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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SENTIMENTOS INSENSATOS XII

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

Apertou a mão do rapaz com a força que lhe restava. Ele, apático, não desviava os olhos do rosto esquelético da avó. Percebia muito bem o que ela lhe queria dizer. Já se tinha esquecido, mas realizou por fim por que razão a lareira não fôra acesa.

— Eu nunca dei por ela, bó. É quem ê ô... ?

Não sabia como lhe chamar. A Delfina alçou os ombros. Quem quer que fosse, para ela, era-lhe totalmente indiferente. Preferia não sabê-lo.

— Como quêres qu’eu saiba, Mindo ? Eu nom posso ir atrás dela. Ô qu’eu sei ê qu’ela bai sempre q’ando tu estás no monte. É nom ê aqui, em Orjás, porque bem sempre a suar. Dêbe d’ir longe. Sabes, ô cio faz-t’andar, somos com’ôs animais.

Nunca tivera uma conversa destas com ela nem a avó lhe falara com tanta sinceridade. Sentiu uma satisfação enorme por a avó o considerar digno. Por sua vez, apertou-lhe a mão e fechou os olhos como se não quisesse que as palavras o invadissem.

— Atê aqui, - continuou a mulher, depois de uma curta pausa - sempre lhe perdoei tudo, bem ô sabes. Bês a bida dura, insuportable qu’ela me tem sempre feito. Nunca dei pio, mas hoje pola manham achei que chegaba. Ô mal que me fijo estes anos todos bai-m’empedrando. Ê-m’igual ô qu’ela faça da bida dela mas, q’ando penso nô teu pai, tenho que chorar. Êl qu’ê tam bô home ! Se sabe, mat’à. Agôra que mostrou mesmo no estado qu’está, nom sei que fazer. Se a contrariamos, bai ser piôr. Bai haber que ter pacência. Bai ser duro, mi duro, mêu home.

O Armindo enguliu a saliva com dificuldade. Virou a cara e deparou, preso no muro, com o único quadro fotográfico da casa. Era o avô, um homem corpulento, com um grande bigode esbranquiçado.

Estava furioso. Necessitava de tempo. Não era preciso nem achava prudente continuar a ouvir a avó. Aproximou-se dela e abraçou-a com meiguice. Estava quase a chorar.

— Nom digas nada à tua irmam sinom bai-s’enerbar é nom bal’a pena, meu hominho – segredou-lhe ao ouvido – Há-de sabê-lo numa melhôr ôcasiom, no debido tempo, se fijêr falta.

Abanou a cabeça afirmativamente e foi para a cozinha. Sabia por que razão a avó era a mulher mais respeitada, mais admirada, de todas as mulheres de Orjás. Sem exagerar, podia dizer que quase a veneravam como uma santa. Sempre mostrou, enquanto pôde, uma infinita e infatigável caridade pelos mais pobres, pelos mais fracos do lugar. Era de uma rara delicadeza e de um raro bom senso, apenas demasiado devota, talvez. Por muito triste que o seu coração estivesse, por sofrer há muito, tinha sempre nos lábios um sorriso de simpatia que atirava a confiança, a adoração. E portanto, quantas lágrimas, lágrimas de criança, lágrimas de mulher, lágrimas de mãe, lágrimas de velha, o seu rosto, já murcho, vira escorrer !

Era noite. Acendeu uma lanterna. A chuva martelava ligeiramente os vidros da janela. Agarrou na caneca do vinho e, ao ver que estava vazia, pegou na lanterna e foi à adega enchê-la. Fora, o vento começara a soprar, fazendo retinir o arvoredo do outro lado do caminho. O Fedelho, como se percebesse o ambiente tenso que reinava na casa, limitou-se a tirar o focinho e a olhar, sem abandonar a casota.

De volta, sentou-se à mesa, encheu a tigela de tinto fresco e pousou a caneca ao lado dele, à mão. A angústia ressequira-lhe a boca. Esvaziou a tigela de uma só vez e, como se habituara a fazer, fez estalar a língua com força no céu da boca. Ficou pensativo. Passara-lhe a vontade de ir falar com o Salvador. “Manham ê dia”- pensou. As palavras da mãe e da avó não lhe abandonavam a cabeça. Levantou-se e acendeu a lareira. A humidade sentia-se bem numa casa daquelas que não sabia o que era isolação. Encheu mais uma tigela que esvaziou em seguida. Com as costas da mão limpou os lábios. Prendeu o pote do caldo no fundo da corrente e foi perguntar à avó o que queria comer. Além do caldo, propôs-lhe ovos fritos. Não quis nada.

