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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MORREU O BANDOLA

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

MORREU O MEU AMIGO BANDOLA

 

EDUARDO DE CASTRO, AMIGO DA CONCHA E DO PIÃO, DO PÉ CALÇADO DE SOCOS, DAS VOLTAS NO BURRO QUE TRAZIA O CARVÃO P’RÁ AVÓ. DAS AMEIXAS ÀS CEREJAS, DAS UVAS ÀS MAÇÃS, DO RIO AO MONTE DO PRADO, DO LEVANTAMENTO E GREVE NO COLÉGIO CONTRA AS PREPOTÊNCIAS DE SIDONIO, CORTES E COMPANHIA. COMPANHEIRO DO 25 DE ABRIL, DO SINDICATO DOS CORREIOS, DAS LUTAS PELA DEMOCRACIA. COMPANHEIRO DO COPO EM QUE AFOGÁVAMOS AS MÁGOAS PELOS ROUBOS AO F C PORTO NOS CAMPOS DA KAPITAL. AMIGO E COMPANHEIRO, HOMEM DA CHAVE E DE MODIFICAR POSTURAS DA NOSSA SOCIEDADE EM MELGAÇO OU NA KAPITAL.

 

POR TUDO O QUE FOSTE, O QUE LUTASTE, OBRIGADO AMIGO E COMPANHEIRO.

 

REPOUSA EM PAZ QUE NOS NÃO TE ESQUECEMOS

 

 

Ilídio Sousa

 

MARIA RODRIGUEZ, A "GITANA"

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

  

Antiga loja do Zequinha e antigo quartel da guarda-civil – Ponte Barxas

 

 

Começo dos anos setenta. O mundo estava em pleno "peace and love". Nós, em plena adolescência. Como todos sabem, é uma etapa, um período difícil. Queremos afirmar-nos, principiamos a formatar o nosso carácter, a criar uma certa independência, a mostrar as nossas preferências, as nossas escolhas contraditórias e, em geral, é quando a ruptura com a precedente geração se manifesta. Nós não infringimos as regras. Deixamo-nos arrastar alegremente pela enorme vaga de pacifismo e de amor, vinda do outro lado do Atlântico e que, como quase tudo o que de lá vinha,  agitava uma grande parte da Europa. O seu princípio seduzira-nos e contribuía para que nos arrebatássemos da nossa personalidade, das nossas veleidades e exibíssemos, cautelosamente, uma relativa liberdade. As diferentes influências provinham de formas e de fontes diversas. A televisão, as revistas, a música, as cidades onde alguns prosseguiam os estudos e as viagens ao estrangeiro que eu efectuava anualmente e de onde trazia matéria para alimentar o nosso "trip" filosófico, formavam o conteúdo donde nós extraíamos tudo o que tinha que ver de perto ou de longe com o nosso singular mas quão quimérico sonho.

Éramos um bando de cinco adolescentes. Entre os mais novos e o mais velho, havia uma digressão de dois anos. Partilháramos, practicamente todos, as brincadeiras da infância pelos campos, pelos caminhos do rio, pelas ruas da Vila e pelas muralhas do castelo, assim como as aflitivas angústias nos bancos safados da escola. Tivéramos que abordar a adolescência por caminhos divergentes, pois nem as vontades pessoais nem as capacidades familiares eram similares. Foi o influxo desta corrente de doçura, vinda de tão longe, que contribuiu para que fortalecêssemos intensamente a nossa amizade e continuássemos  sempre unidos.

Descobrimos os inúmeros grupos de rock anglo-americanos. A música passou a fazer parte de nós a tal ponto que decidimos montar um grupo imaginário. Chamámos-lhe "A Chave". Eu era o guitarra solo, o Costa Velho, o guitarra baixo, o Tónio da Dores, o baterista e o Bandola, o organista. Como todo grupo que se respeitava, também tínhamos um sonoplasta, o Ilídio Carriço.  Só eu sabia fazer uns acordes numa guitarra seca que tinha. Os "ensaios" fazíamo-los à força de grandes rugidos e enorme inferneira na casa do meu pai, na Calçada, à qual passámos a chamar  o "Clube Chateau d'Eau". Foi naquela época que vieram a Melgaço, ao Cine Pelicano, dois conjuntos espanhóis que nos impressionaram grandemente (o termo de banda, naquela altura, era  utilizado unicamente para designar um número bastante elevado de músicos que, geralmente, interpretavam partituras populares nas festas): o Nueva Generación e o Edison. Este último tinha um sonoplasta ao qual chamavam Tripa, por ser magricela. O Zé Castro, grande trocista melgacense, reparando que o Ilídio Carriço, questão magreza, nada tinha a invejar ao técnico dos Edison, encontrou-lhe imediatamente a alcunha apropriada. A partir dali, o sonoplasta d'A Chave também se chamaria Tripa ! Nunca mais lhe saiu. Nesse mesmo ano, estava instalado no largo diante da câmara municipal o Circo Merito, por todos totalmente desconhecido, ignorado, sem interesse algum. No cimo do capitel, os altifalantes espalhavam vezes sem conta durante o dia o Proud Mary e o Suzie Q, versões dos CCR, grupo californiano que tinha um sucesso esmagador. Ficámos petrificados de emoção e de prazer ! Era esta a nossa música, a que nos fazia vibrar no nosso íntimo profundo, que nos procurava um bem estar imensurável e que nos estimulava na procura da nossa via. Agiu sobre nós como uma forma de deliquescência.

Deixamos crescer o cabelo, mas não com excesso. E, para nos parecermos mais que tudo com os nossos ídolos, tivemos que usar de artimanha. Assim, os jeans americanos que compráramos em Espanha, depois de diversas lavadelas, foram manchados com lexívia diluida em água. Em seguida, ainda molhados, para lhes inculcar um aspecto de grande desgaste, esfregamo-los com areia das obras, servindo-nos duma pedra. Quanto mais esfarrapados e ar de velhos tinham, melhor. A finalidade era mostrar que éramos hippies mas não da última hora. A camisa às flores, que todo verdadeiro baba cool devia exibir com aparato, e as camisolas interiores brancas, totalmente escritas com nomes de grupos e com os mundialmente conhecidos make love, not war, peace and love, faziam parte da vestimenta. E, como não podíamos andar descalços, as sapatilhas de corda espanholas eram o mais indicado.

