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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

A PARISIENSE II

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

Antiga Pensão Parisiense

 

 

— A Parisiense!

Contou e recontou pelos dedos e chegava sempre à mesma conclusão; nunca pregara um calote na Parisiense. Estava salvo o dia. A pressa passou a tanta que os que levavam com a perna de pau do manco da Boavista se voltavam a resmungar:

— Vê onde pões o pau, ó manco.

— O homem é maluco.

Ti António, manco da Boavista, dirige-se à patroa, pessoa de mui bom nome na praça que há anos tinha deixado a serra e correu as sete partidas da Europa para manter a caterva de filhos e se tinha fixado na Vila com a Pensão Parisiense, quem sabe se para não esquecer as agruras da vida em Paris:

— Senhora Esperança, tenho um pequeno favorzinho a pedir-lhe e agradecia-lhe que me ajudasse. É que tenho uns negócios a tratar, uma pessoa de bem, de Lobiô, com muitas cabeças de gado e gostava que não lhe faltasse nada à mesa e não lhe recebesse dinheiro nenhum. Tudo o que ele quiser e nada de dinheiro. Bem sabe, senhora Esperança, que um bom pasto só pode ajudar a fazer um bom negócio – filosofou o manco.

A senhora Esperança ia para abrir a boca, mas logo ele continuou:

— Ainda que o homem insista, diga-lhe que já pagou alguém. Ele perceberá. Antes do fim da feira, venho pôr a escrita em dia.

— Pois venham lá pela vossa hora que daqui não há problema.

Pouco depois do meio-dia, quando as ruas se despejavam e as tascas se enchiam, o manco e o amigo cliente na Parisiense abancados, deleitavam as papilas. O bom humor dos dois homens era manifesto. O diálogo era constante e apenas interrompido pelos risinhos de bem-estar e de mútua compreensão. As garfadas e os goles de verde, que melhor lhes fazia apreciar a carne estufada com batatas, assim como o olhar satisfeito do manco, eram prova que o negócio não tardaria a concluir-se. Assim foi. Uma vez a refeição acabada, o amigo do manco levantou-se para pagar.

— Está pago, logo informou a senhora Esperança recitando o texto do manco.

Este, sentado à mesa, fazia, discretamente, não com a mão e apontava para ele. O amigo, desolado por não poder pagar, voltou a sentar-se o tempo de retirar com um palito os restos da carne dos dentes. Ambos estavam satisfeitos.

— Bem, vamos tomar café, decidiu o manco ao mesmo tempo que se levantava e punha o chapéu.

— Então até logo, senhora Esperança.

A fita acabara. A senhora Esperança estivera à altura do papel desempenhado. Fora a farsa, o bobo do festim. E dizer que em noventa e quatro anos vividos, nunca entrou num cinema.

O manco da Boavista, ladrão e vigarista era mesmo um Charlot com perna de pau. A mãe não o parira, cagara-o.

Não mais pôs o pé que lhe restava na Parisiense.

 

 

A. El Camborio

 

Camborio Refugiado