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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

A CRUZ DE PENAGACHE - VERSÃO 1

melgaçodomonteàribeira, 26.10.19

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davidexordos - pt.wikiloc.com

 

A CRUZ DE PENAGACHE

(uma história, três versões)

 

1

 

Os mais antigos falam dela como de algo quase imaterial, inacessível, mas com uma presença na memória que a passagem do tempo não diminui. Poucos a viram, mas o que testemunharam e sobretudo ouviram não dá para esquecer os arrepios que o desconhecido provoca quando algo inexplicável se nos impõe e lembra a fragilidade de que somos feitos, como a vida é um presente que nos dão mas também nos podem tirar, sem respeito nenhum pela condição de filhos de Deus, que a todos cria da mesma maneira, iguais. Os mais novos, desafiando a distância e os maus caminhos, singram, planalto fora, nas motas que o dinheiro e a vaidade de parecer, de ter o que os outros têm, e se possível ainda melhor (a inveja é um mal geral), chegam lá e detêm-se a espiolhar tudo, com um vagar que os anciãos não tinham. Não têm fardos à espera para fazer chegar a um qualquer destino, do lado de lá ou de cá da raia, os negócios que por ali ainda se fazem estão facilitados e têm subtilezas que afastam os que têm alguns escrúpulos. Também não têm afazeres no eido, o ócio é nos dias que correm a ocupação principal de uma juventude mais ou menos letrada que vive a expensas da família até terem cabelos brancos.

Pelo registo na pedra que a encima, 1911 ou 1912, o escriba fala de ouvido, não há ninguém para dar testemunho nem da sua construção nem do porquê da mesma. Os mais antigos do lugar mais próximo do lado espanhol contam, esvaziada a chávena do café e a copa da aguardente, que ali mataram um português, um ajuste de contas para lavar a honra de uma irmã iludida e enganada. Não era muito comum, mas acontecia portugueses e galegos conviverem nos montes quando guardavam o gado e os rapazes frequentarem os bailes e festarolas de um e outro lado da fronteira. Um rapaz do Souto e uma rapariga de Santo Amaro conheceram-se numa romaria e os encontros passaram de ocasionais a procurados. A moça tomou-se de amores, pensou que era correspondida e o que tinha de acontecer aconteceu. Algum tempo decorrido tornou-se o namoro evidente, a rapariga não conseguia esconder a proeminência progressiva do ventre. Instada pelos irmãos a denunciar o oportunista, quis ela remediar, avisando o namorado que urgia assumir a sua responsabilidade. Aparentemente, o amor não o consumia e não estava pronto para ser homem, perdida a honra da moça, perdia ele a sua, abandonando-a, não estava sozinha no mundo, tinha muitos irmãos para a ajudarem a criar o filho.

Os três irmãos uniram-se para cobrar a desfeita, até um garoto ainda menor de idade tomou parte no desforço. Observaram as idas e vindas do bandalho pelos caminhos da serra e uma noite surpreenderam-no nas pedras de Penagache. A probabilidade de encontrarem alguém era mais do que mínima e, sem testemunhas, fizeram-no pagar a sua dívida com o bem mais precioso que tinha: a vida. Deixaram o corpo exposto ao tempo, sem qualquer resquício de respeito, abandonado no lugar onde foi encontrado em adiantado estado de decomposição. Foi identificado pela roupa e pelo anel que usava no dedo mindinho da mão direita. A família, amargurada por uma vida ceifada tão antes de tempo, mandou fazer uma cruz no alto da pedra na base da qual o tinham encontrado. Das razões que o teriam levado àquele fim não queriam saber, ou sabiam e calavam-se para não dar mais força às vozes viperinas do povo.

 

OS NOSSOS MORTOS

melgaçodomonteàribeira, 12.10.19

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mãe do sr. amadeu abílio lopes e banda dos b.v.m

 

OS NOSSOS MORTOS

 

É sempre doloroso falar daqueles que partiram, mas as notícias que tem sido dadas nos jornais da terra acerca dos que morrem são por norma curtas, demasiado sucintas para aqueles que, como eu, gostam de saber mais alguma coisa sobre essas pessoas, nossos conterrâneos. Não se trata de curiosidade, de mera estatística, mas também de sentimento. Nós, os que saímos de Melgaço, nunca esquecemos o nosso berço, nem as suas gentes. Sentimos a sua falta, sua cumplicidade, por vezes até o seu mau feitio!

Em A Voz de Melgaço de Outubro findo (11/10/2013) falou-se de Amadeu Abílio Lopes, mais conhecido por “Bicho Fino”, alcunha que a sua própria mãe lhe pôs, por achar que era esperto, vivaço. Diz-se aí que morreu em Abril de 2013, com 99 anos de idade. Acontece que ele nasceu no lugar de Cortinhal, Chaviães, a 13/3/1913, pelo que se a minha máquina de calcular não me trai ele faleceu com 100 anos feitos e não com 99 anos. Outra coisa que se diz no jornal é que «cedeu a sua parte como accionista, mais de 70% à Câmara Municipal.» Se a memória não me falha, eu li na altura (1997) que eram 68,8/%. A diferença não é significativa, mas o seu a seu dono.

Amadeu Abílio Lopes era filho de Vitorino José Lopes, soldado da Guarda-Fiscal, e de Maria Rosa Cortes, lavradeira. Em 1927, com treze ou catorze anos de idade, no segundo ano da ditadura dos militares, emigrou para o Brasil, onde teve de trabalhar muito, e “no duro”, apesar da sua tenra idade. Depois de adulto entrou no mundo dos negócios, foi dono de uma ou duas padarias, conseguindo juntar algum cabedal.

Casou em 1942 com Ulysseia Pires, natural do Rio de Janeiro, a qual Não lhe deu filhos. Nunca se esqueceu da sua freguesia de nascimento, mandando ali construir uma vivenda, que baptizou de “Lar da Saudade”, onde passava férias quando vinha a Portugal.

Também se diz em A Voz de Melgaço que ele foi «um benfeitor» da Câmara Municipal de Melgaço. Quanto eu sei a doação não se traduziu, nos primeiros anos, num benefício para a Câmara, mas sim numa despesa, a juntar a outras. Na altura que o senhor Amadeu, juntamente com outros sócios, criou a sociedade anónima, tentava-se em Melgaço erguer uma Adega Cooperativa, a qual não foi avante por diversas razões, uma delas por falta de apoio financeiro. Há muita gente no concelho, e fora dele, que poderá falar nesse assunto melhor do que eu.