Aos sábados à noite, ainda que o bando não estivesse completo, encontrávamo-nos no Café Central que funcionava como o nosso quartel geral. Quaisquer que fossem as decisões ou as orientações a seguir, eram tomadas lá. Regra geral, apenas saíamos quando havia um baile nos arredores. Se por casualidade não se apresentasse uma alternativa melhor, ficávamos por ali, na conversa, deitando um olho de vez em quanto à televisão espanhola que, além de ter uns programas mais ou menos potáveis, era a única que se captava correctamente. E, alternadamente, um batendo com as mãos por cima da mesa fazendo a bateria e os outros imitando os seus instrumentos com a boca, armávamos a discórdia e a zizânia entre a gente que não largava do olhar os maço de notas de mil pesetas que o apresentador do jogo Um, dos, três, responda otra vez distribuia sem cessar aos participantes. Então, o Zidro, com o dedo aberto diante do nariz, fazia-nos cheee! Interrompíamos o sonho a pessoas que sabiam que naquela vila, em toda a vida, nunca ganhariam, a trabalhar, metade do dinheiro que naqueles maços viam. A cena reproduzia-se várias vezes na noite. Não havendo na Vila outro sujeito de distracção que não fosse o cinema e a televisão nos cafés, as pessoas repartiam-se por ambos.

Aos domingos de manhã, antes de almoçar, e consoante as vontades de cada um, o Tónio da Dores espontáva-nos o cabelo e fazia-nos o respectivo penteado na barbearia do Gildo onde trabalhava. Estava bem visto, faziam-lhe confiança. À tarde, para onde quer que fosse a nossa partida, estávamos apresentáveis, bem lambidinhos. Em princípio, íamos até ao Peso, ao café do Luis onde se bailava toda a tarde. Ou então, no verão, aproveitávamos a refrescante sombra das Águas (as termas) e galanteávamos as meninas convidando-as a dar um passeio nos pequenos barcos ali existentes num modesto lago, feito com a retenção da água de um arroio e de um rego que por ali passavam. O local era propício para cortejar. O denso e razoável aglomerado de árvores e arbustos, onde os verdes se sucediam sem se parecerem, era considerado o paraiso do bem-estar, do repouso e do apaziguamento interior. Nós sentíamo-nos demasiado novos, sem suficiente serenidade para passarmos horas sentados num banco a falar dum passado que apenas principiáramos a construir. Quando encontrávamos moças que simpatizavam connosco, organizávamos pequenos bailes num montículo frente ao lago. Um dos dois bancos de espessa pedra que ali se encontravam servia para pousar meia dúzia de discos e o pequeno gira-discos a pilhas que minha irmã me oferecera e que, de vez em quando, levávamos. No outro, sentavam-se as donzelas.

A grande maioria dos nossos deslocamentos era feita a pé. Tanto de dia como de noite. Era um intenso prazer. Cantávamos, brincávamos, falávamos com as pessoas que por ventura encotrávamos... Gozávamos os momentos em qualquer momento. Mas isto apenas quando as distâncias faziam parte dos nossos limites. Nos outros casos, a boleia, que era uma componente da filosofia hippie, era por nós plebiscitada.

Havia uns tempos que não sulcávamos as estradas da vizinha Espanha. Para nós, não era ir ao estrangeiro. A Galiza era a continuação do Minho. Desde pequeninos que nos apropriáramos reciprocamente. Quantos homens e mulheres cruzaram, nos dois sentidos, as margens do Minho, do Trancoso e da raia seca para formarem família ! Uma colega de escola disse-me há uns tempos, e com muito discernimento, que todos tínhamos uma costela galega. Havia e há uma determinada emulação entre nós, como há entre países, cidades, vilas, aldeias ou lugares mas nunca se sentiu necessidade de demarcar limites. Também houve sempre troca de palavras de escárnio, de gozo mas sempre com um determinado respeito. Nunca tivemos reacções racistas, de repúdio ou injúria.

Usualmente, quando íamos visitar os nossos vizinhos, era em dia de festa, numerosas no ano. Também acompanhávamos o nosso clube de futebol, o SCM, quando lá ia enfrentar uma equipa local. Senão, acabávamos sempre na Notária. Era para lá que, nos dias de pausa festiva, convergia a juventude da zona. Havia um cinema e o Club Nuestro Lar que fora fundado pelo padre da aldeia. Podia-se jogar aos matraquilhos, ao ping-pong, ficar sentado a uma mesa a discutir, ler um livro da biblioteca do clube e mesmo dançar. O ambiente em Espanha era particular. Tínhamos decidido lá ir, depois de uns meses de ausência.

Era domingo. Encontrámo-nos, como sempre, no Central. Depois de tomarmos café, pusemo-nos a caminho de S. Gregório. Estava um belo dia de sol. Apenas havia nove quilómetros e fomos a pé, assim tínhamos resolvido. Calmamente e na brincadeira, íamos progredindo. Ao sairmos da curva da Portela, ultrapassou-nos na sua motorizada o patrão do Tónio da Dores, o Gildo. Acenámos-lhe, como fazíamos a toda a gente, conhecida ou não. Víamo-lo passar cada vez que nos movíamos para aqueles sítios, mais ou menos à mesma hora. Sabíamos que ia à Espanha mas, a que sítio, nunca o soubemos nem nunca lá o encontrámos.

Continuámos a nossa andadura e chegámos à "recta do Val". Num campo, por cima da estrada, estava um fenómeno nosso conhecido a quem chamavam o Bombeiro. Andava a sulfatar na companhia da mulher que era quem trazia a máquina às costas e accionava a manivela. Ele, com a lança, limitava-se a dispersar o sulfato pelas vinhas. O Tripa, virando-se para nós, comentou em voz alta:

— O gajo não é burro. A mulher é que aguenta o peso da máquina !

O Bombeiro, que ouviu, virou o olhar para o intrometido que se permitira fazer um comentário sobre a sua ardileza e lamentou:

— É muito triste ser ignorante !

