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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOFRIMENTOS INSENSATOS XIII

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

Os raios de sol tímidos, mas ainda tépidos, que entravam pela janela fizeram-no pensar noutra coisa e deram-lhe coragem para se levantar. Quando passou diante da porta entreaberta do quarto da avó, ouviu-a ressonar profundamente. “Devia-se ter deitado tarde, coitada”- pensou. Havia muito que a avó lhes tinha dito que, às noites, quando ela o chamava, o seu Bilinho vinha ter com ela e passavam horas a falar. Só ela o podia ouvir. E, claro, ela punha-o ao corrente de tudo que se passava na casa. Sabia que não acreditavam nela, que faziam de conta e era-lhe igual. Tinha-lhes dito: “Hai cousas que nom se podem ber nim entender; hai que bibir-las, que sentir-las.”

Foi para a cozinha e, depois de lavar a cara, preparou as sopas. Já decidira como utilizar o dia. Levava o gado até ao monte e, de tarde, trazia-o de volta antes das horas habituais para ir à casa do Salvador. Meteu uma peça de pão no saco de pano, pegou numa faca e na garrafa que habitualmente levava e, com o pau na mão, foi à adega. Encheu-a de vinho, cortou um pequeno pedaço num dos presuntos ali dependurados e pegou numa chouriça de carne. Pôs o saco a tiracolo e foi abrir a porta das vacas e das cabras. Tanto umas como outras, depois de terem passado um dia  sem ver o sol, manifestaram-lhe agrado balando e mugindo e apressando-se de sair. As cabras diante, as vacas no meio e o Armindo atrás, ritmados pelo som discordante dos chocalhos, começaram a  percorrer com enorme prazer o caminho que há muito conheciam e os levava ao lugar onde sentiam um pouco de liberdade.

Depois de deixar as vacas no campo, cuja erva tinha revigorado graças à fina chuva, continuou molemente até ao azinhal. As cabras, ao sentirem-se no meio natural de que gostavam, atiraram-se como loucas aos pilriteiros, amoreiras e espinheiros.

Encostou-se ao eucalípto e tentou afugentar as nefastas palavras que todavia lhe martelavam o cérebro. Com as impressões que se sucediam a um ritmo infernal no seu cérebro sensível, e que lhe exasperavam os frágeis nervos, pouco lhe faltava para pensar que era o instrumento de uma maldade desconhecida ou da ira divina. O seu espírito abandonado tinha-se enchido, pouco a pouco, da horrível imagem da ferida que, embora invisível, teria que, a partir dali,  tentar esconder como uma desonra. Percebeu que o pouco de harmonia inteligente que lhe restava na cabeça tinha sido completamente destruido. Um fogo interno e violento, que minava todas as suas faculdades, umas através das outras, produzia os mais funestos efeitos e acabaria por lhe deixar uma opressão ainda mais penosa de aguentar do que todos os males contra os quais tinha lutado até agora. Os chocalhos e os estalos dos galhos secos, provocados pelo sol, eram os únicos ruídos que ouvia. Sentia uma perturbação desconhecida por detrás da fronte. Nunca imaginara que houvesse tantos pensamentos no mundo que lhe pudessem invadir a cabeça. Até ali, não tinha havido quase nada na sua vida, à parte os montes, o gado, a missa do domingo, o frio, o calor, o moinho, os gracejos dos amigos... Presentemente, tudo estava incompreensivelmente mudado. Apetecia-lhe devolver a alma ao Criador.

XIV

Regressou à casa por volta das cinco. Depois de prender os animais, seguido pelo Fedelho que gostava de mostrar às cabras que era ele o dono, subiu à casa arrumar o saco do farnel. Apenas conseguira comer meia peça de pão e umas finas fatias de presunto. Tinha um nó no estômago que o impedia de engolir a comida. No entanto, a garrafa de três quartos de litro de vinho esvaziara-a.

A avó estava sentada na cadeira. Ia ficando cada vez mais pequena e encolhida. O garruço de pano branco que tinha na cabeça, e que, habitualmente, punha para dormir, relevava-lhe as rugas da cara e dava-lhe ao rosto de velha uns tons delicados de cera. Tricotava mais um par de meias. Apesar da idade avançada e de ver menos do que há uns anos, não precisava de óculos. Naquele momento, a alegria que lhe deu a visão de serenidade da avó fê-lo realmente sentir por ela um puro respeito filial, talvez o que tinha perdido à mãe. Aproximou-se dela, agarrou-lhe delicadamente a frágil cabeça com as duas mãos e deu-lhe um prolongado beijo na testa como não se lembrava de lhe ter dado. Ela sorriu-lhe, mostrando a boca desdentada, mas não parou de tricotar. Ainda que os sofrimentos tivessem sido marcantes, a jovialidade e a vivacidade nunca a abandonavam.

Aquele gesto automático, repetido centenas de vezes sem parar, permitia-lhe relaxar-se fisicamente ao mesmo tempo que, mexendo apenas os lábios, rezava com constância.

— Êl você tem frio na cabeça, minh’àbó ?