É certo que ele deu, ao longo da sua vida, algum dinheiro à Santa Casa da Misericórdia e aos Bombeiros Voluntários de Melgaço, sobretudo à sua banda de música; ninguém poderá negar isso, pois está registado na imprensa local. No entanto, ninguém pense que a entrega gratuita das acções da “Quintas de Melgaço – Agricultura e Turismo, SA” ao município foi um gesto altruísta, fundado no seu grande amor por Melgaço. Há quem afirme que teria feito bem melhor se as tivesse vendido por um preço justo a pequenos e médios produtores. Que vocação, que competência técnica e científica, tem uma Câmara Municipal para gerir uma sociedade anónima? As Câmaras Municipais que se saiba são organismos políticos, não são gestoras de empresas, sejam elas sociedades anónimas ou não. Sendo assim, perguntar-se-á: por que motivo o presidente da edilidade aceitou essa oferta? A resposta não é fácil, e até pode haver mais do que uma resposta. Quando eu era pequeno dizia-se em Melgaço que quando a esmola é grande o pobre desconfia. Pelos vistos ninguém desconfiou, e os autarcas aceitaram com agrado a dita prenda. Em troca, pois de uma permuta, e agradecidos, atribuíram à Praça José Cândido Gomes de Abreu o nome do senhor Amadeu Abílio Lopes, além da medalha de ouro do município. Tudo bem. José Cândido morrera em 1908, já estava esquecido. Quem se lembra que foi graças à sua iniciativa que se criou o hospital? No entanto, vão ficando no esquecimento, espécie de limbo, alguns melgacenses que contribuíram imenso para o prestígio do nosso concelho; mas não doaram acções de empresas, mesmo que as mesmas não valham fortunas.

Nada me move contra o senhor Amadeu Abílio Lopes, não o conheci pessoalmente, na velhice quis ser útil ao seu concelho, interveio no seu desenvolvimento, mas daí a subir ao pódio… E se a moda pega? Isto é, se no fim da sua vida qualquer empresário doa ao município a sua empresa? Talvez eu esteja a dar relevo a coisas que em si não tem grande importância, mas de facto gostaria que aqueles que foram eleitos tivessem mais em conta a opinião do povo quando se atribui o nome de uma praça, avenida, rua, a figuras mais ou menos conhecidas.

Na citada notícia de A Voz de Melgaço fala-se de Rosa, casada com Maximino Reinales: «Amadeu Abílio Lopes não tinha filhos. Criou, como se fosse sua filha, Rosa Esteves…» Fiquei admirado, pois o senhor Amadeu e esposa residiam no Brasil e a esposa do meu amigo Maximino morava e mora em Melgaço. É provável que a tenha apoiado financeiramente, que a estimasse, a tenha convidado para ir passar uns tempos com ele e a esposa ao Brasil, mas criá-la, no verdadeiro sentido da palavra, julgo que não. No entanto, se alguém souber mais do que eu sobre este assunto faça favor de me esclarecer.

Gostaria de mencionar outros conterrâneos que faleceram recentemente: uma senhora de Castro Laboreiro, que já tinha 104 ou 105 anos de idade, uma bonita idade; Manuel José da Silva, da Vila de Melgaço, cuja morte e de sua filha, Maria de Fátima, nos comoveu a todos; de Leonardo Carvalho, mas não posso roubar mais espaço ao jornal, pelo que falarei deles noutra oportunidade.

Desejo a todos os melgacenses um bom Natal e que 2014 nos traga mais justiça e já agora mais algum dinheiro.

 

                                                            Joaquim Rocha

 

   NR.: Agradecemos ao Dr. Joaquim Rocha as achegas à notícia da morte do Sr. Amadeu Abílio Lopes.

   Fizemos as diligências mais que suficientes para obter mais dados, e até pedimos que escrevessem sobre ele, pois com ele, pois com ele tinham convivido bastante.

   Estranhamos o silêncio dos responsáveis da Adega de Melgaço cuja maioria das acções ele ofereceu à câmara. Pedimos que nos fornecessem uma foto do Sr. Amadeu. Insistimos no pedido, mas ficámos sem resposta.

   Da nossa parte, tudo fizemos para que, no momento da verdade, que é o da morte, primássemos pelo acolhimento e pelo sanador e retemperador perdão, eventualmente o Sr. Amadeu precisasse por parte de quem não se sentiu tão correspondido como julgava merecer.

 

                                                                                                 Carlos Nuno

 

Em, A Voz de Melgaço

FÉRIAS EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 03.08.19

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igreja de santa rita  roussas

 

 

DEPOIS DAS FÉRIAS

(A Voz de Melgaço, 01.09.1971)

 

Alguém passou no meio de nós…

Manhãs de Primavera…

Tanta coisa linda se pode fazer…

 

À hora a que o nosso jornal tiver saído, muitos dos nossos conterrâneos e amigos, que vieram até junto dos seus, a esta linda terra, terão regressado aos lugares de trabalho.

Nos seus carros, nos comboios, nas camionetas, como puderam, lá se foram eles, deixando-nos umas lindas manhãs de Primavera. Aqui deixaram muito dinheiro. Nas suas famílias, nos comércios, nas igrejas, com suas promessas e a sua gratidão, foram lindas manhãs cantantes. Mas alguém passou na nossa terra. Aqui estiveram Melgacenses que ajudaram a construir um Melgaço maior, na sua modéstia, na sua humildade.

Vamos lembrar alguns, já que nos é impossível recordá-los a todos. O Sr. Joaquim Domingues, da Carpinteira, que não pôde frequentar uma Universidade, mas, com o seu trabalho, chegou a lugares dos de mais responsabilidade na escala social, a Director de um Banco no Rio de Janeiro. Pois este nosso amigo esteve sempre junto de nós, melgacenses, nas grandes batalhas. Com ele e outros se comprou o aparelho de Raio X para o hospital, que tanto bem nos tem feito.

Um dia, já distante, o Sr. Joaquim segredava-me que desejava dar 10.000$00 a Santa Rita. No hospital, fazia falta uma ambulância e nós sugerimos-lhe que, para então, seria mais proveitosa a compra da ambulância, para serviço dos pobres. E os 10.000$00 foram para o hospital e sua ambulância.

Tem sido um dos grandes obreiros de Santa Rita. Com ele se lançou a primeira pedra da nova igreja, com ele avançamos.

Paulo Martins, de Sante – Um simpático rapaz, ainda solteiro, que na altura dolorosa da saída das Irmãs, do hospital, num país que não tinha enfermeiras em número suficiente, pôs o seu carro e o seu colega Sr. Augusto César Fernandes, da Carpinteira, e com ele se avançou, só num dia, por cerca de 600 quilómetros por essas terras do Norte, à procura de pessoal. E isto felizmente enquanto a nossa gente, descansada, confiando na Mesa da Santa Casa, podia dormir tranquila… 600 quilómetros, só num dia! Mas o hospital não fechou.