Demos umas boas gargalhadas. Claro que o homem tinha razão ! Suportar o peso da máquina cheia, custa, mas não é preciso frequentar a escola das Belas Artes. O difícil é saber onde se deve deitar o sulfato. A isto se resumia, visivelmente, o raciocínio do Bombeiro, sem se poder afastar uma ponta de malandrice da sua parte. Este sucesso fomentara a nossa boa disposição. Em Paços, fizemos uma alta na tasca do tio Abílio Soutulho para refrescar as goelas, antes de continuarmos até à fronteira.

Em São Gregório passámos diante da alfândega e descemos a estrada até ao fundo da rua Verde onde, em frente, metade do caminho empedrado que ia até ao regato, descia a pique. Quando chegámos ao fundo, ficámos parados observando as casas em ruinas junto do riacho, discutindo como se fôssemos turistas e, ao mesmo tempo, com um olho no outro lado. Era o nosso método para sabermos se algum guarda fiscal ou civil se encontrava pelas paragens. Não havia sinais de presença policial em nenhum dos lados. Saltámos as pedras que ali tinham sido postas para facilitar a passagem e encontrámo-nos no lado espanhol. Subimos o caminho que conduzia à estrada, quase em frente do quartel da guarda civil. Ficámos a transpirar. Sentámo-nos à sombra, numas pedras junto da loja do Zéquinha, antes de continuarmos até à Notária.

E foi nesse momento que um grupo de raparigas vindo do lado do Pueblado se foi aproximando de nós. Eram todas umas mais bonitas do que as outras mas, no meado, uma delas destacava-se. Perfeita, fisicamente, era morena, tinha uma cabeleira preta bem farta e uma linda cara de cigana. Eram quatro e não tivemos dificuldades em engendrar conversa. Apresentaram-se como sendo dali, umas filhas de guardas civis e outras filhas de trabalhadores especializados da barragem que viviam no Pueblado. Nós, gabarolas, éramos os componentes de um grupo de rock do Porto, A Chave. Estávamos em Melgaço gozando uns dias de férias. Sentaram-se na nossa frente e fomos falando e rindo com elas. Estávamos os cinco pendentes dos lábios da gitana que era a que mais falava. Chamava-se Maria Rodriguez. Não fomos mais além. A Notária ficaria para outra vez. Ali passámos a tarde dando uns passeios pela estrada. À tardinha, regressámos a Melgaço depois de lhes termos prometido que brevemente volveríamos a visitá-las.

Passaram-se duas semanas. Um dia, no terreiro, um de nós encontrou o Bolas, nosso amigo, que lhe disse que tinha ido à Espanha e que encontrara umas raparigas que lhe perguntaram por uns gajos assim e assim, que diziam tocar num conjunto e ser do Porto. “Claro que lhes disse que conhecia tais rapazes mas que não eram do Porto mas sim de Melgaço e que nem tocavam em conjunto nenhum. Estais lixados. Agora não podeis ir lá.“ E ria-se. Estragara-nos o repolho ! Tivemos que começar a evita-lo pois, cada vez que nos encontrava repetia-nos a história. Ficámos furibundos mas tivemos que conformar-nos. Eram assim as patifarias na Vila. E tivemos igualmente que evitar de ir ao outro lado durante uns tempos.

 

Dezembro de 2009.

 

A. El Cambório.

 

PAIVA COUCEIRO E MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

  

Paiva Couceiro

 

 

O CHAUFER VASQUITO

 

 

   Paiva Couceiro, figura militar monárquica, homem de intentonas e inventonas, levou as nossas terras serranas atrás da quimérica Monarquia do Norte em 1912, Melgaço incluído; exilado para terras de Espanha pela Republica, não era para mim figura totalmente desconhecida, já que o Manuel Igrejas me tinha falado de uma relação entre a prisão de Paiva Couceiro – Arbo 1938 – e um amigo comum de Melgaço.

   Há coisas, vidas, que deixam de ser nossas e são história, são o pão do povo, são pedras das nossas muralhas que nunca vergaram.

 

   O texto que segue foi retirado da net

 

El Filandar O Fiadeiro

Memórias de um barbeiro do Alto Minho (1894/1938)

 

www.redaiep.es

 

   Paiva Couceiro. Na noite de 8 para 9 de Março de 1938 foi preso Paiva Couceiro, na passagem de Arbo para Portugal. Ficou da banda de Espanha. O chaufer Vasquito que o ia buscar também foi preso da banda de cá.

 

 

O VASQUITO, O VASQUINHO DA CENTRAL, O VASCO DO NOSSO AUDITÓRIO DA CASA DA CULTURA, O CRIADOR DOS SIMPLES, O ANTI-SALAZARISTA, O DEMOCRATA, O MEU AMIGO.

 

Só podia ser ele.

 

 

Camborio Refugiado

 

O GANG DAS ROLHAS II

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

Melgaço

 

 

   Tinham passado quatro dias, desde então. No quinto dia, por volta das dez da manhã, estava o droguista com o nariz mergulhado na contabilidade e o empregado a despejar um produto qualquer em cartuchos que depois pesava e guardava, quando entrou um homem. Queria falar com o patrão. Este levantou o nariz da contabilidade e foi ao seu encontro.

   Chamava-se Matos. Tinha trabalhado mais de vinte anos como caixeiro-viajante para a fábrica Cortiças do Norte, S.A., sita em Ovar, e que dera falência. Os dois sócios recuperaram o dinheiro que puderam e debandaram para lugar desconhecido, deixando dívidas por todo lado e três meses de salários sem pagar a cada trabalhador.

   — É uma vergonha ! É o que mais se vê nos dias de hoje ! – deplorou o comerciante.

   Então, o infeliz e alguns colegas mais corriam as quinquilharias do norte para vender o stock de vários milhares de rolhas que tinha ficado na fábrica e, assim, recuperar uma parte dos salários. Tinha lá fora uma camioneta cheia de rolhas.

   O comerciante, apesar de compassivo, não deixou de ver aqui uma boa oportunidade de ganhar umas coroas complementares. Chegaram rapidamente a um preço: quatro tostões a unidade. Mais baratas do que as últimas que tinha comprado. Vendia-as a seis, o que lhe dava um benefício de cinquenta por cento. Nada mal, pensou. O único inconveniente, que, finalmente, não era um, é que não podia repartir o pagamento, devia pagar a totalidade imediatamente. Era compreensível. De todos modos, já estavam vendidas. Além das dez mil, resolveu comprar mais duas mil, pois iam começar as vindimas e de certo que ainda venderia mais umas centenas. As traseiras da quinquilharia ficaram atulhadas de rolhas. Era por poucos dias, pensou. Estava satisfeito. Às vezes, o azar fazia bem as coisas.

