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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

A PARISIENSE I

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

Dia de feira em Melgaço

 

Eram as feiras de antão, as feiras de sempre, as feiras dos meus 13 anos, As tendas dos feirantes, montadas por baixo das árvores, ocupavam uma parte da Avenida. Os reis da feira eram, sem duvida alguma, os Ratinhos de Monção. Com mais de uma tenda, eram duas gerações que semanalmente marcavam presença. Era durante as férias escolares que a terceira geração era preparada para as subtilidades da venda, pelos Ratinhos seniores. Eram a esperança dos Ratinhos continuarem a nascer e morrer feirantes. No Terreiro Pequeno eram vendidos os produtos da região e os pequenos animais caseiros.

Eram as feiras da Tia Amália, dos seus legumes e frutas; da Tia Tibórnia que vendia cuequinhas rendadas a que nenhum homem resistia, dizia ela; da Tia Isabel Caçolas que, à porta da casa, no banco de pedra sentada, nos “assava” numa panela cheia de furos, por cima do fogareiro, as melhores castanhas da Vila. Eram as feiras da Churreira. Vinha das Adegas e era raro ir mais longe do que o Largo da Calçada. O tabuleiro de churros que trazia para vender era, praticamente, esvaziado pela gente que por ela esperava. A mulher do Chico Vizegre trouxera a receita da Espanha natal. Eram as feiras das revoadas dos rapazes a roubar laranjas e tangerinas que estavam nos açafates. Eram as feiras do “bota p’ró mula”, a camioneta do peixe. Para prevenir a gente da chegada iminente, começava a apitar em Galvão e só parava quando chegava à praça do peixe. Eram as feiras do Vitorino, do Amadeuzinho da Gave, do Lião de Cousso, do cauteleiro de Monção com farda e boné da Casa da Sorte. Homens e mulheres vinham de todas as aldeias e lugares para comprar, negociar, comer, ir à Casa Grande, encontrar gente… Nesse dia, os do monte apropriavam-se do cunhal do Hilário, ponto estratégico para controlar as idas e vindas da feira. Era na caneja das Carvalhiças, pelo lado de baixo da Avenida, que a gente vinha aliviar a bexiga, a tripa ou os testículos.

Nesse dia, com o trapo imundo que lhe servia de lenço e rivalizava em nódoas com o casaco azul cinzento, Ti António, o manco da Boavista, limpava o suor da cara e com olhar de doninha furava por entre o pessoal que saía da Casa Grande. O ar de preocupado desapareceu quando viu ao longe quem procurava. Com uma profissão como a dele, testemunha profissional, todo o cuidado era pouco; havia uma reputação a defender e uns dinheiros a sacar e o que neste caso estava em causa eram duas leiras de sequeiro bem perto do lugar que valiam boa nota. Não era caso para tratar no meio da praça. Subiu a rua que dá para o terreiro, furou entre os castrejos e encostou-se a meditar: no 26 nem pensar em entrar, no Carlota não passava da porta, na Quina do marinheiro era melhor fugir, o Lucas era o Regedor e homem p´ra lhe mandar a guarda atrás, no Sabino que por vezes servia de escritório só com dinheiro que ele não tinha.

 

 

(continua)

 

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