamento entre vizinhança, com este pequeno texto:

“… Quanto aos moradores de Castro Laboreiro, por carta outorgada por D. Afonso V, sabemos que era costume antigo vizinharem com as vilas galegas de Milmanda e Araújo, substanciando no privilégio de fronteira livre, que lhes permitia transaccionar e transportar, sem quaisquer” “embarguo” ou “contradiçom”, pão, vinho e outras coisas necessárias e na regalia de irem lá apascentar os seus gados, podendo por sua vez, os moradores das referidas vilas galegas apascentar os seus nos montes de Laboreiro.”

 

Por:

Laudo Baptista

 

Retirado de:

 

www.numismatas.com

 

14-10-1930 – DETALHES DO DESCARRILAMENTO DO COMBÓIO MADRID-VIGO

melgaçodomonteàribeira, 15.04.13

 

Relógio do comboio Madrid-Vigo conservado nos Bombeiros Voluntários de Melgaço

 

 

DETALLES DEL ACCIDENTE.

CÓMO MURIÓ LA NIÑA ROSA CARBALLO.

LOS HERIDOS.

 

    Vigo 14, 9 noche. Se conocen nuevos detalles del accidente ocurrido en las inmediaciones del puente de Cequelinos al expreso de Vigo.

    El descarrilamiento sobrevino en una curva proninciadísima que desemboca en el puente sobre el río Miño. Sigue ignorándose aún la causa del descarrilamiento.

    Se sabe que la locomotora salióse de la vía por el lado izquierdo, cayendo por un terraplén de14 metrosde altura y dando varias vueltas de campana. El furgón de cabeza y dos coches de primera, mixtos de cama y dicha clase, y de gran tamaño, se salieron por el lado derecho, quedando tumbados al tropezar contra un talud. A esto se debe que el número de víctmas no haya sido mayor.

    En el terraplén por donde se deslizó la locomotora se hallaba apacentando ganado, a la orilla del Miño, la niña de diez años de edad Rosa Carballo López, la cual foi arrollada por la máquina, muriendo horriblemente aplastada. Los bueyes huyeron despavoridos y fueron más tarde recogidos a larga distancia de la ladera.

    El accidente fué aparatosíssimo. La máquina quedó tumbada junto al río y los coches de primera tumbados también al otro lado. Dióse el caso paradójico de que los otros coches pequeños, mucho más ligeros que los de primera, quedaron en pie. Afortunadamente, no iban muchos viajeros en los coches de primera. Si hubiera ido más gente la catástrofe habría sido horrible.

    Al darse cuenta de lo ocurrido acudió al lugar del suceso el vecindario de Cequelinos, dedicándose a recoger a los heridos. El maquinista, Alfredo Vásquez, apareció en su sitio, fuertemente agarrado a la palanca central de la máquina. Indudablemente, quiso frenar con todas sus fuerzas, pero nada pude hacer por sobrevenir la catástrofe rápidamente. Extraer el cadáver ha costado enorme trabajo. Alfredo Vásquez tenía cuarenta y ocho años, era natural de Orense y estaba casado. Al presentarse esta tarde allí su esposa se desarrolló una tristísima escena.  Deja cuatro hijos de corta edad.

    Frente a Cequelinos, al otro lado del río, se halla enclavado el pueblo portugués de Melgazo. Al presenciar los vecinos la catástrofe tocaron a rebato las campanas inmediatamente, cruzaron el río los bomberos y numerosos vecinos, que se dedicaron a prestar auxilio a los heridos. Es muy elogiado este humanitario comportamiento de los bomberos y vecindario de Melgazo.

    Además del maquinista ha muerto, como antes decimos, la niña Rosa Carballo, que estaba apacentando ganado. Rosa era de nacionalidad portuguesa y prestaba servicio, en unión de un hermanito suyo, en casa de un vecino de Cequelinos.

    El número de heridos se calcula en 15. Como ya hemos dicho, los coches que volcaron vinieron a quedar al lado contrario del terraplén que baja al río, o sea hacia la ladera del monte.