   Os dias foram passando, passando e o doutor Melo não dava sinais de vida. Decorridas as três semanas de prazo que se tinham fixado, o comerciante perguntou a clientes de Paradela se conheciam o doutor José da Silva e Melo que comprara a Quinta do Moinho Velho. Não, ninguém ouvira falar nesse homem, nem nessa quinta. O droguista, exasperado, principiou a ter pensamentos lúgubres. Pegou no cheque do doutor Melo e foi ao banco Pinto de Magalhães, quase em frente. Os seus pensamentos não tardaram em ser confirmados: era um cheque roubado ! Foi então que percebeu que fora defraudado. Não percebia como não dera pela vigarice ! Nunca fora enganado ! Teve que reconhecer que os homens foram perfeitos. Incumbiu à G.N.R. de tentar esclarecer o caso.

   O comerciante vivia um martírio. Não perdera dinheiro, mas ficara com doze milhares de rolhas nos braços. Foi durante alguns anos que as traseiras da loja ficaram atulhadas delas.

   O empregado ressentido apregoou por toda a Vila o infortúnio do patrão que, para os mais próximos, passou a ser objecto de remoques. O rapaz, cada vez que ia às traseiras buscar qualquer coisa, não se esquecia de refrescar a memória ao patrão, resmungando bem alto: "Tanta rolha, tanto caraças !"

   E o engraçado é que, dias depois, soube-se pelo jornal que noticiava e descrevia a artimanha que, tanto o "doutor", como o "infeliz viajante" que lhe vendera as rolhas, faziam parte dum bando de burlões que, havia pouco, exercitava pelo norte do país, fazendo inumeráveis vítimas: o bando das rolhas. Encheram dezenas de comércios nortenhos de rolhas. Os cheques que deixavam como fiança, quando lhes pediam qualquer garantia,  eram roubados, claro, e as rolhas, supostamente fabricadas num ateliê clandestino. A intrujice estava bem preparada. A polícia investigava.

   Correu também o boato que a burla tocara várias lojas de ferragens da Vila sem, todavia, ter-se confirmado. Certamente que muitos preferiram calar-se para não passar por lorpas. Nunca houvera nem nunca mais houve tanta rolha em Melgaço.

 

Novembro de 2009

 

A. El Cambório

 

FESTA DA LAMPREIA IX

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

   — A instrução é uma razão e uma obrigação suplementares para não violarem as leis. A instrução e a cultura são uma grande chance, que nem todos têm, para podermos perceber o Mundo e vivermos em harmonia e comunhão. Como é que vocês querem, um dia mais tarde, ser eventualmente chamados para desempenhar funções relevantes, no seio de instituições que hoje desrespeitam  ? Não pode ser ! Creio que sou claro, ou não ?

   — Como a água – retorquiu o João.

   Tive de desviar o olhar da cara do tipo e esforçar-me para reter o riso que me tentava.

   Bufou docilmente. Seria pela resposta ou por estar a exaurir ? Tanto nos dava. Silenciosos, esperámos. Fez estalar os dedos das mãos. A missa estava dita. Respirou profundamente e cruzou os dedos, por cima da secretária desta vez. Levantou em seguida a cabeça e estudou atentamente o tecto, à procura de uma solução, como se estivesse face a um dilema. Lembrei-me que já vira esta cena múltiplas vezes em diversos filmes policiais.  Era a hora da verdade. Tinha uma  importante sentença a arbitrar.

   — Errar é próprio do homem, como devem saber. Toda a gente tem direito a uma segunda oportunidade. Espero, para vocês, que seja a primeira e a última vez. De outro modo, as consequências seriam bem mais fastidiosas. Perceberão que não vale a pena perguntar-lhes se fui claro.

   O homem tinha humor. Não valia a pena, não. Consentimos com a cabeça. Já sabíamos qual era a repercussão.

   — Não sei se é a decisão mais adequada, mas vou ser clemente com vocês. Desejo, unicamente, não ter de deplorá-la um dia. Mas isso, só o tempo mo dirá.

   Esperou uma reacção de reconhecimento ou, pelo menos, de alívio da nossa parte. Nada. Ficámos inexpressivos, como até ali.

   — É evidente que conto com a vossa absoluta discrição relativamente à minha determinação. Creio que é inutil dizer-lhes que nada deve transpirar daqui.  Nem há razões para tal, não é verdade ?

   Aquiescemos naturalmente. Nada tínhamos que agradecer. O favor era vendido  bastante caro. Para o Pachorrego e para o Pepe o preço fora o mesmo: o primeiro vira o seu açambarcamento pelos pides aumentar e o segundo sabia que, um dia, estava sujeito a ter de exercer os seus talentos como pintor de automóveis gratuitamente. No nosso caso, era como um investimento a longo prazo que não necessitava de capital inicial. Um futuro engenheiro e um futuro qualquer coisa eram sempre uns bons trunfos nos momentos propícios ou necessários.

   Com a mão aberta, indicou-nos a porta. Levantamo-nos e saimos sem uma palavra. O móvel que estava por detrás dele ia ter mais duas fichas nas gavetas com as letras C e L.

   Nenhum de nós imaginava que, dentro de um ano, a instituição que ele representava e outras que defendia, deixariam de existir, levando-lhe por água abaixo a rede de interesses.

   Passados uns dias, eu e o Pepe encontramo-nos à noite no café Estrela com o Pacho. A conversa depressa derrapou para a peripécia que, na adega do Telmo, o tinha contrariado.

   — Num tens vergonha, és um chupista de merda. Num poupas ninguém. Mas, agora, se t'apanham em Arbo Alfredo... – preveniu-o o Pepe.

   — E, por cima, estragou um quilo de café – acrescentei.

   Acabou a aguardente que lhe restava e disse-nos seguro de si:

   — Num vos preocupeis comigo qu'eu sei desenrascar-me. Ide mas é perguntar ó Daniel quanto pagou pela lampreia e, depois, dai-me notícias. Ainda tendes muito qu'aprender, rapazes – concluiu.

