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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

CORRESPONDÊNCIA I

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

 

Reconstituição (possível) da correspondência entre Fifi e Manelzinho em Agosto de 1996, a partir de memórias desconhecidas e fidedignas da época, encontradas na Central da Calçada entre facturas, guias, cantigas e pregões.

 

 

Esta é a melhor forma, de transformar uma espécie de rabiscos, a quem ninguém chama escrita, na abertura da minha visita de cinco ou seis dias a Melgaço.

Ainda não li uma linha do que está escrito ao longo destas páginas. Também te preparo para encontrares um diálogo permanente, porque se era o meu corpo que estava presente, eras tu que o vivias.

24 de Abril... A partir daqui, não sei o que são datas, só o que está escrito.

Cheguei a Melgaço pelas 8.45 da tarde. Para quem saiu da kapital pelas 10 da manhã, não há duvida que custa um pouco. É quase como atravessar o Atlântico em caravela. Sem ninguém me esperar, jantar não havia, mas logo o bacalhau começou a cozer.

Pelas 11 da noite saí para o cafezinho e tomar os ares que me hão-de pôr como novo. Passeei sozinho pela Alameda Inês Negra.

Silêncio. Só silêncio. Se calhar era eu que não ouvia o sussurrar daquelas pedras a contarem histórias de mil anos. Só com as luzes amarelas dos holofotes a baterem nas muralhas, as tílias a serem fantasmas da noite.

Apeteceu-me gritar – obrigado meu amigo – a quem conseguiu retirar do limbo em que estavam enterradas todas aquelas pedras.

A seguir foi a Praça da República. Velha Praça, Terreiro, só com as árvores em volta e a pedra que pisamos. Outra maravilha! A iluminação vinha de baixo para cima. Não estava lá para me ofuscar. Estava simplesmente a cantar a beleza daquelas árvores, tantas vezes amaldiçoadas pelos rapazes, porque nem uma castanha comestível davam.

25, o meu dia da liberdade. Recebi convite para participar num almoço comemorativo. Fui obrigado a declinar, porque já antes, o meu tio, filho de latoeiro e neto de vice-consul do Terreiro me tinha feito a mesma proposta. Obrigado amigos, mas a um tio não digo não. O restaurante era o mesmo, o que levou a que a festa fosse conjunta. Com a camisola a dizer bem alto 25 de Abril e cravo vermelho ao peito, lá comecei a discussão com o Zé: para mim, uma travessa de arroz de lampreia chegava, porque eu, tal qual o Bé, não sou de comer muito. A conversa desapareceu e as duas travessas estavam vazias.

Não sei o que aconteceu, não falo em milagre, mas que foi estranho... No fim, pareceu-me que o Zé se atirava ainda a uma terceira (sinal que nas outras mandei eu), mas já não podia mais. Café e copa foram tomados na Galiza e daí ao presunto de Ribadávia foi um saltinho.

Hoje 26, dia de feira, depois do almoço que a mãe arranjou, sentei-me num banco da avenida, que para mim é a menina dos meus olhos. Sob a ramada das tílias, vejo toda a serra, de S. Paio a Alvaredo, Parada, Gave, eu sei lá... Já não consigo identificar as aldeias da minha terra. Mas isso não me chateia, porque elas estão lá. E lindas, lindas como nunca foram. No fim... os meus amores.

Ontem à noite, estive na Casa da Cultura. Assisti a uma actuação da Escola de Música dos Bombeiros. Defeitos poderia apresentar muitos, sinceros e honestos, mas totalmente compreensíveis. As “nossas” cantoras têm voz para mais altos voos e a sonoridade do Auditório Vasco Almeida não tem grandes qualidades acústicas. Mas o que me impressionou, foi ter passado quase 1 hora para poder arranjar lugar sentado. Nem todos tiveram a mesma sorte. Público, musica e músicos, encaixaram totalmente. Talvez se puxassem mais à música portuguesa e menos à espanhola... Mas como criticar é fácil... Bom, mas a noite já passou e agora estou sentado numa tasquinha, a ouvir mais um pouco de música popular, tocada por um grupo de Melgaço.

Mais umas voltas e na parte de trás da CMM, no terreno da GNR (quem lho deu?), no meio de três castanheiros que, se não se desenvolveram mais deve ter sido pela presença da dita (isto é mesmo para rir?), fui encontrar os animais da nossa serra. Do gamo ao veado, javali, galinha-d’água ou faisão.

O calor que se faz sentir pôs as meninas com agasalhos em casa e, desta vez, é ver as moçoilas da nossa terra a mostrar toda a sua beleza, de carnes rijas, que o inverno a isso ajuda e o quase Verão abençoa. É vê-los, dos 8 aos 10 dos 18 aos 30, a rir, a gozar, a curtir a nossa terra. E ainda há quem diga que Melgaço está morto. Morto estou eu, enfiado no meio da poluição, do barulho, do fumo, enfiado na treta da cidade. Estou na minha terra...estou vivo.

 

 (continua)