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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOFRIMENTOS INSENSATOS XIV

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

Antes de chegar ao cruzeiro, distinguiu imediatamente três vultos. Eram sempre os mesmos. Não se atrapalhou.  Se por azar o provocassem, iam ficar a saber com que lenha se aquecia. Escolhiam mal o momento de o importunar ou de lhe procurar pulgas na cabeça. Quando chegou junto deles, disse-lhes, sem parar:

— Que boa bida tedes ! Atê parêce que bibides nô cruzeiro !

Surpreendidos, riram e um deles convidou-o:

— Aonde bás a esta hora, Mindo ? Fica aqui c’ôs homes, connosco é que tu estás bem, anda !

— Bô ! S’inda aprendesse algo ! – e, sem lhes prestar mais atenção, continuou pelo meio do lugar.

Passou diante da igreja. Duas velhas tílias, com galhos frondosos, cobriam a pequena praça e os quatro bancos de pedra que ali havia. Continuou até ao fim do lugar. Do lado direito, um lindo fontanário de granito, marcava o fim do lugar e o princípio do caminho de Cubalhão. A lua nascente emergia das montanhas sem pressa. Andou até avistar um agregado de sombras, o pinheiral, através do qual mal se distinguia o caminho que continuava para Cubalhão. Do lado direito, de onde o horizonte se descobria, deixando ver aqui e ali, ao longe, umas lânguidas reverberações de luzes nas Cortelhas e em Parada, descia uma vereda sinuosa com aspecto de ser pouco usitada. Tirou a lanterna do bolso e, auxiliando-se com o pau, foi descendo calmamente.

Ao cabo de uns metros, ouvia-se o ruído irregular de água a caír para um tanque. A frescura e a vegetação, favorecida pela primeira, eram predominantes nas paragens. Poucos metros a seguir ao tanque, do lado esquerdo, perdurava um carvalho extraordinário, velho de vários séculos, maquilhado, sabe-se lá por quantas temporadas acumuladas e bronzeado por dezenas de trovoadas. A casca era rugosa, espessa, como que mineral. Parecia um tronco cortado num penedo. Indefinidos e inextricáveis galhos brotavam deste tronco, engendravam-se uns nos outros, multiplicando-se constantemente. Ao lado, quase que dissimulada pela gigantesca árvore, a casa do Salvador.

Era uma casa pequenita, com um imponente lilás que se esbanjava por cima da única porta e lhe dava um ar irrealista. Tinha duas janelas, mas só numa luzia uma fraca luz. Os muros, autênticas miscelâneas, estavam remendados com materiais que, para outros, seriam inutilizáveis. Dum lado e doutro, a sucata, o ferro-velho, as madeiras, pedaços de cancelas, de arados, rodas e outros materiais, de toda natureza e formas,  amontoados, davam ao conjunto a aparência de uma escultura moderna. Da pequena cheminé, saíam pequenas nuvens de fumo. O Armindo não compreendia como ele podia viver sozinho num sítio tão isolado, sem mesmo ter um cão. Achava impossível que uma tal solidão conviesse a um homem da sua idade. Apagou a lanterna, que meteu no bolso, e deu duas pancadas leves na porta. Esta abriu-se imediatamente, como se o homem estivesse por detrás da porta à espera. Ao deparar com o rapaz, o rosto fendeu-se-lhe num sorriso leal e prazeroso.

Tinha o físico de um homem de mais de cinquenta anos, pequeno, atarracado, de largos e sólidos ombros. Tinha a pele tostada e curtida pelo sol, uns olhos pequenos e penetrantes e uma bela cabeleira grisalha. Apenas tinha barba no queixo e, nos dois lados da boca, tinha aquelas duas grandes rugas, que mais pareciam sulcos, e que revelam os longos mutismos dos solitários. Vivia sossegado. Chegara ali como um infeliz que, sob o peso esmagador do seu fardo, se arrasta no caminho sem desanimar, unicamente interessado em contemplar libremente a luz do céu. Tinha construido nele próprio um mundo só para ele. Era feliz por ser um homem que, por mínimo que fosse o seu poder, tinha conservado o suave sentimento de liberdade nas profundezas do coração. Dali, com um simples olhar, podia abraçar os vales no fundo e, logo a seguir, os montes que tentavam fazer barreira aos ventos carregados de humidade que vinham do mar. Só alguém como ele, que tivesse dado alguns passos na vida, podia conhecer as secretas influências exercidas por um lugar na disposição da alma. Só alguém como ele podia conhecer os mugidos, os lamentos, os uivos dos montes. Eram as suas entranhas, o seu paraíso.