   A intonação da voz e o cintilar malicioso dos olhos lembravam-me qualquer coisa. E, curvado como sempre, saiu do café.

   Olhei para o Pepe, receoso. Creio que, nesse momento, compartilhava comigo o abominável pressentimento que me invadira.

   — Ai, ai, tu queres ver qu'ele fodeu-nos ?

   O Pepe não imaginava quanto estava certo.

   No outro dia, fui à loja do Daniel. As lampreias não custavam mais de seiscentas pesetas. Vígaro maquiavélico ! Confessou-nos, mais tarde, que combinara tudo com os indivíduos dos dois bares enquanto nós ficáramos na praça a admirar os ranchos. Comeu lampreia à nossa custa ! Lembrei-me, então, das palavras que ele pronunciara quando estávamos com o Daniel no café: "... o último que me fodeu num nasceu onte..." Nesse momento, já a burla estava em marcha. Em parte, a culpa fora nossa pois não cessáramos de provocá-lo. Não obstante, o Pepe tinha mais do que razão quando dizia: "este gajo é mesm'um cabróm".

   Não sabiamos por que razão ainda o frequentávamos. Já tínhamos dado voltas e mais voltas à cabeça para tentarmos elucidar a perseverança e o gosto que tinha pela vigarice sem obtermos resultado algum.

   Foram os anos, unicamente, que o amainaram. Hoje, passa os dias à porta do que foi a sua barbearia, sentado numa cadeira. É um ponto estratégico por onde quase toda a gente é obrigada a passar. Vive com o rico passado, com as reminiscências e com a visita ocasional dos numerosos amigos que, apesar de tudo, lhe são fiéis. Para nós que o frequentámos, faz parte de uma espécie endémica. Ele e o castelo são os dois monumentos de Melgaço mais conhecidos. Os seus numerosos feitos de dolo, únicos no género, contribuiram para difundir o nome da Vila e mereciam, consequentemente, uma homenagem e um reconhecimento sem par da parte dos melgacenses.

 

Junho de 2009

 

A. El Cambório

 

FESTA DA LAMPREIA VIII

melgaçodomonteàribeira, 06.03.13

 

Bomba de gasolina do Pigarra

 

 

   Em menos de meia hora deixou-nos junto da bomba do Pigarra, em frente do posto fronteiriço espanhol. Não havia ninguém. Do lado  português, na casota colada à pontinha, encontrava-se um guarda fiscal. Viu o Pachorrego e riu-se. Dissemos-lhe de onde vínhamos e, sem mais, mandou-nos seguir.

   Subimos, rumo a São Gregório, acompanhados pelo canto refrescante da água do regato. A rua Verde levou-nos à capela. Fomos bater à porta do senhor Augusto Seixo, o taxista do lugar.  Disponível de dia e de noite, não conhecia domingos nem feriados. Dizia-se mesmo que dormia vestido. Às três da madrugada estávamos na Vila.

   Quando me levantei na terça-feira de manhã, a minha mãe deu-me o recado. Tinha vindo um guarda republicano dizer-lhe que me devia apresentar de tarde no posto fronteiriço do Peso, munido do passe que pedira no domingo passado. O passe ! Esquecera-me completamente dele.

   Fui apanhar a camioneta das duas à Calçada. A barbearia do Pacho estava fechada. Ao fundo da camioneta sentado, o João. Também se esquecera de dar a entrada ao passe. Estávamos apreensivos. Nunca se sabia do que eram capazes os pides.

   Íamos na recta final da estrada do rio, donde já se avistava o posto, quando discernimos o Pacho e o Pepe que desciam as escadas. O esquecimento fora geral. Uns metros antes de nos cruzarmos e sempre em andamento, o Pacho mormurou-nos :

   — Passastes sozinhos pelo regato, percebestes ? Id'ide, qu'ides ouvir sermóm e missa cantada.

   A mixórdia não devia ser muito problemática, senão tinha-nos prevenido. Quanto a dizermos que passáramos no regato era evidente que não íamos incriminar o amável guarda fiscal.

   Subimos as escadas e pouco ou nada gostamos do olhar que o polícia nos deitou quando entramos. Não era o mesmo que nos tinha feito os passes. Devia ter uns trinta anos. A idade de querer ganhar galões. Acompanhamo-lo para um reduzido compartimento, situado por detrás do balcão onde carimbavam os passaportes. Sentou-se numa confortável cadeira de braços, por detrás de uma secretária, e indicou-nos duas outras, normais, para nós. Detrás dele, do lado direito, uma cómoda com uma dúzia de gavetas. Pela fachada, via-se que o conteúdo estava guardado por ordem alfabética. O ficheiro, certamente.

   — Vocês sabem porque é que estão aqui, não é verdade ?

   Abanamos a cabeça afirmativamente. Mostrou-nos os passes que lhe tínhamos dado quando chegamos e, apontando com o dedo uma linha do fundo, perguntou :

   — O que é que diz aqui ? - não esperou resposta - Sabem ler ou não ? "Este passe é válido vinte e quatro horas" ! - e martelou bem "vinte e quatro horas".

   Silêncio. Optamos pela táctica do simplório. Pegou numa das várias esferográficas que, juntamente com alguns carimbos, decoravam a secretária, e fê-la deslizar entre os dedos da mão direita.

   — Por onde passaram ?

   Deixei responder o João, era o mais velho. Respondeu o que o Pachorrego nos dissera.

   — Pelo regato ? - admirou-se - Com o Alfredo Pachorrego, sem dúvida.

   Devia ter uma séria contenda com este. Fixou atentamente o João que, antes de responder, deixou propositadamente o silêncio prolongar-se. Queria que o polícia vacilasse, fazendo-lhe crer uns instantes que o silêncio era  sinal de resposta afirmativa.

   — Eu e o meu colega só conhecemos o Pachorrego de vista. Não temos confiança com ele. Passámos unicamente os dois no regato.

