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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

AUGUSTO CÉSAR ESTEVES IV

12.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

Uma obra impressa nas folhas do Notícias de Melgaço, órgão e voz de uma mescla de juristas, de professores, de funcionários públicos e de negociantes bem sucedidos conotados com posições e sobretudo com interesses contrários aos defendidos e representados pelos Padres Vaz e seus amigos na Voz de Melgaço, que ainda hoje se publica.

Num oportuno artigo intitulado Os lugares vistos de dentro: estudos e estudiosos locais do século XIX português, Augusto Santos Silva começa por tentar explicar os factores que motivaram o interesse pelos estudos locais no Portugal oitocentista, apontando de um lado a tradição da memória e do levantamento histórico, corográfico e administrativo do território, cujas raízes podem ser remontadas a Quinhentos, mas se afirma sobretudo no fim do Antigo Regime; do outro, a mudança cultural e doutrinária trazida pela primeira geração romântica no modo de ver, interpretar e identificar a Nação, essa nova realidade em formação, pelo cruzamento da tradição histórica e da sociedade liberal; e, por último a acção específica do Estado constitucional e, em particular, a construção do quadro político, administrativo e social pós-absolutista. É sabido, porém, que estes factores não se impuseram imediata e solidamente. Foi preciso esperar pelo amadurecimento de condições estruturais e conjunturais para que irrompesse o clima intelectual e ideológico no qual se formará uma nova fileira de conhecimentos – os estudos locais e regionais – um novo perfil técnico e intelectual – o erudito ou estudioso local – e uma nova legitimação e racionalização da pesquisa sobre o País – o bairrismo ou “amor da terra” própria. E o autor que estamos a citar oferece-nos de seguida uma visão panorâmica através da qual “arruma” a produção monográfica, anterior às duas últimas décadas do séc. XIX, em três grupos: o primeiro descende directamente das tradicionais pesquisas corográficas, topográficas e estatísticas; o segundo incluiu textos de diversa intencionalidade e natureza, que não assumem a forma de estudos, em sentido estrito, mas consideram e destacam factos e atributos reputados característicos de espaços sociais locais ou regionais; e o terceiro engloba o interesse da erudição e da análise propriamente dita concretizada na história lacunar e parcelar, que se justifica e engrandece, porém, como propósito de fixação e difusão pública, de arquivo, de inscrição na memória de factos, feitos, figuras, e patrimónios, para testemunho dos presentes e benefício da posteridade. Os livros intitulam-se, em consonância, esboços, memoriais, compêndios de notícias, apontamentos, subsídios, etc., perseguem sobretudo fins morais e cívicos (…) Quando procura maior fôlego e efeito, o estudioso pode aproximar-se do registo para-literário.

Filia-se neste terceiro grupo o modelo que haverá de projectar-se sobre quase todo o séc. XX e no qual se enquadra facilmente Augusto César Esteves e a sua obra, apesar de ter optado por “fragmentos” monográficos em vez de ousar a monografia integral num ou em vários volumes como aconteceu em muitos concelhos deste Portugal de norte a sul, de oeste a leste. Convém, por isso, que atentemos, à guisa de síntese final, nos traços principais do referido modelo condensados por Santos Silva de forma precisa e esclarecedora: Desde logo, é um tipo próprio de intelectual e de intelectualidade que se afirma – e marcará a vida institucional e cultural local do nosso século XX. Pároco, literato, homem de leis, funcionário da administração, professor ou líder político, o estudioso é uma figura cada vez mais presente no círculo intelectual que cada cidade ou vila da “Província” portuguesa pode gerar. Escolarizado ou autodidacta, amador ou semi-profissional da erudição, tornar-se-á um interlocutor incontornável das instituições políticas e administrativas e dos poderes municipais e uma espécie de garante e avalizador da apresentação pública de si que uma localidade pode forjar – a projecção e rentabilização pública do seu “carácter” singular. Depois, é toda uma retórica que tem aqui uma das suas bases e expressões principais. O bairrismo – que, em poucos casos, pode chegar a conceber-se como um regionalismo – é a representação-tipo das razões e finalidades do trabalho do estudioso. Amor, e glória da terra, para usar os termos mais frequentes. Eis o que define o empreendimento analítico, o que desculpa as suas falhas, o que gratifica o seu auto, o que singulariza e engrandece o lugar no conjunto dos lugares de que se faz a nossa história e a nossa identidade nacional.