O Armando Malheiro, o António Inácio – Ambos em França, ambos em Melgaço. O primeiro, alma da nossa conferência vicentina em Melgaço, e tantas despesas fiz, em serviço do hospital e de Santa Rita, franqueando-me a sua casa, e as suas numerosas amizades, em que tanto se fez. E tantos dias e sempre com o mesmo sorriso. Como o Armando Malheiro… Não voltarei mais a França, na missão que lá me fez ir. A idade, o cuidado dos nossos 5 irmãos velhinhos em Santa Rita não me deixaram andar por longe. Mas aqui os venho lembrar e, neles, a todos quantos nos deram o seu coração, para estas belas obras a serviço do Pai. E foram muitos.

Pois aqui passou alguém na nossa terra. Como Santa Isabel, podemos dizer: - Majestade, levo flores. Passaram flores na nossa terra. Quantas coisas grandes e belas se podem fazer na nossa terra!

 

                                                                                                Padre Carlos

 

Padre Carlos Vaz: Uma vida de Serviço

Edição: Carlos Nuno Salgado Vaz

Coordenadores: Carlos Nuno Salgado Vaz

                           Júlio Nepomuceno Vaz

Braga

Julho 2010

pp. 607,608

 

UM CONCURSO DE CÃES DE CASTRO LABOREIRO (conclusão) - ÓBIT0

melgaçodomonteàribeira, 18.05.19

49 b2 - vencedora concurso cães castro 1971.jpg

vencedora do concurso

(continuação)

 

Festa sem foguetes e três mil contos por mês

O «Cinco de Outubro» é dia de festa na freguesia, festa sem foguetes nem procissão. Prato melhorado ou saia nova. Mas festa. A mulher de Castro Laboreiro vê em tal dia a promoção dos seus cuidados no mundo canino. Data que é um chamariz à terra, de gente de todos os lados e culturas. Dia em que os naturais contactam mais de perto e se familiarizam com as pessoas da cidade.

Hoje já não se interessam pelos prémios pecuniários – disse-nos aquele pároco – Só lhes interessam as taças e as medalhas ganhas pelos seus cães para as exibirem no melhor canto da casa. E o dinheiro dos prémios não lhes interessa porque em Castro Laboreiro todos vivem muito bem. Não há pobres.

A nosso pedido, o «chefe espiritual» daquele povo esclareceu-nos:

Para esta pequenina terra, os emigrantes enviam mensalmente à volta de três mil contos.

Esboçamos uma reacção de surpresa. O Padre Aníbal, então, à muita insistência nossa, acedeu em pormenorizar:

Cada um remete para a família uma média de cinco a seis mil escudos.

Mas há quem remeta todos os meses meia centena de contos, garantiram-nos; aquele sacerdote não desmentiu. O seu sorriso antes, confirmou. E nós próprios chamamos com a esposa do proprietário da estalagem de Castro Laboreiro, na qual foram gastos três milhões de escudos, que, depois de muito instada, acabou por confessar que o marido lhe mandava de França trezentos contos anuais, ou seja, uma mensalidade de 25!

 

«Vá perguntar ao inferno»

Os cães em número de 25, a ser presentes aos juízes, Drs. António Cabral presidente do Clube Português de Canicultura, e Teodósio Antunes, foram dispostos por classes: de cachorros, destinada aos exemplares que, à data do concurso, tenham mais de seis e menos de doze meses de idade; e aberta, destinada a todos aqueles com mais de um ano.

Enquanto os bichos eram minuciosamente observados, com muita mais minúcia do que as «misses» num concurso de beleza, pois eram apalpados de todas as formas e feitios, incluindo grãos e dentes, os mirones da cidade (Lisboa, Porto, Évora, Faro), que ali se haviam deslocado propositadamente, procuravam estabelecer contactos com toda aquela gente, que nos pareceu, contudo, pouco receptiva a satisfazer a curiosidade geral, nada disposta a ser considerada avis-rara.

O repórter afadigou-se em formular perguntas, mas, quase sempre, esbarrou com muralhas de mutismo. Então quando lobrigava obter resposta, era do género: «Não sei». «Para que quer saber?», «Vá perguntar ao inferno» Não saíam disto. Deixarem-se fotografar foi problema ainda mais difícil. Sempre que o camarada fotógrafo apontava a máquina e elas davam por isso, era certo e sabido virarem, ostensivamente, as costas. Indignavam-se mesmo. «Tire o retrato ao cão e deixe-nos a nós. Já toda a gente sabe que «semos» bonitas. A gente não precisa disso». Não fora a perícia do Orlando e a reportagem não conseguiria fixar as suas expressões.

 

Modernos quartos-de-banho servindo de arrecadação

As casas circulares cobertas de colmo, durante séculos características da região, foram substituídas pelas casas de telha «francesa». Com o dinheiro que amealha na estranja, o natural de Castro Laboreiro começa por mandar construir a sua própria casa. Depois, investe na cidade, comprando andares em regime de propriedade horizontal.

Apesar disso, naquela aldeia serrana, o forasteiro, nas primeiras impressões, fica com a ideia que os naturais vivem com extrema dificuldade. O aspecto humilde das pessoas, de cara queimada e enrugada, precocemente envelhecidas, leva exactamente a supor que subsistem em função do que ganham com a enxada na mão. De parcos recursos portanto.

Pois ali, mais do que em qualquer outro lado, pode dizer-se que assentou arraiais a decantada sociedade de consumo. Dizia-nos quem mais e melhor está informado acerca de Castro Laboreiro, que é precisamente o Padre Aníbal que lá nada falta. «Televisores, torradeiras, máquinas de lavar e barbear, gravadores, aspiradores, aquecedores. Tudo aquilo que a técnica criou para facilitar a vida de cada um, há cá na terra.»

Alguém de fora, mas que por funções profissionais vai muitas vezes a Castro Laboreiro, dizia-nos depois: «É formidável, de facto, como esta gentinha tem tudo.» Um sorriso. Uma dúvida, como que se interrogando a si próprio se havia ou não, de dizer-nos o resto. Acabou por dizer: «Têm tudo realmente. Mas têm tudo dentro de caixas, tal como veio das lojas. Novinho em folha. Nem todos, claro. Com muitos, porém, isso acontece.» Depois: Conheço casos em que os quartos-de-banho, por exemplo, servem de arrecadações. Estão a abarrotar de coisas. E ainda que os artigos sanitários sejam o último grito, tenham ainda o selo da fábrica, (por estrear portanto), as pessoas vão ao campo fazer as suas necessidades…»

Tal estado de coisas tende, contudo, a acabar, dado que os filhos dos emigrantes, frequentam as Universidades do Porto, Coimbra e Lisboa e o Seminário, tendo a terra já os «seus» doutores.