   Ainda bem que no dia anterior o polícia de serviço não nos quis fazer um passe para todos! Dissera não em vez de "num" ou "nam", à maneira da Vila. O efeito procurado foi alcançado. Deu uma ligeira tossida. Ajeitou-se na cadeira, pousou os cotovelos nos braços desta e cruzou as mãos, brincando com os polegares. O olhar passava lentamente de um para o outro. Sustentando-lho, esperamos com calma e indiferença. Tínhamos tempo.

   — Recapitulemos. Um, não deram entrada aos passes no prazo estipulado. Dois, entraram ilegalmente no território nacional – fez uma curta pausa – Neste país existem instituições com leis que há que respeitar, que honrar. Eu faço parte de uma delas e a minha função é velar para que assim seja. Por causa de uma festa, infringiram a lei e arriscaram-se a uma multa consistente. Não sei se me fiz perceber. Que seria de nós se cada um pudesse fazer o que lhe apetece ? Digam-me !

   Calou-se. Fora o sermão. O seu mestre, o indígena de Santa Comba, podia repousar consolado. Os discípulos asseveravam elegantemente. Dei aos ombros. Que percebesse o que  quisesse. O João ia  deitar a mão aos caracois  da nuca  mas desistiu. Era  uma  falta de  atenção,  devia  ter pensado. Limitou-se a coçar a cabeça e a bocejar imperceptivelmente.

   — O que é que vocês fazem ? - indagou, ao constatar a nossa inércia.

   — Eu ando em engenharia, no Porto - disse o João.

   — E eu no liceu, em Braga.

   Pegou novamente na esferográfica e, pausadamente, bateu com ela na escrivaninha uns longos segundos. Era dono da situação. De certo que procurava as palavras para ripostar. Não tardou em encontrá-las.

 

(continua)

 

FESTA DA LAMPREIA VII

melgaçodomonteàribeira, 06.03.13

 

 

   Foi a vez do cabo da guarda civil que, logicamente, levou a conversa para o contrabando.

   — Si no fuese España, en Portugal se moría de hambre, no ?

   Perante o nosso ar abstruso, incrédulo deu uma estridente gargalhada, mostrando uns dentes amarelados pelo tabaco e, com um franco sorriso, disse para nos sossegar:

   — Bueno, estoy bromeando, no será así tanto. Pero mucha cosa marcha hacia allá.

   Ocupava o bom cargo para saber do que estava a falar. O escudo valia quase o dobro da peseta,  fazendo com que muitas coisas  fossem mais baratas em Espanha. Por isso, bastantes produtos, principalmente alimentares, vinham de lá, de contrabando. Era o caso do azeite, da pescada e do polvo congelados, entre outros. No outro sentido, camiões de café Sical passavam à noite pela fronteira de São Gregório, depois desta fechar para o comum dos mortais. De ambos lados do rio, e havia longos anos, o contrabando, além de ser muito mais rentável do que o trabalho dos campos, fazia parte da essência imutável dos raianos.

   O "alcalde" tirou um maço de notas do bolso para pagar os seis conhaques. O Alfredo empurrou-lhe o braço com firmeza.

   — Quem convidou fui eu, quem paga sou eu. E num vale a pena insistir, "alcalde". Pagará quando for a Melgaço.

   Ui ! Eu, o Pepe e o João olhamos uns para os outros, intrigados.  Não acreditávamos no que ouvíramos. Depois duns momentos, os dois homens estenderam-nos a mão afavelmente e foram-se. Ninguém falou. Inquietos, estávamos longe de perceber o intento do "jornalista". Não íamos tardar em sabê-lo. A única certeza que tínhamos era que, quando o "alcalde" fosse à Vila, o Pacho não deixaria de o depenar.

   — Num é nada mau o Carlos I. Quereis outro, rapazes ? Aproveitai qu'é festa e a lampreia pôs-me bem disposto.

   Não quisemos. Pediu outro conhaque. Estávamos na expectativa, intrigados. Em dois tragos expediu-o. Deu uma olhadela à sala e disse-nos, distraídamente :

   — Sai um de cada vez, pessoal, como se nada fosse.

   A apreensão evaporara-se tão rápido como se instalara. Este indivíduo era mesmo pérfido, indigno, impossível ! Não sabia, ou não queria saber, o que era um princípio, o que era ser honesto. A vigarice devia ser um culto, a sua religião. Era verdadeiramente impenitente !

   A confusão era tanta que, provavelmente, os do café não dariam por ela. Mas também imagino a cara do "alcalde," ou a do cabo da guarda civil, se no dia seguinte lhes dizem que ninguém pagou. Ri-me, nervosamente. Apetecia-me esbofetea-lo. O João, sério, sem lhe tirar os olhos de cima, começou a enrolar a mecha de cabelo à volta do dedo. Se calhar, nem o via. Como a mim, pensamentos insípidos deviam encher-lhe a cabeça.

   — Ai, ai, este gajo é mesm'um cabróm !

   O Pepe não ia por quatro caminhos.  Seguiu-se o riso do pica-pau, mais alto desta vez. Algumas caras viraram-se. Não sabíamos que decidir. Respondeu-lhe o João, desdenhosamente, depois de nos lançar um olhar furtivo.

   — És incorrigível, pá, num há meios ! Sai um de cada vez, mas tu és o último, Alfredo !

   — Num há problemas. Toc'ándar, pessoal.

   Não hesitou. Assim foi. Saímos sem qualquer dificuldade. A meia noite não estava longe. Fundimo-nos no baile. Foi um martírio. Na praça, devia haver cinco vezes a população total de Arbo. Ainda que descontentasse de novo os automobilistas, até na estrada se dançava. Só lhes abriam a passagem depois de várias apitadelas e berros. Então, batiam-lhes na capota com a mão aberta  ao mesmo tempo que os  apupavam.  Choviam  as injúrias. E, como de tarde, chegava a haver pancada. Brincadeiras sem quaisquer consequências aparentes. O Pacho rapidamente desapareceu com alguém. Fomos ondulando de um lado para o outro, segundo os  empurrões que nos iam impingindo.

   Os "Cunters" interpretavam todo género de música. Da cúmbia ao paso-doble, passando pelo chachachá, o tango, o rock'n'roll, a rumba, a rancherada, a variedade espanhola... O que tocavam, tocavam-no bem. Eram quase vinte em cima do palco. Uma verdadeira orquesta.