Mandou-o entrar e sentar-se à pequena mesa que tinha no meio da peça. O primeiro olhar bastara-lhe para descobrir no rosto do rapaz que alguma coisa o afligia. Sentaram-se um diante do outro. O Salvador falava pouco, como todos os homens do monte. As palavras, os gestos tinham uma grande importância. Tudo se ouvia, se via ao longe.

O Armindo não ousava olhá-lo nos olhos. O que se passara com a mãe instigara-o a vir ver o amigo. Não que fosse para lhe pedir conselho, mas, como lhe tinha dito a avó, para saber se o que a mãe fazia há muitos anos era assim tão excitante, inevitável, fatal.

— Entôm, Mindo, que te passa ? Algo t’atormenta, nom ?

O rapaz não sabia como começar. O que o Salvador lhe tinha prometido fora há bastante tempo e, agora, receava a sua resposta. Perguntou-se por que é que nã tinha ficado na casa. Era demasiado espontâneo e, depois, quando já era tarde, arrependia-se.

— Tem algo de beber, Salbador ? Uma copa d’augardente ?

— Si, home, si ! – retorquiu.

Lembrou-se de um pedinte que vira pela primeira vez quando ainda era miudo e que vinha de vez em quando mendigar a Orjás. Gostava muito de aguardente e então contava que, quando Deus criou o frio, a fome e a velhice, teve piedade dos homens e, para lhes dar algo de bom, criou a aguardente porque, com ela, podemos esquecer o frio, a fome e a velhice.

O homem levantou-se e foi a um pequeno armário, todo de madeira, de onde tirou uma garrafa e dois cálices. Apenas acabara de encher o primeiro e já o rapaz o levava à boca, esvaziando-o de uma só vez. Ficou uns instantes com a boca aberta. A aguardente, por onde passara, queimara-o, liberando umas baforadas de calor que lhe deram coragem para falar.

XV

Havia muita mais gente do que quando a Áurea chegara à feira. Era natural. De bom humor, quase que sorrindo, bolsa a tiracolo e o pequeno saco plástico na mão, passeava com normalidade o olhar perscrutador pelas pessoas que ia cruzando. O sol e o azul do céu continuavam preponderantes ainda que algumas nuvens acinzentadas  viessem intrometer-se, momentaneamente, diante dos raios amarelados.

Os deliciosos odores,  que se propagavam das abundantes pensões e cafés que havia daquele lado da alameda, faziam crescer a água na boca. Entre eles, o cheiro do prato mais apreciado e consumido pelos arcuenses no dia de feira, as tripas. Até a dona da casa onde ela estava hospedada, quando a preguiça a entorpecia, ia a uma tasca junto da estação das camionetas buscar um tacho de tripas e outro mais pequeno de arroz seco para comerem todos à noite. Era um costume nos Arcos.

Passava das onze. O pessoal dos numerosos restaurantes principiara a atarefar-se em volta das mesas. Os preparativos deviam ficar findos a tempo. O meio dia estava próximo e umas centenas de bocas famintas não tardariam em precipitar-se para os restaurantes de toda a vila. Os da alameda, que estavam melhor situados, não eram suficientes para restaurar, ao mesmo tempo, tanta gente. Para alguns camponeses e montanheses, para os quais a vida ordinária custosa não era portadora do mais pequeno momento de folguedo, a vinda à feira ocasional era um dia de festança, cujo auge era o momento do repasto na pensão. Regalavam-se com iguarias que, ou por razões financeiras, ou por falta delas nas lojas da aldeia, não podiam degustar periodicamente.

 

(continua)

 

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