Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOFRIMENTOS INSENSATOS XV

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

A Áurea, consciente da hora, resolveu parar diante do mostrador da pastelaria onde, às vezes, isto é, quase sempre, sucumbia à sua insuperável fraqueza: os mil-folhas. Pediu dois para ela, dois de coco para a mãe da Natália e mais dois de nata para o pai. À tarde, se estivessem disponíveis, podia tomar um chá com eles e passar uns agradáveis momentos de convivência. A vendedora, uma moça simpática que já a conhecia, preparou-lhe a caixinha de papel que atou com uma linda fita avermelhada de plástico. No preciso momento em que se virou com o fim de prosseguir o caminho, sentiu alguém chocar contra ela, projectando-lhe a caixa com os pastéis para o chão. Não teve tempo de baixar-se para apanhá-la. Um homem jovem, com poucos mais anos do que ela, recuperou-a prontamente e devolveu-lha desculpando-se apressadamente.

— Lamento muito o acontecido, minha menina ! Sou um cabeça no ar ! Peço-lhe mil vezes perdão pelo imenso incómodo que lhe causei.

A Áurea, confusa, não conseguiu articular uma palavra. Ficara suspensa no profundo e insinuante olhar do jovem que a subjugava agradavelmente. De aparência ordinária, com um palmo a mais do que ela, só a vasta cabeleira frisada cor de castanha o distinguia, dando-lhe um ar de intelectual. Antes que pudesse recobrar o sangue-frio que regularmente a caracterizava, ouviu-o dizer que se chamava Pedro e pedir-lhe afavelmente que, para se fazer perdoar o gesto condenável de que fora o culpado, aceitasse tomar um café ou qualquer outra coisa na sua companhia. Sem saber como, sentiu os lábios mexer e um “está bem” tímido, quase que aflitivo, escapou-lhe da garganta.

Agarrou-lhe delicadamente no braço e entraram na pastelaria. Perdida, sentou-se na primeira mesa vazia que encontrou. Não se sentia bem nem mal, sem contudo saber o que realmente a tinha perturbado tanto. Tivera que obedecer, involuntariamente não pudera resistir. E, ao mesmo tempo, sentia-se segura e satisfeita interiormente, como se fosse qualquer coisa há muito decidida, predestinada. Distraidamente, respirou profundamente para evacuar o stress inicial. Tinha que dominar-se.

— Chamo-me Pedro, mas creio que já lho disse. Você é que ainda não me disse como se chamava ou fui eu que não ouvi ?

Não queria levantar os olhos. Tinha medo de enfrentar aquele olhar tão profundo e enigmático que penetrara nela intimamente mas que, ao mesmo tempo, libertava uma confiança suavizante, aquietante. Conseguiu esboçar um tímido sorriso para lhe responder.

Pediram um café e um carioca de limão. Reparando no seu nervisismo, no seu temor, foi ele que falou. Pausada e distraidamente, contou-lhe que era fotógrafo e tinha o estúdio do outro lado do rio, na estrada de Novelhos. Fazia o que todo fotógrafo faz : casamentos, baptizados, comunhões, fotos para os bilhetes de identidade, passaportes, recordações, etc. No entanto, o seu íntimo desejo era, num curto futuro, ter possibilidades de dar asas à sua grande paixão : a fotografia de arte. Tinha vinte e oito anos e era solteiro. Nascera na Barca mas fora criado por uns tios na casa dos Arcos onde residia e tinha o estúdio. Calou-se. Pegou na chávena que até ali desleixara e foi tomando o café já tépido aos golinhos.

Ela, que inicialmente agarrara a chávena com as duas mãos, tal era a tensão que a afligia, deixara-se distender gradualmente à medida que ele se ia exprimindo. Os seus reflexos, até ali confusos e desordenados, foram retomando o curso normal, depreendido. “Já chega, disse para si, pareço uma criança diante do pai natal !” Sentia-se ressentida consigo mesma. Que lhe passara ? Riu-se interiormente. Se era a isto que os românticos franceses, que ela conhecia modestamente, apesar de ter lido alguns, chamavam o “coup de foudre”, tinha recebido uma forte descarga, pensou jovialmente. Decidiu refrear-se de vez. Não fazia parte dos seus princípios subjugar-se a quem quer que fosse, sobretudo quando acabara de o conhecer. Olhou para ele no momento que pousava a chávena. Os olhares cruzaram-se e cumpliciaram-se com ternura. Voltava a ser a Áurea escrutadora, curiosa, que tinha vontade de fazer estudos de sociologia.

— E você ? – inquiriu ele sorrindo-lhe.

Já sossegada, disse-lhe de onde era, que exercia como professora em Penacova, onde vivia e que tinha vinte e quatro anos. Desleixadamente, omitiu de dizer que era solteira, coisa que ele não lhe perguntou. Fôra breve propositadamente. As impressões tinham que ser amadurecidas antes de ela se empenhar. Olhou para o relógio e desculpou-se, dizendo-lhe que tinha que volver à casa. Levantaram-se e foi no passeio, antes de se despedirem, que ele lhe perguntou:

— Foi um imenso prazer para mim conhecê-la, Áurea. Acha que podemos voltar a ver-nos ?