   À meia noite, interromperam o baile e deitaram um belo fogo de artifício que admirámos com manifesto agrado. No final, ficou-me a doer a nuca uns minutos. Quase que deitaram o fogo por cima da praça... Recomeçou o baile. Mal sabíamos dançar mas, aproveitando a confusão e os empurrões, pudemos "botar" umas cúmbias e uma rancherada sem passar por paralíticos. O resto era grego, para nós. Dei uns bons arrotos. Dançar facilitara-me a digestão.

   O Pachorrego não tardou muito em aparecer. Passava da uma e,  pausadamente, começamos a não sentir as pernas. Dentro de pouco, descampávamos. O Gúlin não tardaria em aparecer, mas não dava para arriscar e voltar ao café. Amaldiçoamos o Pachorrego. Foi procura-lo enquanto esperávamos no "San Jenjo".

   Estávamos a ficar inquietos e a imaginar o pior quando os vimos  passar a porta. Um colega do Gúlin tinha-se ausentado com uma "chavala" para um canto sossegado. Num caso destes, a espera é justificada.

 

(continua)

 

FESTA DA LAMPREIA VI

melgaçodomonteàribeira, 06.03.13

 

Alfredo do Paço mais conhecido por Pachorrego

 

 

   — Que bem me soub'esta lampreia, rapazes ! – disse-nos com aparente êxtase e admiração o Alfredo – Nem podeis imaginar ! Num me lembra de me ter sabido tanto !

   Ninguém respondeu. Estávamos em letargia, estávamos a digerir. Eu não ouvia ninguém, pensava. A gente passava diante do café e, automaticamente, olhava para quem lá estava. Eram pessoas simples, trabalhadoras, que só mudavam de roupa aos domingos. As mais idosas de entre elas eram camponeses. Para estes casais e para os pais, quando estes ainda podiam andar, as festas e a missa dominical eram a única ocasião de sairem juntos. A partida de cartas semanal entre amigos, num bar do "pueblo", aos domingos de tarde, era o exclusivo  e o mais apreciado momento dos homens.  Entre duas partidas, falavam das dificuldades que um ou outro encontrava na vida diária e aconselhavam-se mutuamente. Apesar das terras ali serem mais generosas do que noutros lados, o trabalho dos campos não passava de um paliativo; o remédio era migrar ou imigrar. Assim, muitos jovens iam trabalhar para as cidades galegas mais importantes ou para as outras grandes cidades espanholas. Os mais corajosos, desenraizavam-se e iam enfrentar todas as dificuldades que se podiam encontrar numa terra alheia e com uma língua desconhecida. Por isto, muitas famílias passavam as festas incompletas. As coisas eram similares de ambos lados do rio.

   Ouviu-se o "un dos, un dos" característico das orquestas e dos grupos musicais. Estavam a regular o som dos microfones e o baile não ia tardar em recomeçar. Principiei a sair da minha letargia. A praça estava a encher-se novamente. Apesar do alarido, as andorinhas, numerosas na praça, passavam por cima da gente em vôo planado e faziam um chilreio enorme. O sol deitara-se mas a gente estava mais quente do que de tarde. O verdinho, em qualquer lado, fazia andar e cantar toda a gente.

   O entorpecimento provocado pela lampreiada e do qual acabara de me liberar lentamente, impedira-me de reparar na ausência do Pachorrego. Estava encostado ao balcão a falar com o Gúlin de Padrenda e uns amigos. Conhecia-o da Notária. Vira-o repetidas vezes no bar do cinema. Diante do Pacho, uma copa. Não havia dúvidas sobre o pagador. O Pepe disse-me que lhe tinha ido pedir boleia para todos. Claro ! Nada fazia ao acaso e sem proveito. O Gúlin era carteiro em Padrenda. Sucedera ao pai que, agora, ajudava a mulher na "tienda" que lá possuiam. Quando havia uma festa (estava em todas) ou que o filho queria sair com uns amigos, emprestava-lhe a carrinha que, ordinariamente, utilizava para os serviços da loja. Alto e forte, sempre de  peito bem saido, era um grande e provocante brincalhão. O pai tinha imenso gosto nele. Além de ser filho único e tardio, contava que se casasse com a "maestra" da aldeia, com quem namoriscava há tempos.

   O Alfredo veio sentar-se.

   — Está tud'arranjado, pessoal. À uma e meia, encontramo-nos aqui no café. Deixa-nos ficar na Ponte, junto da bomba do Pigarra. Os conhecimentos têm de servir pr'alguma coisa, num achais ? –  gostava de mostrar que tinha relações, amizades.

   O Pepe respondeu-lhe com o riso trocista do Woody Woodpecker, o pica-pau dos desenhos animados, que imitava perfeitamente. No meio da algazarra geral, passou despercebido.

   Fui pagar, era a minha rodada. Eu a sentar-me e o Alfredo a chamar bem alto, virado para a porta:

   — "Alcalde", "alcalde", por aqui !

   Dois homens sorridentes, um deles cabo da Guardia Civil, de chapéu de três bicos na cabeça, aproximaram-se de nós. Pelo estilo, via-se que estavam abituados a apertar mãos e a olhar de cima. Entre os dedos fumegava-lhes um bruto "puro". Tinham os olhos brilhantes e a tez rosadinha, premissas de nobre funçanada. O "alcalde", ao mesmo tempo que cumprimentava o Pacho, informava o guarda civil.

   — Es Alfredo, el "periodista" de Melgaço ! Qué tal, hombre ?

   À medida que o "alcalde" nos apertava a mão, o Pacho ia fazendo as apresentações. O João já era engenheiro, o Pepe era proprietário de um stande de venda de automóveis na Vila (coisa que nem existia) e eu andava na faculdade de direito, em Coimbra. Não piamos, tanta foi a surpresa. Depois das cerimónias de cortesia, insistiu com as duas autoridades para que se sentassem e tomassem algo na nossa companhia, o que os dois homens, complacentes, aceitaram amavelmente.

