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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SOFRIMENTOS INSENSATOS XI

melgaçodomonteàribeira, 07.03.13

 

 

— Onde fostedes, minha mai ?

— Fui à minha bida, se quêres saber. – retorquiu de mau humor.

Subiram as escadas pacatamente. O Fedelho, exausto, quase a arrastar-se, dirigiu-se para a casota. Não tinham acabado de sacudir os tamancos e já a Delfina perguntava do quarto :

— Ês tu, Palmira ?

Não obteve resposta da filha. Foi o neto que, enervado com o amuo da mãe, respondeu carinhosamente à avó.

— Somos nós, bó, somos. Quêr algo ?

— Nom quero, nom.

Sentou-se numa cadeira. Sentia que a mãe escondia qualquer coisa e isso fazia-lhe ressurgir fantasmas, espectros, que ele não queria desenterrar. Estava nervoso. A mãe, depois de deitar água numa bacia, lavou repetidamente a cara como se quisesse apagar a expressão colérica que se lhe desenhara no rosto. Algo se tinha passado pois via que estava contrariada. Olhou vagamente para a lareira. Começava a perceber por que razão não estava acesa. Não tinha dúvidas de que se passara algo mas preferiu não perguntar nada. Sabia que não tardaria em sabê-lo. Agora, queria mas era saber o que acontecera à mãe. Depois de respirar profundamente, interpelou com calma :

— Entom, ô que lhe passou, minha mai ?

A Palmira apartara a lenha que não estava completamente queimada e estava a barrer para juntar as cinzas, apanhá-las e acender a lareira. Parou, hesitando uns instantes, antes de, com manifesto custo, atirar com a vassoura e puxar uma cadeira na qual se sentou. Olhou para o filho com um olhar esquisito que ele não se lembrava de lhe ter visto. Fixou-o intensamente e interrogou :

— Êl tu quêres saber onde fui, ê ?

O rapaz, atrapalhado pela firmeza com que a mãe o arrostava, com a cara que lhe via, acanhou-se e duvidou da conveniência da questão. Conhecia-a muito bem. Desconfiou que ia ouvir coisas desagradáveis. Mas era demasiado tarde. Assentiu com a cabeça.

— Fui ber ô touro, meu filho, mas nom me quijo. Já sou belha, sabes ?

E, inesperadamente, desatou a chorar silenciosamente, sem deixar de o fixar. O rapaz, incrédulo, deu um salto na cadeira e, elevando a voz, disse-lhe :

— É ô meu pai que hai tantos anos ê obrigado a trabalhar no fim do mundo, bocê pensa nêl ? Bocê pensa no que pode acontecer s’êl ô cheg’à saber ? É a bergonha qu’ê, tam’em pensou ? Bocê nom está bem, minha mai !

A excitação já o tinha posto a transpirar. Era tudo confusão no seu jovem e tumultuoso espírito. O espectro do moinho fazia-lhe bailar o cérebro e crescer a raiva animalesca que há muito o entretinha e devorava. Naquele momento, tinha vergonha dela, de ser filho dela.

— É tu crês qu’êl pensa em mim ? – defendeu-se ela - Enganas-te, meu home. Hai muitos anos que nom quêr saber de mim. Quem me diz que nom tem lá outra, é ? Em bint’anos nim um ano passou aqui conosco. É eu, comó‘ma parba, passo três ou q’atr’anos à’spera dêl ? Tu nom sabes ô que custa acordar pola manham sozinha na cama, ô que se sofre q’ando nom hai com quem falar, nim o qu’ê nom ter futuro, nom ter  esp’ranças em nada, em ninguém. A minha bida nunca tube nim tem sentido. O meu tempo já passou é, inda que manham biêsse cargado d’ouro, nom me serbia p’ra nada, sabes ?

As palavras tinham-lhe saído do fundo da garganta, meias roucas. As lágrimas caíam-lhe por cima da mesa. As angústias, os tormentos interiores, até ali oprimidos, exprimiram-se com descarada insolência. O desespero e os remorsos traziam-na sujeita e devorada há muitos anos. Tirou um lenço enrugado do bolso dianteiro do avental e limpou-se grosseiramente. Estava exausta. Silêncio. As suas palavras, sem rodeios, tinham tronado na cabeça do Armindo, trespassando-lhe, depois, o corpo, como o cuchilho que penetra no coração do porco no tempo da matança e lhe arranca estridentes e insuportáveis guinchos de sofrimento. Os seus eram interiores.

