Sexta-feira, 8 de Março de 2013

O PEUGEOT DA D. HELENA OU RELATOS DA GUERRA COLONIAL

 

Spínola

 

 

UM MELGACENSE NA GUERRA COLONIAL

 

 

    Relato de Luís

    Com o Fontinha sou chamado ao capitão: a missão é destruir material explosivo despejado para o efeito numa cratera lá para as bandas da bolanha.

………………..

    Estávamos neste compasso de descanso quando, vindo do lado do rio, aparece o Aspirante Comando de sua graça Esteves (creio) – já o conhecia de Lamego onde à altura era Furriel, se não estou em erro – que nos interpela do que estamos a fazer. Esclarecido e sem mais delongas, dizendo que resolve o problema… saca de duas granadas e atira-as para o buraco sem dar tempo a qualquer contraposição argumentativa da nossa parte. Obviamente afastámo-nos rápido!!

    Fiquei expectante e… lixado!! Podia ser que resultasse, quem sabe?

    Bum?!... foi só bum! f***-se… ao menos podia ser bbbbbuummmm.

    Tempo de segurança dado e aproximámo-nos. O Esteves olhou e … retomou o seu caminho. Cobras, lagartos e faíscas à mistura com palavras feias, saíram em janela dos meus olhos na sua direcção! A intenção dele foi boa mas… precipitada e impensada!

 

    Relato de Jorge

    Ainda hoje me arrepio, só de me lembrar desse momento. Ambos conhecíamos o Esteves, dos tempos de Lamego. Mais tu, que com ele privaste nos Comandos, comandados pelo então Capitão Jaime Neves. Já na altura ele havia granjeado fama de maluco e algo irresponsável e essa fama chegou aos nossos ouvidos, nos Ranger’s em Penude!

   O certo é que depois de fazer o que fez, nos deixou entregues ao nosso petisco, não querendo e não lhe apetecendo participar nele.

 

    Aquele abraço

   

    Jorge

    Camarada Luís

    Conheci bem o Alferes Esteves (há uma confusão com o posto, quando o conheceste em Lamego, era Aspirante, tinha sido FurMil na 4ª C comandos em Moçambique). Em Junho de 1971, julgo que ainda estava na 26ª, mais tarde teve problemas com o comandante de companhia e foi afastado.

   Maluco, era concerteza, irresponsável tenho dúvidas, com essa característica as consequências operacionais seriam graves.

Lembro que em 6/1/1972, fazia 24 anos, cheguei ao fim da tarde a Bissau num heli que me trouxe do Saltinho. Já vinha com os copos e o único conhecido que encontrei para o jantar foi o Esteves.

   Fomos ao Solar dos Dez, onde numa das paredes existia um buraco resultante de um tiro dado com um revolver que o Esteves normalmente transportava.

   Acabou por ser mais uma noite louca, tendo-se juntado a nós o Major Gaspar, talvez ainda mais doida que o Esteves.

   Este era natural de Castro Laboreiro, contrabandista na adolescência, habituado a escapar à Guarda Fiscal e Guardia Civil.

   Outras noites acabavam em problemas com a Polícia Militar, etc.

   Já em tempos escrevi no blogue, a última noite que ele passou em Bissau, quando eu e outros camaradas o fomos encontrar, de braço engessado, no Pilão, rodeado por uma multidão enfurecida…

   Continuou com pancada.

   Há meia dúzia de anos que não sei mais nada do Esteves.

 

    Abraço

     Santiago

     Seguimos em direcção ao Pilão, com o Tomás a fazer uma condução à maluca. Falou numa cabo-verdiana que nenhum de nós conhecia, que ficaria perto da casa da Eugénia, essa conhecia eu bem. Corremos imensas ruas e ruelas do Pilão, eram tantos os saltos que o carro dava que o Rita já dizia estar a apanhar mais pancada que numa tempestade no mar. A determinada altura, uma das rodas do carro cai num buraco com grande violência, ouve-se um barulho de latas e ficamos com menos luz.O Tomás para o Peugeot e saímos para verificar o sucedido. Com a pancada um dos faróis saltara do encaixe, ficando virado para o solo, preso pelos fios de ligação.

    Nenhum problema, continuamos às voltas, à procura das gaijas que nenhum conseguia dizer onde ficavam e o farol acabou por cair, ninguém soube onde. Aí pelas três da manhã, chegamos a um local do Pilão onde se encontrava  um grande aglomerado de pessoas, em estado de grande exaltação. Paramos, saímos do carro e vemos no meio daquele maralhal o Alf Mil Esteves, de braço engessado ao peito, prestes a levar, na melhor das hipóteses, uma grande carga de pancada.

    O comandante Rita, graças à sua estatura, vai furando, connosco atrás até chegarmos ao Esteves, também de cabeça perdida. O que se passara?

    - O caaralho do Oliveira trouxe-me para aqui, bateu à porta daquela gaja, ela diz que está ocupada, o caabrão manda um pontapé na porta, rebenta-a, a tipa grita, começa a juntar-se este maralhal e o gajo deixou-me sozinho.

Foi complicado acalmar aquela gente mas conseguiu-se. Foi mais um passageiro para o maltratado 404. O Tomás ficou no Palácio e, nós os cinco, viemos beber mais um copo ao Orion. O Esteves embarcava nessa manhã para Lisboa, em fim de comissão.

    Alguém tem que reparar o Peugeot da D. Helena Spínola.

 

    PS – O Oliveira era Tenente dos Comandos. Pertencera à 26ª e estivera em Fá com o Miquelina Simões a formar a 2ª CCA (Companhia de Comandos Africanos). O Esteves fora Fur Mil na 4ª CCmds em Moçambique e Alf na 26ª, até apanhar uma porrada e ser transferido para Teixeira Pinto onde teve um acidente do qual resultou um braço partido. Tive com ele várias histórias.

 

     Santiago

 

     TEXTOS RETIRADOS DA NET POR

 

   CAMBORIO REFUGIADO

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 12:03
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