    En uno de los dos grandes coches mixtos de camas y primera, que venía de Hendaya y pertenecia al directo de esta población, viajaba un matrimonio alemán que resultó herido. María Amdrewsk, de nacionalidad alemana, procedía de Bilbao y se dirigía a Monte Estoril y Lisboa, donde tiene su residencia. Presenta heridas en la mejilla y pierna izquierda.

    Parece que entre los heridos figura el cónsul norteamericano en Vigo, el cual venía a posesionarse de su destino. José Cuadrados Diéguez, marino de Sevilla, que se dirigía a Vigo, presenta diversas heridas. Don José Blanco Soler, vecino de Vigo, que regresaba de un viaje a Madrid, sufre diversas lesiones. Don Vicente Domonte García, alto empleado de Ferrocarriles, tiene una herida en la cabeza. Don Juan Lago López, vecino de Vigo, diversas lesiones. El fogonero José Longa presenta múltiples lesiones. Don Dionisio Parrero y D. Venancio Sanz Prats, viajantes, sufren contusiones en la cabeza y en otras diversas partes del cuerpo.

     Se desconocen los nombres de los restantes heridos, por haber sido trasladados a varias clínicas particulares. De todas formas, los heridos lo son generalmente de carácter leve, salvo cuatro o cinco que ofrecen una mayor gravedad.

 

 

ABC (Madrid) – 15/10/30, Página 19

 

http://hemeroteca.abc.es

 

14-4-1929 – FUNDAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO HUMANITÁRIA BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 14.04.13

 

Comboio Madrid-Vigo descarrilado em Crecente

 

ABC. MIERCOLES 15 DE OCTUBRE DE 1930.

EDICION DE LA MAÑANA. PAG. 19.

 

 

DESCARRILAMIENTO DEL EXPRESO DE MADRID A VIGO

 

 

DOS MUERTOS E MUCHOS HERIDOS. EL LUGAR DEL ACCIDENTE. TRES TRENES DE SOCORRO. NOMBRE DE LAS VÍCTIMAS. VIAJEROS DETENIDOS EN MONFORTE.

 

LAS PRIMERAS NOTICIAS

 

    En las primeras horas de la tarde se supo ayer en Madrid que entre las estaciones de Pousa y Arbo, en la línea de Monforte a Pontevedra, había descarrilado el tren expreso que salió anteanoche de la corte. Añadián estas noticias que quatro de los vagones cayeron a la ría desde un desnivel de muchos metros de altura.

 

EL LUGAR DEL ACCIDENTE.

EL MAQUINISTA DEL TREN, MUERTO

 

    Vigo 14, 5 tarde. El tren expreso procedente de Madrid descarriló en el kilómetro 58 de la línea de Orense a Vigo, entre las estaciones de Arbo y Pousa. Ocurrió el descarrilamiento en las inmediaciones del puente de Cequelinos, a las once y treinta y cinco minutos de la mañana.

    La máquina se salió de la vía por el lado izquierdo, y se dice que caió al río Miño. Por el lado derecho descarrilaron el furgón y cuatro coches de viajeros, además del correo.

    Resultó muerto el maquinista, Alfredo Vázquez, y heridos el fogonero, José Longa, y numerosos pasajeros ocupantes de los coches de primera, que fueron los que descarrilaron. Ignóranse los nombres de estos heridos.

    Para recoger a las víctimas se ha enviado un tren de socorro. También han salido de Vigo numerosos automóviles particulares conduciendo médicos y material sanitario.

 

DE ORENSE SALE UN TREN DE SOCORRO

 

    Orense 14, 5 tarde. El tren expreso descendente descarriló esta mañana entre las estaciones de Pousa y Arbo, habiendo resultado el maquinista muerto y numerosos heridos. A la una de la tarde salió de aquí un tren de socorro.

 

TELEGRAMA OFICIAL. EL GOBERNADOR DE PONTEVEDRA

 

    Pontevedra 14, 6 tarde. El expreso de Madrid, que debía llegar a Pontevedra a las dos de la tarde, descarriló a consecuencia del desprendimiento de una trinchera reblandecida por la lluvia cerca de la estación de Arbo.

