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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOFRIMENTOS INSENSATOS XVII

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

XVIII

Só quando chegou à casa é que a Áurea reparou que deixara ficar no café o saco com as meias e o cachecol, assim como os pastéis. Iria mais tarde recuperá-los. Sentou-se na cama a pensar no que lhe acontecera, como reagira, as razões e as possíveis consequências. Quantas vezes pensara nisto ! A gente cuida sempre que só acontece aos outros ! De todos modos, não tinha nada que deplorar. Reagira como qualquer outra, na sua situação, reagiria. Nem mais nem menos. “O mais importante, agora, é gerir”, disse-se.

O que a perturbara fora o seu à vontade, a educação, e, sobretudo, o seu olhar cheio de bondade, de compreensão. Nunca tinha visto um olhar tão profundo e meigo que a aliviara e tranquilizara como nunca até ali. Era preciso ter um talento louco para poder descrever os seus gestos, a harmonia da sua voz e o fogo dos seus olhares. Nenhuma linguagem poderia representar ou personificar a ternura que  dele emanava nem a sua impressionante postura. Por isso reagira com confusão e com agitação. A partir de agora, seria diferente.

Tinha lido diversos clássicos franceses e não tinha a mesma concepção que eles do amor. Acreditava incontestavelmente que o amor só podia ser a forma suprema da amizade. A amizade tinha de ser o factor básico, o húmus, o pedestal  para se poder atingir o amor. E, para isso, o convívio e a experiência, eram os únicos sendeiros a trilhar. Os sobressaltos da vida só podiam ser as lianas que os fizessem subir até chegar à meta final : o amor.  Dava-lhe vontade de rir, e até a irritava, quando andava no magistério e ouvia as colegas dizer que, com tal ou tal outro, iam para a cama de olhos fechados. Era o amor cego, diziam. Que disparate!

Desprezou sempre o estado a que chamavam de paixão. Não podia conceber que uma pessoa pudesse viver exclusivamente para outra, criando à sua volta uma espécie de membrana isoladora que a separava do resto do mundo. Era uma forma extrema de egoismo, de insensibilidade, de desprezo e de exclusão voluntária, espantosamente tolerada pelas pessoas. Não acreditava que pelo amor de um ser se pudesse ficar autista, rejeitar os restantes, desprezar tudo, chegando mesmo a suprimir-se. Não era amor, era a loucura que se manifestava num quadro amoroso.

Para ela, ao contrário da maioria, o sexo não era primordial para se poder amar alguém. Quem lhe dera encontrar alguém com quem pudesse compartilhar para sempre o sexo, o amor, as ideias, as vontades, as paixões, os problemas relutantes... Era quase que impossível. Compreendia muito bem que houvesse casais estáveis e fortes que, passados anos, apenas tivessem relações sexuais distintamente, sem que isso tivesse quaisquer consequências ou incidências sobre o seu equilíbrio. Ver o amor através do sexo é consagrar o casamento ao fracasso. Era o que via à sua volta. Não contava casar-se unicamente para se assegurar um prazer sexual. Não, a representação que se tinha feito do casamento apoiava-se, inicialmente, na igualdade perante o amor, no respeito mútuo e na compreensão recíproca, categórica e total. Numa segunda fase, era a decisão e a orientação a dar à construção da família. Tinha lido que só a partir do século 18 é que se principiou a falar de amor nos casamentos. Até ali, ninguém casava por amor, nem a pensar no sexo. A finalidade primeira do casamento era aumentar o património e manter a descendência. No casamento não existia moral.  Riu-se. “Não vou encontrar ninguém que queira suportar os meus delírios.”

A avó já lhe tinha dito que só se podia dizer que um casal se entendia quando não fosse preciso falar, quando um leve olhar, um pequeno gesto fosse suficiente para se compreender. Mas, para isso, que eram necessários muitos anos. Era o que a Áurea queria encontrar mas em muito menos tempo.

Desceu as escadas que a separavam da galeria. Como era cedo, ligou a televisão. Depois de almoçar, deitou-se de lado por cima da cama, um livro nas mãos. Precisava de aliviar um pouco a mente. Quando reparou que não tardaria em fazer noite, foi à pastelaria buscar as coisas. O dia fora curto. E imprevisto.

XIX

Pouco a pouco, durante o dia, o ambiente foi melhorando e eles foram-se descontraíndo. O Armindo e a mãe foram matar um frango que depois ela preparou com arroz à maneira do sarrabulho. Inconscientemente, faziam frente ao inesperado sermão do padre. A Delfina ficou satisfeita por ver que se tinham aproximado um do outro. Sabia que não era fácil, tanto para um como para o outro, e, por isso, ainda mais mérito lhes dava. Os momentos de sincera harmonia eram de tal modo inabituais que, quando se apresentava um motivo para tal, o júbilo era extraordinário. As palavras eram escassas e desnecessárias. A Delfina sabia que o silêncio é uma queixa e que as palavras são querelas. Se as pessoas soubessem quantas nuances há nos sentimentos e na maneira de agir... Por ser mulher e mãe, podia perceber com mais facilidade as loucuras da filha e ser mais indulgente do que o neto que se sentia sufocado pelo seu orgulho de adolescente.

