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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

DEVANEIOS DE UM CONTRABANDISTA

08.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

Rio Minho em Monção

 

 

   Adolfo Vieira, de Monção, outro dos nomes referenciados pelos investigadores militares norte-americanos, nunca se envolveu naquele tipo de actividades, a acreditar nos testemunhos escutados pelo DN. Café, sabão, sementes pretas de cereais e amêndoa constituíam o seu negócio.

  Era um dos mais ricos de Monção, mas não se lhe conhecem valores extraordinários. “Teria umas largas centenas de contos. Não mais”, assegura Helena do Ângelo, uma das mulheres com quem viveu maritalmente.

   Uma versão ratificada por filhos e gente da vila que com ele conviveu. “Morreu na miséria, deixando apenas 400 contos no banco”. Adolfo Vieira faleceu em Março de 1970, no hospital, porque não tinha casa…

  Era um esquema simples e muito em voga nas décadas de 1940 e 50, altura em que o contrabando entre o Alto Minho e a Galiza servia de ganha-pão da maioria das famílias. Adolfo possuía um armazém na vila, sede de um negócio rentável, no qual estavam envolvidos dezenas de homens, da sua confiança.

   Ao que nos contaram, uma carrinha Ford bastava para levar a mercadoria até uma pesqueira no rio Minho. Ali, uma batela fazia o transporte para a margem espanhola, onde contrabandistas galegos se responsabilizavam pelo respectivo escoamento.

   Não havia problemas com as autoridades, porque o dinheiro ganho “dava para tapar os olhos à Guarda Fiscal”, ouvimos à boca cheia. Tratava-se de um negócio tão pacífico que Fernando Vieira, um dos seus filhos, hoje com 49 anos, se recorda de “ir em cima dos sacos na carrinha” até ao rio. Tudo se passava junto à muralha ou um pouco mais acima, em Caldas das Termas. Ali, atravessar o rio tornava-se mais seguro, porque “o leito estreitava, o caudal baixava e a corrente não era tão forte”, explica-nos Helena do Ângelo.

   Adolfo Vieira nunca viveu de ostentações, apesar de ter o devaneio de “rasgar os fatos aos amigos para ter o prazer de mandar fazer um novo”, lembra Joaquim Brito, actual presidente da Junta de Freguesia de Monção e proprietário de uma alfaiataria.

 

(continua)