 

Seis contos pelo «Paris»

As pessoas que ali se haviam deslocado propositadamente para adquirir um cão de «Castro Laboreiro», e para isso atravessaram o país de lés a lés, percorrendo mais de mil quilómetros (!!!) procuravam ouvir aquilo que os juízes cochichavam acerca de cada cão julgado, para depois abordarem o respectivo proprietário, antes de serem conhecidas as classificações. E é fácil saber porquê. Evidentemente que desde a altura em que o proprietário soubesse que o seu animal havia sido premiado, acto contínuo faria «render o peixe», que no caso era pedir mais dinheiro pelo animal, elevado à categoria de vedeta. Cão com diploma e medalha é mais caro. A propósito julgámos que a melhor altura para o negócio não seria aquela. Talvez por isso, há «peregrinações» a Castro Laboreiro, «santuário» da raça com o mesmo nome, durante todo o ano, ainda que os meses de Março e Abril sejam aqueles que mais gente atraem.

Pois por cachorros de um mês, portanto ainda «imberbes» para participarem no concurso, os donos pediam entre 200 e 250$00. Mas já o bicho considerado o melhor do certame, de seu nome «PARIS», propriedade de Manuel Gonçalves Loureiro, ausente no Canadá e apresentado por sua mulher Benezinda Gonçalves, teve cotação de seis mil escudos. Muito dinheiro, convenhamos, segundo o nosso ponto de vista pessoal, naturalmente. Observámos à «ti» Benezinda: «Não tem vergonha de pedir seis contos pelo cão?»

«Oh home, deixe-me ficar o bicho em paz. Não o quero vender. Vocês é que mo querem comprar.» A despachar-nos: «Daqui a algum tempo isto (e apontou para o cachorro) não é um cão. É um elefante. E foi-se.

 

Guerra às malhas brancas

Facto curioso é que os possíveis compradores antes de entrarem em negociações procuravam ‘catequizar’ o Padre Aníbal a fim dele dar a sua opinião sobre o cão em causa, pois, como já referimos, é um estudioso profundo das raças nacionais, e ao mesmo tempo servir de medianeiro para que o preço não ferrasse demasiadamente. Já se vê a sua dificuldade em aguentar-se entre dois fogos de interesses díspares. Defesa do paroquiano e amabilidade para com o forasteiro.

Após os julgamentos, ouvimos o Dr. António Cabral: «A impressão geral é bastante boa. A fixação das características étnicas está garantida. O lote de cães este ano foi muito bom! Muito bom! Antes da distribuição de prémios, o Dr. Teodósio Antunes ‘falou às massas’. Depois de ter historiado a razão do concurso, disse: «Cada vez temos de ser mais exigentes. Temos de combater as malhas brancas. Não devem existir mais cães de «Castro Laboreiro» com malhas brancas. Há que evitar o cruzamento com outras raças. Prendam as vossas cadelas na altura do cio…»

 

In Jornal “ O MUNDO CANINO

Novembro de 1971

Aurélio Cunha (texto)

Orlando Soares (fotos)

 

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manuel e o painel por ele executado e oferecido à Casa do Minho do Rio de Janeiro

 

MORREU MANUEL IGREJAS

Não sei que dizer; descansas finalmente depois de tantas décadas a levar a história da tua querida vila pelos quatros cantos do mundo, de enfeitar paredes em Portugal e Brasil, de fazeres gargalhar cada casa onde chega A Voz de Melgaço e o nosso blogue. Choro-te agora e abraçar-te-ei um dia lá no sítio para onde partiste.

Ilídio

 

O COCIOLLO DO LILI

melgaçodomonteàribeira, 06.04.19

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

IV

 

Para o julgamento do Lili do Teodorico foram arroladas várias testemunhas que dariam seu depoimento sobre a conduta e personalidade do rapaz. A mais importante testemunha era o doutor João Durães, farmacêutico, dono da única farmácia da Vila. Político destacado, membro da União Nacional, partido único existente na época, já exercera a presidência da Câmara Municipal com destacada administração. O governo do País só permitia, então, uma farmácia para determinado número de habitantes. Na Vila de Melgaço, só existia a farmácia Durães, a farmácia do Lili era em S. Gregório, localidade nove quilómetros distante.

O Teodorico João Fernandes, garoto ainda, terminado o ensino primário, foi ser aprendiz na farmácia Barreiros Sucessores, sob a direcção técnica do farmacêutico diplomado, doutor João de Barros Durães. Pouco depois, a razão social da firma passou a denominar-se Farmácia Durães, transferindo suas instalações para a Praça da República. Assumiu a gerência do estabelecimento o prático farmacêutico senhor Alves, figura hilariante que ganhou a nomeada de Pédanjo. Retornado do Brasil, simpático como são todas as pessoas obesas, cantarolava a marchinha carnavalesca em voga na data do seu embarque, “O Pé de Anjo”. Mantinha bastante carregado o sotaque brasileiro e usava termos daquele país que faziam dele tema de chistes.

Razoavelmente inteligente, o Li li foi absorvendo os ensinamentos do manuseio das drogas tornando-se hábil boticário.

Quando o senhor Alves faleceu, o Lili já estava no ponto de o substituir. O salário não era lá essas coisas, mas excessivamente económico, beirando a avareza e vivendo com os pais, guardava tudo que ganhava. Era muito educado e respeitador, porém, veladamente tinha atitudes de grandeza relacionando-se com as famílias pseudo fidalgas e isso irritava os rapazes da sua geração e da sua condição económica.

De tanto economizar conseguiu capital para comprar a farmácia do velho doutor Canhoto em S. Gregório. Dono do seu próprio negócio, a vaidade do rapaz transcendia a ponto de fazer exigências aos órgãos administrativos.

Naquela fase do após guerra, vulgarizaram-se as bicicletas motorizadas lançadas pela indústria italiana, as mais conhecidas, Lambreta e Cociollo. O Lili comprou o segundo Cociollo da terra onde desfilava sua imponência pelas ruas da Vila de maneira peculiar que causava risos e deboche da população: para economizar gasolina, usava a motorizada pedalando como se fosse bicicleta comum.

 

(continua)

 

UMA FORÇA DE FÉ

melgaçodomonteàribeira, 11.08.18

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pastoriza por manuel igrejas 2017

 

 

UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

 

VI

 

O julgamento do Lili do Teodorico aguardava data. Ele continuava em sua actividade e era assunto das conversas.