Sentou-se à mesa e encheu outra tigela que bebeu imediatamente. Não sabia que fazer. Tinha os nervos à flor da pele. Apetecia-lhe abrir a porta e berrar como um desalmado, como um condenado à morte, para que o lugar inteiro fosse testemunha da sua dor e do seu sofrimento. Durante mais de uma hora, ficou ali, sem mexer, sem pensar, a cabeça pesada, as pernas esquartejadas, as ideias destroçadas de tal modo que tinha dificuldades em conciliar os pensamentos. Nascera para padecer com resignação, com tolerância, estava visto. O destino perseverava, sem descanso e sem lástima, em perturbar-lhe a cabeça e acabar por destrui-lo.

Prendeu o pote, no qual a sopa estava a ferver, no meio da corrente e encheu mais uma tigela de vinho que livrou. Acabou por sentar-se na cadeira da avó e fechou os olhos. Vagarosamente, foi-se bambeando até que acabou por adormecer. Acordou umas horas depois, ainda noite. Doía-lhe a cabeça e sentia-se enjoado. O torpor invadira-o, sentia uma necessidade irresistível de dormir e experimentava uma espécie de volúpia narcótica em deixar-se escorregar no vago, no esquecimento, nas profundezas do nada. Levantou-se e foi deitar-se. Estendeu-se por cima da cama, vestido, como um vagabundo, e adormeceu profundamente.

XIII

O dia levantou-se com um céu azul clarinho, como se a chuva miúda do dia e da noite precedentes o tivesse purificado. O sol, ainda mal acordado, tratava de consertar o solo desembaraçando-o do excesso de água. Contentes por verem o sol regressar depois de um dia de chuva interminável, os galos do lugar cantavam ao desafio como se fosse um folguedo sertanejo.

A Palmira levantou-se à hora habitual e principiou a ocupar-se das tarefas que lhe permitiam lograr os pensamentos, os males que a achacavam diariamente. Lavou a tigela e arrumou a caneca ainda com vinho que tinham ficado por cima da mesa. De testa franzida, comeu as sopas de cevada com leite. Cogitava nas palavras absurdas que não devia ter deixado escapar da boca. Demasiado tarde. Gostaria tanto que Deus lhe fizesse desaparecer o passado para que pudesse recomeçar de novo a vida... Sabia que era impossível, que o epílogo seria fatal mas, quando uma pessoa se sente arrastada pelo desespero, só lhe restam os milagres. Não podia nem era razoável que se deixasse exceder por isso. Com certeza que ia passar uns maus momentos enquanto não conseguisse levantar a cabeça. A culpa fôra toda dela, reconhecia sensatamente.

Desceu as escadas ainda com mais vagar do que das outras vezes, foi à corte buscar a foucinha e a corda, e com o Fedelho que lhe seguia os passos ritmados mas ociosos, foram caminho fora em direcção das verdejantes leiras.

O Armindo sentira a mãe levantar-se mas, coisa que não se lembrava de ter feito, deixou-se estar na cama, embora acordado, até ela saír. Tivera um sono agitado e constantemente entrecortado de pesadelos. Sonhara que as pernas lhe tremiam desmedidamente e que todas as forças do corpo o tinham abandonado. Acordou, sentou-se na cama e deu um grande suspiro de redenção. O coração começou a bater-lhe mais depressa mas com um movimento regular, agradável, que lhe dava a sensação de um gozo físico, muito suave. Deitou-se mas depressa a escuridão lhe pareceu terrível, povoada de imagens que o horrorizavam e de fantasmas que se riam dele e lhe chamavam bastardo. Quando acordou, ainda tinha presente a aversão que lhe causara o último pesadelo: nuvens, de formas esquisitas e cambiantes, flutuavam no céu, avermelhadas pelos derradeiros clarões do pôr do sol, e que lhe pareciam sexos monstruosos que se procuravam e se acasalavam, rasgando-se num mar de sangue.

Não queria nem tinha vontade nenhuma de ver a cara da mãe. Como iria ser a vida dali em diante ? Não poderia, ainda que quisesse, voltar a ser como era, voltar a olhar para ela como dantes ou simplesmente voltar a cruzar o olhar com o dela. Era-lhe impossível. Havia qualquer coisa que o atrapalhava, que o impedia e que era mais forte do que a sua própria vontade. Uma vergonha, uma humilhação que o fazia sentir-se ferido nas suas entranhas, nas suas tripas. A mãe, além de mãe, era o pai, que apenas conhecia, era a sua terra, a sua amiga, a sua mulher... Deus era injusto para com ele. Era mais um fardo que tinha que arrastar, quando o espectro da mãe e do Teitei no moinho, há dez anos, continuava sempre presente e não deixava de importuná-lo, de afligi-lo até ao desespero.

 

(continua)

 

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