    A las dos y media se recebió en el Gobierno civil de la provincia el siguiente telegrama oficial del jefe de la estación de Arbo:

    “Según me comunica el inspector de la octava sección, el tren número I ha descarrilado en el kilómetro 58,600, cayendo la máquina al lado izquierdo, y el furgón y quatro coches al lado derecho. Se supone que entre los coches volcados hay victimas. Los viajeros que se salvaron siguieron en automóvil, y confirman la presunción de que hubo víctimas, no pudiendo precisar número ni nombres. Dicen que el material volcado cayó del lado del río Miño, que allí pasa muy cerca de la vía férrea, corriendo el peligro de ser arrastrado por la corriente si no llegan pronto auxilios. Agregan que en el momento del accidente el choque que se produgo fué horrible, así como el crujido de hierros y maderas. Los viajeros daban ayes y voces de socorro. Los viajeros que me dan los anteriores promenores dicen que no saben más porque la impresión del cuadro que veían les impedió fijarse. Pudieron salir del coche próximo al furgón, que fué el menos deteriorado. Por la vía férrea marcharon estos viajeros hasta Arbo, donde tomaron un automóvil que los llevó hasta Pontevedra.”

    Recibido el anterior telegrama ofocial, el gobernador civil marchó al lugar del accidente, acompañado del inspector de Sanidad y el jefe de la Comandancia de la Guardia civil, con material y ambulancia.

    Al lugar del suceso han acudido también los bomberos de la plaza portuguesa de Melgazo. Han muerto el maquinista y una niña de siete años, que está aplastada. Hay también siete heridos, de ellos tres graves, entre los que figura el guarda Angel Rodríguez.

    Se recuerda que en 1915 ocurrió una catástrofe parecida, en la que hubo 18 muertos y 36 heridos.

 

(continua amanhã)

 

GALIZA, ARBO EM 1905

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

Estação de Arbo

 

Fotografia de Guillermo Gonzalez

 

 

GALIZA,  1905

 

    Arbo – Gente do tipo pequeno e provincial rústico; senhores de barbaças negras e lunetas ou óculos, e chapéu mole e fatos largos de aldeia. Galegas feias e fétidas, de botas. Da gare de Arbo vê-se, por cima do rio que muge, uma escapada de culturas que vão até às montanhas; das casuchas da encosta agricultada saem fumos; nas encostas pascem bois; ribas mais próximas, de pinheiros; a água faz ondulações espumantes, quebrando-se nas pedras e muros dos açudes, faz uma pele de réptil, viscosa, bolhosa, verde e respirante. Uma galega que me vê escrever, põe em mim grandes olhos desconfiados. Uma barca a distância, gente do outro lado, à espera de passar. Em Arbo dois ou três chalés. Grande desfiladeiro de rochedos, com pequeno túnel; vinhedos sobre a direita, admirável escapada de vales e de outeiros, de casas e agriculturas, e montanhas. Uma ribeira cuja ponte passamos, confluente do Minho. Rampas de rocha viva. Canaviais nas encostas ou ribas que vão ao rio, grande corrente neste, ínsuas de rochas trágicas, açudes, barcos nos pontos sossegados. Agrava-se o campo. Uma região dura, sem culturas, curta; grande robleda da via-férrea ao rio, verde e de sombra, com grandes quebradas. Desfiladeiro enorme de penedia. Robleda. O rio afasta-se, com açudes, ondeando. Desfiladeiro de rochas. Cai água do alto. Túnel curto: montes, povitos rústicos, quebradas violentas à esquerda, outeiros áridos de rocha, e urze e mato. Da direita, grandes montes escalonados de fincas e vinhas e bosques. Menos rochedos nas margens, mais sossego nas águas. É o Douro, com arvoredos frondosos e vegetação nas terras. De novo margens de penedos, agora enormes e terríveis, alternativamente ocultos e descobertos pelos desfiladeiros que penetramos. A cada momento muralhas a suster a via. Da esquerda, montanhas de pedra, e de vinhedos e de pinhal. Da direita o rio, de margens abruptas, ínsulas de rocha, escarpas piramidais, donde brotam árvores a flux. O rio é todo ziguezagueando entre outeiros de pedra que nós imaginamos ou cortamos por túneis ou desfiladeiros, conforme calha; grandes montanhas altíssimas se adivinham aos dois lados por trás dessas ravinas, ou se vêem, se acaso nos voltamos para trás, a olhar entre dois montes ou desfiladeiros, os anfiteatros verdes, de casas, culturas e igrejotas.