Naquele fim de verão, um ano depois do Amílcar ter-se recuperado, numa tarde cálida, quando as pessoas andavam de roupas leves e os homens, na sua maioria em mangas de camisa, a notícia caiu como um raio que a todos fulminou: o Zéca do Aurélio caíra de cama com uma meningite.

Era o José de Araújo Azevedo, conhecido como o Zéca do Aurélio, um distinto rapaz. Filho do senhor Aurélio, abastado comerciante, gozava de estima geral. Alto, bem apessoado, primava pela fidalguia e boa educação. Estudara na cidade do Porto o que lhe dava certa superioridade sobre os demais rapazes. Devia ter nessa altura por volta dos 25 anos.

A consternação inicial que a todos tomara transformou-se de súbito numa força de fé. Numa roda de rapazes e raparigas que se formara no canto da praça, próximo da casa do senhor Aurélio, alguém sugeriu que se fizessem orações. Uma novena seria forte apelo a Deus por intermédio de Nossa Senhora. Resultado. O senhor Pe. Justino perfilhou a ideia e, a partir do dia seguinte, ao fim da tarde, a juventude reunia-se na igreja matriz onde rezavam o terço, liam trechos do Evangelho, faziam reflexões, recitavam a ladainha e entoavam cânticos, intercedendo ao Criador pelo restabelecimento do amigo enfermo, e terminavam o culto com louvação e adoração do Santíssimo Sacramento. Nove dias repetiu-se aquela devoção. O procedimento médico foi o que se tornara usual. Accionada a delegacia distrital de saúde que encaminhou ao órgão competente na capital.

- Se a penicilina chegar a tempo vai ficar bom. Olha o Amílcar que passa o tempo jogando bilhar!

 - Dizem que o caso do Zéca é mais grave, comentavam os rapazes no café!

 

 

VII

 

O doutor Esteves foi chamado para atender a uma rapariga da família que estava muito mal. Informado sobre os sintomas e o que teria causado a enfermidade, negou-se a atender. Que fossem chamar o doutor Sá que era o médico oficial do município! Ele não atendia a desmanchos!

A irmã da rapariga doente desfazia-se em apelos. Ele, doutor Suiça, era o mais entendido em doenças de mulheres. A pleiteante, irmã da enferma era abastada comerciante na vizinha vila de Monção, podia pagar o que ele pedisse. Não e não! Abominava, o doutor Esteves, a prática do aborto! Não admitia que se fizesse tal, fosse a propósito do que fosse! Muito menos por ter emprenhado do namorado. Esta posição do médico era bastante contraditória com a sua filosofia materialista. Considerava crime abortar uma futura pessoa. Mesmo quando o aborto era espontâneo, ele se revoltava.

Aconteceu isso anos depois, quando uma sua criada engravidou dele mesmo. Pensando ser recriminada demitiu-se ao sentir a gravidez. Com poucas semanas abortou e aí, sim, ele enfureceu-se ao saber do caso. Devia ter-lhe confessado; ele a cuidaria uma vez que conhecia o malogro dum caso anterior com um namorado, proclamava o médico a quem lhe falava no assunto.

Aquela comerciante ofereceu vultosa quantia para o médico ir cuidar-lhe da irmã. Ou pelos reiterados apelos ou pelo dinheiro, ele foi, tratou da rapariga e ela curou-se.

 

   Manuel Igrejas

 

 

Publicado em A Voz de Melgaço

 

UMA SENHORA DA SOCIEDADE

melgaçodomonteàribeira, 23.09.17

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rua de baixo - vila

 

 

O ANTIGAMENTE

 

 

O passado está sempre presente no dia a dia das pessoas, especialmente daquelas que já passaram da conta. Não há nada que aconteça que não tenha já acontecido, noutro contexto e com outra roupagem, é claro.

Detalhes do quotidiano, principalmente os que nos aborrecem, despertam-nos algo parecido, semelhante ou então a repetição exacta do já acontecido.

Então acontece que os resmungos da minha mulher além de me enfastiarem lembram momentos parecidos connosco e com outros. Inerente a quem já ultrapassou a fase de pular muros, regatos, etc., implica involuntariamente, com o que possa estar no chão. Daí que os entendidos recomendam retirar tapetes, passadeiras, até jornais dos pisos onde circulam as pernas cansadas. Apesar das recomendações as mulheres gostam dos detalhes que possam dar-lhes satisfação pela beleza decorativa que proporcionam às suas casas. Sempre conservam um tapete ou passadeira e o que é pior, esticadinha. Ao passarmos, sem darmos conta, o trapo ou serapilheira que seja, que está no chão, vai na frente, enrugando-se. Ela ou elas reclamam, não só por serem dois anos mais novas, mas por fazerem hidroginástica e anda levantarem melhor as pernas.

Um dia destes, lembrou-me o Dr. Rocha. No início dos anos trinta do século passado (é claro), havia na Vila de Melgaço uma figura muito conhecida, respeitada que gozava da simpatia geral, pelo menos do meu tio Emiliano com quem eu vivia na altura, era o Dr. Rocha, pessoa já idosa, para mim que teria no máximo sete anos. Segundo concluí mais tarde, seria o Notário ou Conservador do Registo Civil, não lembro bem, vivia com a esposa, acho que não tinham filhos, naquela casa do lado esquerdo de quem estava na Câmara, entre a cabine de electricidade e a avenida, na Feira Nova. Mais tarde quem viveu nessa casa durante alguns anos foi o Sr. Alvim com a esposa, D. Alzira e os filhos.

A esposa do Dr. Rocha (nunca lhe soube o nome completo) era uma senhora toda empertigada, o tipo de matrona, tanto física como autoritária, da idade do marido, de nome D. Adelaide, que sempre era evocada como D. Adelaide Rocha, não para a diferenciar de outras Adelaides, que por acaso na altura não as havia, mas porque o seu porte imponente e postura fidalga assim recomendavam. A rigor, tal procedimento mais imanava da subserviência do povo que endeusava quem se arrogasse socialmente superior. Sempre se apresentava em público rigorosamente trajada e ajaezada com as suas jóias apaparicada pelas outras senhoras da sociedade. Este tipo de pessoas para mais se evidenciarem transformavam pequenos actos rotineiros em casos extraordinários. Um domingo, a D. Adelaide Rocha precisou deslocar-se não sei onde e para tal chamou o Emiliano que no seu carro de praça costumava servir o casal. No regresso a D. Adelaide Rocha desembarcou (saiu do carro) no terreiro onde outras senhoras da sua categoria passeavam exibindo-se. Correu para elas afobada, pedindo para ser abraçada e lamuriando: “O patife do Emiliano quase me matou!”, e contou o sucedido. Tinha desenvolvido enorme velocidade. E era verdade! O Emiliano que geralmente não passava dos quarenta quilómetros com o seu Andorinha (Ford modelo A), naquela tarde, aproveitando uma das poucas e pequenas rectas que existiam na estrada, chegou aos cinquenta quilómetros.