Sorriu-lhe uns instantes fixando-o bem e, finalmente, acabou por abanar a cabeça afirmativamente. Marcaram encontro ali mesmo para o próximo domingo de tarde. Pôs-se a caminho da casa. O saco plástico com as meias e o cachecol, assim como a caixa com os pastéis, ficaram esquecidos por cima da mesa da pastelaria.

Em poucos minutos, a alameda ficara practicamente deserta. Os feirantes, com um tachinho de comida no regaço, que muitos deles iam guarnecer às pensões, iam comendo ao lado ou dentro das tendas. Havia sempre pessoas que aproveitavam esta hora de pouco movimento para fazerem compras.

XVI

Eram oito da noite quando o Armindo empurrou o portão e penetrou no quinteiro. Trazia na mão a cana de pesca com o carreto Mitchell que o Salvador tinha reparado. Na janela da cozinha, havia luz. O Fedelho, como se não o visse há muito, e apesar da escuridão, foi ter com ele a meio do quintal e, satisfeito, esfregou o minúsculo focinho contra as suas pernas. O rapaz, encantado, pôs um joelho no chão e fez-lhe umas festas na cabeça e no pescoço. À mãe tinha-lhe devoção, como a um patrão, a ele tinha-lhe amizade, como a um irmão. Ao chegarem às escadas da casa, o animal ficou a vê-lo subi-las, abanando o exíguo rabo e piscando os olhos à vista dos fachos da sua lanterna de bolso, antes de regressar para o quente sossego da casota.

Receoso do ambiente que ia encontrar, e apesar de sentir uma energia intensa que naturalmente lhe devia facilitar ou, no pior dos casos, condicionar os esforços que estava prestes a consentir-se,  preservava uma determinação prudente.

Abriu a porta da casa que chiou e a primeira visão e sensação com que ficou ao entrar tranquilizaram-no. Teve a impressão de que o esperavam. A avó, imparável, instalada na sua cadeira de balanço, ao vê-lo, sorriu-lhe com afecto. Tinha cara de quem estivera a dormitar. Devia ter acordado com a lamúria da porta. Para o Armindo, o seu gesto foi uma maneira de sossegá-lo e de lhe dar confiança. Arrimou o pau ao muro ladeiro da porta e pousou a lanterna e a cana por cima do comprido móvel.

A mãe, de costas para ele, acabava de lavar a louça que ela e a avó tinham utilizado para cear e que se compunha de dois pratos fundos e dois copos. Por cima da mesa, à qual o moço se tinha sentado, havia um pedaço de pão fresco que ele agarrou e começou a mordiscar sem dizer uma palavra. Na lareira, ardente, o caldo esperava pela colher que o liberasse do calor do braseiro e o deixasse saborear uns momentos de agradável amenidade num prato.

— Côm’algo, Mindo ! Ô pam sim mais nom t’ench’a barriga, meu netinho ! – instigou-o a avó.

O rapaz, ferido, confuso e cansado como se sentia, limitou-se a esboçar uma careta de agradecimento. Durante uns segundos, instalou-se um silêncio pesado. Um silêncio daqueles que não eram mais do que um interregno. Ouviam-se estalar as achas de carvalho, ainda verdes, das quais se desprendiam fortuitamente fagulhas com cores tão matizadas que faziam pensar num fogo de artifício.

— Quêres que te faça algo, Mindo ?

Fora a mãe que, inesperadamente, sem se virar, num tom intermediário, lhe fizera a pergunta. Desconcertado, o rapaz olhou para a avó e descobriu no seu rosto, no seu olhar, cheios de ternura, um encorajamento e, sobretudo, uma amostra de que, apesar de velha, não deixava de ser a pessoa com mais autoridade moral.

Teriam falado as duas ? Em todo caso, vista a atmosfera, não tinha havido altercação.

— Nom senhor, nom quero nada. Chega-m’ô caldo.

Não conseguiu pronunciar o vocativo, “minha mãe”. Novo silêncio. Sem uma palavra, a Palmira pegou no candeeiro de louça que acendeu e, como fazia diariamente, acompanhou a mãe à retrete, levou-a para o quarto, ajudou-a a vestir a camisa de noite e a deitar-se. Encostou-lhe a porta e, com o candeeiro na mão, foi para o seu quarto silenciosamente.

O Arminto suspirou. Sentia-se mais extenuado do que se tivesse passado o dia a cortar feno sob um sol ardente. Mexeu bem o caldo com a grande colher e pegou numa malga que encheu até não caber mais. Verificou se havia vinho na caneca e encheu uma tigela. Sentou-se e, por uma vez, comeu vagarosamente, saboreando delicadamente o caldo. Estava a retardar a hora de se deitar. Tinha receio da noite.

 

(continua)