A Delfina há muito que desconfiava do que se tinha passado. As pessoas, como ela, onde a imaginação, modelada diariamente, predomina, e só o corpo langue, têm pressentimentos que mais ninguém pode ter. Ainda de manhã, depois da missa, muitos e muitas estavam admirados com a sua força de vontade, a sua veemência. Não compreendem que as esperanças de um dia se sentir aliviada lhe davam coragem para viver e para ignorar o sofrimento. O próprio silêncio, mesmo pesante, se se lhe prestar atenção, é suficientemente poderoso para fazer-nos cessar os funestos pensamentos e os frequentes momentos dolorosos.

Depois de comer, da avó e da mãe terem ido deitar-se, o Armindo sentou-se um pouco ao sol, no degrau da porta. O Fedelho, abanando o toco que lhe servia de rabo, juntou-se-lhe prestamente, deitando-se ao lado dos seus pés. Tinha uma grande amizade pelo cão. Cresceram juntos. O rapaz pouco mais velho era do que ele. Fazendo-lhe festas na cabeça e no peito, pensava na noite anterior. Sentia-se contente. A conversa que tivera com o Salvador fora bastante agradável e pusera-o à vontade. Sentia nele uma vontade firme, uma força jovial, estimuladas pelos actos disparates da mãe. Queria experimentar, comprovar a força irracional que a mãe e a avó atribuiam ao cio, à necessidade fisiológica e incontrolável das pessoas.

Irremediavelmente, a figura da Lídia veio perturbá-lo com encanto. Só em pensar nela, sentia-se embriagado, subia-lhe qualquer coisa à cabeça que o euforizava, que o subjugava, como jamais as suas incomparáveis fantasias tinham feito. Via-a sentada no muro, depois de terem vindo do moinho, a contar-lhe coisas que ele não ouvia, de tal modo estava mergulhado nos seus olhos, nos seus lábios... Nunca os seus lábios lhe tinham parecido tão atraentes, como se se entreabrissem, lânguidos, para absorvê-lo lentamente.

Deu um grande suspiro com agrado. Levantou-se mas, depois, hesitou uns instantes. Tinha pensado ir até ao adro. Era possível que a encontrasse lá pois, aos domingos de tarde, era o ponto de encontro das raparigas e dos rapazes. Preferiu rescindir da ideia e evitar aborrecimentos com os rapazes.

Resolveu ir dar um passeio pelo caminho da azenha. Pegou no chapéu e no pau e dirigiu-se para o grande portão de ferro que já não tinha cor. Quando se virou para fechá-lo, reparou que o Fedelho, agitando o rabo, permanecia do lado de dentro. Sorriu-lhe e baixou-se para lhe fazer umas festas. O coração fendeu-se-lhe ao descobrir-lhe nos olhos turvos e embaciados um enorme sentimento de frustação, de sofrimento por não ter forças suficientes para acompanhá-lo na sua caminhada. Consternado, agarrou-lhe a cabeça e esfregou-a, com meiguice, contra a dele.

— Ô meu Fedelhinho, nom fiques triste qu’eu benho já, si ?

“Ô peso dos anos estraga tudo.” – pensou, com mágoa. E, portanto, queixava-se que a infância não queria abandoná-lo. Não imaginava que, por muito que crescesse,  nunca conseguiria curar-se da infância.

Fechou o portão e dirigiu-se para o cruzeiro. Sabia que, ao domingo, àquela hora, não encontraria ninguém. Movia-se com calma, olhando para o céu de um azul profundo como o aço. Ofuscado pelo belo sol outonal, ia enchendo os pulmões do ar puro e fresco da montanha que o revigorava. Inelutavelmente, a imagem da Lídia impôs-se e sentiu, de imediato, um bem-estar inabitual, uma sensação atraente que lhe conferia o sentimento de que era um rapaz que tinha algo mais do que os outros, apesar da desvantagem. Pôs-se a cantarolar.

Lembrou-se que, um dia, conversando com a irmã, esta tinha-lhe dito que nos outros lugares, nas vilas e nas cidades, as pessoas eram como ali : mal-intencionadas, más-línguas, invejosas, egoistas... mas, como não se conheciam, viviam mais descansadas, na ilusão, pensando que eram felizes. Também lhe tinha dito que a felicidade era uma coisa subjectiva, coisa que ele não percebeu. Então, explicou-lhe que dependia das pessoas, que uns, com quase nada, eram felizes, outros precisavam de mais, outros, de muito mais, e outros tinham tudo e, apesar disso, eram infelizes. Ele, ao perceber, rira-se, não dissera nada mas identificou-se imediatamente com os primeiros. Não pedia grande coisa mas sentia que nem isso lhe queriam deixar.

Fez uma careta e apertou o pau até lhe doerem os ossos da mão. Não se deixaria ditar as suas vontades, os seus desejos, a sua vida pelos outros.

 

(continua)