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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O PELOURINHO DE CASTRO LABOREIRO

08.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

O PELOURINHO DE CASTRO LABOREIRO

 

 

   Numa digressão que fizemos pelo Norte em Julho de 1917, depois de termos regressado do sul de Angola, onde estivemos como expedicionário comandando a 10ª  companhia de infantaria nº 20, tivemos a ocasião de ir a Castro Laboreiro. Logo que ali chegámos, feita a viagem desde Melgaço a cavalo e acompanhado de guia, perguntámos pelo pelourinho.

   Fomos então informado de que estava fazendo parte da chaminé duma casa onde residia um professor primário aposentado. Convidado a entrar na referida casinha, ali se nos deparou um esteio de granito de secção octogonal, com dois metros de comprimento, tendo num dos extremos a inscrição que se vê no desenho (não temos o desenho),  0m,22 abaixo da linha, em que devia assentar um ‘’chapéu’’ de pedra, segundo ouvimos referir a um indivíduo de idade avançada, que havia sido encarregado por um antigo pároco de apear o pelourinho, a fim de empregar o fuste na casa que andava construindo. No outro extremo apresentava vestígios de ter estado metido numa cavidade. Por acaso apareceu uma rapariga castreja, que disse ter ouvido a um dos seus falecidos avós que uma pedra fazendo parte da parede exterior duma outra casa da localidade era do pelourinho.

   Dirigindo-nos à casa indicada, deparou-se-nos uma pedra em forma de pirâmide quadrada truncada, tendo na parte superior uma cavidade, onde devia introduzir-se o extremo inferior do esteio. Numa das suas faces, viam-se dois pequenos sulcos paralelos, que talvez tivessem servido de sinais de referência, pois um dos circunstantes disse recordar-se de ter visto na sua infância as mulheres servirem-se do pelourinho para medirem as meadas de linho. As dimensões do tronco da pirâmide eram as seguintes: altura 0m,70; lado da base 0m,43; distância entre a base e o traço inferior de referência 0m,36 (dois palmos); da mesma base ao traço superior 0m,56 (três palmos e meio); dêste traço à aresta superior 0m,14 (meio palmo).

   O esteio tinha tambêm um traço horizontal de referência, 0m,02 acima do extremo inferior. A espessura do esteio era de 0m,15 e cada face da secção octogonal tinha a largura de 0m,05.

   Segundo informações o ‘’chapéu’’, de secção quadrada, tinha umpequeno friso em volta e na parte superior um chanfrado, no qual entrava a base  duma pirâmide de granito, com 0m,60 d altura aproximadamente, e que rematava o pelourinho. Entre a base da pirâmide e o rebôrdo exterior havia a distância aproximada de 0m,15. O conjunto assentava em três degraus de granito, de 0m,30 de altura cada um, e tendo o inferior 2m,5 de lado. O informador foi Melchior Gonçalves, de 85 anos de idade, têndo sido ele quem em 1860 destruíu o pelourinho, como dissemos, por ordem do pároco da freguesia. É oportuno dizer que aquele informador Já não se lembrava que a pedra que nos foi indicada pela rapariga castreja fizera parte do pelourinho, como devia ter feito, segundo a nossa observação.

   Vê-se, pois, do que fica dito dêste pelourinho, que se levantava em frente de uma pequena casa térrea servindo noutros tempos de câmara municipal, esteve no seu lugar durante três seculos.

 

   Setúbal, Novembro de 1920

 

   Fernando Barreiros

 

Retirado de O Archeologo Português