Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XI

26.05.18, melgaçodomonteàribeira
    Continuação do post do 12 de maio de 2018.     Nessa manhã, exaustos, depois de mais uma madrugada uniforme em que tinham o sentimento de serem os raros sobreviventes do lugarejo, transpuseram a estrada e empurraram a porta do familiar café. Os rostos, assolados pelo trabalho ininterrupto e opressivo, denunciavam o cansaço compilado durante a noite. A roupa, vetusta, suja e enfarinhada, dava-lhes uma triste aparência de foragidos. O panificador e o jovem ajudante (...)

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - X

12.05.18, melgaçodomonteàribeira
    Continuação do post do 28 de abril de 2018.     O posicionamento canalizador acaparado pelo bar e a loja fazia do Manolo o promotor prepotente. Adjudicara-se as praxes, as manias e as comédias das criaturas com as quais convivia e que admirava ternamente. Augurava o que lhes agradava e forcejava-se por responder aos seus ardores antes de os exprimirem. Uma palavra, um gesto ou um olhar bastava para o guiar. Tinha, também, desenvolvido uma clarividência inabitual para (...)

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - IX

28.04.18, melgaçodomonteàribeira
    Continuação do post do 14 de abril de 2018.     Com pouco mais de dezoito anos, a desditosa rapariga, oriunda de um lugar da freguesia de Roussas, furtara-se à bestialidade do pai alcoólico, à miséria da casa e ao défice de vicissitudes ao labor desumano do campo.         O abandono da terra, do país, o medo do incerto, que desmoronava qualquer um, fez com que fosse pouco além da fronteira. Ficou na Notária, onde conseguiu o primeiro emprego num café. (...)

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - VIII

14.04.18, melgaçodomonteàribeira
    Continuação do post do 31 de março de 2018.     Apesar disso, com as parcas recompensas da lavoura, os magros teres e uns trapicheos – negócios ilegais – circunstanciais, a existência jocosa desta população era visiva. A gente aceitava a vida rotineira, estóica, compassada pela carrinha que, de manhã, lhe trazia peixe fresco de Vigo; pelo tempo, que era o decisor invariável da viveza e dos encargos colectivos; e pelos crebros comboios que faziam ou não uma (...)

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - VII

31.03.18, melgaçodomonteàribeira
    Continuação do post do 17 de março de 2018.     O não dito reforçava-se e acalentava-lhe com veemência o ardimento de um dia lhe enumerar, assanhada, o ror de vericidades que oprimia nas profundidades mais inacessíveis da alma. Esta situação abespinhava-a e erodia-lhe o psiquismo. As tribulações das previsíveis consequências imobilizavam-lhe a menor tentação, a palavra inaudível, o menor gesto, ocasionando-lhe, nestas circunstâncias, palpitações latentes. (...)

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - VI

17.03.18, melgaçodomonteàribeira
    Continuação do post do 03 de março de 2018.     Com os anos, aprendera a arrogar-se daquele recanto, a viver ali. Agora suspeitava de que não se conformaria com uma mudança. Era o seu buraco, o seu ninho. Morava em Espanha e via Portugal da sua casa; de ambos lados do Trancoso falava-se uma língua gémea, e as pessoas não destoavam. No verão, era um rincão feérico, refrescante; no inverno, para as pessoas que como ele compadeciam ligeiramente de reumatismo, a (...)

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - V

03.03.18, melgaçodomonteàribeira
    Continuação do post do 17 de fevereiro de 2018.     A esposa, a Gracinda, quando a oportunidade o propiciava, não desprezava estas fantochadas de ricos, como ele lhe chamava. Influenciada pelas cativantes estultícias da pantalha e pelas constantes cantilenas das colegas, insistira várias vezes com ele para que arranjasse uma televisão em segunda mão; o homem foi sempre intransigente. Um dia, colérica, chantageou: «Pois olha, se não a compras tu, compro-a eu!» O (...)

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - IV

17.02.18, melgaçodomonteàribeira
    Continuação do post do 03 de fevereiro de 2018.     Uma vez chegado ao fim da ponte, fez uma curta pausa e resfolegou com ansiedade. Meio aquietado, consultou o velho Longines de pulso. Havia uns minutos que as sete e meia tinham ficado para trás, mas o Manel guiava-se sempre pela velha. Deu uma olhadela medrosa à casa situada no limite da ponte, o café-loja do Manolo. Depois da meia hora da carreira, embora descendente, e daquela eternidade de transe e de quebranto (...)

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - III

03.02.18, melgaçodomonteàribeira
    Continuação do post do 20 de janeiro de 2018.     Com a pesada enxada ao ombro, o passo abúlico e o olhar fixado em permanência na outra margem como se estisesse a auto-hipnotizar-se, decidiu, mais uma vez, fazer face à dramática travessia da extensa ponte pelo centro, o modo menos aflitivo para ele. Como mais alguns, não se servia dos passeios laterais, protegidos por barreiras metálicas, como justamente recomenda o bom senso. Uma quinzena de metros abaixo da ponte, (...)

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - II

20.01.18, melgaçodomonteàribeira
    Continuação do post do 06 de janeiro de 2018.     Media mais de um metro e oitenta – era conhecido pelo Manel Grande –, tinha uns ossos ricamente cobertos e uma grande e oblonga cabeça, cujo cabelo, sempre bem rapadinho, deixava sobressair umas orelhas colossais e descoladas. Durante o ano, fosse qual fosse o tempo, uma camisola interior de alças e uma camisa branca de nylon eram a única vestimenta que lhe cobria o tronco; as mangas, sempre arregaçadas, desvelavam (...)