   Em casa a D. Adelaide também primava pelo esmero. Naquela época, naquelas paragens, não se conhecia a cera para soalhos, daí que o chão das casas era lavado com água, escovão e sabão amarelo, de joelhos. Uma mulher, criada, contratada ou a dona da casa, molhava, esfregava e enxugava o chão dos aposentos. Era uma tarefa cansativa. A D. Adelaide mandava semanalmente esfregar o chão de sua moradia, e ai de quem naquele dia pisasse fora das passadeiras. O Dr. Rocha que, além do gabinete oficial no edifício dos Paços do Concelho, tinha seu escritório em casa que várias vezes ao dia precisava consultar e, distraído, pisava onde não devia, o que lhe custava intermináveis sermões e admoestações pouco lisonjeiras.

Ano após ano, revoltado com tão enervante rotina, resolveu fazer valer seus direitos de dono de casa. Num dia em que o chão fora esfregado, antes de entrar em casa, encharcou as botas na lama do rego que passava em frente e nos dejectos dos cães e triunfalmente passeou por todos os cómodos da casa. Ninguém soube o que aconteceu depois, mas continuaram a viver harmoniosamente.

 

   Rio, Fevereiro de 2013

                                                                                                                 Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço   

                                               

SAGRADO E PROFANO

melgaçodomonteàribeira, 03.12.16

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                                 texto e desenho de manuel igrejas

 

O SAGRADO E O PROFANO EM MELGAÇO NOS ANOS 30 DO SÉCULO XX

 

Tradição enraizada na fé do povo da Vila de Melgaço, era, em Maio, a devoção ao Sagrado Coração de Maria quando acontecia festividade e a Primeira Comunhão das crianças.

Naquele ano a preparação em torno dos preparativos no que respeita à solenidade eucarística, foi fora do comum.

As famílias empenharam-se ao máximo para que as suas crianças fizessem boa figura. Tanto mais importante que o sacramento que pela primeira vez as crianças iam partilhar era o exibicionismo nas roupagens. Nos rapazes não dava para variar muito nas calças e na camisa branca e em alguns com casacos. Já nas raparigas era ver o luxo nos tecidos e modelos dos vestidos.

A maioria da rapaziada aprendia as orações obrigatórias em casa com a família, geralmente as mães; a doutrina, os princípios teológicos, eram ensinados pelas catequistas, as Donas Leonor e Emília Durães, com ajuda de outras senhoras, durante algumas semanas, diariamente, à tarde. O Padre Firmino que paroquiava as freguesias de Prado e da Vila, aparecia raramente para dar ênfase aos pecados e ameaçar com o fogo do inferno. Numa das prelecções, quando frisava que o fogo do inferno era eterno, o Manel do Jacob observou: - então a gente acaba por se habituar…

No domingo da festa, logo cedo, o Augusto do Félix chamou o seu pimpolho para se arranjar com esmero. O Manel e o Rogério, ambos fazendo a sua primeira comunhão, vestiam a rigor com fatos pretos confeccionados especialmente. Era o Manelzinho o mais novo da turma entre rapazes e raparigas. A maioria ou a totalidade daquelas crianças, por serem muito novas, não tinham a verdadeira noção do que iam fazer, e o Manel, a par da vaidade que a sua figura proporcionava aos parentes sofria tremenda expectativa ao pensar que não iria corresponder às recomendações. O primeiro dilema já fora no dia anterior quando voltou da confissão e em meio a uma brincadeira mandou o irmão à merda. O Ná, que trabalhava na alfaiataria, para o arreliar disse-lhe que a palavra era pecado.

Foi preciso o pai dizer-lhe que não era tão pecado assim, para o sossegar.

 A entrada para a igreja, mal comparando, teve alguma semelhança com o desfile de carnaval. Os adultos já superlotavam a nave da matriz da Vila. As crianças assumiram os lugares que lhe estavam reservados em bancos corridos a todo o comprimento da igreja. As pessoas em pé ou ajoelhadas na hora apropriada (ainda não existiam os bancos). Como era missa de festa, solene, como determinava o protocolo, teve sermão. O padre Artur, de Penso, o mais consagrado orador da região, inspiradíssimo, como sempre, arrebatou os fiéis em prolongada dissertação, em dado momento exortou as crianças a pedirem perdão aos pais. Foi uma tremenda confusão. As crianças procuravam o pai ou a mãe empurrando as pessoas. O Manel tinha visto o pai no coro, ia ser difícil passar pelo meio das criaturas e subir lá, sorte que a mãe estava perto e ele não vira, ela é que veio dar-lhe um abraço. Ao receber a comunhão empertigou-se numa atitude solene. A hóstia colou-se no céu da boca e ele não conseguia despegá-la sem que tocasse nos dentes o que lhe fora advertido ser pecado. Assustado, estava a ponto de chorar quando lhe valeu o António Toca, também conhecido por Nossa Senhora, que vinha com um copo d’água auxiliar as crianças naquela dificuldade. Durante o dia tudo foi festa: procissão, banda de música e muita gente andando para cá e para lá. Era gostoso o Melgaço naquele tempo.

A juventude melgacense quando sentia falta em que se ocupar fora dos seus ofícios organizava grupos de futebol. O Sport Club Melgacense fora reorganizado duas ou três vezes mas por pouco tempo vingava. O Toninho do Augusto do Félix que aparecia como adolescente promissor, líder dos rapazes na sua faixa de idade, com o João do Padeiro, fundou um grupo de futebol a que deu o pomposo título de União Artística Melgacense. As novidades sempre empolgavam e logo adquiriram o equipamento, um jogo de camisolas com listas verdes e brancas, verticais. Sobravam rapazes naquele tempo. Os irmãos, Carriço e Mi da Amália, mais o Carlota e outros, organizaram um grupo adversário, Atlético Club Melgacense, de início com as camisolas do extinto Sport. Logo se manifestou grande rivalidade no campo de jogo e muito mais fora dele. O povo da terra também por não ter  em que se envolver acudia por um ou por outro grupo, conforme o parentesco ou amizade com os jogadores. Segundo comentavam, antigamente as disputas eram entre os partidos políticos, diversão proibida naquela época. Jogaram algumas vezes entre si, ganhava um e ganhava o outro. Para aquilatar a soberania fora do campo organizavam bailes ao despique no carnaval. O União promovia os seus bailes na sala da Chico da Serra, ali no início da rua Direita, em frente à igreja, encostada à Farmácia Barreiros. No terreno o João Cataluna acabava de montar a Pensão Olímpia. O Atlético promoveu seus bailes no Salão Pelicano. Mais que os próprios bailes a sensação que os rapazes do Atlético imprimiram os seus carnaval foram os cortejos que antecediam.

