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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

AUGUSTO CÉSAR ESTEVES I

08.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

AUGUSTO CÉSAR ESTEVES – O HOMEM, A VIDA, A OBRA…

 

 

O real serve-nos apenas para construir, melhor

ou pior, um pouco de ideal. Talvez não seja

útil para nada mais.

Anatole FRANCE – Le Jardin d’Epicure

 

 

1 – Um português de Melgaço ou o enorme peso das raízes

 

Escrever sobre uma pessoa é fácil ou difícil conforme as perspectivas, os elementos biográficos que tivermos ao nosso dispor, a distância no tempo, a nuvem que o encobriu depois da sua morte, o manto mitológico que se distendeu sobre a sua figura.

Quanto a Augusto César Esteves poder-se-á afirmar, sem grande margem de erro, que para a maioria dos melgacenses ainda vivos, com menos de cinquenta anos de idade, ele não existiu. Nem uma praça, uma rua, nem sequer um beco ou uma travessa, lembravam até 9 de Agosto de 2003 (data em que se fez finalmente justiça) o seu nome, a sua obra, a sua passagem pelo mundo!

Atribuir culpas a este ou àquele, dizer que foi esquecido de propósito, seja pelos políticos, seja pelos críticos, isso seria fugir à verdade, menosprezar o tempo e os interesses individuais e colectivos que estão na origem de tal fenómeno.

Quando Augusto Esteves morreu em 1964 já o concelho de Melgaço estava a sofrer uma transformação profunda, uma metamorfose sem paralelo na sua história. E porquê? Porque em 1961 começou a guerra colonial em várias frentes e os jovens começaram a debandar, tal como sucedeu em todo o país de norte a sul. Os mais novos não estavam preparados ideológica, nem psicologicamente, apesar de toda a doutrinação salazarista, para morrer nas matas africanas. Voltaram-se, por isso, para a França, para a Alemanha, para o Luxemburgo, a Suíça… Alguns anos mais tarde casaram, levaram as esposas, os sogros, os cunhados, toda a gente. O concelho ficou sem imensa gente! A elite, se é que se pode chamar elite a um pequeno grupo de pessoas letradas: o padre, o juiz, o advogado, o notário, o delegado do Procurador da República, o professor do ensino primário, um ou outro comerciante mais culto – foi a pouco e pouco deixando este vale de lágrimas, e os mais novos nem sequer tomaram conhecimento de que existiu na vila um homem que dedicou parte do seu tempo a escrever sobre a sua terra natal. Um homem que nasceu, viveu e morreu cercado e seduzido pelas suas raízes.

Antes dele ninguém escrevera nada que se visse sobre Melgaço. Os padres escreviam o assento de baptismo, de casamento e de óbito, talvez um ou outro sermão para apresentarem na missa, mas crónica, história, estudos genealógicos… nada! Claro que algo se escreveu nos jornais que foram surgindo em Melgaço a partir de 1887, mas os artigos do jornal duravam pouco tempo, eram logo devorados pelo esquecimento, e por incrível que isso pareça, nunca houve uma Câmara, um Pelouro da Cultura que apoiasse a colecta e edição daqueles textos em livro! Tudo, ou quase tudo se perdeu! Restam alguns números na Biblioteca Nacional de Lisboa, a desfazerem-se em pó.

Estamos a falar de Augusto César Esteves. Mas, afinal, quem foi ele?

Nasceu na Rua Nova de Melo, fora das muralhas da vila de Melgaço, onde outrora existira um forte, a 19 de Setembro de 1889 no quarto por cima dos escudos, com apenas sete meses de gestação. Nessa rua, então moderna, tinha seu pai, Francisco António Esteves, mais conhecido por o brasileiro – pelo simples facto de ter sido emigrante no Brasil – comprado a casa do médico Dr. João Luís Sousa Palhares, e que não deve ter sido nada barata, pois ainda hoje se pode considerar uma boa habitação. Ficava pertinho do Hospital da Misericórdia. A sua mãe, prima do pai, chamava-se Belarmina Cândida e era filha de Manuel José Esteves (mais conhecido por Melgaço), emigrante no Brasil, e de Maria Rita Alves.

Augusto Esteves foi filho único de sua mãe, falecida no mesmo ano – a 17 de Outubro de 1889 – em que ele viu a luz do sol. Teve, por isso, que ser amamentado pela Cândida Corujeiras, que também nesse ano dera à luz uma menina, a Idália, e o leite não faltava em seus peitos. Bebiana Cândida salvou-lhe a vida, mas depois o enganido ia-lha levando: desta vez foi o Manuel Zoia quem o salvou com as suas mezinhas (baseadas no trovisco e em outras ervas) perante a descrença e desânimo dos médicos que o viram.

Seu pai nunca mais se casou. Viveu, porém, maritalmente com Teresa Rodrigues, de Paderne, filha de Manuel Boaventura Rodrigues e de Carolina de Jesus Costa Pinto, tendo saído dessa relação Anésia, António Cândido (o futuro médico Esteves) entre outros. E Francisco António Esteves teve ainda geração de Lucrécia das Dores Gomes de Sousa. Assim, Augusto César Esteves, apesar de ser órfão de mãe, teve quatro ou cinco irmãos (os filhos de D. Teresa Rodrigues) reconhecidos pelo progenitor.

No ano de 1889, quando Augusto Esteves nasceu, era Presidente da Câmara Municipal de Melgaço, Baltazar Luís de Araújo de Azevedo, e o Vice-Presidente era José Joaquim Alves de Magalhães – figuras de topo em finais do século XIX ignoradas nos nossos dias. No ano seguinte – 1890 – seria Presidente da edilidade José Cândido Gomes de Abreu, negociante e fundador do Hospital da Santa Casa da Misericórdia.

 

 

(continua)