Sexta-feira, 8 de Março de 2013

O BASTARDO III

  

Félix Igrejas

 

      Dona Beatriz virou-se, com calma, sorriso no rosto:

      — E nem uma palavra!

      — Chamo-me Maria da Fonte da Vila – o rosto já sorridente.

      — Eu sei Mia, sei muito bem, quando terminares vem ter comigo lá baixo.

      Os gritos continuavam, mais pausados, criada e aia a correr com água e panos quentes e os homens na caça, uma batida a um porco bravo, que começou não muito cedo, mas empregou toda a gente da quinta. Se a caçada fosse boa, havia carne e vinho para todos, desses estavam livres.

      Pelo meio da tarde, Dona Beatriz é chamada ao quarto. O choro do recém-nascido enchia o quarto. A aia à volta de Cândida da Luz deu o lugar à sua velha patroa, que acenou à Mia e perguntou:

      — Está tudo bem?

      — Ela é forte, daqui a uma semana já anda a cavalo – acenou com a cabeça, Mia.

Não é cavalo, é carroça, e com o João vou falar eu, pensou Dona Beatriz.

      — Ouves Cândida, logo regressas a casa, do resto trato eu – rematou Dona Beatriz, saindo quarto.

      Mia, Antónia, com a criança embrulhada num xaile, seguiram-na escada abaixo. Entraram no escritório e as ordens seguiram:

      — Antónia, ficas aqui com a criança; tu, Mia, volta ao escurecer – e atirou-lhe uma bolsa para as mãos – vou ver como está a rapariga e já te mando companhia.

      Subiu as escadas e entrou no quarto, sentando-se na borda da grande cama.

      — Como te sentes minha filha? Queres uma canja de galinha, acabadinha de fazer? Tens que te pôr forte – falou com suavidade a velha dama.

      Um gemido foi a resposta

      — Ao escurecer – a voz de D. Beatriz era agora autoritária – sairá desta casa e vai para o Mosteiro de Ourense. Leva um bom enxoval e uma boa carta de apresentação. Não te preocupes que tem o futuro garantido, vai sair dali um mestre, não será um qualquer pé descalço dos campos. Mas isso agora não interessa. Vou mandar subir a aia…, não queres mesmo uma canjinha? – e acaricia os cabelos de Cândida da Luz, antes de deixar o quarto Ao entardecer uma carruagem passa os portões da quinta, dela descendo Fifi, o homem de todos os serviços de Dona Beatriz, o único em quem ela confiava para os serviços mais delicados da família.

      Entrou em casa e logo saiu, acompanhado de dois vultos negros, carregando cada um seu embrulho.

      No interior da carruagem, os vultos transformaram-se em Antónia, com o bebé ao colo e uma mocetona de farto peito, que o alimentaria durante a viagem.

      Fifi já definira a rota e as paragens a efectuar tendo em conta a presença do recém-nascido. Foi já de noite – após dois dias de viagem – que deram entrada na cidade galega, seguindo directamente para o Mosteiro de Ourense.A carruagem parou junto de uma das portas laterais do Mosteiro, envolto na escuridão da noite, e dela desceu Fifi. Puxou a corda da Roda e momentos depois abriu-se um pequeno postigo na porta, pelo qual ele entregou um envelope lacrado. O postigo fechou-se e Fifi começou a andar de um lado para o outro, que a noite estava fria, do rio Minho vinha um nevoeiro gélido. Quando o postigo se voltou a abrir, a um sinal de Fifi, as duas mulheres desceram da carruagem e depositaram os embrulhos à porta do Mosteiro. A criança e o enxoval.

      Entre missas e matinas, cresceu na fé em Deus, Félix Iglésias, nome dado pela abadessa – ou não fosse o enxoval como era. A porteira também costumava baptizar alguns, mas esses, geralmente, sem enxoval. Enquanto cantava loas a Deus, Félix, começou a ser instruído na profissão de alfaiate, logo se destacando por ser um bom aprendiz e ter método de trabalho; acarinhado pelos mestres rapidamente progrediu no ofício que lhe fora destinado. No convívio com os restantes Expostos logo se agradou de um calmeirão que aprendia o oficio de curador de animais, de nome Cintran, um vivaço, sempre alegre e com um assobio melodioso que treinava até à exaustão enquanto tratava dos cascos dos burros. Com o tempo a amizade cimentou-se de tal forma que quando deixaram a Roda dos Expostos de Ourense, completados os 18 anos, decidiram partir juntos.

      Juntos na Roda, juntos para a vida.

      Deixar a cidade e tratar de ganhar a vida com os seus ofícios, era decisão há muito tomada mas logo perceberam que só precisa de alfaiate quem tem roupa e de animais todos eles sabiam. A pobreza era tal, que iam saltando de aldeia em aldeia. Nesta eram pedreiros, na outra havia milho para apanhar, as vindimas vinham a seguir e a refeição era pobre e a paga muito minguada. Fartos de andar aos saltos, resolveram assentar por uns tempos em Santa Cristina de Valeixo.

 

(continua) 

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 21:40
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 9 seguidores

.Novembro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30


.links

.posts recentes

. O LOBO DE CUBALHÃO

. A HEROÍNA DE MELGAÇO

. MELGAÇO NO REINADO DE D. ...

. MELGAÇO MEMÓRIA DOS TEMPO...

. HISTÓRIA DO MOSTEIRO DE P...

.pesquisar

 

.tags

. todas as tags

.subscrever feeds