 

 

FIALHO DE ALMEIDA

 

CADERNOS DE VIAGEM. GALIZA,  1905

 

EDICIÓNS LAIOVENTO, SANTIAGO DE COMPOSTELA

 

1ª EDIÇÃO

 

 Retirado de:

 

FIALHO DE ALMEIDA

 

GALIZA, 1905

 

EDIÇÃO DE LOURDES CARITA

 

O INDEPENDENTE

 

2001

 

pp. 80 – 81

 

GALIZA, FRIEIRA EM 1905

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

Frieira – Galiza

 

   Frieira, do lado direito. Do esquerdo, do alto duma grande rampa de rocha, cai uma cascata de água que vem duma robleda frondente de cima. Os galegos e gentuças da estação cheiram a esterco e suor, a 20 metros, e infectam, de fora, o wagon onde eu vou. Castanheiros, robles, cimos de pinhais, do lado esquerdo. Do direito, por cima da estação, nova escapada de culturas até aos mais altos montes; e ao rio vêm em promontórios, montes de rocha com casas e cercados, a embarcadoiros onde barcos atracam, de passagem; a margem alcantilada tem casas por cima, com cerrados de vinha, de cujas janelas mulheres fazem adeus. No alto dum outeiro, perto, a igreja com uma torre esguia na frente, e um cemitério com grandes árvores. Esta igreja desafia o raio, está numa montanha de teatro, escalonada de vinha e pinhal, e dela outros cerros partem, alcandorados, áridos, de cristas pedregosas. Rampas de rocha árida da direita, grandes rampas de vinha, imensas, altíssimas, da esquerda. Desfiladeiro de rocha. De ambos os lados montanhas e montanhas de vinha, imensas, totais, em grande extensão, escalonadas até aos cumes. Todo o terreno até ao rio, em bocados pequeníssimos, aproveitado. Robledas, choupos, castanheiros, água, sombra, rusticidade. Outras vezes quebradas e montes incultos, sem pinhal, ou com pinheiros pequenos e cimos diabólicos.

   Extensa região de montanhas áridas. Um grande túnel, povo rústico, mesmos anfiteatros, mesmo tipo de alturas. Novo túnel. O rio agora é muito baixo e profundo – a via-férrea vai de alto, sobre horríveis muralhões sem parapeito. Isto do lado direito. Do esquerdo, ravinas horríveis de rocha. De quando em quando uma fenda na ravina, e ninhos de verdura onde a água cai. Vamos à margem do rio, a pique, num paredão sem rampa, que não finda, e horríveis precipícios de rochedos, altos, de seis andares, nus, ou com pinheiros e robles. A margem do outro lado é rocha a pique, e por cima dela montanhas áridas que depois aparecem de vinhedo e milho, e com povo pequeno na altura. Túnel extenso. Tenho vindo só. A correria tem sido vertiginosa. O rio; grandes desfiladeiros, alternados da muralha a pique sobre a água, e de rampas de grandes árvores. Túnel pequeno. Ouvem-se os gritos dos garotos à margem da via. A paisagem desde os túneis é dura e severa. Cimos áridos – altos montes de erva curta. Atravessamos um rochedo donde cai água. Pontão sobre um ribeiro cantante. Voltam os vinhedos. Um pequeno povo: estação de Frieira, à sombra duma grande montanha a prumo, de rochas e picos sinistros, e com casotas de granito negro, escalonadas entre vinhas, e com pequenas janelas. Passa um comboio de mercadorias, com muitos wagons de sal. O rio agora tem um aspecto espraiado e minhoto, que mal se ouve. Na estação, gentuça de aldeia, pobre, pequena, galegos de guarda-sol, galegas descalças e com cabelos de porco, barbas rapadas. Vales estreitos escalonados de vinha e casuchas, linhos verdes, caminhos de cabras pelos montes. Ribeiros sob arvoredos, altos, de sombra – grande rampa a pique, de rocha, muito alta. Bosques sulcados de caminhos. Pequeno túnel.

   Um bosque de sobreiras novas, robles e pinhos. Têm a cortiça tirada. Bosques de castanheiros. A via faz curvas, como o rio; castanheiros esplêndidos. Rio largo, verde, em curvas, espraiado, ínsuas de areia.

