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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O BASTARDO I

08.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

      Pó e solavancos; o sacrifício da dama e sua aia que seguiam na carruagem serra acima até ao pequeno e histórico lugarejo onde se quedariam por uns tempos para a dama refazer a saúde um tanto abalada pela vida aristocrática que levava em Barcelos, terra de seu nascimento.

      Cândida da Luz de seu nome, nos seus dezoito anos, ouviu sem interesse a decisão de médicos e dos seus pais que o melhor para ela era sair do grande burgo e passar uma temporada num lugar calmo e de bons ares onde, por certo, recobraria da sua palidez melancólica que a cobria como mortalha.

      O lugarejo era distante, muitas léguas a cumprir, mas tinha a vantagem de aí viver o médico D. Zinaido, amigo de longa data e linhagem fidalga, que proporcionaria tudo o que fosse necessário para o restabelecimento de Cândida.

      Como boa cristã e filha, com um simples olhar de esguelha, entreviu o seu próximo destino; um salto no desconhecido, bem longe dos risos e segredinhos que eram o dia-a-dia no palacete familiar, o cheiro bafiento das damas, primas, tias e outras que tais.

      Quando escolta e carruagem pararam no largo empedrado, D. Cândida da Luz condessa por linhagem, entreabriu as cortinas, viu-se perante casa solarenga, de boa pedra, rodeada de vinhedos e pomar, com um fundo de serras onde nos altos picos ainda restavam uns pontos do ultimo nevão.

      Desceu da carruagem, apertou a capa que o ar era frio e com um sorriso tímido apertou as mãos que lhe estendiam; finalmente o seu destino, a casa do médico D. Zinaido, que se propunha recompor a saúde abalada da futura condessa.

      Encaminhada pelas criadas que a aguardavam para o quarto que lhe fora destinado, grande, de largas janelas e uma lareira acesa que lhe reconfortou corpo e alma depois de tão penosa viagem, sorriu, o que há muito não fazia.

      Liberta de capa e rendas, um corpo formoso a condizer com a beleza do rosto, logo foi aplaudida pela criadagem, encorajada pela simpatia que irradiava. Foi de descanso a primeira tarde, à ceia seriam feitas as apresentações.

      Mais tarde foram-lhe apresentadas desculpas pela ausência de Dona Beatriz da Anunciação, mãe de D. Zinaido, e dos filhos João e Gabriel que andavam a fiscalizar o trabalho dos rendeiros nas muitas terras pertencentes à família, pelo que à ceia só estariam presentes, D. Zinaido, sua esposa D. Epifania Joaquina e ela.

      A conversa versava as maravilhas que os ares proporcionavam e o serão que seguiu à ceia foi curto que a canseira da viagem ainda não desaparecera e os bocejos, ainda que disfarçados pela jovem, não tardaram a aparecer.  O tronco de carvalho aquecia o corpo, a roupa e a cama, Morfeu ditou a sua lei e dormiu até o dia ir alto. Virar a cara para a porta e não encarar com uma criada a perguntar se a menina deseja o almoço foi uma bênção, esquecer que era uma Souza dos Souzas que estiveram sempre ao lado do filho de Henrique e seu filho Sancho, uma Ribadouro, uma Moniz e até quem diga que vai mais além, até João Peculiar metropolitano de Braga.

      O cheiro das compotas de amora silvestre, pêssego e ameixa, do leite acabado de ordenhar e do café bem forte, o frio do sol que enchia de luz a serra em frente, prepararam-na para o dia que aí vinha e ela desconhecia. Um sorriso tímido e: - vamos ver o que o destino nos reserva.

      As apresentações decorreram em conformidade com o estatuto da bela futura condessa e se ainda restava palidez no belo rosto da jovem, a melancolia, essa foi-se desvanecendo mais rapidamente.

      A vénia a Dona Beatriz foi como a manhã, radiosa, aos irmãos mais cerimoniosa. A verdade é que desde que lhes pôs o primeiro olhar sentiu-se retraída quase com vontade de fugir, só a disciplina com que foi educada o não permitiu. Logo a seguir às palavras de circunstância, a conversa e o cálice de porto, o digo eu, eu mostro, os sorrisos com mais ou menos dentes, Cândida estava rendida a estes desconhecidos.

      Gabriel, alto e pesado, era homem das terras, das tabernas e cantares ao desafio, jogo do pau na romaria da Peneda, precisão no tiro à perdiz e ao coelho com o Mosquito ou o Nero sempre por companhia O Mosquito era tudo para ele e quando o deixava de ver por dois ou três dias já sabia que a prole tinha aumentado. Vadio quando farejava cadela saída, morreu a defender o dono dum porco bravo de mais de cem quilos.

      Se num olho, Gabriel, tinha a serra, no outro tinha a ribeira. Sável e lampreia na rede, escalo e truta na cana.

      João, mais jovem, recém formado em medicina em Lisboa, cultivava a arte da galanteria própria da corte e das mais nobres casas do Reino, mas quem olhasse bem os seus olhos via reflectido o verde do seu rincão e não os lustres de salão.

      O jantar, desaparecido o cansaço, mostrou uma Cândida da Luz em toda a sua beleza e breve a timidez começou a desaparecer e a aparecerem uns pontinhos vermelhos no rosto. A comida estava óptima, o arroz doce divinal, a conversa agradável e quando o D. Zinaido lhe ofereceu um cálice de um velho vinho do Porto, sentiu-se no céu.

      João era o guia perfeito nos passeios pela quinta; mostrando-lhe o esforço dos homens que cavavam, semeavam, ensinava-lhe o nome das flores em latim e acabavam o passeio comendo fruta arrancada da árvore.

 

(continua)

 

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