Sexta-feira, 8 de Março de 2013

O BASTARDO II

 

 

      Ensinou-a a cavalgar, levou-a a serras distantes onde o cão do lobo que guardava o rebanho lhe lambia as mãos e abanava o rabo numa critica à sua ausência, e lhe mostrava os domínios da família, à volta da velha torre de menagem, um pouco em ruínas, que atestava o bom sangue português que lhe corria nas veias.

      Cândida da Luz chegava feliz e cansada das caçadas, mas não pálida e melancólica. A doença, há muito que desaparecera e aproximava-se a data da partida. Aí, voltou novamente a doença a Cândida da Luz. João, o Dr. João, tentava tudo, até sangraduras, mas melhoras não havia.

      Um dia, Dona Beatriz, no fim do jantar, pediu a Cândida da Luz que a acompanhasse para lhe fazer um pouco de companhia. Fechada a porta do escritório, onde ninguém entrava sem autorização da velha senhora, em poucas palavras e cara zangada descobriu a doença.

      — Estás prenha minha filha!

      Depois de chorar e lamentar-se, ser consolada e animada, ouviu-se um:

      — Sim… - muito lamuriento e arrastado.

      — O João! - o nome saiu como uma chicotada em rês teimosa.

      — Sim… - voltou a lamuriar a jovem.

      — Tratamos imediatamente do casamento, o mal fica resolvido.

      Aumentou o choro de Cândida da Luz ao ouvir tais palavras.

      — Não gostas do João e ele de ti? – quase gritou a senhora.

      — Não é isso, gostamos muito…, mesmo muito… - soluçou a jovem.

      — Então por que choras? – berrou Dona Beatriz, já farte de choraminguices.

      — Estou prometida a Teodorico, filho do conde de Alviar. Estou perdida, ai Jesus Nossa Senhora, estou perdida – e os soluços enchiam o quarto

      — Não sais do teu quarto que eu vou resolver o assunto - a voz rude da dona da casa fê-la engolir os soluços e desaparecer entre os lençóis de linho.

      Após a ceia, foi deliberado por Dona Beatriz que D. Cândida da Luz apanhara uma doença contagiosa, não podia sair do quarto e só ela, a aia e Mia a podiam visitar.

      — Contigo, João, falo mais tarde – falou com voz dura a velha e rija senhora.

      Depressa partiu mensageiro para Carvalhosa a anunciar o acontecimento, mas também com garantias que não era grave mas contagiosa a doença, e… sempre havia dois médicos em casa.

      Três meses depois, recomposta e com boas cores, D. Cândida da Luz entrava em terras do conde senhor seu pai, onde era esperada pelo garboso D. Teodorico.

      Mia acordou de madrugada com os gemidos de Cândida da Luz. Era para aquele dia, disso ela tinha a certeza. Foi acordar a criada de casa, Antónia, mulher de grande saber e de toda a confiança, que rapidamente se escapuliu pela porta das traseiras ainda mal o sol raiava. Regressou passado um bocado, acompanhada de um vulto negro, pequeno e estreito, que um xaile preto encobria.

      Sem uma palavra, dirigiram-se para o quarto onde Cândida da Luz gemia cada vez mais alto. Sem o xaile, um rosto encarquilhado e escuro, mãos cumpridas e calosas, acercou-se da cama, passou-lhe suavemente a mão pela testa ao mesmo tempo que lhe fazia um sinal da cruz abençoado, pegou-lhe na mão e foi recitando uma ladainha que só ela entendia.

      Pelo fim da manhã, os gemidos já eram gritos, Dona Beatriz entrou no quarto. A aia e a criada afadigavam-se a correr do quarto para a cozinha acarretando panelas de água quente e panos fervidos.

      — Como vai isso, Mia? – perguntou a velha senhora, rosto fechado e olhar faiscante.

      Mia passou as costas da mão pela testa afastando umas ripas de cabelo que lhe encobriam a cara e sorriu:

      — Vai correr bem, senhora – disse com voz gaiata -, ela é nova e forte, daqui a nada está cá fora.

      — Tens a certeza que está bem? – insistiu Dona Beatriz - queres que chame o Dr. Zinaido para ajudar?

      O olhar de Mia chispava quando respondeu:

      — P’ra atrasar! Vossa senhoria sabe quantos estas mãos trouxeram ao mundo?

 

(continua)

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 21:35
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