— Nooom ! - respondeu-lhe com firmeza – Ê que m’esquêci de tirá-lo êsta manham, mêu home.

Parecia-lhe que não havia mais ninguém na casa e isso intrigava-o, mas não ousava sequer perguntar pela mãe. Hesitou, sem saber que dizer ou fazer. No momento em que ia abrir a boca, foi a avó que, vendo que era o momento propício, o informou:

— Tua mai está na cama a descançar. O que se passou onte pujo-a mi mal.

— É nom s’ocupou de bocê ? – perguntou aflito.

— Si, meu home, ocupou ! Nom t’atrapalhes !

Ficou com dúvidas por ela trazer o garruço, mas não insistiu. A Delfina parou de tricotar e pediu-lhe que se sentasse, precisava de lhe falar. Puxou uma cadeira e colocou-se quase em frente dela.

— Sabemos qu’ô que tua mai fijo nom se faz, mas hai que ber, é eu bi-o onte, qu’estaba mais cargada do qu’eu pensaba é qu’a bida lhe tem comido ôs nerbos, a razôm. Nom conseguiu dominar os desejos, àpetência, que foram mais fortes do qu’ela, é que lhe podem desgraçar a bida é mesmo matá-la. Precisa muito de ser protegida.

O Armindo ouvia-a sem tirar os olhos dela. Sentia-se ultrapassado pelos acontecimentos e pelo que a avó lhe dizia.

— Nós, as mulhêres é ós homes, temos marcos. Atê um certo punto, podemos auguentar a alegria, a pena é a dor. Passado este punto, sucumbe-se. A questom nom ê de saber se se ê bô ou nom, se nom se tem bergonha, se se ê uma perdida, mas se se tem forças pr’auguentar o peso dos sofrimentos causados pela falta do home, pola falta de bida, tanto na cabeça como no corpo, sim se lhes baixar. É tua mai nom pudo, meu home ! Tu tês que lhe falar, sinom inda s’interra mais. Sei que te bai custar muito, porque tês razom de pensar como pensas, mas hai que ber qu’ela nom soube o que fazia. Ô cio ê algo que já matou homes é mulhêres. Ê um capricho que te tolhe é que te pom com’uma criança. Q’ando a bontade te tenta, as entranhas reboltam-se, pêrdes a cabeça é nom sabes siquêr quem ês nim onde estás. Enq’anto nom satisfizêres esse diabo que te molesta, nom tês descanso, meu home !  Tu nom bás tardar im sabê-lo !

Calou-se e ficou a olhar para ele, abanando afirmativamente a cabeça, como para convencê-lo ou como para lhe provar a veracidade das suas palavras. O rapaz soltou um gemido impreciso. Não sabia se teria forças suficientes para derramar uma gota de consolo na alma agitada e ressequida da mãe. A avó era sempre a mesma : continuava a ser aquele ser benigno, sempre pronto a perdoar, e  cujo olhar aliviava os sofrimentos e fazia afortunados. Ficou encantado com a verdade, com a bondade que ela pusera no que lhe contara. Era o amor maternal que, mais uma vez, triunfava. Se tivesse tido uma mãe como a avó...

— Nom hai nada no mundo que seja mais precioso pr’ôs outros qu’àfeiçom que lhes poidamos dar. Tu, que tês sido a risada dôs labregos dô lugar, é lebado pontapês por seres como Deus te fijo, bem no sabes, meu home. Nom hai nada com’à bença dos outros. A compaixôm ê ô mais precioso dom que Deus nos pode dar. Por que bamos nós cambiar ô nosso destino é causar tormentos à gente, q’ando êl ê de lhes dar reconforto é alegria ?

O rapaz estava completamente embaralhado pela emoção extraordinária e violenta que a avó conseguia fazer-lhe sentir. Num instante, foi arrancado da melancolia, do desânimo e da sua sombria apatia. Uma última força consumiu-lhe os receios e as angústias, despertando-lhe o espírito, a vivacidade e a sagacidade.

— Nom lhe prometo nada, bó, só q’ando a bir.

— Sei quê duro mas tem que ser, Mindo. Pide a Deus que t’ajude. Bem sabes que, com Deus, tudo; sim Deus, nada.

Pegou nas agulhas e pôs-se novamente a tricotar e a orar. O rapaz olhou para a janela. O sol não ia tardar em esconder-se por detrás dos montes galegos que, de Orjás, se entreviam ao longe.

—  Bou ir-me à casa do Salbador num pronto. Quêr que lhe faça algo, bó ?

— Nom, meu netinho. Espero por ti. Tu bás é bês... Ô melhôr, tua mai inda se pôm a pê. Bota uma acha ô lume é pom-m’aqui ô copo com auga fresca. Despois podes ir com Deus. Bai sossegado qu’eu estou bem aqui. Fiquei contente por me teres oubido, Mindo.

O rapaz sorriu-lhe, fez o que a avó lhe pediu rapidamente e, depois de pegar na lanterna de bolso e na vara, pôs-se a caminho da casa do Salvador.

 

(continua)

 

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