O Sr. Silva, o mestre da marinha, pessoa grada e muito respeitada atendeu aos apelos e envolveu-se nos desfiles do Atlético. Foi ele o responsável pelos temas, organização e ensaios dos cortejos. Demonstrou grande capacidade de coreografia que redundou no grande sucesso dos desfiles. No largo da Calçada, onde tinha a bomba de gasolina do Sr. Teixeira, reunia-se a turma e se organizava conforme o tema a desenvolver no desfile. Rapazes e raparigas fantasiados de acordo, saíam cantando rua abaixo, Terreiro, rua Direita até ao Salão Pelicano. Durante quatro sábados apresentaram cortejos em temas e canções. O último foi uma apoteose. Uma réplica do castelo, iluminada por dentro, transportada como um andor, encheu os olhos do povo e muito aplaudido. A música entoada por todos os componentes fantasiados e sacudindo enfeites nas mãos, com letra brejeira sobre a música duma canção em voga, que em dado trecho dizia: Meu patrão mandou-me embora, mas não foi por roubar nada, foi só por molhar a pena, no tinteiro da empregada…

Como acontecera com outras manifestações também esta feneceu. A empolgação inicial logo dava lugar ao desânimo pela monotonia da repetição. Era como uma doença endémica.

 

 

                                                                                                                       Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 

MELGAÇO, DÉCADA DE 70 DO SÉCULO PASSADO

melgaçodomonteàribeira, 02.05.15

Cabeçalho d'A VOZ de MELGAÇO de 1 de Maio de 1974

 

 

DESINTERESSE DO SR. PRESIDENTE? …

 

O Secretário Nacional da Informação e Turismo visitou recentemente o Distrito de Viana do Castelo. Pelos relatos da imprensa soubemos que o Presidente da Câmara de Melgaço só pediu uma coisa: um subsídio para as Festas da Vila, também denominadas do Concelho. E vem um membro do Governo à Província com o objectivo de auscultar as necessidades dependentes do seu departamento, e há um Presidente de Câmara que lhe apresenta uma ajuda para as Festas!...

Vendo nos mesmos relatos da Imprensa, que nada mais dizem a respeito de pedidos feitos pelo Presidente da Câmara de Melgaço, achamos que devemos defender a honra da nossa terra, posta em causa, sem dúvida inconscientemente, pelo dr. Sidónio. Não seria mais objectivo pedir um auxílio para a Escola de Música, que se criou na nossa vila com tantos auspícios?

Não estaria de acordo com o Departamento de Informação e Turismo, pedir ajuda para o recheio do Museu, onde um lobo embalsamado guarda as paredes? Não há documentos a fotocopiar que dizem respeito à História de Melgaço? Não há obras publicadas que se devem adquirir? Não há quadros de Jaime Murteira e fotos de Sampayo que devem figurar nesse museu?

Não carece Melgaço de uma Pousada, já que a de Castro não resolveu o problema central do Concelho e os hotéis do Peso encerram no Outono e Inverno?

Não havia, por imposição das exigências do Turismo, que pedir a influência do Secretário de Estado, que nos visitou, junto do Governo Português para que este interviesse em Madrid, a fim de que as barragens do rio Minho fossem construídas de forma a permitir o acesso do peixe – salmão, sável, lampreia e truta – e assim se evitaria o desaparecimento de tão delicioso peixe?

Não seria oportuno falar na estrada do Mezio de forma a ligá-la à de Lamas de Mouro, abrindo desta forma Melgaço ao turismo nacional, através das lindas serras que nos dominam com entrada por Castro? Fazendo-o não concorria para se criar o verdadeiro circuito do Minho: Braga, Arcos, Melgaço, Monção, Valença, etc.?

E sabendo-se que os Hotéis do Peso servirão, um dia, de apoio ao turismo do Parque Nacional «Peneda – Gerês», porque razão o dr. Sidónio não levantou o problema tanto mais que a Empresa pensa em construir um hotel?

Como classificar a atitude do Presidente da Câmara que esqueceu todos os verdadeiros problemas turísticos de Melgaço?

Não podem os representantes do Governo adivinhar. Estes factos levam-nos a perguntar: se o Governo Civil e o Ministério do Interior podem estar satisfeitos com um colaborador destes.

O Concelho não está, e a ajuizar pelos relatos da imprensa referentes à atitude do dr. Sidónio perante o Secretário de Estado de Informação e Turismo, mais uma razão e grave veio avolumar o seu descontentamento. Ninguém gosta de ser esquecido, sobretudo quando tem direito a ser lembrado. E o representante dos nossos direitos regionais não cumpriu.

Com vista aos srs. Governador Civil e Ministro do Interior.

 

                                                                                    JÚLIO VAZ

 

A Voz de Melgaço, 530, Melgaço, 1 de Maio de 1974

 

ENTRUDO EM MELGAÇO NOS ANOS 30

melgaçodomonteàribeira, 08.03.13

 

Desenho de Manuel Igrejas

 

 

O CARNAVAL EM MELGAÇO

 

 

    Aquele verão estava gostoso e os anos trinta até um pouco mais de sua metade, eram fáceis de viver. Corriam suaves e até com uma certa abastança. Naquelas paragens, quem não encontrasse trabalho no lugar era só dar um pulo a Espanha e fácil arranjaria onde ganhar dinheiro. Por lá havia um surto de progresso, construção civil, estradas e caminhos de ferro. E os melgacenses se baldeavam para a Galiza ou um pouco além e, ao fim de alguns meses, voltavam com dinheiro no bolso que gastavam na terra. Diziam até que eles só vinham à terra para fazer mais um filho. E além de dinheiro traziam novos conhecimentos sobre seus ofícios que, em contacto com artífices de outras paragens, adquiriam. Também traziam novos costumes e hábitos que enriqueciam a cultura local.

    Uma demonstração de abastança fora o carnaval daquele ano. Os bailes tinham sido mais requintados com muita gente se fantasiando e, a novidade, o baile infantil à fantasia. No dia 20 de Janeiro, era o início do Carnaval e quem o anunciava era o Amadeu Rato. Vinha de Corçães, ele e os filhos da Maria Penica, rapazes e raparigas, fantasiados com roupas velhas e caras tapadas com pano de saco, fazendo a maior algazarra. Fingiam uns de contrabandistas com sacos às costas, e os outros, de guardas com espingardas de pau correndo atrás dos primeiros. Era uma cheia de rir. As crianças correndo ao lado deles divertiam-se a valer. A brincadeira terminava na taberna que lhes oferecesse vinho de graça.