O estudioso Augusto César Esteves pertence indiscutivelmente ao perfil traçado e a sua escrita, imbuída de bairrismo, esteve sempre ao serviço da identidade e da singularidade do local dos seus afectos, das atenções e voluntarismos do benemérito – a criação dos Bombeiros Voluntários foi a mais saliente –, atingindo, a partir daí, do singular, a afirmação da plenitude nacional. Não admira, por isso, que o aparo afiado que alinhava em folhas inteiras ou em linguados de trinta e cinco linhas textos de denúncia, de defesa, de pedagogia cívica, de elogia e de crítica viperina acolhidos no Notícias, alinhava também longas transcrições com abreviaturas e grafismo arcaico arrancados ao empoeirado dos cartórios, dos arquivos e do olvido mais cruel, rabiscando, assim, a História desconhecida de Melgaço que quase ninguém antes dele, ressalvadas as notícias corográficas elaboradas desde o séc. XVIII, ousara desvendar. Dizemos quase ninguém, porque na lista incompleta de estudos monográficos sobre Melgaço que inserimos no levantamento feito em 1990-91 tínhamos referência ao opúsculo de Almeida Silvano intitulado As Águas de Melgaço: notícia histórica e prática (1896) com uma genérica contextualização corográfica e histórica do espaço termal. Mas este exemplo é pálido e insuficiente para sustentarmos a tese de estudos anteriores ao contributo de Augusto Esteves que, por sua vez, será o pioneiro e despoletador da produção monografista em que vão pontificar o P.e Manuel Bernardo Pintor, P.e Júlio Vaz e o Doutor José Marques a par de outros autores mais esporádicos.

Num estilo que articula o para-literário com o jargão jurídico de antanho e alfinetadas várias em tom ora jocoso, ora ofensivo, a concatenação de elementos e de citações colhidas tanto numa boa biblioteca erudita que acumulou ao longo dos anos e acabou, após a sua morte, por ser vendida, como em inúmeras centenas de folhas de documentos encontrados ao pé ou localizados em Arquivos Públicos nacionais e espanhóis, para onde dirigiu pedidos de transcrição e de ajuda paleográfica – essa concatenação, dizíamos, não obedeceu a um plano muito sistemático como ficará patente já neste primeiro volume e nos seguintes, reservados, à excepção do último, para a reedição integral dos livros que publicou em vida. Postumamente, foi já possível editar a obra monumental que preparou com esmero e deixou pronta para impressão pouco antes de falecer. Referimo-nos ao O Meu livro das gerações Melgacenses (2 vols., 1989-1991). O plano destaobra surgiu naturalmente anunciado no seu jornal e, por isso, aparecerá adiante neste volume inaugural de um projecto editorial modesto, mas urgente e imprescindível ao aprofundamento dos estudos melgacenses que não se podem esgotar apenas na História em stictu sensu – a faceta em queo contributo de Augusto César Esteves mais se centra – , podendo e devendo abranger também a Etnografia, a Arqueologia, a Arquitectura Civil e Religiosa, etc.

 

  1. Homenagem e desafio – o projecto editorial que tardava…

 

Pelas razões acima expressas tínhamos de principiar este projecto de (re)edição da Obra completa do Dr. Augusto César Esteves com a colecta de todos os artigos impressos nas paginas do Notícias de Melgaço. Daí o título inevitável que se impôs sem margem para hesitações e alternativas. Mais complexa, ainda que perfeitamente superável, foi a classificação temática que fomos burilando a fim de agruparmos de forma coerente e próxima da lógica originária os múltiplos artigos que ao longo de mais de duas décadas tiveram espaço cativo nas colunas do dito periódico. Apesar da variedade temática e do empenho do autor em assuntos actuais e polémicos, é flagrante a destacada quantidade de artigos sobre história local, artigos esses que acabavam compilados em livro, como foi o caso, incluído neste primeiro volume, do opúsculo de 46 páginas editado em 1960 e intitulado O Ensino da História de Melgaço na Escola Primária.

Foi o que aconteceu com Melgaço e as Invasões Francesas, 1807-1814 (1ª edição, 1950) e que será o próximo volume desta colecção.

Seguir-se-á Melgaço, Sentinela do Alto-Minho, editado em 1957 com uma primeira parte com um só volume, e uma segunda parte dividida em dois volumes. Manteremos a divisão dada pelo autor, o que significa que esta obra será dada à estampa em três volumes.

No mesmo ano de 1957 foram reunidos em livro os artigos dedicados à Santa Casa de Melgaço.

O projecto encerra com um volume final em que incluímos textos de imprensa anteriores à fase do Notícias de Melgaço, artigos desta fase que por lapso já não puderam ser inseridos neste primeiro volume, apontamentos, autógrafos e inéditos do Dr. Esteves e, ainda, críticas e comentários entretanto aparecidos e referentes a este projecto editorial.

Os projectos são para se cumprir e pela nossa parte fica, aqui, lavrada a promessa e o empenho de um cumprimento que agora começa. Esperamos dos leitores o que lhes cabe – tornar este exercício, que para nós foi de prazer e de satisfação ímpar, num bem útil e partilhável pelo maior número possível.

Bem hajam por isso.

 

Braga, Julho 2003-07-31

 

Armando Malheiro da Silva

Joaquim Rocha

 

 

Obras completas: Augusto César Esteves

 

NAS PÁGINAS DO NOTÍCIAS DE MELGAÇO

 

Recolha e Apresentação: Armando Malheiro da Silva

                                             Joaquim Rocha

 

Edição: CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO

 

2003

 

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