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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOFRIMENTOS INSENSATOS XXIII

07.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

Não fazia mal. Mostrar-lhes-ia o desdém, a irreverência que tinha por estas pessoas maldosas, diabólicas, luciferianas. Lembrou-se do sermão do padre na missa do último domingo. Para quê ameaçar as pessoas com o Inferno, se elas já são infernais ? O próprio Diabo devia ter ciúmes desta gente !

O balido das cabras acabou por pôr fim ao seu devaneio. Tirou as mortalhas e o tabaco do bolso interior do casaco, velho pelo tempo e pelo uso, e enrolou um cigarro calmamente. Antes de o acender, chamou com meiguice pela Rabugenta que acorreu imediatamente. Sentou-a ao seu lado e, ao mesmo tempo que fumava, ia-lhe acariciando o lombo com ternura. Fazia-lhe bem. Pouco a pouco, a companhia do cabrito foi-o trazendo à realide, placidamente.

XXIV

O Fedelho punha-se todos os dias à espera do Armindo e do gado diante do portão de ferro. Como todos os cães, pressentia a presença deles uns minutos antes destes entrarem por ele adentro. Sabia que não tardariam e quanto mais perto os sentia, com mais intensidade abanava o rabo.

Naquela casa, tudo estava ordenado, regulado. Todos sabiam o lugar que ocupavam, quais eram as suas tarefas e quando deviam ser feitas. Os dias repetiam-se há muito e cada vez se pareciam mais.

Depois de o rapaz abrir o portão e os animais terem entrado, o cão, abanando o toco, esfregou-se insistentemente contra ele. Dava a impressão que entrevia o desgosto que submergia o seu amigo, o seu companheiro, e queria confortá-lo. O Armindo fechou as portas das cortes e agarrou no Fedelho que levou no colo até ao cimo das escadas. Entrou e fechou a porta cujos gonzos não deixaram de pedir sebo mais uma vez. A avó estava sentada na sua cadeira, toda risonha, e a mãe, à mesa, virada para ela. Deu-lhe a impressão que tinha interrompido a conversa que, à primeira vista, devia ser cordial. Sem uma palavra, arrumou o pau ao lado da porta, o saco por cima do móvel e dependurou o casaco no pau. Cansado, puxou uma cadeira e sentou-se, a olhar para a avó, silencioso.

O seu espírito estava longe, divagava, confuso, perdido, no meio de um espesso nevoeiro. As fontes latejavam-lhe continuamente. Passou uma mão pela testa exsudada. Ficou-lhe ensopada e enxugou-a dissimuladamente na manga da camisa. A agitação desmedida provocou sempre nele um excesso de transpiração que o indispunha. Por momentos, instintivamente, continuava a pensar na Lídia e o sangue, ardente, ria no seu corpo. Fragmentos absurdos de frases da conversa que tivera com a rapariga não deixavam de lhe molestar o desvairado espírito. À primeira vista, o seu aspecto não revelava nada do ferimento secreto que o devorava, mas não estava suficientemente dissimulado para conseguir iludir o penetrante olhar e o acerado faro da avó.

— Estás cansado, é Mindo ? – perguntou-lhe a avó, não sem uma ponta de ironia.

A velhota percebera que o rapaz estava contrariado, mas, apesar da sua perspicácia, não podia imaginar a que ponto a exasperação o comia. Confuso, sorriu e, sem olhar para a avó, respondeu-lhe que sim. Revoltava-o não lhe poder dizer a verdade pois conhecia a sua extraordinária susceptibilidade e não queria vê-la atormentada.

A Palmira, que desde que o filho entrara não mexera nem dissera uma palavra, levantou-se e, com a calma crónica que a distinguia, dirigiu-se para os quartos.

Ficaram os dois, em silêncio. A avó observou-o calmamente uns segundos e, vendo que o rapaz, triste, não tirava os olhos do chão, disse-lhe no tom afável e adocicado como só ela sabia exteriorizar:

— Sabes, meu Mindinho, a tua mai recebeu hoje uma carta do teu pai qu’eu esperaba hai muito. Ai que saudades tenho del ! Que Deus no-lo traga passar ô Natal connosco a Orjás, meu filho. Passa tanto tempo sim bir à terra !

Voltou a esboçar um sorriso e, embora sem vontade, levantou o olhar do chão e fixou-o confusamente na avó, cujos olhos cintilantes de felicidade davam a impressão de querer saltar das órbitas ressequidas. Não se sentia nada bem. Levantou-se com incongruência e, depois de ver que restava um pouco de vinho na caneca, deitou-o numa tigela que esvaziou imediatamente. Se estivesse só, tinha dado uma boa golada na garrafa de aguardente que se encontrava no armário da sala. Precisava de um estímulo vigoroso.

Apareceu a mãe com a carta na mão e entregou-lha. A Palmira não fora à escola. O rapaz abriu-a meticulosamente com um canivete e leu-a em voz alta. As duas mulheres estavam inquietas, mas não era pelas mesmas razões. Quando leu a passagem em que o Belardo anunciava a sua chegada para o 21 do mês de dezembro a Delfina louvou o Senhor fazendo o sinal da cruz e a sua cara fendeu-se num enorme e aprazível sorriso de contentamento e alívio.

— Deus oubiu-me. Nom me quêr lebar antes de o ber pola última bez – comentou.

A cara da Palmira não manifestava qualquer alívio ou alegria. A novidade, aparentemente, não tinha excitado qualquer contentamento na mulher. Já nada exercia fosse o que fosse sobre ela. A ausência contínua do Belardo acabara por criar nela uma sensação de derrelicção que, por sua vez, a foi tornando indiferente, desmazelada a tudo e a todos com o decorrer dos anos. Ninguém partilhava com ela a mágoa que o aborrecimento lhe proporcionava. A solidão das pessoas dá cabo de tudo, amolece a terra e faz perder a alma aos seres. É a desgraça suprema. Eram tantas as dores e as lágrimas que a tinham afogado, que o amor, há muito neglijado, se extinguira e transformara em cinzas. Para ela, o marido não passava de um estranho que se vinha intrometer, por umas semanas, na sua vida rotineira, na parte mais íntima do seu corpo, mais por necessidade do que por amor e ao qual tinha que se abaixar. A sua presença era um estorvo, um obstáculo. Foram tantos os anos que passou sem ele que se alegrava de nada mais possuir em comum com este homem e de poder odiá-lo libremente. Sentia-se forte, pois já nada mais tinha para perder. Era tempo de cessar de pensar e de se acomodar, da maneira mais superficial, às circunstâncias.

A impertinência da missiva exprimiu-se através do silêncio glacial que se prolongou depois do termo da sua leitura. O Armindo estendeu a carta à mãe, baixou a cabeça, fincou o queixo no punho, sem manifestar nada de patente e ficou a olhar para a lareira, trepidando, como se estivesse avinhado. A Palmira agarrou na carta e dirigiu-se novamente para o quarto onde a tinha ido buscar. Apenas se ouvia o estalido da lenha no lume.

A pobre Delfina não deixou que lhe enlutassem o momento de grande alegria que não tinha há anos e que tanto desejava. A atitude da filha não a espantava absolutamente nada pois os acontecimentos sobrepunham-se num lapso de tempo demasiado curto. Os aborrecimentos ainda estavam fortemente vivos e a fobia que certamente se apoderara dela não ia ser fácil de evaquar tão depressa.

— Tu nom ficastes contente, Mindo. Ôs teus olhos estam tristes. Êl tu nom estás bem ? – perguntou ao neto.

— Fiquei, bó, mas estou cansado.

 

(continua)

 

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