 

 

FIALHO DE ALMEIDA

 

CADERNOS DE VIAGEM. GALIZA,  1905

 

EDICIÓNS LAIOVENTO, SANTIAGO DE COMPOSTELA

 

1ª EDIÇÃO

 

 

Retirado de:

 

FIALHO DE ALMEIDA

 

GALIZA,  1905

 

EDIÇÃO DE LOURDES CARITA

 

O INDEPENDENTE

 

2001

 

pp. 82 – 83

 

GALIZA, POUSA - CRECENTE EM 1905

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

Estação de Pousa-Crecente

 

Foto de Guillermo Gonzalez

 

 

GALIZA,  1905

 

 

    Pousa. Todo o caminho percorrido é cultivado de vinhas, ou milho, ou árvores sempre que o terreno o permite: sente-se o galego pobre, tenaz e trabalhador. O país é terrivelmente pedregoso e montanhoso. A voz do rio acaba por cansar. Madeiras de pinho em montes na gare. O que será Pousa no Inverno? Há ravinas de oito e dez andares de altura, entre que o comboio vai, num frio de gelo, sem sol. Oh que vertentes, picos e quebradas! Os campinhos escalonados vão lá riba, com escadas de pedra, paredes de pedra segurando os cordões de vinha latada, que trepam aos mais altos cimos; os fumos desgrenham-se nos pinhais. Nos altos cimos solitários, os pinheiros isolados fazem gólgotas, e tem o ar de cruzes. Que custoso deve ser ir daqueles casais à missa às igrejas dos altos, subindo, descendo, pelo Inverno! É o Douro dez vezes mais agravado e montanhoso. O rio agora sem rochas parece morto e estagnado, com a água palustre em lagunas turvas.

 

 

FIALHO DE ALMEIDA

 

CADERNOS DE VIAGEM. GALIZA,  1905

 

EDICIÓNS LAIOVENTO, SANTIAGO DE COMPOSTELA

 

1ª EDIÇÃO

 

 

Retirado de:

 

FIALHO DE ALMEIDA

 

GALIZA,  1905

 

EDIÇÃO DE LOURDES CARITA

 

O INDEPENDENTE

 

2001

 

pp.81-82

 

CONTRABANDO, A FROTA EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

 

A FROTA



   Frota era o termo como se vulgarizou o contrabando. Foi uma invenção do Ná. Em 1940 a guerra mundial estava no auge germânico. A Melgaço chegavam as notícias através dos poucos rádios existentes, dos jornais e principalmente das revistas de propaganda enviadas pelas Embaixadas dos países envolvidos no conflito. Essas revistas eram maravilhosas em aspecto gráfico, coloridas, quase só com fotografias mostrando o progresso dos exércitos dos países em questão. Quem distribuía as revistas inglesas (em língua portuguesa, umas e outras) era o António Reis e o Alfredo Pereira (Pandulho); e as alemãs o Hilário. Este, além de distribuir as revistas expunha nas suas vitrines cartazes e fotografias do cenário da guerra, exibindo o sucesso nazista.

   Nos primeiros anos de guerra, em Melgaço, havia bastantes simpatizantes dos alemães.

   Então, falava-se muito no movimento das frotas marítimas, dos grandes navios, especialmente as frotas (comboios) que atravessavam o Atlântico com suprimentos americanos para os aliados. Os submarinos alemães botavam a pique parte dessas frotas.

   O contrabando em Melgaço era a única actividade do povo; acontecia, vez por outra, para mostrar serviço ou porque não lhes davam a ‘bola’ que esperavam, os guardas-fiscais prendiam as mercadorias. ‘Bola’ era a propina para fecharem os olhos. E este termo derivava da bola de carne com veneno que alguém incomodado dava, secretamente, aos cães vadios ou dos vizinhos para se calarem (morrerem).

   Quando, então, a guarda-fiscal pegava as mercadorias diziam: a Frota de fulano foi a pique. O termo se vulgarizou e passou a designar contrabando em todo o Alto-Minho e pessoas ficaram famosas e ricas como Frotistas.

 

Rio, 31 de Maio de 1996

 

Correspondência entre Manuel e Ilídio