   Vieram seis conhaques Carlos I, o melhor do género. Entre os golinhos do famoso conhaque e as chupadas no não menos conhecido havano, os dois dignitários escutaram o Pachorrego expor-lhes o trabalho que executara como jornalista correspondente do jornal "A Voz de  Melgaço". O programa dos dias de festa fora publicado na edição do dia quinze. Conjuntamente, um artigo que fazia um majestoso e destacado elogio a Arbo e à região,  à sua gastronomia e, em particular, à lampreia do rio Minho. No início de maio, outro artigo daria conta do desenrolamento e da afluência das festas. O "alcalde" ficou hipnotizado pelo relato, movendo apenas o traseiro na cadeira, com o qual fazia um balé. Os elogios que fez ao Pacho eram superlativados. Até gaguejava ao procurar as palavras para lhe exaltar e gratificar o trabalho. O Pacho comprometeu-se a enviar-lhe as duas edições do jornal. A figura não sabia que os seus favores tinham um gosto amargo. Era tarde, o que tinha comido e o que tinha bebido saciara-lhe o estômago, mas, quando o apanhasse na Vila, até a alma lhe havia de comer.

 

(continua)

 

FESTA DA LAMPREIA V

melgaçodomonteàribeira, 06.03.13

  

Arroz de lampreia à minhota

 

 

   Chegámos à praça com a barriga sossegada. Havia menos gente e a banda deixara o lugar aos "Cunters", conhecida orquesta galega que já fora a Melgaço. Ali, encontrámos o Daniel Pita, fundador da primeira loja de móveis em Melgaço, em companhia dos irmãos Sentados, de Chaviães. Impecável, como de costume, vestira um fato azul escuro às riscas, o último que mandara confeccionar. O cabelo parecia palha d'aço. Compridinho e bem penteado, ainda que houvesse um vendaval, não mexia de um milímetro, graças à laca que por ele espalhava. Um amigo nosso dizia que, quando o cabelo lhe caisse, caia-lhe todo junto, como um capacete. Já tinham comido uma boa lampreia. O mais tarde às onze e meia, tinham de ir embora pois vieram de carro e a fronteira em São Gregório fechava à meia noite. Era um grande amigo... Lá fomos todos para o café. O Daniel ia pagar a rodada. Contámos-lhes a do café Sical e o corte que fizéramos ao Alfredo. Riram-se de  boa vontade e repetiram-lhe várias vezes para chateá-lo :

   "Bem te lixaram, Alfredo." "Estás a ficar velho, caramba, quem te via e quem te vê !" "Nem parece de ti, pá !"

   Toda a gente se ria, excepto o Pachorrego que se mantinha sério como um guarda republicano e batia ligeiramente com o calcanhar da perna direita no chão, sinal de desagrado. Esperou que nos calássemos e, olhando para nós com um ar velhaco e pérfido, preveniu-nos solenemente:

   — Sabeis, rapazes, o último que me fodeu num nasceu onte, há muitos anos que tem a barba branca !

   Mau vaticínio! Não soube porquê, mas não gostei da segurança, da intonação com que se exprimira, nem do cintilar malicioso dos olhos. Seria dos copos ? Era possível, mas tinha a impressão que tramava qualquer coisa. À medida que o fora conhecendo, aprendera a ter um pé atrás, a não ignorar as suas palavras quando falava deste modo.

   Ficámos mais uns minutos a ouvir os "Cunters". Estavam a fazer uma demonstração que se prolongaria até às dez. Das dez às onze iriam jantar. O sol deitara-se. A  hora de comer a lampreia ia aproximando. Deixámos os nossos amigos e encaminhámo-nos para o bar. Chamava-se "San Jenjo", nome de uma vilita galega à beira mar. Estava quase cheio. As poucas mesas inocupadas de certo que estavam reservadas. Ao balcão, empurravam-se uns aos outros, tanto para beber como para comer umas "tapas". O barulho, que foi uma das duas coisas que mais me marcaram em Espanha, era atordoante. Toda a gente falava alto e ao mesmo tempo. Quem queria ser ouvido, tinha de falar mais alto do que o vizinho e assim sucessivamente. Estavam habituados aos berros, ao barulho e, consequentemente, creio que também estavam imunizados contra a dor de cabeça. A segunda, foi o tutear. Os novos aos velhos, aos conhecidos como aos desconhecidos, todos se tratavam por tu. Para mim, era uma obscenidade. Desde pequeno que me incutiram o respeito pelos mais idosos (era incapaz de tratar o Pacho por tu) e que tratei os meus pais por você. No início, quando nos cafés e nos comércios me perguntavam "Que te pongo?", contrariava-me consideravelmente; depois, fui-me acostumando.

   A travessa estava bem fornecida. A lampreia, sem cortar, para vermos que nem um padacinho lhe faltava. Se não fosse suficiente, havia mais arroz na panela, disseram-nos. Não ficou nada nem foi preciso mais. Comemos como os padres, sem falar. A minha mãe dizia: "Ovelha que berra, bocado que perde." Ficamos empanturrados. A maioria das  pessoas cozinhava as lampreias com bocadinhos de presunto. Ainda assim, e talvez por eu ser do monte, preferia quando estas levavam uma pitadinha de unto fresco. Enfim!  Estava "de p*ta madre" (muito boa), tinham dito os dois casais da mesa do lado. Acabámos com a segunda garrafa de branco e pedimos a conta. Oitocentas e oitenta pesetas com o vinho. O pão era gratuito. Duzentas e vinte pesetas cada um. Perguntámos o câmbio, fizemos a conta em escudos e demos o dinheiro ao Pacho que foi pagar. Comprámos (comprou o Pepe) uma pequena caixa de cigarrilhos para fumarmos enquanto tomávamos café.

   A praça pouco mais de meia estava. Muita gente ainda se encontrava a jantar. Sentámo-nos a meio do café pois à entrada não havia mesas disponíveis. Tomamos café, se tal se lhe podia chamar, e, para ajudar a digestão, uma copa de Soberano que, como a publicidade dizia, "es cosa de hombres". Acendemos os cigarrilhos e aproveitámos aqueles momentos de agradável e efémero usufruto. Fumámos num silêncio eclesiástico, apenas interrompido por um grande arroto do João. Ao Alfredo, com as mãos por cima da pança, como de costume, apenas lhe faltava a sotaina  para parecer um verdadeiro padre. Os altifalantes dos modestos carrosseis e de algumas barracas de tiro, instalados numa pequena rua paralela à praça, propagavam uma música disparate e esganiçada.

 

(continua)