A vida era mais complicada e subjectiva do que ele, modestamente, pensava. Cada qual tem a sua percepção, a sua ideia da existência, da felicidade e do momento mais propício para que estas possam desabrochar. De outro modo, com o tempo, tudo vai minorando, acabando por murchar e alterar o destino primitivo, dando lugar a um desespero, a um desvairo profundo, a um aberrante desgosto que, por sua vez, conduz ao rompimento das inibições e à repugnância da vida rotineira. Dolorosamente, a mãe queria fazer-lhe compreender que, no fundo, não era totalmente culpada, que os detrimentos provocados pela crueldade da vida, pelas diversas carências e pela solidão, assim como pela sua eterna fraqueza, eram tanto ou mais responsáveis  do que ela.

Naquele momento, gostaria de sumir-se, de nunca ter existido, de fazer qualquer coisa para impedir aquela infame desgraça. Faltaram-lhe as forças e a coragem. Os ossos tinham-se-lhe dilacerado no corpo e uma debilidade crescente apossara-se dela. Na cabeça e no coração tudo se desmoronava também. Sentia-se incapaz de dirigir decentemente  os movimentos mais simples. Levantou-se titubeando e, sem mais uma palavra, dirigiu-se para o seu quarto. A  mãe, encostada à cabeceira da cama, sem mexer e sem fala, viu-a passar diante da porta entreaberta  do seu quarto.

O rapaz sentia-se atordoado e consternado pelo desabafo inesperado da mãe. Ficara aterrado como quando tinha pesadelos e lhe dava a impressão de estar acordado. Não sabia que, em muitas coisas, as mulheres são mais vulneráveis do que os homens, mais frágeis. Confuso, ficou sentado, cotovelos por cima da mesa, a abanar a cabeça entre as mãos e o olhar no vago, longos instantes. Suspirou. Inesperadamente, deu uma murraça na mesa que saltitou. Ouvia-se o tic-tac do pequeno despertador que estava por cima do comprido móvel. Levantou-se, indiferente, e aproximou-se da janela, mas não via a chuva mansa que começara novamente a caír e escorregava nos vidros como se tivesse pressa de embeber a terra. Daquele momento de expontânea folia devaneadora a que a mãe o submetera, guardava a sensação de um vago e penoso asco, de uma tritura de todo o seu ser físico e moral. Era assim como num sonho febril, no qual as coisas se sucedem, incoerentes, irónicas e dolorosas.

— Ô Mindo, trazes-m’auga ?

Pareceu-lhe ouvir a ressonância duma voz que vinha de longe, sem saber de onde. A cabeça, confusa e desordenada, trabalhava a uma velocidade que nunca lhe conhecera. A raiva animalesca que o habitava era uma tentação difícil de controlar. A maldade latente e manhosa apressava-se por detrás. Não lhe chegava ter que combater para abrandar a fera que o queimava e que lhe roía a cabeça e a alma quotidianamente, não, tinha que suportar o espectro da infidelidade traiçoeira e imunda da mãe ! Estava mais do que farto. Por que diabo, quando a doença o atacou, não lhe acabou com a vida ?

— Ô Mindo, êl tu estás aí ? Trazes-m’auga ?

Desta vez, a Delfina subiu um pouco a voz já trémula. O moço não percebeu e então levantou-se e foi espreitar pela porta entreaberta do quarto da avó que se encontrava na obscuridade. Estava a ficar noite e ele não tinha reparado. A velhota, com um sorriso que lhe fazia entrar os lábios na boca desdentada, fez-lhe sinal com a mão para entrar. A água fora um pretexto. Sabia de que lhe queria falar a avó, pois sem dúvida que ouvira tudo. Tinha-lhe um respeito e um carinho muito grandes. Batendo devagarinho com a mesma mão desguarnecida por cima da cama, ao lado dela, convidou-o a sentar-se. Os seus olhos, agora pequeninos demais para as cavidades grandes que os alojavam, fitaram-no com mágoa. Abanou a cabeça pesadamente  para lhe exprimir a sua ponderação. Sentia-se incomodada mas não tanto como o Armindo podia pensar. Agarrou-lhe a mão do braço grande, que lhe foi estreitando de vez em quando, e disse-lhe baixinho:

— Tu bem sabes ô qu’eu gosto de ti é de tua irmam. Sei qu’ô que tua mai fijo nom ê bem mas tês que comprendê-la. Nôs últimos tempos nom anda nada bem. Inda hoje pola manham nôs pegamos. Eu bi logo qu’andaba co’ cio. Digo-te uma cousa, mêu home, é tu nom mo lebes a mal: o qu’ela te contou j’ó eu o desconfiaba hai muito. Sou mi belha é ela ê minha filha, sabes, é sempre bibim co’ ela. Por muito que quijêsse nom podia enganar-me.

 

(continua)