    Pois nesse ano, o Entrudo teve baile infantil à fantasia. Parece que a ideia partiu do Jacob, o mais competente e habilidoso trolha da região, um grande artista na sua profissão, que andou muito tempo pela Espanha e viu isso por lá. Todas as famílias que tinham crianças aderiram à ideia e os preparativos aconteceram no maior sigilo. Todos queriam fazer surpresa com suas fantasias. Cochichava-se nos cantos, querendo adivinhar o que os outros estavam fazendo. A terça-feira de Entrudo chegou finalmente.

    Era pleno inverno com o costumado frio, mas aquela tarde parecia primaveril. O sol estava radioso e a brisa corria morninha. Até parecia que o tempo queria participar da folia fantasiado de primavera.

    À uma da tarde começaram a chegar ao terreiro, local da concentração, as famílias com as crianças. Para cada criança fantasiada vinha um montão de adultos, a família toda. A vaidade era dos grandes; os pequenos, alguns, vinham até contrariados, com as roupas espalhafatosas que os incomodavam. Rapazes e raparigas, sozinhos ou formando casais, envergavam as mais variadas fantasias. O espectáculo estava realmente bonito. Chegaram os mais esperados, de quem se comentava maravilhas naqueles cochichos de esquina, o Manelzinho do Augusto do Félix e a sobrinha, a Maria da Conceição, filha do Lucas e da Maria Natércia. Tio e sobrinha só faziam diferença entre si de pouco mais de um ano de idade. A expectativa do povo foi satisfeita. O casalzinho estava primoroso. Ele vestido de Marquês de Pombal e ela de Dama Antiga. As roupas haviam sido confeccionadas pelo Augusto do Félix com a colaboração das mulheres da família. A Mia com um vestido longo, até aos pés, muito rodado e armado com arquinhos por baixo da saia, cheio de folhos e rendas, luvas de renda, sapatos brancos de verniz e volumosa cabeleira loura, cacheada até debaixo dos ombros. O Manel, elegantíssimo, numa roupa preta, calça justa até ao joelho, jaqueta debruada de rendas brancas, também a camisa de renda com folhos na gola e na manga, saindo por baixo da manga da jaqueta, cabeleira loira, cacheada e comprida, meias brancas até aos joelhos e sapatos pretos de verniz com grandes fivelas prateadas e rendinhas à volta.

    As cabeleiras, primor de habilidade e paciência, feitas pelo pai e avô dos personagens e penteadas com grande capricho pelo João do Gabriel, barbeiro com pendores de cabeleireiro e que com cosméticos e ferro quente, conseguiu fazer na estopa aquela maravilha de caracóis caindo em cachos.

    Os promotores da festa logo elegeram aquele casalzinho como o mais bonito, as melhores e mais belas fantasias, com aprovação unânime do povo, e por isso deviam abrir o cortejo. Mas o Jacob pleiteou e conseguiu que os seus filhos, o Manuel e o Zeca, vestidos iguais, fantasiados de gaiteiros galegos com gaitas de foles e tudo, fossem os da frente. O cortejo organizou-se desfilando com os gaiteiros soprando desesperadamente as suas gaitas de que saía um som estridente sem nexo e sem compasso, pois eles não sabiam tocar. Em frente, pela Rua Direita, lá foram mais de cinquenta crianças, emproadas, empertigadas, saracoteando a vaidade dos parentes, umas chochas e macambúzias outras. As pessoas grandes, ladeando o cortejo e fazendo grande algazarra, e uma ou outra mulher, volta e meia, entrando no meio das crianças, para compor algum detalhe que não estava a contento, no seu pirralho, tal como faziam nas procissões. As poucas criaturas que ficaram nas casas aplaudiam à passagem. Gente das aldeias também tinham vindo apreciar a novidade.

    Chegados ao Salão Pelicano subiram à sala de cima onde se ia realizar o baile. Daquela multidão que acompanhara o desfile, nem todos entraram. O recinto não comportava. Os que conseguiram entrar acotovelavam-se uns aos outros. A orquestra do Avelino do Peso já estava no estrado que servia de palanque e atacou uma bonita marchinha muito em voga na época, música essa, cujos acordes ainda agora soam na mente de algumas ex-crianças. O que devia ser uma dança virou uma balbúrdia. A meninada, muito novinha, a maioria, não sabia o que era dançar, agarravam-se umas às outras balançando-se, atropelando-se e caindo, para desespero dos adultos que viam as fantasias amarrotar-se. O Jacob e outros promotores entraram no meio tentando organizar a coisa. Aquela confusão. O baile prolongou-se por uma hora e como não havia maneira de dar jeito, resolveram reorganizar o cortejo e voltar para o terreiro onde as crianças poderiam divertir-se à sua maneira sem ter de obedecer ao compasso da música. E assim foi e a miudagem gostou. O Augusto do Félix e o resto da família estavam aborrecidos com o comportamento do Manelzinho. Ele, que normalmente parecia que tinha o bicho carpinteiro, sempre o mais espevitado, nesse dia estava sorumbático e arredio. Não queria brincar e não dizia o que tinha. Seria que se achava por demais bonito e enfeitado com medo que o desfizessem de algum detalhe da sumptuosa fantasia ? Já no desfile repararam que ele andava mansinho, como quem pisa em ovos, com medo de estragar os sapatos…

    E os grandes da família empurravam o rapazinho para o meio dos outros para pular e brincar. Ele ia e voltava. O tio Emiliano resolveu tirar a limpo o que estava acontecendo.

    — Esse rapaz deve ter alguma coisa nas pernas ou nos pés! Vem cá Manel, senta aqui no banco!

    Verificou as calças, as meias, tirou-lhe os sapatos. Ora vejam! Dentro dos sapatos, nas pontas, uns chumaços de papel, que eram usados enquanto novos para manter firmes as biqueiras e haviam-se esquecido de os tirar. Era aquilo o tormento do rapaz!

    Livre dos empecilhos, ninguém segurou o Manelzinho! Parecia uma sardanisca! Dali a pouco a situação estava invertida: os grandes reclamando do rapazinho. A primeira coisa de que se livrou foi a cabeleira.

    Aquele Entrudo famoso durou até ao anoitecer para as crianças. À noite foi a vez dos adultos.

    Foi mais uma página feliz, um bonito retalho na vida daquelas crianças da Vila de Melgaço.

 

                                                                           

                                                                          Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço