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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOFRIMENTOS INSENSATOS XVI

07.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

XVII

Às sete e meia da manhã, a Palmira e o filho estavam sentados à mesa da cozinha. Era domingo. Cada qual tinha diante dele uma malga de sopas fumegantes. Para ela, a comida tinha de estar bem quente, ainda que tivesse que esperar ou soprar-lhe, de outro modo, não a queria. Tinham-se encontrado na cozinha, lavado a cara e preparado a desjejua sem se terem dirigido uma só palavra. Evitavam cruzar o olhar. A Palmira tinha a cara particularmente ressequida pelo cansaço físico prematuro mas também pelos pensamentos que, durante a noite, lhe tinham, sem dúvida, escavado a alma. Via-se que tinha vontade de dizer qualquer coisa mas não encontrava as palavras na sua cabeça perturbada. Gostaria de lhe dizer o que a feria, que lhe causava dor, o que lhe apertava o coração e a sufocava. O que não devia ter feito, nem pensado. Em vão ! As palavras fugiam-lhe da boca. Respirou intensamente, vencida, como quem nada tem que dizer, que nada pode fazer.

O Armindo foi o primeiro a acabar. Arrumou a malga no lava-louça e, quase como se falasse sozinho, informou :

— Bou arrumar ôs animais enq’anto você s’ocupa da minh’àvó.

— Está bem, Mindo – respondeu-lhe com uma voz quase inaudível.

Aparentemente, excepto a voz dela, nada era diferente das outras manhãs de domingo. Enquanto a sua mãe, pensativa, acabava as sopas,  preparou a lavadura e, depois de pôr o chapéu na cabeça, saiu para o patamar. O Fedelho esperava por ele, como estava habituado a fazer. Tinha chuviscado de noite. O chão estava  molhado.

Às nove e meia, depois do sino tocar pela segunda vez, estavam os três vestidos e preparados para ir assistir à missa dominical. Elas vestiam, practicamente, a mesma roupa preta que nos outros dias, só que esta estava quase nova; o Armindo metia o último fato, também preto, que o pai lhe mandara fazer, havia mais de três anos, e uma camisa dum branco imaculado. A manga do braço maior começava a ficar-lhe um pouco curta. A Delfina, fincada na bengala com o braço direito e, com o esquerdo agarrado ao da filha, foi descendo cuidadosamente o caminho até à velha igreja.

No interior da pequena capela, as pessoas do lugar, numerosas, apertavam-se nos bancos. Do lado direito, os homens, do esquerdo, as mulheres. Na primeira fila, estavam sentados o Beites da loja, o Rogério e o Arsénio, o ferreiro, que era zarolho. Os três, vestidos de preto como todos os outros, tinham os chapéus na mão, mostrando a cabeça resplandecente de brilhantina. O ar principiou a ficar mais pesado. O cheiro da água de colónia barata de que todos se encharcavam, misturado ao do fumo de que as roupas se impregnavam com o tempo, e ao do incenso da capela, tornava o ar irrespirável.

A missa foi evoluindo com normalidade até que o padre subiu ao púlpito e se agarrou a ele com as duas gordas mãos. O móvel gemeu sob a pressão do sacerdote. Era o momento do sermão. A atmosfera dominical propagou-se lentamente pela igreja. Os aldeões limparam a testa gordurenta com o lenço e aclararam a garganta como se fossem eles que iam falar. Fez-se silêncio, um silêncio de espera, de apresto. A voz rouca e robusta do padre encheu a nave.

O Armindo estava sentado ao lado da avó, sonolento. Não gostava nada daquele calor humano perfumado de incenso que lhe dava sono. O seu olhar passeava, indiferente, pelos rostos pios e idiotas. A sua avó não parava de cheirar o raminho de sálvia que trazia sempre no bolso. O incenso também a incomodava. Atrás, alguém tossiu roucamente. O rapaz tentava distraír-se reparando em tudo excepto na homilia. Portanto, o padre arengava cada vez mais alto e, sob a sua voz tonitruante, as velhotas, desdenhosas, cabeceavam como se estivessem na casa.

O padre, que parecia olhar olhar para eles, falava de pecado, cada vez mais furioso. “Contra quem está ô home zangado ?”– perguntou-se o Armindo.

— Satanás só vos oferece o pecado; Deus, na sua bondade, oferece-vos a virtude, a paz da alma ! Podeis escolher libremente mas, depois, virá a hora da expiação.

A Delfina apertou o braço do rapaz que olhou para ela, no momento em que o padre continuou a falar das pessoas más, das mulheres culpadas.

— Nunca é tarde para entrar no bom caminho ! – gritava – Se estas criaturas se perdem no meio de vós, tendes que repeli-las sem hesitação, assim como o Senhor as repelirá do seu trono para o fundo do inferno !...

Sentiu-se um movimento na igreja. A voz do padre assobiou, cava, até ao fundo da igreja.

— As más mulheres estragam os homens corajosos e honestos e desonram as famílias; podem esconder-se dos outros, mas nunca se poderão esconder de Deus!

Atrapalhado e enraivecido com as palavras cuspidas pelo padre, o Armindo olhou disfarçadamente para a mãe. Estava de olhos fechados, branca, não como um morto, mas quase como a própria morte. Fazia um esforço monstruoso para não desatar a chorar.

O sermão acabara. O padre ficou direito, ofegante, à espera que a respiração voltasse à normalidade, antes de pôr termo à missa. O Senhor nasceu e morreu no altar, com precipitação.

Os olhos do rapaz fixaram-se no Cristo, deteriorado pelas inclemências do tempo, que se elevava diante das filas de bancos e estendia os seus dois braços feridos na cruz com um ar de triste misericórdia. Enquanto olhava para o Salvador, que tanto amara o mundo, sentia um ódio abrasador pelo padre, por todos os que ali se encontravam.

Os que estavam no fundo dirigiram-se para a saída. Depois, foi nos primeiros bancos que começou a agitação. Do ar requecido voltou a exalar o cheiro a chamusco, a pomada rançosa. Dirigiam-se devagar para fora, empurrando suavemente, o rapaz, a avó e, de cabeça baixa, a mãe. A sua cara continuava pálida, os cantos da boca enrijecidos. O rapaz, com os olhos vazios, olhava para as costas redondas das pessoas que se puxavam para a claridade da porta, mas não via nada.

Fora, faziam-se grupos de três ou quatro que depressa se desfaziam para ir formar outros mais adiante. A Delfina, como sempre, não teve dificuldade em arranjar um lugar num banco ao lado de outras pessoas. O neto e a filha ficaram por detrás dela, de pé. O ritual costumeiro começou. A gente vinha saudá-los amigavelmente mas a Palmira, cujas palavras lhe saíam espontaneamente, não estava ali. O seu rosto não tinha pinta de doçura e permanecia vago e frio.

É natural que, quando um incidente ou um súbito terror nos surpreende indevidamente, a impressão seja mais forte do que se fosse noutras ocasiões, seja por ser inesperado, seja porque os nossos sentidos, estando alerta, são mais susceptíveis de sentir uma emoção forte e rápida. As palavras do padre tinham-na incomodado solidamente e fizeram-lhe perder a pouca vontade que lhe restava. Na cabeça, sentia um tumulto surdo que a impedia de pensar e lhe dava a impressão que tinha recebido uma enorme pancada no peito e cuja dor ainda era confusa. Estava mergulhada num desânimo que a fazia sentir-se inquieta e agitada.

A mãe virou-se e deitou-lhe um olhar de terna compreensão e da mais doce compaixão. Não sabia se queria consolar a filha ou se se queria consolar a ela própria.

— Bamo-nos, minha filha ! – pediu-lhe.

Não foi ouvida. A alma da filha estava tão agitada que era surda a qualquer exortação exterior. Agarrou-lhe na mão, que apertou, e repetiu-lhe o pedido. A gente discutia sem fim, saboreando aqueles curtos e raros momentos de convívio. Cuidadosamente, puseram-se a caminho da casa, evitando as poças de água que a chuva fizera durante a noite e nas quais o sol principiara a tomar banho.

 

(continua)

 

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